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quinta-feira, 9 de junho de 2016

A economia do fim do mundo


Movimentar a economia por meio do consumo foi uma decisão tomada após a Segunda Guerra Mundial, e serviu apenas para acelerar o uso e a degradação dos recursos naturais e econômicos do planeta.
Os Estados Unidos emergiram da Segunda Guerra Mundial como a única grande economia que não teve sua indústria arrasada por bombas. Um parque produtivo superdimensionado pela guerra, uma economia global em frangalhos e milhares de soldados voltando para casa. O que fazer para não voltar à situação de recessão anterior à guerra, quando hordas de desempregados vagavam em busca de trabalho e comida? A ideia, aparentemente genial, veio de um consultor norte-americano especializado em varejo, Victor Lebow, que viu na aceleração do ciclo de produção e consumo a saída para o impasse: “nossa economia enormemente produtiva (…) requer que façamos do consumo o nosso modo de vida, que convertamos a compra e o uso de mercadorias em rituais (…) que busquemos a nossa satisfação espiritual ou do nosso ego no consumo (…) nós precisamos de coisas consumidas, destruídas, gastas, substituídas e descartadas numa taxa continuamente crescente”. E isto foi feito, a ponto de 99% dos produtos vendidos pelo comércio nos Estados Unidos já terem sido abandonados no fundo de armários ou gavetas, ou simplesmente descartados em apenas seis meses.
Consumo ou abastecimento
A economia do consumo substituiu a “economia do abastecimento”, na qual as pessoas compravam aquilo que precisavam e a ideia central era vender mais, para mais pessoas. Nossos avós compravam coisas duráveis para poderem se dedicar a outras atividades e não terem de retornar sempre às compras para repor coisas cuja obsolescência foi planejada em um laboratório. “Da mesma forma que se planejou a sociedade de consumo, é preciso planejar que tipo de economia vai desconstruir essa armadilha onde nos metemos”, explica o economista Ladislau Dowbor. Há diagnósticos realizados e metas estabelecidas sobre o que há de errado com o modelo econômico atual, que mantém cerca de um terço da humanidade sem acesso a direitos universais como educação, água e saneamento, alimentos e habitação, entre outros. No entanto, há uma crônica falta de planejamento sobre como mudar a produção e o consumo em direção a uma economia de baixo impacto ambiental e dentro das metas nacional e global de redução de emissões de carbono.
Não há dúvida que a economia deu grandes saltos nestes 50 anos, com o desenvolvimento de tecnologias e materiais extremamente avançados. No entanto, as curvas de crescimento da população, do Produto Interno Bruto, da extinção de espécies, do uso de combustíveis fósseis, da redução de florestas e da sobrepesca mostram que os níveis de exploração do planeta e os impactos causados pelas atividades humanas vêm crescendo de forma exponencial nos últimos 50 anos (ver gráfico 1). E isto está acontecendo apesar do aumento da eficiência no uso de materiais e energia no mesmo período. Os carros dirigidos por nossos avós continham mais materiais (eram mais pesados) e consumiam mais combustível do que qualquer outro nas ruas de hoje. Porém, o volume de combustível utilizado hoje pela humanidade é centenas de vezes maior do que 50 anos atrás. “A ecoeficiência na produção tem caminhado a passos largos, mas o modelo de economia baseado no ciclo de aceleração do consumo e descarte apenas aumenta o impacto sobre os ecossistemas e não reduz as desigualdades sociais”, explica Ricardo Abramovay, professor da Faculdade de Economia da Universidade de São Paulo (USP).
Diferenças salariais crescentes
Nos anos 1950, a diferença de salários entre um operário da General Motors e seu presidente era cerca de 50 vezes. Hoje, em grande parte das empresas globais essa diferença entre chão de fábrica e alta direção pode atingir quase mil vezes. Para modificar este quadro é necessário o planejamento do uso dos recursos naturais e energéticos de forma a definir onde se quer chegar. “Algumas pessoas diriam que isto é socialismo”, diz Luiz Pinguelli Rosa, cientista e diretor da Coppe, órgão ligado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), um dos mais respeitados centros de pesquisa em engenharia da América Latina. Pinguelli Rosa explica que a área de energia precisa de um planejamento com décadas de antecedência para evitar apagões. “Os investimentos são altos e os projetos demoram para entrar em operação”. Por isto, planejar é fundamental, mas o mesmo não acontece com outras áreas da economia. “Muita coisa é deixada para a vontade do mercado”, diz o pesquisador. O mercado, no entanto, não tem uma visão de futuro, apenas busca soluções para manter sua diretriz de crescimento em um planeta com recursos naturais finitos. “Essa filosofia de crescer por crescer só tem um paralelo na natureza, o câncer”, explica Ladislau Dowbor.
A desigualdade na distribuição dos benefícios entre a humanidade é gritante. Os 20% mais ricos se apropriam de 82,7% da renda. Os dois terços mais pobres têm acesso a apenas 6% da renda, e esta disparidade vem crescendo. Em 1960, a renda apropriada pelos 20% mais ricos era 70 vezes maior do que a renda dos 20% mais pobres. Em 1989, essa diferença havia subido para 140 vezes. Para Dowbor, este é o problema central a ser atacado, e fazer a economia crescer não passa nem perto de solucionar o problema ético da injustiça e dos dramas de bilhões de pessoas. “Não haverá tranquilidade no planeta enquanto a economia for organizada em função de um terço da população mundial”, afirma.
Há mudanças, mas pontuais
Um dado importante, levantado por Ricardo Young, empresário e ex-presidente do Instituto Ethos, organização que atua em responsabilidade socioambiental empresarial, é que já há mudanças em curso na economia. “Porém, não são uniformes”, alerta. Para ele muitas empresas e governos estão não apenas preocupados, mas atuando para reverter o quadro de degradação econômica e ambiental. “É o caso do Brasil, que está conseguindo ampliar a renda nas classes mais baixas e, também, vem exercendo uma liderança global em temas  ambientais, como as metas que o governo assumiu em relação às mudanças climáticas”, explica. Young alerta que é preciso saber identificar os movimentos na sociedade, que buscam uma nova organização da economia, mais criativa, com menor impacto ambiental e maior benefício social. E esta tendência não está sendo identificada apenas por militantes sociais ou economistas otimistas. Um estudo publicado pela revista inglesa The Economist concluiu que a ascensão das mulheres na sociedade nos últimos dez anos contribuiu mais para o crescimento global da economia do que o desenvolvimento da China. Essa percepção levou a agência Goldman Sachs a indicar que diversas regiões do mundo poderiam aumentar seu PIB se reduzissem as desigualdades nas taxas de emprego de homens e mulheres. O Brasil poderia se beneficiar ainda mais desse movimento de equilíbrio entre os gêneros no trabalho. Desde os anos 1970, essa inclusão vem avançando. Naquela época, as mulheres representavam 20% dos trabalhadores do país, passando para 44% no final da primeira década do Século 21. Registre-se ainda que 35% dos lares brasileiros são chefiados por mulheres.
O Brasil atualmente vive uma grande oportunidade para planejar seu desenvolvimento com base em questões bastante objetivas, como os investimentos superiores a R$ 500 bilhões que estão em andamento em todo o país por conta dos grandes eventos esportivos dos próximos anos, as Olimpíadas do Rio de Janeiro, a Copa das Confederações e a Copa do Mundo de Futebol. Entretanto, é preciso integrar os esforços e mostrar uma certa lógica na direção dos benefícios desejados, como melhorar a mobilidade nas cidades e redirecionar esforços para uma sociedade que esteja estruturada em uma economia menos baseada em consumo e exportação de commodities, e mais focada em desenvolver vetores como cultura, turismo, biociência, educação e conhecimento. No entanto, o país tem adotado nos últimos anos a mesma ortodoxia econômica com que o mundo tenta enfrentar a sucessão de crises que assola o planeta desde 2008, estimulando o aumento do consumo sem exigir contrapartidas da indústria ou do sistema financeiro. “O momento é especial para uma troca de gentilezas, o governo estimula o consumo, mas deveria exigir mais eficiência no uso de energia e matérias-primas”, explica o também economista Ignacy Sachs, que preconiza a necessidade de planejamento para adequar o modelo econômico à realidade do Século 21. Nas relações com o mundo, entre 1998 e 2008 as exportações brasileiras de commodities passaram de 20% para 35% do comércio exterior. Se, por um lado, isso elevou as reservas internacionais do país, por outro barateou as importações e desestimulou a indústria local, além do impacto sobre áreas naturais para a ampliação na produção dessas commodities.
Consumo per capita exagerado
Segundo o diretor-geral do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), Achim Steiner, o consumo global chegou a nove toneladas anuais de matérias-primas por pessoa na Terra, e isso para os atuais sete bilhões de habitantes. Em um planeta com nove bilhões de pessoas, o consumo per capita não poderá ficar acima de cinco ou seis toneladas por habitante. Outra questão importante é o consumo de energia por habitante, que, segundo o Departamento para Assuntos Econômicos e Sociais da Organização das Nações Unidas (ONU), deveria ser limitado a 70 gigajaules por ano. Trocando em miúdos, isto significa que um europeu médio teria de cortar pela metade seu consumo de energia, enquanto um norte-americano poderia utilizar apenas 25% do que gasta atualmente. Já um indiano poderia multiplicar por quatro os 15 gigajaules que utiliza. O Brasil está no meio termo, com cerca de 50 gigajaules por ano por pessoa. Contudo, há que se levar em conta a desigualdade e o desequilíbrio no uso dessa energia.
O mundo vive atualmente uma confluência de crises, onde o desequilíbrio financeiro, ambiental e social oferece oportunidades para a construção de novos pontos de apoio. E a Conferência da ONU sobre o Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, que acontecerá em junho do ano que vem, pode ser um ponto de partida importante para esta estratégia. O jornalista e ambientalista Aron Belinky, que atua na articulação de demandas da sociedade civil para o evento, explica que empresas e organizações sociais estão mais avançadas do que governos na busca de soluções. “Temos de entender que a questão não é ambiental, como alguns acreditam, mas de modelo de desenvolvimento e de governança global”, explica. Para ele, os governos devem assumir compromissos para planejar uma saída dessa encruzilhada, que olhe para o futuro e entenda que há limites que precisam ser encarados e respeitados. Porém, lembra que isto não significa a estagnação, mas sim um modelo de desenvolvimento focado em valores éticos e criativos, onde as pessoas possam ter acesso aos seus direitos universais nesta e em todas as gerações futuras. (#Envolverde)
Dal Marcondes é jornalista, diretor da Envolverde e especialista em meio ambiente e desenvolvimento sustentável.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Um mundo tão desigual é viável?


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Entrevista_Katia_02Relatório anual do Credit Suisse revela que a concentração de renda no planeta está aumentando. Para a diretora da Oxfam Brasil, Kátia Maia, essa desigualdade prejudica a todos, inclusive aos mais ricos, citando, como exemplo, a violência.
Cerca de 1% da população mundial detém quase 50% da riqueza produzida no planeta. Os outros 99% dividem, em partes também desiguais, os cerca de 50% restantes. A informação não é de uma organização pequena ou que pudesse ser acusada de ter viés ideológico, mas, sim, de uma instituição financeira respeitada mundialmente, o banco Credit Suisse. E, pior, segundo o estudo, a concentração da riqueza está aumentando. A pesquisa levou em conta dados patrimoniais de 4,8 milhões de adultos procedentes de mais de 200 países. Os números são estarrecedores. Uma sociedade tão desigual é viável em longo prazo? O que esses algarismos significam em termos humanos? Por que se chegou a tal ponto? O que fazer para mudar esta realidade?
Para responder essas e outras questões sobre o assunto, a Ser Médico entrevistou a diretora executiva da Oxfam Brasil, a socióloga Kátia Maia.
A sigla vem de Oxford e Famine (Oxford Committee for Famine Reliefe/Comitê de Oxford para o Alívio da Fome). Trata-se de uma confederação internacional de organizações, formada atualmente por 20 afiliadas operando em mais de 90 países, com o objetivo de desenvolver ajuda humanitária e projetos para combater as desigualdades sociais no mundo.
Ser Médico – O banco Credit Suisse divulgou, em outubro último, seu relatório anual (Global Wealth Report 2015) sobre a distribuição da riqueza global, apontando que a concentração de renda no mundo e, portanto, as desigualdades sociais, aumentaram ainda mais em relação ao estudo feito pela mesma instituição em 2014. Segundo o documento, quase metade da riqueza do planeta está nas mãos de menos de 1% da população. O que esses números significam em termos humanos?
Kátia Maia – A Oxfam Internacional lançou, em janeiro de 2014, o relatório Working for a few (Trabalhando para poucos), que utilizou dados do relatório do banco Credit Suisse. As análises dos números são chocantes. Como é possível conviver com o fato de que as 85 pessoas mais ricas do mundo são donas do equivalente ao que a metade da população mais pobre do planeta tem? Entre março de 2013 e março de 2014, essas 85 pessoas aumentaram suas riquezas em 668 milhões de dólares diariamente! São números assustadores. Mais que isso, eles expressam uma profunda injustiça sobre a qual o nosso planeta está assentado. É inaceitável! É desumano! Num planeta onde mais de 700 milhões de pessoas ainda passam fome, como é possível continuar com tamanha concentração de riqueza? Essa desigualdade extrema reforça e alimenta outras desigualdades, como as existentes entre homens e mulheres, entre brancos e negros.
O que tem provocado esse aumento da concentração de renda?
Em outro relatório lançado pela Oxfam Internacional, em outubro de 2014, chamado Equilibre o Jogo, que trata da desigualdade econômica extrema, nós apontamos algumas causas e, em especial, destacamos dois motores econômicos e políticos da desigualdade, que podem contribuir para explicar os extremos que vemos hoje: o fundamentalismo de mercado e a captura do poder pelas elites econômicas. Como demonstrou o economista francês Thomas Piketty, em O Capital no Século XXI, sem a intervenção do Estado, a economia de mercado tende a concentrar a riqueza nas mãos de uma pequena minoria, fazendo com que a desigualdade aumente. Apesar disso, nos últimos anos, o pensamento econômico tem sido dominado por uma abordagem fundamentalista, que insiste na ideia de que o crescimento econômico só é alcançado reduzindo a intervenção do Estado e deixando que o próprio mercado se organize. Isso prejudica, principalmente, a regulação das atividades econômicas e a tributação, necessárias para enfrentar a desigualdade. A influência e os interesses de elites econômicas e políticas vêm, há muito tempo, reforçando a desigualdade. O dinheiro compra influência política, que os mais ricos e algumas empresas usam para consolidar ainda mais suas vantagens injustas e, em alguns casos, até ilegais. Um exemplo é a incapacidade de muitos países em reformar os seus sistemas fiscais para garantir uma progressividade na arrecadação de impostos, de forma que os mais ricos paguem, proporcionalmente, mais que os mais pobres.
E no Brasil, como a Oxfam vê a questão da concentração de renda?
O Brasil apresenta avanços no enfrentamento da concentração de renda, mas ainda insuficiente para que possamos sair do lugar de destaque que ainda ocupamos no ranking da desigualdade mundial. Os programas de distribuição de renda, como o Bolsa-Família, e o aumento do valor real do salário mínimo nos últimos 15 anos foram fatores fundamentais para esse avanço. Porém, ainda estamos longe de solucionar o problema. O País precisa de uma reforma tributária que efetivamente possibilite a redistribuição de recursos daqueles que têm mais para aqueles que mais precisam. Sabemos que quem tem mais renda e patrimônio aqui paga menos imposto. Isso sem contar o tema da evasão e sonegação fiscal. Ou seja, precisamos de justiça fiscal.
A Oxfam tem dados da concentração de renda no Brasil?
O Brasil tem grande produção de dados estatísticos que permitem dimensionar a desigualdade de renda. Mas a verdadeira desigualdade se mede sobre a riqueza, e ela inclui patrimônio, não é só renda. Apenas recentemente a Receita Federal começou a disponibilizar as informações sobre patrimônio, provavelmente influenciada pelo trabalho de Piketty. A Oxfam Brasil vai elaborar um relatório sobre desigualdades em nosso país, que deverá ser lançado no próximo ano. Mas já podemos dizer que o Brasil ainda é um país patriarcalista, machista e racista, e essa cultura se reflete nas instituições. Por exemplo, na política fiscal, o nosso sistema tributário atual é extremamente regressivo e recolhe a maioria dos impostos de maneira indireta e sobre o consumo, enquanto a renda e o patrimônio são menos taxados. Proporcionalmente, isso onera mais as famílias pobres, o que, consequentemente, onera mais os negros e as mulheres. Esse modelo institucionaliza e perpetua a desigualdade. A participação política também é extremamente influenciada pela nossa cultura excludente e pelas elites econômicas. No Congresso Nacional, as mulheres e os negros representam menos de 10% dos parlamentares, enquanto são mais de 50% da população.
Como a desigualdade pode impactar o mundo?
As desigualdades de gênero, raça e econômica, além de serem eticamente inaceitáveis, afetam as economias do mundo, pois excluem milhões de pessoas que poderiam estar contribuindo para a construção de uma sociedade mais igualitária e não, como ocorre, vivenciando uma situação de desagregação social. Essas desigualdades também prejudicam o crescimento econômico, gerando uma “captura” da riqueza produzida e impedindo a construção de uma sociedade mais justa baseada no bem-estar social. A desigualdade prejudica a todos, inclusive aos mais ricos. Um exemplo disso é a violência. Segundo o escritório das Nações Unidas para Drogas e Crimes (Unodc), as taxas de homicídios são quase quatro vezes mais altas em países com desigualdade econômica extrema do que em nações mais igualitárias. Em última instância, a desigualdade econômica extrema pode inclusive trazer ameaças aos regimes democráticos. Com o poder econômico acumulado nas mãos de um pequeno setor da população, a influência deste sobre o Estado passa a causar distorções no sistema político e nas políticas públicas. Com isso, governantes se veem submetidos aos interesses da minoria, e isso pode levar a grande insatisfação social, gerando revoltas e conflitos.
Esse cenário torna mais difícil a missão da Oxfam, no sentido de buscar soluções para o problema da pobreza e da injustiça?
Sem dúvida. O aumento da desigualdade faz parte da nossa agenda de trabalho. Em nossa visão, é impossível avançar no combate à pobreza sem lutar contra as diversas desigualdades existentes que contribuem para a perpetuação das injustiças.
A Oxfam vê alguma alternativa para mudar esse quadro?
Seguramente existem alternativas. E elas passam pela mobilização dos cidadãos, das organizações dos diferentes setores da sociedade, e devem ser construídas de maneira democrática. A Oxfam defende algumas medidas para contribuir com esse debate, entre as quais: a implementação de uma política fiscal progressiva sobre a riqueza e a renda; o estabelecimento de alternativas aos modelos de concentração de riqueza, renda e terras, oferecendo dados e medindo a desigualdade nas avaliações de impacto das políticas públicas; o fim à captura política e o estabelecimento da priorização dos interesses da maioria sobre os privilégios de poucos; e a garantia da igualdade de direitos e poder entre homens e mulheres, brancos e negros.
Como a Oxfam atua para alcançar esses objetivos?
A Oxfam atua em parceria e aliança com outras organizações da sociedade civil, movimentos sociais, governos, empresas e outros setores que buscam enfrentar e encontrar soluções para a pobreza e a desigualdade, no âmbito nacional e/ou global. Nós temos uma abordagem baseada nos direitos humanos e acreditamos que todas as pessoas têm o direito de desenvolver seu potencial, de viver fora da pobreza e em um mundo menos desigual. Nós atuamos em situações de emergência, nas quais é necessária a ajuda humanitária, desenvolvemos programas e projetos de longo prazo e fazemos campanhas para influenciar tomadores de decisão e a sociedade.
Como e quando a Oxfam surgiu?
A Oxfam surgiu na Inglaterra, em 1942, no contexto da Segunda Guerra Mundial, para ajudar pessoas que estavam passando fome em países europeus. Um grupo de cidadãos de Oxford resolveu pressionar os aliados para quebrar o bloqueio na Europa e permitir o envio de alimentos para a Grécia e Bélgica com o objetivo de aliviar a fome dos civis daqueles países. Naquela época, o nome da organização significava Oxford Committee for Famine Reliefe (Comitê de Oxford para o Alívio da Fome). Nesses mais de 70 anos, a Oxfam cresceu e ampliou sua área de atuação. Deixou de ser uma organização britânica para se tornar uma confederação internacional, formada atualmente por 20 afiliadas operando em mais de 90 países, com mais de 4 mil trabalhadores e um orçamento anual próximo a 1 bilhão de euros. A Oxfam também ampliou sua forma de trabalho inicial, focada em ajuda humanitária, passando a desenvolver programas e projetos bem como campanhas. No Brasil, o primeiro apoio financeiro a projetos ocorreu em 1958, e o primeiro escritório local foi aberto nos anos 60, em Recife. Até 2014, a atuação no País se dava através das afiliadas de outros países. A partir desse ano, foi criada a Oxfam Brasil, uma afiliada nacional constituída no formato legal brasileiro de associação e estabelecida na cidade de São Paulo. Ainda estamos terminando de compor nossa equipe multidisciplinar, que deverá chegar a 17 funcionários até o final do ano. Iniciamos nossas atividades com o público em 25 de novembro último, data da inauguração do nosso novo escritório, quando colocamos no ar nossa página web (http://www.oxfam.org.br), retomando nossas atividades com mídias sociais. Já temos um Conselho Diretor em fase inicial. Nos primeiros meses de 2016, estaremos com nosso Conselho Fiscal também em funcionamento.
Como é feito o financiamento da organização?
O financiamento da Oxfam no mundo vem de diferentes fontes. Em alguns países, os recursos são, na sua maioria, de contribuições individuais mensais; em outros, de agências de cooperação de governos e agências multilaterais, bem como de fundações privadas. Em praticamente todas as 20 afiliadas, qualquer pessoa pode colaborar, seja com recursos financeiros, com trabalho voluntário ou como ativista. Nesse período inicial, os recursos da Oxfam Brasil são oriundos de outras afiliadas da Confederação. Estamos começando as atividades de captação de recursos, prioritariamente por meio de doadores individuais. Já para o próximo ano lançaremos campanhas e consolidaremos nosso trabalho com outras organizações brasileiras que são nossas parceiras. Esperamos ter um grande número de voluntários, apoiadores e ativistas para nossas ações. É importante dizer que, desde 2006, a confederação Oxfam é signatária da “Carta de Prestação de Contas e Responsabilidade de Organizações Não Governamentais Internacionais” (International NGOS Accountability Charter), apresentando relatórios técnicos e financeiros públicos, além de atuar de forma transparente. A Oxfam Brasil operará em conformidade com esses parâmetros, apresentando total transparência de suas atividades, recursos e parcerias.
Há outras frentes, além da pobreza e da injustiça? Quais são e como a Oxfam atua em relação a elas?
A pobreza, a desigualdade e a injustiça são nosso guia. Mas essa agenda é imensa, e a Oxfam focaliza suas ações, a cada cinco anos, por meio do seu plano estratégico global. Para o período 2013-19, estão colocadas seis metas de trabalho: 1. O direito das pessoas em demandar uma vida melhor; 2. Justiça de gênero; 3. A importância de salvar vidas ameaçadas por conflitos e desastres ambientais; 4. Um sistema alimentar sustentável; 5. Um compartilhamento justo dos recursos naturais; 6. Um financiamento para o desenvolvimento que assegure o acesso universal a serviços essenciais como saúde e educação. No Brasil, ainda estamos elaborando o plano estratégico para o período 2016-2020, mas alguns temas deverão fazer parte de nossa agenda de trabalho: desigualdades nas cidades – juventude, gênero e raça; justiça fiscal e captura política; o papel do Brasil e sua influência no cenário regional e global; e o sistema alimentar.
Podemos ter esperança em ver um mundo menos desigual?
Seguramente que sim. Apesar do aumento da desigualdade e dos imensos desafios sobre os quais falamos até agora, existem avanços a serem considerados, particularmente na conquista de direitos. O importante é entender que um mundo menos desigual depende da mobilização e do trabalho conjunto de organizações da sociedade civil, movimentos sociais e vários outros setores da sociedade. A construção de um mundo mais justo é uma tarefa coletiva, ainda que cada indivíduo possa e deva dar sua contribuição. Pensar e desejar um mundo menos desigual não é somente uma questão de esperança; é uma questão intrínseca ao que somos como seres humanos. Prefiro acreditar que somos uma civilização na qual ainda existe espaço para valores fundamentais como a ética e a solidariedade.(Oxfam/ #Envolverde/Utopia Sustentável)

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Jaime Gold: somos todos culpados



O brutal e injustificável assassinato do médico Jaime Gold, na Lagoa Rodrigo de Freitas, morto a facadas, ao que tudo indica, por menores de idade, vem ratificar uma triste realidade nacional: aqui a vida está valendo muito pouco.

Não podemos outra vez discutir a questão apenas sob a ótica simplista e emocional (com toda razão) do crime em si, não levando em consideração a penca de fatores causadores de fato, não desse, mas de toda a violência que assola o país há décadas.  E que só aumenta.  

É preciso enxergar um pouco além e discutir o papel dos vários atores sociais que vêm ajudando a construir essa perversa e cruel sociedade brasileira, até chegarmos ao estágio atual em que aceitamos que uma vida seja trocada por uma bicicleta, uma carteira.

É preciso ter consciência que não nos tornamos monstruosos assim da noite para o dia.   Isso leva tempo.  É preciso olhar para dentro de cada um de nós e perguntar, comparar, entender o por quê de outras nações não terem os mesmos níveis de violência nossos.

Com a reforma educacional implementada pela ditadura militar, nossa educação se mercantilizou, sendo entregue à iniciativa privada, algo inimaginável em nações desenvolvidas, onde esse e outros bens, como a saúde, são deveres do Estado e direitos inalienáveis de toda a sociedade.    Aí, algumas raízes causais de nossa tragédia atual.

Por um tempo morei na Itália, com filhos em idade escolar.  Ali presenciei (à parte já vivermos a era “Berlusconiana), o real significado de uma educação universalizada.  Não raro levava meu filho à escola e às vezes ficava na porta observando seus coleguinhas chegarem acompanhados dos pais.  E via que na mesma sala estudavam o filho do mecânico da oficina onde consertava nosso carro e vinha de bicicleta deixar o filho, e o dono da fábrica de sapatos da cidade que chegava com o pai de Ferrari.  Em Cuba, conversando com nativos da “Ilha”, soube que as duas profissões mais importantes e mais bem remuneradas, eram justamente o professor e o médico.  Questão de Estado, da sociedade exigir de seus governantes suas prioridades.  


Li o depoimento emocionado da ex-mulher do médico assassinado esta semana.  Marcia Amil, com toda a dor do difícil momento, foi de uma clareza impressionante. Ela criticou os que pretendem se aproveitar de mais uma tragédia para defender a redução da maioridade penal.

"Nem sei se foram menores, mas sei que Jaime foi vítima de vítimas, que são vítimas de vítimas. Enquanto nosso país não priorizar saúde, educação e segurança, vão ter cada vez mais médicos sendo mortos no cartão postal do país. E não só médicos, afinal, morrem cidadãos todos os dias em toda a cidade, não só na Zona Sul".

Inútil a discussão estéril (e apenas com o foco na Segurança Pública ou na Justiça) que, cotidianamente, assistimos através de uma mídia comprometida apenas com seus interesses e lucros, fazer.  O episódio, aliás, é prato cheio para a propaganda daqueles que pregam a redução da maioridade penal.  Se continuarmos a discutir apenas os motivos e as razões que levaram este jovem a esfaquear barbaramente Jaime Gold, nada mudará e continuaremos, como bem disse sua esposa, a ver outros tantos cruéis crimes acontecerem.  

Do jeito que as coisas caminham, chegará o dia que algum gênio da Segurança vai propor que metade da população tome conta da outra metade.  Não vai adiantar. 

Sem querer justificar a barbárie do crime cometido, mas ao mesmo tempo tentando entender a cabeça da população pouco abastada e sem as oportunidades e os direitos básicos necessários atendidos, o estado brasileiro oferece muito pouco a essas famílias e, portanto, suas vidas pouco ou quase nada valem.  Se nossa classe política e elites partissem dessa lógica, talvez fosse mais fácil entender o motivo de as nossas vidas, aqui do outro lado do Apartheid Social Tupiniquim, também valerem tão pouco.  Nossa sociedade está doente e esse, infelizmente, é um dos preços dessa brutal desigualdade.

Abraços Sustentáveis


Odilon de Barros

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

A chave do crescimento econômico? Reduzir a desigualadade




Inequality A chave do crescimento econômico? Reduzir a desigualadade
“Os 10% mais ricos da população na área da OCDE ganham 9,5 vezes mais do que os 10% mais pobres. Na década de 1980, essa proporção era de 7 para um e desde então aumenta continuamente”, afirma a OCDE.

Durante anos, muitas autoridades políticas e econômicas se aferraram à ideia de que, se os Estados não fizerem nada para impulsionar a igualdade de renda, as forças do mercado farão com que a riqueza chegue aos cidadãos mais pobres e contribua para o crescimento geral. No entanto, essa teoria cada vez mais cai em descrédito, e os especialistas afirmam que a brecha crescente na renda gera uma diversidade de problemas em muitas sociedades.
Em um novo informe publicado no dia 9 deste mês, pesquisadores da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômicos (OCDE), com sede em Paris, afirmam que “a redução da desigualdade na renda impulsionaria o crescimento econômico”. O estudo mostra que os países onde essa desigualdade diminui “crescem mais rapidamente do que aquele” onde aumenta. Os analistas gostariam que os governos tomassem medidas mais enérgicas para reduzir a desigualdade.
“O maior impacto no crescimento é a brecha cada vez maior entre a classe média baixa e as famílias pobres em comparação com o resto da sociedade”, diz o informe intitulado Tendências na Desigualdade de Renda e Seu Impacto no Crescimento Econômico. Segundo o estudo, “a educação é a fundamental: a falta de investimento na educação dos pobres é o principal fator para que a desigualdade prejudique o crescimento”.
Michael Förster, analista da divisão de política social da OCDE, explica que uma das razões “de os pobres e as classes médias baixas ficarem atrasadas nas sociedades desiguais” é que carecem dos recursos para investir em sua educação ou na de seus filhos, em comparação com os cidadãos mais ricos. Os governos devem modificar as estratégias que se baseiam em teorias econômicas obsoletas, recomenda o estudo.
“O ponto de partida comum dizia que quanto mais se fizesse para melhorar a igualdade, mais se dificultaria o crescimento. A ideia era que se você tira muito dos que ganham mais, por meio de impostos, terá menos crescimento. Não encontramos provas disso. Mas, encontramos que o aumento da desigualdade é ruim para o crescimento”, apontou Förster.
O estudo da OCDE calcula que a desigualdade custou “10% do crescimento do México e da Nova Zelândia nas duas últimas décadas até a Grande Recessão. Nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha e Itália, a “taxa de crescimento teria sido de 6% a 9% maior se não houvesse aumentado a disparidade na renda”, segundo o informe.
O secretário-geral da OCDE, o mexicano José Ángel Gurría, afirmou que essa “evidência convincente” demonstra que abordar a desigualdade é “fundamental para promover o crescimento forte e sustentado”, e deve estar no centro das discussões de política internacional. “Os países que promovem a igualdade de oportunidades para todos a partir de uma idade precoce são os que vão crescer e prosperar”, acrescentou.
Entretanto, o economista norte-americano Jared Bernstein e outros afirmam que é difícil estabelecer um vínculo sólido entre as desigualdades na educação e no crescimento econômico. Esses analistas reconhecem que os pais mais ricos gastam mais em instrumentos e “produtos” educativos, e que os filhos e filhas de famílias endinheiradas costumam estudar em instituições de elite, em contraste com as crianças pobres que frequentam escolas de menor qualidade, mas discordam sobre as consequências socioeconômicas dessas diferenças.
Com a “nova evidência”, os pesquisadores da OCDE asseguram que a desigualdade afeta o crescimento principalmente ao “prejudicar as oportunidades de educação das crianças com antecedentes socioeconômicos pobres, reduzindo a mobilidade social e criando obstáculo ao desenvolvimento de habilidades”.
“As pessoas cujos pais têm baixo nível de instrução veem como seus resultados educacionais se deterioram na medida em que cresce a desigualdade na renda. Pelo contrário, o efeito é escasso ou nulo nas pessoas cujos pais têm níveis médios e altos de formação acadêmica”, destaca um comunicado da OCDE.
Os programas de luta contra a pobreza não bastam para criar uma maior igualdade de oportunidades no longo prazo, afirma a pesquisa. Entre as medidas essenciais se incluem “as transferências de dinheiro e o aumento do acesso aos serviços públicos, como a educação, a formação e a saúde de alta qualidade”.
Förster destaca que o estudo sobre a desigualdade se centrou na renda e não na riqueza. Mas discussões recentes abordaram os dois pontos, sobretudo na França, desde a eleição do presidente socialista François Hollande, em maio de 2012. Pouco depois de eleito, Hollande anunciou o plano de gravar com imposto de 75% toda renda superior a um milhão de euros. Os tribunais franceses aprovaram uma versão moderada da iniciativa, mas muitas famílias endinheiradas já haviam se mudado para a Bélgica e outros países.
Economistas de diferentes cores políticas discutem se o aumento de imposto é bom para a economia, e o debate ganhou força com a publicação, em 2013, de O Capital no Século 21, do reconhecido economista francês Thomas Piketty. Esse professor defende a criação de um imposto internacional sobre a riqueza. Suas pesquisas mostram que a desigualdade na renda se aprofundou em muitos países, junto a 30 anos de queda na carga fiscal.
De acordo com Piketty, a brecha é particularmente notável nos Estados Unidos, mas também na “igualitária” França, onde 1% de seus 66 milhões de habitantes ganhavam, em média, 30 mil euros mensais em 2010, contra 1.500 euros por adulto dos 50% mais pobres.
Segundo a OCDE, uma situação semelhante existe em muitos de seus 34 países membros, que inclui países europeus, mas também Chile, Estados Unidos e México, entre outros. “Os 10% mais ricos da população na área da OCDE ganham 9,5 vezes a renda dos 10% mais pobres. Na década de 1980, essa proporção era de 7 para um e desde então aumenta continuamente”, afirma a organização.
Contrariando essa tendência, a desigualdade está em baixa no Chile e no México, mas a renda dos mais ricos é mais de 25 vezes superior à dos habitantes mais pobres nos dois países.
A publicação conjunta da OCDE e da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), Perspectivas Econômicas da América Latina 2015, também divulgada no dia 9, analisa o papel da educação e das habilidades, e os especialistas afirmam que é preciso fazer mais para “elevar o nível educacional e abordar as desigualdades socioeconômicas persistentes e substanciais”.
Förster pontuou à IPS que a OCDE espera que os governos considerem suas conclusões como uma base para mudar as políticas. “Do contrário não sairemos da situação atual”, ressaltou. Envolverde/IPS/Utopia Sustentável

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Por que um planeta desigual nunca será sustentável?




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Foto: Too Much Online
Quanto maior a concentração de riqueza e maior a desigualdade dentro dos países, menores são as chances de se alcançar a sustentabilidade mundial. Os mais conceituados ambientalistas já entenderam essa conexão, chegou a vez de nossas sociedades
O que será necessário para salvar o planeta da devastação ambiental? Apenas o poder do povo? Nós certamente vimos isso na véspera da Cúpula do Clima da ONU em Nova York. Quase 400 mil pessoas marcharam pelas ruas de Manhattan. Outras milhões se manifestaram no mesmo dia com mais de 2.600 ações em 162 países.
Ou simplesmente constranger os líderes mundiais a responderem mais seriamente aos desafios da mudança climática? Nós vimos um pouco desse constrangimento na semana passada também. A poeta Kathy Jetnil-Kijiner, das Ilhas Marshall – um dos países-arquipélago mais ameaçados pelas mudanças climáticas –, que ajudou a abrir a reunião da ONU, leu o poema que fez à sua filha de 7 meses, levando alguns líderes mundiais presentes às lágrimas.
Mas isso, infelizmente, não é o bastante para estimular o bom senso de tais líderes. Como aponta artigo da Christian Science Monitor, a Cúpula deixou a comunidade internacional “sem uma estratégia ampla para combater a mudança climática”, apenas com a esperança de que, talvez, a próxima reunião “possa estabelecer um plano que poderia, lenta e eventualmente, reverter a crescente emissão global de carbonos”.
As pessoas têm alimentado tais esperanças há muito tempo, como o colunista George Monbiot observou, desde que os líderes mundiais se reuniram pela primeira vez em cúpulas ambientais, em 1992. “Essas reuniões falharam pela mesma razão que os bancos falharam”, explica Monbiot. “Os sistemas políticos, que deveriam representar a todos, agora têm governos para os milionários, financiados para agir em nome dos bilionários.”
Esperar que tais governos protejam a biosfera faz tanto sentido quanto “esperar que um leão viva de comida vegetariana”, compara Monbiot.
Por que deveria ser esse o caso? Ao longo das décadas recentes, analistas e ativistas fizeram todo o tipo de ligaçõesentre a crescente degradação do meio-ambiente no mundo e o aumento da concentração da riqueza mundial.
Os super-ricos, para começar, deixoaram um enorme rastro de carbono no planeta. O maior símbolo desse “pisoteamento”? Provavelmente seus jatos particulares.
Esses brinquedinhos superpoderosos da elite global emitem seis vezes mais carbonos por passageiro do que os aviões comerciais comuns. Entre 1970 e 2006, o número de aviões particulares cresceu dez vezes mais no mundo inteiro. Os super-ricos não apenas consumem em níveis que tornam insignificante o consumo dos “meros mortais”, seus gastos devassos estimulam um consumo infinito que se estende por todas as classes econômicas.
“Grandes abismos de renda”, como Rob Dietz e Dan O´Neill apontam seu livro Enough is Enough (algo como “já deu”, traduzindo livremente), “levam a um nada saudável status de competição e consumo de materiais e energia, além do que é necessário para satisfazer as necessidades das pessoas”. Em sociedades mais iguais, os analistas sugerem, a maioria das pessoas pode adquirir as mesmas coisas. Nesse tipo de ambiente, as coisas materiais não significam tanto assim.
Mas as “coisas” se tornaram um poderoso transformador de status social em sociedades desiguais nas quais a maioria das pessoas não tem o mesmo poder de compra. Nessas sociedades, ou você acumula mais e mais coisas ou se encontra rotulado como um fracassado.
Como conseguimos reverter esse ciclo de consumo infinito? Nós podemos superar “o status de competição destrutiva, tanto socialmente, quanto ambientalmente, se trabalharmos para estender a democracia para a esfera econômica”. Pelo menos é o que afirmam os cientistas sociais Richard Wilkinson e Kate Pickett, em seu recente A Convenient Truth (Uma verdade conveniente). Empresas com representantes dos trabalhadores em sua junta de diretores, companhias com funcionários- proprietários e cooperativas “geralmente têm uma diferença de salários bem pequena entre eles”, apontam Wilkinson e Pickett, autores também do best-seller “O Nível Espiritual: Porque sociedades mais igualitárias quase sempre vão melhor”. Nós também precisamos trabalhar juntos, sugere a socióloga Juliet Schor, para começarmos criar uma “comunidade que sustente nossas necessidades básicas”, através de, por exemplo, serviços de propriedade pública como energia para as casas a um preço razoavelmente sustentável.
Tudo isso funcionando ao mesmo tempo não será fácil. As pessoas, em algum ponto, terão que confiar uma nas outras, aponta Bill Kerry, do Equality Trust, no Reino Unido. De acordo com uma pesquisa da instituição, quanto mais desigual é uma sociedade, mais desconfiança é gerada dentro dela. Assim como as menos democráticas. Em países onde a renda e a riqueza são mais concentradas, os ricos podem usar de seu poder político gritantemente desproporcional para evitar as reformas ambientais que ameaçam suas minas de ouro. Por exemplo, executivos em empresas energéticas podem alterar os limites de emissões de carbonos, que eventualmente ameaçariam os lucros de suas empresas, assim com benefícios pessoais.
Esses executivos estão agora usando “seus consideráveis poderes político e financeiro”, aponta o ativista veterano Chuck Collins, “para bloquear políticas energéticas sensatas, conseguir subsídios através de impostos, difamar matrizes renováveis e limitar o poder de escolha dos consumidores”.
Os “prósperos” podem usar de sua riqueza para acabar com políticas para recursos naturais que de fato funcionariam. Na Califórnia sofrendo com a seca, por exemplo, os proprietários ricos em Montecito têm “pago 10 vezes mais que o valor da taxa de água” para contornar os limites de uso para a água local. Esses ricos proprietários tem “importado” de caminhão, água de poços particulares em outros locais do estado “em uma tentativa desesperada para salvar seus gramados bem cuidados e a topiaria decorativa”. Esses caminhões estão destruindo as estradas locais.
Outros prósperos de Montecito estão correndo para cavar poços em suas propriedades – cerca de 100 mil dólares por cada – que poderiam eventualmente secar os aquíferos locais. “Se o mundo não encontrar uma maneira coletiva de coibir emissões por esses ‘gastões’ entre países ricos, assim como os ricos nesses países, nós iremos pagar pelo alívio que os pobres entre nós não poderão arcar”, afirma o analista político Jim Tankersley.
As lutas contra a degradação ambiental e por uma sociedade mais igualitária precisam, em resumo, andar de mãos dadas. Um planeta profundamente desigual não pode nunca ser sustentável. A cidade “mais verde” do mundo, Oslo, não está por acaso em um dos países mais igualitários do planeta, a Noruega.
Ativistas ambientais estão cada vez mais compreendendo essa conexão. Espalhar essa consciência – e agir em cima dela – se tornou agora nosso maior desafio. Nós podemos resolver tanto os problemas ambientais como os sociais, mas “apenas se enxergamos ambas as lutas como apenas uma”.Tradução: Vinicius Gomes.** Publicado originalmente pelo Too Much e retirado do site Revista Fórum.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Existe desenvolvimento humano com desigualdade social profunda?



shutterstock crianca Existe desenvolvimento humano com desigualdade social profunda?
Foto: http://www.shutterstock.com/
O Brasil melhorou no IDH, mas ainda está longe de ocupar uma posição próxima à sua proeminência como sexta maior economia do mundo.
O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento Humano (Pnud) divulgou, no último dia 24 de julho, o relatório sobre o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) 2014, relativo ao ano de 2013.
Aplicado pela primeira vez em 1990, o IDH mede o nível de bem-estar mínimo da população de 187 países, por meio de três critérios: expectativa de vida; média de anos de estudo; e renda nacional bruta per capita. O IDH varia de 0 a 1 e, quanto mais perto do 1, melhor é o desenvolvimento humano do país. Dessa forma, o Pnud conseguiu encontrar um parâmetro de comparação entre as condições de vida das populações fora dos indicadores econômicos tradicionais e, com isso, fazer com que as discussões sobre combate à pobreza, redução das desigualdades e equilíbrio ambiental entrassem constantemente na pauta de trabalhos dos diversos organismos da ONU e também na agenda internacional.
Não é possível comparar os dados do início dos anos 2000 com os atuais, porque a metodologia utilizada pelo Pnud para coleta de dados mudou a partir de 2010. Naquele ano, foram introduzidos indicadores complementares para aferição de desigualdades de renda, de gênero, enfim, de disparidades entre a população.
Essa mudança foi feita porque, ao longo dos anos, o Pnud verificou uma sensível melhora no IDH dos países, principalmente dos mais pobres. Mas percebeu um ritmo mais lento desse crescimento a partir da crise financeira de 2008. Então, introduziu mudanças para verificar como ficava a desigualdade na sociedade, mesmo perante um quadro de melhoria do desenvolvimento humano no país. Pois havia concluído, acertadamente, que a desigualdade crônica restringe o progresso social.
Desigualdade interfere no desenvolvimento humano
A edição de 2014 – com dados referentes a 2013 – é o primeiro em que foi possível verificar o impacto da crise. E a conclusão do Pnud é que os fatos de 2008 tiveram impacto direto no desenvolvimento humano. Dos 187 países analisados, 144 tiveram um crescimento baixo no IDH, inclusive o Brasil, e a tendência é de desaceleração em todos os países e em todos os indicadores – expectativa de vida, educação e renda per capita. O Pnud apurou, inclusive, que os menores aumentos no índice ocorreram nos países europeus e, analisando cada indicador em separado, o recuo de renda também foi maior na Europa, bem como nos países árabes e na Ásia Central (Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão, Turcomenistão, Uzbequistão e parte do Irã, da China, do Afeganistão, da Índia, do Paquistão e da Rússia).
Os países que mais incrementaram o IDH em 2013/2014 foram os que apresentam os mais baixos níveis de desenvolvimento humano, como Burundi, Burkina Fasso e Afeganistão, e aqueles que mantiveram políticas econômicas e fiscais que não sacrificam o emprego e a renda, como boa parte da América Latina, a Alemanha e a Polônia.
Mesmo com essa desaceleração, o ranking do IDH não sofreu profundas alterações nesta rodada. A liderança continua sendo da Noruega, com IDH de 0,944; em segundo lugar está a Austrália, com 0,933; em terceiro, a Suíça, com 0,917; em quarto lugar, os Países Baixos, com 0,915; e, em quinto, os EUA, com 0,914.
Se esses índices fossem ajustados pela desigualdade, que o Pnud mede pela distância da renda entre ricos e pobres, os EUA despencariam 23 posições, passando a ocupar o 28º lugar. O México, que está em 71º lugar, iria para o 84º. Já a Alemanha, que está em sexto lugar, subiria para o quinto. E a Sérvia iria do 77º lugar para o 55º.
E o Brasil?
As políticas públicas de compensação de renda, de recuperação do salário mínimo e de emprego utilizadas pelo país foram novamente bastante elogiadas pelo Pnud. Mas o órgão argumentou que a desigualdade ainda é muito grande.
O IDH do Brasil foi de 0,744, número que dá ao país o 79º lugar entre as 187 nações avaliadas. Ajustado pela desigualdade, nosso índice cairia para o 95º lugar. Ainda frequentaríamos o ranking dos países de desenvolvimento humano “elevado”, mas na incômoda posição de estarmos quase no limite de regredirmos ao “desenvolvimento médio”.
Houve uma certa polêmica colocada pelo governo a respeito dos dados utilizados pelo Pnud para realizar o cálculo do IDH brasileiro, os quais foram considerados muito antigos. Mas o que importa é que todos nós sabemos que a desigualdade em nosso país ainda é enorme e precisa ser enfrentada.
Não é à toa que um grupo de entidades, entre as quais o Instituto Ethos, está elaborando a Agenda Brasil Sustentável. O foco dessa agenda é, justamente, combater a desigualdade por meio da construção de uma economia inclusiva, verde e responsável e de uma sociedade cada vez mais democrática, com espaço institucional de participação cidadã nas decisões.
É a cidadania que precisa encontrar as respostas para perguntas que se colocam. Estamos melhorando a qualidade de vida na velocidade que queremos? E a desigualdade de renda? Querer um carro novo (que está sendo subsidiado) implica atraso em outras políticas públicas mais importantes, que atendam o coletivo, como as de saúde e educação? Quanto mais precisamos aprofundar as mudanças estruturais, como política fiscal com juros mais baixos, para dividir mais e melhor a riqueza que todos estamos produzindo?
Jorge Abrahão é diretor-presidente do Instituto Ethos.
** Publicado originalmente no site Instituto Ethos.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Modelo estúpido, riqueza insustentável


Vivemos um momento um tanto conturbado no mundo.  Se por um lado produzimos mais e mais multibilionários a cada ano, por outro, em proporções africanas, aumentamos a desigualdade e temos, ainda, 1,2 bilhão de pessoas (sobre)vivendo na extrema pobreza.

Inútil aqui enumerarmos os diversos fóruns e encontros internacionais que, em profusão, ano após ano, discutem fórmulas que sejam capazes de romper a acumulação prazerosa e estúpida das elites, em ter mais dinheiro do que o necessário para viver dignamente.  Fazer o quê?

Nem mesmo governos têm conseguido sucesso em tentar dobrar ou fazer ceder as grandes corporações na diminuição de seus lucros, e o crescer por crescer a todo custo continua a ser o carro-chefe de um consumo desenfreado que faz com que consumamos recursos equivalentes a 50% mais do que o planeta suporta.  Será que a espécie humana é realmente inteligente?

Recente artigo de Roberto Savio para a agência IPS, dissecou de forma clara o capitalismo atual.  Nele, entre tantas constatações, ele afirma que o capitalismo financeiro está cada vez mais se sobrepondo ao capitalismo produtivo (e eu concordo).  Cita, ainda, que os 25 gestores dos maiores fundos especulativos mais bem remunerados, todos homens, ganharam ano passado a bagatela quantia de US$21 bilhões, soma essa maior que dez países africanos: Burundi, República Centro-Africana, Eritreia, Gâmbia, Guiné, São Tomé, Seychelles, Serra Leoa, Níger e Zimbábue.

Mais, o prêmio Nobel de Economia Paul Krugman, informa que, segundo o índice de multibilionários Bloomberg, os 300 indivíduos mais ricos do mundo aumentaram suas riquezas, apenas ano passado, em US$524 bilhões, o que equivale a renda conjunta de Dinamarca, Finlândia, Grécia e Portugal.  E as aposentadorias de 23 banqueiros espanhóis chegaram a 22,7 milhões de euros. 

Mesmo que a pobreza no mundo tenha diminuído de 47% para 22%, graças a Brasil, China e Índia, é inconcebível permanecermos com empresas e pessoas que na cena política têm mais poder e influência do que governos na confecção das leis. 

É imprescindível que a governança global torne a ter as rédeas e o controle de seus países, combatam a corrupção e os fortes lobbies instalados dentro de governos.  Essa minoria poderosa, que não se envergonha de ignorar as necessidades das maiorias mundo afora, que sobrevive e aumenta suas fortunas através da corrupção de governantes igualmente corruptos, que não sofre ao ver irmãos africanos esquálidos morrendo de fome e fazendo sexo para obter um prato de comida, precisa entender que é estúpido ter 20 ou 30 bilhões se só temos uma vida para gastar e que não teremos planeta para morar, água para beber e que suas polpudas fortunas virarão pó, se continuarmos nessa toada.

As dinastias do dinheiro deveriam entender que talvez seja a hora do “decrescimento econômico”, modelo pelo qual, programada e planejadamente, economias crescem de acordo com os limites do Planeta, o que não significa declínio econômico, mas sobrevivência.

Deveriam entender que às vezes é melhor ceder e doar alguns anéis do que o Planeta lhes pulverizar e tomar suas roubadas riquezas.

Abraços sustentáveis
Odilon de Barros   


   

terça-feira, 13 de maio de 2014

13 de maio. O dia da outra metade.



E lá se vão 126 anos do fim, ao menos no papel, de um dos maiores crimes contra a humanidade.  Avançamos, parecemos mais iguais mas (e aí aproveitando a data), “preto no branco”, não o somos.  Apesar dos progressos em praticamente todas as áreas, ainda mantemos segregada grande parte dos negros e pardos, que hoje já ultrapassa 50%  de nossa população. 

Ainda hoje, é preciso lembrar que nosso país continua a discriminar e manter à margem da boa educação, da boa saúde, de oportunidades iguais no mercado de trabalho e de salários dignos, uma parte desses brasileiros pelo simples fato de ter uma outra cor de pele. 

Quem duvidar é só dar uma olhadinha nas estatísticas oficiais que dão conta de que dos 50 mil homicídios praticados anualmente no Brasil (!!!), 70% são contra jovens, negros e pobres.  Ou seja, não bastasse as flagrantes desigualdades, aqui, além de tudo, é perigoso ser negro.

E para aqueles que insistem em teimar que somos um país “igual”, basta uns poucos exercícios para refrescar a memória.  Se temos comprovadamente mais negros e pardos do que brancos em nosso país, segundo o censo 2010, por que não vemos, por exemplo, mais negros e pardos do que brancos em nosso parlamento; como médicos atendendo em nossos hospitais; dirigindo carros de passeio; dentro de shopping centers; frequentando nossas praias; viajando de avião; se hospedando em hotéis; curtindo boates; cursando universidades públicas; milionários; governadores; deputados; senadores; nas belas coberturas de nossas cidades; pecuaristas; comandando nossas empresas;  no STF, atuando como professores, enfim. 

Por outro lado, a recíproca é verdadeira e confirma a tese quando observamos que a desigualdade também é grande dentro de presídios; nos morros; nas estatísticas oficiais comparativas de renda per capita; nas carreiras mais básicas; no consumo cotidiano dessas famílias e por aí vai.  Aqui, a supremacia é total de negros e pardos.  Por quê?

A resposta para essas constatações é simples.  Somos, sim, um país preconceituoso e que ainda hoje acredita que o negro e o pardo valem menos e, por isso, não podem ou não merecem ter as mesmas chances do restante da população.   E apesar da Lei Áurea, o ranço continua.  Retrato de uma elite burra e atrasada.

Hoje, 13 de maio, não deveríamos mais Ignorar tais fatos e sim reconhecer que fomos e continuamos a ser perversos com eles.  E pedir perdão por tudo que lhes causamos.  Talvez assim, um novo ciclo pudesse se iniciar.  Mais fraterno, solidário e sustentável. 

Valeu Zumbi!

Odilon de Barros  




domingo, 27 de abril de 2014

As 10 cidades mais igualitárias do Brasil




O Brasil é um dos países mais desiguais do mundo. A constatação é do índice de Gini, produzido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), o mais famoso indicador para medir distribuição de renda.
No entanto, o Brasil tem registrado avanços nos últimos anos para diminuir sua desigualdade, mas o abismo entre os ricos e pobres ainda é gritante. Algumas cidades do país, todavia, contam com distribuição de renda mais equitativa do que as demais.
Por exemplo: entre os 4,5 mil moradores de São José do Hortêncio, no Rio Grande do Sul, não será possível encontrar nenhum bilionário ou multimilionário como aqueles que existem, em certa quantidade, em São Paulo. Mas tampouco será fácil localizar uma pessoa que não saiba ler e escrever: a taxa de analfabetismo, pouco maior que 1%, está entre as menores do Brasil.
E praticamente todos os cidadãos, com mais ou menos renda, estudam em escola pública até o ensino médio – trata-se da única opção disponível. Este cenário de pouca desigualdade garantiu à pacata cidade, junto com a também diminuta Botuverá, em Santa Catarina, o título de mais igualitária do país.
O ranking que pode ser visto a seguir é dominado por municípios do Sul e alguns poucos exemplares do Sudeste. “As cidades do Sul são menos desiguais em parte porque a população costuma ser mais educada, a desigualdade educacional costuma ser menor. São populações mais homogêneas”, afirma Rafael Osório, técnico do Ipea especialista em estudos de distribuição de renda.
A desigualdade de renda é tida como um elemento que atrapalha a coesão social, impedindo que indivíduos – sejam mais ricos ou mais pobres – sintam-se parte da mesma sociedade.
1) SÃO JOSÉ DO HORTÊNCIO (RS)
cidade1 saojose ECOD As 10 cidades mais igualitárias do Brasil

Índice de Gini (Atlas 2013) – 0,28
Índice de Gini (Atlas 1991) – 0,36
População – 4.094
Em São José do Hortêncio, os 10% mais ricos ganham 4 vezes mais que os 40% mais pobres. No Brasil, são 22,7 vezes mais.
2) BOTUVERÁ (SC)
cidade2 botuvera ECOD As 10 cidades mais igualitárias do Brasil

Índice de Gini (Atlas 2013) – 0,28
Índice de Gini (Atlas 1991) – 0,49
População – 4.468 habitantes
Em Botuverá, os 10% mais ricos ganham 4,1 vezes mais que os 40% mais pobres. No Brasil, são 22,7 vezes mais.
3) ALTO FELIZ (RS)

cidade3 altofeliz ECOD As 10 cidades mais igualitárias do Brasil

Índice de Gini (Atlas 2013) – 0,29
Índice de Gini (Atlas 1991) – 0,41
População – 2.917 habitantes
Em Alto Feliz, os 10% mais ricos ganham 4,2 vezes mais que os 40% mais pobres. No Brasil, são 22,7 vezes mais.
4) SÃO VENDELINO (RS)

cidade4 saovendelino ECOD As 10 cidades mais igualitárias do Brasil

Índice de Gini (Atlas 2013) – 0,29
Índice de Gini (Atlas 1991) – 0,50
População – 1.944 habitantes
Em São Vendelino, os 10% mais ricos ganham 4,3 vezes mais que os 40% mais pobres. No Brasil, são 22,7 vezes mais.
5) VALE REAL (RS)

cidade5 valereal ECOD As 10 cidades mais igualitárias do Brasil

Índice de Gini (Atlas 2013) – 0,29
Índice de Gini (Atlas 1991) – 0,36
População – 5.118 habitantes
Em Vale Real, os 10% mais ricos ganham 4,1 vezes mais que os 40% mais pobres. No Brasil, são 22,7 vezes mais.
6) SANTA MARIA DO HERVAL (RS)
cidade6 santamariadoherval ECOD As 10 cidades mais igualitárias do Brasil

Índice de Gini (Atlas 2013) – 0,30
Índice de Gini (Atlas 1991) – 0,39
População – 6.053 habitantes
Em Santa Maria do Herval, os 10% mais ricos ganham 4,4 vezes mais que os 40% mais pobres. No Brasil, são 22,7 vezes mais.
7) CAMPESTRE DA SERRA (RS)
cidade7 campestredaserra ECOD As 10 cidades mais igualitárias do Brasil

Índice de Gini (Atlas 2013) – 0,31
Índice de Gini (Atlas 1991) – 0,39
População – 3.247 habitantes
Em Campestre da Serra, os 10% mais ricos ganham 4,5 vezes mais que os 40% mais pobres. No Brasil, são 22,7 vezes mais.
8) TUPANDI (RS)
cidade8 tupandi ECOD As 10 cidades mais igualitárias do Brasil

Índice de Gini (Atlas 2013) – 0,31
Índice de Gini (Atlas 1991) – 0,41
População – 3.924 habitantes
Em Tupandi, os 10% mais ricos ganham 4,6 vezes mais que os 40% mais pobres. No Brasil, são 22,7 vezes mais.
9) CÓRREGO FUNDO (MG)

cidade9 corregofundo ECOD As 10 cidades mais igualitárias do Brasil
Índice de Gini (Atlas 2013) – 0,32
Índice de Gini (Atlas 1991) – 0,50
População – 5.790 habitantes
Em Córrego Fundo, os 10% mais ricos ganham 4,9 vezes mais que os 40% mais pobres. No Brasil, são 22,7 vezes mais.
10) MORRO REUTER (RS)
morro reuter ecod As 10 cidades mais igualitárias do Brasil
morro-reuter-ecod.jpg

Índice de Gini (Atlas 2013) – 0,32
Índice de Gini (Atlas 1991) – 0,38
População – 5.676 habitantes
Em Morro Reuter, os 10% mais ricos ganham 4,9 vezes mais que os 40% mais pobres. No Brasil, são 22,7 vezes mais.
Obs: O índice varia de 0 a 1. Só alcançaria zero se todo mundo em um local pesquisado tivesse exatamente a mesma renda. E exatamente um, apenas se uma pessoa concentrasse todo o dinheiro.
Na prática, portanto, o índice nunca encosta nesses extremos, só que quanto mais perto de zero, melhor. O da Noruega, por exemplo, é de 0,25. Já o do Brasil é de 0,50.* Publicado originalmente no site EcoD.