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terça-feira, 15 de setembro de 2015

Negociações climáticas ignoram questão da água


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Previsão é de secas cada vez mais frequentes, inundações e alterações dos calendários pluviométricos em geral, provocando riscos à saúde e à segurança alimentar, além de importantes tensões geopolíticas.

As negociações da Conferência Internacional do Clima (COP-21) – que acontecem em dezembro, em Paris – não contemplam o problema da água, um recurso essencial fortemente impactado pela mudança climática.
Os negociadores reunidos na penúltima rodada de negociações prévias ao evento, em Bonn, Alemanha, na semana passada, a menos de 100 dias da conferência, seguiram ignorando o assunto. Ele simplesmente não aparece em nenhum documento preliminar da conferência.
Apesar disso, a situação da água é um dos principais indicadores sobre os efeitos da mudança climática. Por causa do aumento da temperatura média global, até o final do século as fontes renováveis na superfície e os recursos hídricos subterrâneos diminuirão consideravelmente nas regiões secas subtropicais.
A previsão é de secas cada vez mais frequentes, inundações e alterações dos calendários pluviométricos em geral, provocando riscos à saúde e à segurança alimentar, além de importantes tensões geopolíticas. Esse cenário é detalhado no relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) lançado no ano passado.
Além disso, em escala planetária, estamos enfrentando alterações de ecossistemas essenciais para o ciclo d’água como o derretimento das geleiras, a salificação de mananciais (decorrente do aumento do nível do mar) e a acidificação dos oceanos.
O desafio aumenta considerando que, até 2050, a demanda de água crescerá 55%, puxada pelos usos agrícolas, crescimento da população e pela produção de energia, como explica o relatório “Água para um mundo sustentável”, lançado por agências das Nações Unidas neste ano.
“A água é o denominador comum de todos os aspectos da mudança climática. Mudança climática é mudança hídrica”, ressaltou Torgny Holmgre, diretor executivo do Instituto Internacional da Água de Estocolmo (SIWI, na sigla em inglês), durante a Semana Internacional da Água, realizada em Estocolmo, Suécia, há 15 dias.
Os especialistas que participaram do evento insistiram na necessidade de inserir o tema da água nos processos de negociação relacionados ao financiamento climático, – principalmente o Fundo Verde; aos Planos de Adaptação Nacionais; e às Contribuições Nacionalmente Determinadas Pretendidas (INDC, sigla em inglês). A ideia é que a inclusão do assunto nesses mecanismos faria da gestão dos recursos hídricos parte essencial das ações de mitigação e de adaptação às mudanças climáticas.
Amazônia em foco
O Brasil é o país mais rico em fontes de água doce não congelada. Só a Bacia Amazônica contém 20% do recurso. Cientistas acreditam que a diminuição das precipitações no Sudeste do país pode ser resultado das alterações climáticas decorrentes do desmatamento da Amazônia. A floresta amazônica libera na atmosfera, a cada dia, 20 milhões de toneladas de água que são transportadas pelos ventos alísios até o Sudeste, por meio dos chamados “rios voadores”, com um volume hídrico maior que o do próprio Rio Amazonas (saiba mais).
A proteção das florestas e a governança hídrica são objetivos importantes para garantir a segurança hídrica no planeta, segundo destacam as Nações Unidas no último relatório sobre Sustentabilidade Hídrica.
Brasil apresenta um nível de estresse hídrico de 0,659, sendo 0 o menor nível de estresse e 1 o maior nível de estresse. Estresse hídrico indica o nível de demanda de água que supera a oferta deste recurso
Brasil apresenta um nível de estresse hídrico de 0,659, sendo 0 o menor nível de estresse e 1 o maior nível de estresse. Estresse hídrico indica o nível de demanda de água que supera a oferta deste recurso

Acesse aqui o infográfico fonte do mapa acima.
Mudança climática, estresse hídrico e alimentação
Os especialistas que participaram do encontro em Estocolmo reforçaram que os fenômenos climáticos extremos já estão impactando as safras de numerosas culturas agrícolas. “Cerca de 90% da agricultura no planeta depende da água da chuva”, afirmou Malin Falkenmark, pesquisadora do SIWI.
Um exemplo é o milho, que será um dos produtos mais afetados pela mudança climática. De acordo com as estimativas do Grupo de Investigação de Agricultura
Internacional, a produção dessa cultura poderá ter uma redução de 25% até 2055. No Brasil, até 2020 a produção de soja pode diminuir 24% e a do trigo, 41%, segundo o World Resources Institute.
Evolução das safras para 2050 em um mundo com um acréscimo de mais 3ºC na temperatura média. Fonte - WRI
Evolução das safras para 2050 em um mundo com um acréscimo de mais 3ºC na temperatura média. Fonte – WRI

No contexto das mudanças climáticas, os atuais padrões de uso de água para a agropecuária são cada vez mais insustentáveis. Para a produção de um quilo de carne bovina, por exemplo, são necessários atualmente 15 mil litros de água, segundo a Rede da Pegada Hídrica, ao mesmo tempo que muitas regiões do planeta, principalmente na Ásia e na África Subsaariana, enfrentam situações de alto estresse hídrico. Uma região ou população enfrenta estresse hídrico quando a demanda supera a quantidade de água disponível. Em consequência, tornam-se urgentes compromissos de eficiência e de redução do uso da água nos processos produtivos como medidas essenciais de adaptação à mudança climática (leia mais).
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A água nos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável
O acesso à água limpa e segura é um direito humano essencial à vida, segundo uma resolução das Nações Unidas aprovada em julho de 2010. A segurança de provisão de água, de saneamento para todos e de gestão sustentável do recurso constitui um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável para 2030 – que devem ser aprovados no mês de setembro na assembleia das Nações Unidas em Nova Iorque.
Como resultado dos esforços de cada país para alcançar a meta dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) para 2015, mais de 2,3 bilhões de pessoas no mundo conseguiram acesso a fontes seguras de água desde 1990, segundo o relatório de metas atingidas no decénio da água das Nações Unidas (2005-2015).
No entanto, existem 1,6 bilhão de pessoas que moram em países e regiões com uma escassez de água absoluta e estima-se que esse número possa crescer até 2,8 bilhões em 2025, segundo o Banco Mundial.(ISA/ #Envolverde/Utopia Sustentável)

terça-feira, 28 de abril de 2015

Aquecimento em oceanos pode ter efeitos imprevisíveis para a Terra




Mussismilia-harttii com peixe. Foto: Projeto Coral Vivo
Mussismilia-harttii com peixe. Foto: Projeto Coral Vivo
Liderado por brasileiros, estudo sobre fixação de nitrogênio em corais foi publicado pelo grupo ‘Nature’
A elevação de temperatura nos oceanos poderá influenciar no processo de fixação de nitrogênio em corais. A conclusão é do estudo que acaba de ser publicado no “The ISME Journal”, do grupo “Nature”, que investigou os efeitos do aquecimentosobre as bactérias que vivem em associação com o coral Mussismilia harttii e que são capazes de fixar esse componente essencial para a vida. Ele foi realizado no mesocosmo marinho do Projeto Coral Vivo – um sistema experimental alimentado constantemente pela água do mar com equipamentos que permitem simular as projeções do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas), da ONU, para as próximas décadas.
Percebemos que a comunidade microbiana que fixa o nitrogênio ficou aumentada e a diversidade alterada consideravelmente com os tratamentos elevados a +2 º C e +4,5 º C. Isso é um alerta vermelho sobre o nitrogênio nosoceanos. Esse estudo com corais aponta que a diversidade e a quantidade de microrganismos com funções essenciais parao planeta poderá ser modificada, com consequências imprevisíveis para os ciclos biogeoquímicos ao longo do tempo”, observa Raquel Peixoto, coordenadora da pesquisa e professora do Instituto de Microbiologia Paulo de Góes da UFRJ. O estudo faz parte da Rede de Pesquisas Coral Vivo, que é patrocinada pela Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental e copatrocinada pelo Arraial d’Ajuda Eco Parque.
O experimento nos tanques foi feito durante 21 dias, após 15 dias de aclimatação e, em seguida, eles foram avaliados emlaboratório. Alterações da diversidade da microbiota do coral Mussismilia harttii do mar para o experimento também foram consideradas. Do controle para os que passaram pelo aquecimento monitorado dos tanques, houve ainda mais proliferação de microrganismos fixadores de nitrogênio, como algumas cianobactérias. Cabe observar que esse tipo de desenvolvimento costuma ser encontrado também nos casos em que os corais estão doentes, por exemplo. Tudo o que acontece no microambiente está relacionado ao macroambiente. “Para se ter uma ideia da importância do tema, a presença e a atividade da microbiota de corais está relacionada à degradação de DMSP, que é um composto produzido no coral. Quando esse componente é degradado ele vai para a atmosfera em forma de DMS, que está relacionado à formação de nuvens e a manutenção do clima local”,exemplifica a bióloga.
Escolhemos a espécie Mussismilia harttii, conhecida como coral vela ou coral couve-flor, porque é uma das principais construtoras de recifes brasileiros e cujo gênero só ocorre em águas brasileiras”, justifica o biólogo marinho Clovis Castro, coordenador geral do Projeto Coral Vivo e coordenador executivo do Plano de Ação Nacional para Conservação dos Ambientes Coralíneos (PAN Corais).
Mussismilia harttii - colônia gigante no Recife de Fora - mais de  3 metros de diâmetro. Projeto Coral Vivo
Mussismilia harttii – colônia gigante no Recife de Fora – mais de 3 metros de diâmetro. Projeto Coral Vivo
O trabalho fez parte da tese de doutorado do Henrique Fragoso dos Santos, e é o primeiro estudo que verifica o efeito da temperatura sobre as bactérias fixadoras de nitrogênio em recifes de coral. O estudo foi liderado por brasileiros, com o desenvolvimento do sistema experimental mesocosmo, a formulação da pergunta, a execução do experimento, assim como a liderança nas análises e na discussão. Foi realizado com uma colaboração ampla entre os pesquisadores do Instituto de Microbiologia Paulo de Góes, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, do Projeto Coral Vivo e do Centro para Estudos Ecológicos e Evolucionários, da Universidade de Groningen, Holanda.
Para o professor Clovis Castro, isso demonstra o potencial do trabalho colaborativo entre pesquisadores de diferentes especialidades sobre um problema concreto com o qual o Brasil se depara. “Estes e outros grupos de pesquisa brasileiros estão desenvolvendo diversos estudos para compreender os efeitos das mudanças climáticas e da qualidade da água, especificamente poluição, sobre os seres recifais. O objetivo é ajudar a compreender o que pode acontecer em diferentes cenários e, eventualmente, ajudar a procurar formas de aumentar a resiliência de nossos recifes frente às alterações esperadas”, conclui Castro.
Nitrogênio é essencial para a vida
Vale lembrar que o nitrogênio é um componente essencial para todos os seres vivos, e é constituinte de proteínas, DNA e do RNA, por exemplo. Contudo, a maior parte desse elemento se encontra na atmosfera, e de forma não assimilável por organismos em geral. Só quem consegue fixar esse nitrogênio atmosférico são alguns procariotos. Resumidamente, eles disponibilizam o nitrogênio fixado na forma de amônia ou nitrato no solo para as plantas, que os transforma em formas orgânicas, como aminoácidos. Os herbívoros consomem essas plantas, os carnívoros consomem os herbívoros e o nitrogênio, desta forma, no resto da cadeia. Esse processo também ocorre no ambiente marinho, onde o nitrogênio é transferido dos procariotos para os animais por meio de algas e plâncton.  Recentemente foi descoberto que os fixadores de nitrogênio também beneficiam os corais, por meio desta simbiose específica “Como esses microrganismos são os únicos que conseguem fixar o nitrogênio da atmosfera e disponibilizá-lo para outros organismos, torna-se importante que se estude a dinâmica deles, simulando as mudanças climáticas nos oceanos”, afirma Raquel.
Esse estudo aponta que a alteração de temperatura dos oceanos poderá alterar a relação simbiótica entre os microrganismos fixadores de nitrogênio e os corais. “Essa fixação de nitrogênio ocorre em nível intracelular, onde grande parte deste composto fixado é usado pelas algas zooxantelas – algas que vivem em simbiose com os corais e que são extremamente importantes para a nutrição deles”, explica o biólogo marinho Gustavo Duarte, coordenador executivo do Projeto Coral Vivo, e que participou do estudo.
Entenda o funcionamento do mesocosmo marinho do Coral Vivo
Com o intuito de simular as condições propostas pelo IPCC da ONU, o Projeto Coral Vivo desenvolveu um sistema experimental com 16 tanques que recebem água do mar continuamente, com capacidade de alterar temperatura, acidez ou adicionar poluentes em tempo real. De acordo com o biólogo Gustavo Duarte, esse mesocosmo marinho foi construído de maneira a propiciar maior realismo em comparação às pesquisas experimentais convencionais feitas em laboratório, sem o inconveniente das dificuldades logísticas das pesquisas de campo, como momentos de mar agitado e a impossibilidade do pesquisador permanecer muito tempo sob a água.
O ponto forte desse mesocosmo marinho é manter muitas das variáveis ambientais encontradas no mar, podendo alterar sua condição e simular impactos, como os de mudanças climáticas e contaminações por poluentes diversos, mantendo o realismo”, explica Duarte. O especialista destaca que eles têm conseguido resultados tão próximos aos do mar que, no experimento de acidificação em 2012, os corais que estavam sendo testados desovaram em pleno experimento. Com isso, os resultados são mais aplicáveis ao que se espera das mudanças climáticas futuras. Nossos experimentos vêm apresentando resultados significativamente interessantes e claros, comemora o especialista. O lugar escolhido como base de pesquisas do Coral Vivo é Arraial d’Ajuda, sul da Bahia – uma das regiões mais ricas do país em biodiversidade marinha.
Projeto Coral Vivo
O Coral Vivo faz parte da Rede BIOMAR (Rede de Projetos de Biodiversidade Marinha), que reúne também os projetos Tamar, Baleia Jubarte, Golfinho Rotador e Albatroz. Todos patrocinados pela Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental, eles atuam de forma complementar na conservação da biodiversidade marinha do Brasil, trabalhando nas áreas de proteção e pesquisa das espécies e dos habitats relacionados. As ações do Coral Vivo são viabilizadas também pelo copatrocínio do Arraial d’Ajuda Eco Parque, e realizadas pela Associação Amigos do Museu Nacional (SAMN) e pelo Instituto Coral Vivo (ICV). Mais informações na página no Facebook e no site.  e no site.
(Coral Vivo/Utopia Sustentável) 

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Lima chega a acordos climáticos mínimos e deixa quase tudo para Paris




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Enquanto os governos de 195 países aprovavam o documento final da COP 20, em Lima, na madrugada do dia 14, os ativistas já protestavam pelos fracos resultados das negociações climáticas, próximo à sala Cusco do plenário onde foi selado o acordo. Foto: Diego Arguedas Ortiz/IPS

Lima, Peru, 16/12/2014 – Após prorrogação de 25 horas, os negociadores de 195 países chegaram a um acordo com “um mínimo comum necessário” de medidas para enfrentar a mudança climática e adiaram as grandes decisões sobre um novo tratado para a 21ª Conferência das Partes (COP 21), que acontecerá dentro de um ano em Paris.
Entre os dias 1º e 13 deste mês, mais de três mil delegados buscaram no complexo processo da Convenção Marco das Nações Unidas sobre a Mudança Climática (CMNUCC) um fim último: evitar o aquecimento do planeta em níveis que atentem contra a vida na Terra.
Depois de 13 dias de debates, a COP 20 deixou sem resolver assuntos medulares, como fiscalização dos compromissos da redução de emissões de cada país, reconhecimento de danos e perdas causados pelas alterações climáticas e os planos imediatos, conforme denunciaram à IPS representantes de organizações observadoras do encontro.
O documento aprovado, o terceiro que foi debatido, denominado Chamado de Lima para a Ação Climática, estabelece que os países apresentarão em outubro seus compromissos nacionais de redução das emissões de gases que provocam o aquecimento global.
Também “pede urgência” aos países industrializados no sentido de “prever e mobilizar suporte financeiro para ações ambiciosas de mitigação e adaptação” para as nações afetadas pela mudança climática, e os “convida” a fixaram esse financiamento junto com os compromissos de redução. Uma exortação que atendeu debilmente os requerimentos dos países mais vulneráveis ao aumento das temperaturas e evitou um claro naufrágio.
Porém, os observadores lamentaram que no Chamado de Lima haja pouco para atender as populações mais vulneráveis como agricultores, comunidades costeiras, indígenas, mulheres e setores mais despossuídos das sociedades.
“Houve uma série de intercâmbios entre países desenvolvidos e em desenvolvimento e o resto do texto se tornou significativamente mais fraco quanto às regras para o próximo ano e como conseguir ação e ambição climática”, destacou à IPS o coordenador de Mudança Climática da organização Care International, Sven Harmeling. “Foi, realmente, uma infelicidade”, afirmou.
Isso afetará as negociações de 2015, pois “estão amontoando mais pressão sobre Paris. Os grandes temas foram adiados em lugar de serem decididos aqui”, apontou Harmeling. Segundo o ativista, houve acordo, mas insuficiente. “Temos algo, mas falta saber o quanto será legalmente vinculante”, acrescentou. Se realmente há “um espírito de Lima”, e não consenso por cansaço, se começará a saber em fevereiro, em Genebra, onde haverá o próximo encontro climático, ressaltou.
As nações do Sul deram seu voto a favor do texto, por volta de 1h30 da madrugada do dia 14, mas organizações como Oxfam, Rede de Ação Climática e Amigos da Terra Internacional foram muito críticas sobre o resultado. As negociações em Lima “nada fizeram para deter a catástrofe climática”, assegurou a Amigos da Terra.
O ministro peruano de Meio Ambiente, Manuel Pulgar-Vidal, presidente da COP 20, prolongou o processo para aparar arestas entre países industrializados, os grandes emissores de carbono, que queriam menos pressão financeira, e os países em desenvolvimento que buscavam menor fiscalização sobre suas próprias reduções. “Ainda que pareça estarmos em lados opostos, na verdade estamos no mesmo, já que só há um planeta: o lado do planeta”, afirmou Pulgar-Vidal ao término do encontro.
O mandado específico para Lima era estabelecer o rascunho de um novo tratado climático vinculante, que deve amadurecer durante 2015 até sua assinatura em Paris. Discussões metodológicas e grandes debates sobre danos e perdas, prazos e financiamento impediram um consenso mais ambicioso.
“Agora os países precisam de financiamento climático e que sejam tomadas ações urgentes agora, porque nossas emissões devem chegar a um máximo antes de 2020 e depois começar a serem reduzidas se quisermos nos manter em um caminho seguro”, explicou à IPS a coordenadora climática do Fundo Mundial para a Natureza (WWF), Tasneem Essop. A ativista destacou que “precisamos proteger os direitos das comunidades impactadas pela mudança climática”. É precisamente esse desamparo dos setores mais vulneráveis que ainda deve receber ações mais urgentes.
Entretanto, o acordo de Lima tem escassas referências aos mecanismos que os países usarão para reduzir emissões entre 2015 e 2020, quando deverá começar a vigorar o novo tratado, em substituição ao Protocolo de Kyoto. Essas ações têm que começar já, disse Essop, porque nesse caso as medidas posteriores poderão ser inúteis. “O que os governos parecem estar pensando é que podem fazer tudo no futuro, depois de 2020, quando a ciência é clara em dizer que é necessário chegar a um teto antes disso”, pontuou à IPS.
Se isso não for feito, a cada ano o clima extremo, a seca e a baixa produção agrícola serão mais duros para essas comunidades, as menos responsáveis pela mudança climática. Essop considera que os governos apostam em negociar na capital francesa, quando havia decisões urgentes a serem adotadas em Lima. Entre as pontas soltas que devem ser atadas na capital francesa, entre 30 de novembro e 11 de dezembro de 2015, está como será o balanço entre mitigação e adaptação no novo acordo climático mundial e de onde sairá o financiamento.
“Se não tivéssemos chegado a essa decisão (do Chamado de Lima), as coisas seriam muito mais difíceis em Paris. Mas sabemos que há muitos temas que deverão ser resolvidos entre agora e dezembro de 2015”, afirmou na plenária final Laurent Fabius, ministro das Relações Exteriores da França. Esse acordo pretende que até 2100 a elevação da temperatura não supere os dois graus centígrados para poder observar a estabilidade do planeta. Para isso, é fundamental reduzir o uso de combustíveis fósseis.
Mitigação, adaptação, danos e perdas se fixam como pilares do novo tratado. Os dois últimos são vitais para países e populações impactadas desproporcionalmente pelo fenômeno, mas essa parte ficou sem força em Lima. “É desastroso e não atende nossas expectativas em nada. Queríamos ver um plano claro surgindo de Lima, que nos permitisse ter um tratado mais ambicioso”, afirmou Harjeet Singh, diretor internacional de Mudança Climática e Resiliência da organização ActionAid. “O que vemos é uma contínua rejeição dos países desenvolvidos a temas que têm a ver com adaptação e danos e perdas”, disse à IPS.
Trata-se de temas espinhosos porque cumpri-los exige compromissos financeiros por parte dos países ricos. O principal espaço de recepção de dinheiro, o Fundo Verde para o Clima, alcançou apenas US$ 10,2 bilhões este mês, um décimo do valor que as nações industrializadas se comprometeram a entregar.
Mas o Chamado de Lima determinou como serão as “contribuições previstas e determinadas em nível nacional” (INDC), o formato como se apresentarão os compromissos de cada país sobre como reduzir suas emissões. Entretanto, esse acordo enfraqueceu ao eliminar o mecanismo para analisar a pertinência e a idoneidade de cada compromisso, presente em vários rascunhos prévios.
Para os negociadores, a quantia dessas contribuições nacionais seria suficiente para controlar o aquecimento global, mas os observadores se preocupam com a possibilidade de essa escassa fiscalização impedir um controle adequado do avanço na redução das emissões, da maneira que o planeta necessita. Envolverde/IPS/Utopia Sustentável

A chave do crescimento econômico? Reduzir a desigualadade




Inequality A chave do crescimento econômico? Reduzir a desigualadade
“Os 10% mais ricos da população na área da OCDE ganham 9,5 vezes mais do que os 10% mais pobres. Na década de 1980, essa proporção era de 7 para um e desde então aumenta continuamente”, afirma a OCDE.

Durante anos, muitas autoridades políticas e econômicas se aferraram à ideia de que, se os Estados não fizerem nada para impulsionar a igualdade de renda, as forças do mercado farão com que a riqueza chegue aos cidadãos mais pobres e contribua para o crescimento geral. No entanto, essa teoria cada vez mais cai em descrédito, e os especialistas afirmam que a brecha crescente na renda gera uma diversidade de problemas em muitas sociedades.
Em um novo informe publicado no dia 9 deste mês, pesquisadores da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômicos (OCDE), com sede em Paris, afirmam que “a redução da desigualdade na renda impulsionaria o crescimento econômico”. O estudo mostra que os países onde essa desigualdade diminui “crescem mais rapidamente do que aquele” onde aumenta. Os analistas gostariam que os governos tomassem medidas mais enérgicas para reduzir a desigualdade.
“O maior impacto no crescimento é a brecha cada vez maior entre a classe média baixa e as famílias pobres em comparação com o resto da sociedade”, diz o informe intitulado Tendências na Desigualdade de Renda e Seu Impacto no Crescimento Econômico. Segundo o estudo, “a educação é a fundamental: a falta de investimento na educação dos pobres é o principal fator para que a desigualdade prejudique o crescimento”.
Michael Förster, analista da divisão de política social da OCDE, explica que uma das razões “de os pobres e as classes médias baixas ficarem atrasadas nas sociedades desiguais” é que carecem dos recursos para investir em sua educação ou na de seus filhos, em comparação com os cidadãos mais ricos. Os governos devem modificar as estratégias que se baseiam em teorias econômicas obsoletas, recomenda o estudo.
“O ponto de partida comum dizia que quanto mais se fizesse para melhorar a igualdade, mais se dificultaria o crescimento. A ideia era que se você tira muito dos que ganham mais, por meio de impostos, terá menos crescimento. Não encontramos provas disso. Mas, encontramos que o aumento da desigualdade é ruim para o crescimento”, apontou Förster.
O estudo da OCDE calcula que a desigualdade custou “10% do crescimento do México e da Nova Zelândia nas duas últimas décadas até a Grande Recessão. Nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha e Itália, a “taxa de crescimento teria sido de 6% a 9% maior se não houvesse aumentado a disparidade na renda”, segundo o informe.
O secretário-geral da OCDE, o mexicano José Ángel Gurría, afirmou que essa “evidência convincente” demonstra que abordar a desigualdade é “fundamental para promover o crescimento forte e sustentado”, e deve estar no centro das discussões de política internacional. “Os países que promovem a igualdade de oportunidades para todos a partir de uma idade precoce são os que vão crescer e prosperar”, acrescentou.
Entretanto, o economista norte-americano Jared Bernstein e outros afirmam que é difícil estabelecer um vínculo sólido entre as desigualdades na educação e no crescimento econômico. Esses analistas reconhecem que os pais mais ricos gastam mais em instrumentos e “produtos” educativos, e que os filhos e filhas de famílias endinheiradas costumam estudar em instituições de elite, em contraste com as crianças pobres que frequentam escolas de menor qualidade, mas discordam sobre as consequências socioeconômicas dessas diferenças.
Com a “nova evidência”, os pesquisadores da OCDE asseguram que a desigualdade afeta o crescimento principalmente ao “prejudicar as oportunidades de educação das crianças com antecedentes socioeconômicos pobres, reduzindo a mobilidade social e criando obstáculo ao desenvolvimento de habilidades”.
“As pessoas cujos pais têm baixo nível de instrução veem como seus resultados educacionais se deterioram na medida em que cresce a desigualdade na renda. Pelo contrário, o efeito é escasso ou nulo nas pessoas cujos pais têm níveis médios e altos de formação acadêmica”, destaca um comunicado da OCDE.
Os programas de luta contra a pobreza não bastam para criar uma maior igualdade de oportunidades no longo prazo, afirma a pesquisa. Entre as medidas essenciais se incluem “as transferências de dinheiro e o aumento do acesso aos serviços públicos, como a educação, a formação e a saúde de alta qualidade”.
Förster destaca que o estudo sobre a desigualdade se centrou na renda e não na riqueza. Mas discussões recentes abordaram os dois pontos, sobretudo na França, desde a eleição do presidente socialista François Hollande, em maio de 2012. Pouco depois de eleito, Hollande anunciou o plano de gravar com imposto de 75% toda renda superior a um milhão de euros. Os tribunais franceses aprovaram uma versão moderada da iniciativa, mas muitas famílias endinheiradas já haviam se mudado para a Bélgica e outros países.
Economistas de diferentes cores políticas discutem se o aumento de imposto é bom para a economia, e o debate ganhou força com a publicação, em 2013, de O Capital no Século 21, do reconhecido economista francês Thomas Piketty. Esse professor defende a criação de um imposto internacional sobre a riqueza. Suas pesquisas mostram que a desigualdade na renda se aprofundou em muitos países, junto a 30 anos de queda na carga fiscal.
De acordo com Piketty, a brecha é particularmente notável nos Estados Unidos, mas também na “igualitária” França, onde 1% de seus 66 milhões de habitantes ganhavam, em média, 30 mil euros mensais em 2010, contra 1.500 euros por adulto dos 50% mais pobres.
Segundo a OCDE, uma situação semelhante existe em muitos de seus 34 países membros, que inclui países europeus, mas também Chile, Estados Unidos e México, entre outros. “Os 10% mais ricos da população na área da OCDE ganham 9,5 vezes a renda dos 10% mais pobres. Na década de 1980, essa proporção era de 7 para um e desde então aumenta continuamente”, afirma a organização.
Contrariando essa tendência, a desigualdade está em baixa no Chile e no México, mas a renda dos mais ricos é mais de 25 vezes superior à dos habitantes mais pobres nos dois países.
A publicação conjunta da OCDE e da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), Perspectivas Econômicas da América Latina 2015, também divulgada no dia 9, analisa o papel da educação e das habilidades, e os especialistas afirmam que é preciso fazer mais para “elevar o nível educacional e abordar as desigualdades socioeconômicas persistentes e substanciais”.
Förster pontuou à IPS que a OCDE espera que os governos considerem suas conclusões como uma base para mudar as políticas. “Do contrário não sairemos da situação atual”, ressaltou. Envolverde/IPS/Utopia Sustentável

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Entre discursos contundentes e avanços deprimentes




COP202 Entre discursos contundentes e avanços deprimentes
Foto: Libby Ferguson/Twitter
“Se a evidência é tão clara, se o nível do mar está subindo, se os eventos climáticos extremos que estamos vivendo são evidentes para qualquer um – por que não estamos agindo agora?”
A fala do ex-presidente mexicano Felipe Calderón, feita durante cerimônia nesta quinta-feira (11/12) do Climate Action Day na Conferência de Lima, sumariza o assombro que muitas pessoas, veteranas e novatas nas negociações internacionais em clima, estão tendo com a lentidão do processo político na COP 20. Como um problema pode ser tão urgente e ameaçador e as nossas lideranças políticas serem tão incapazes de se reunir para construir um caminho de enfrentamento imediato e efetivo?
Ontem, quando a sociedade civil foi às ruas de Lima pedir por mais ambição e ação climática, os gritos da marcha anteciparam o que Calderón falou de forma polida: precisamos agir, e precisamos fazer isso agora! Não existe amanhã quando estamos tentando conter o aquecimento do planeta em 2oC neste século, porque o business as usual está nos levando para uma trajetória que baterá 5oC de aumento da temperatura média do planeta nas próximas décadas. A diferença de três graus centígrados não é pequena: é a diferença entre um clima relativamente contornável, com efeitos colaterais possíveis de serem suportados sem grandes mudanças, e um clima catastrófico, com impactos que sequer somos capazes de prever, mesmo com a tecnologia que temos hoje.
No entanto, a urgência é um ator curioso em Lima. Está presente em todos os discursos, de todos os setores, em todos os momentos públicos. Porém, quando chega a hora de discutir e negociar, a credencial da urgência é sumariamente cassada na COP 20: falta urgência e sobra lentidão. Por exemplo, há cinco anos estamos discutindo o compromisso assumido pelos países desenvolvidos em destinar recursos para o fundo climático verde (GCF, sigla em inglês) de forma escalonada, com o objetivo de atingir a média de US$ 100 bilhões a partir de 2020. O GCF começou a receber recursos apenas neste ano, e o montante é de apenas 10% da meta para o final dessa década. Por mais que os países em desenvolvimento, que dependem desse fundo para financiar suas atividades de mitigação e transição para o baixo carbono, defendam nos corredores e plenários da COP, não temos um roadmap que assegure a esses países que o compromisso dos US$ 100 bilhões anuais será atingido até 2020. Ou seja: a coisa está na base do “acredite, se quiser”.
Falta dinheiro e falta ambição. Mesmo com o consenso de que todos os países terão algum grau de compromisso de redução no futuro acordo climático, a diferenciação dessas metas é um asteróide no sapato dos negociadores. Para os países desenvolvidos, a divisão precisa ser justa a partir do cenário atual das emissões: ou seja, os grandes emissores, países ricos ou não, terão os compromissos mais abrangentes em mitigação. Para os países em desenvolvimento, particularmente o clube dos emergentes do BASIC (Brasil, África do Sul, Índia e China), o novo acordo precisa se alinhar ao conceito das “responsabilidades comuns, porém diferenciadas”, consagrada no texto da Convenção. Em suma, as responsabilidades históricas precisam ser consideradas na hora de definir o tamanho dos compromissos de redução dos países.
À despeito da proposta brasileira da diferenciação concêntrica – na qual os países se distribuiriam em bandas de compromisso, com possibilidade de transição de uma zona para a outra dependendo do contexto e das capacidades correntes de cada país – ter sido recebida com interesse por alguns negociadores, ela não foi capaz de romper o impasse nas negociações. Ou seja, todos os países concordam que algo precisa ser feito, mas divergem profundamente sobre quem o fará e como o fará.
Enquanto os bombeiros discutem quem vai apagar o incêndio, as chamas ganham altura e vão se alastrando para outros lugares. Nessas horas, urgência não passa de vocábulo da letra “U” do dicionário.* Publicado originalmente no site Observatório do Clima.

sábado, 13 de dezembro de 2014

EXCLUSIVO – Presidente do IPCC diz que podemos “desaparecer gradualmente”




“Nós vamos gradualmente desaparecer!” Este é o alerta que Rajendra Pachauri, do IPCC, fez ao final da COP-20, naentrevista exclusiva que concedeu à Envolverde, produzida em pareceria com a equipe da ONG Engajamundoem Lima. Pachauri comentou os esforços para produzir mais energia limpa, os meios para facilitar a participação da sociedade civil nas decisões sobre o tema e a proposta brasileira para avançar as negociações rumo a um acordo global para enfrentar as mudanças climáticas a ser fechado em Paris em dezembro de 2015.
Veja um trecho da entrevista, que será publicada na íntegra pela Envolverde a partir de segunda-feira, 15, nas edições especiais de balanço da COP-20.
A 20ª Conferência das Partes (COP 20) da Convenção Marco das Nações Unidas sobre a Mudança Climática terminou na sexta-feira (12) em Lima, no Peru. Desde o dia 1º de dezembro, mais de 190 países enfrentaram o desafio de redigir o rascunho de um novo acordo global com o objetivo de reduzir as emissões de gases do efeito estufa.
Envolverde publicou um caderno especial durante as duas semanas do evento, com artigos e reportagens enfocando diferentes pontos de vista (Veja aqui). Os grandes entraves para avançar rumo ao acordo permanecem os mesmos das 19 conferências anteriores: o jogo de interesses que opõe nações ricas e as não desenvolvidas e a morosidade para chegar a um consenso sobre os prazos e responsabilidades de cada país para agir reduzindo o risco das mudanças climáticas.
Milhares de pessoas nas ruas do centro de Lima gritavam “precisamos agir agora!”, enquanto nas reuniões oficiais da Conferência representantes dos governos debatiam discursos engessados e compromissos vazios. Ao mesmo tempo, a natureza dava mais um sinal: o tufão Hagupit varre as Filipinas.
O recado já foi dado
Os relatórios do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) são categóricos: até 2050, é necessário reduzir as emissões entre 40% e 70% em relação ao início deste século, para impedir que a temperatura média do planeta suba mais que 2 graus Celsius e reduzir a zero as emissões até o fim deste século.
A natureza não negocia! Segundo o relatório do IPCC, a humanidade tem parcela significativa de responsabilidade pelo aquecimento global. Esses são temas abordados na entrevista que o presidente do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), Rajendra Pachauri, concedeu com exclusividade e será publicada a partir de segunda-feira pela Envolverde.
(Envolverde) 

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

COP20: Brasil faz gol contra



brasil gol contra COP20: Brasil faz gol contra
Em 2013, ativistas do Greenpeace protestam em frente ao Ministério de Minas e Energia, em Brasí­lia, contra o retorno das térmicas a carvão aos leilões de energia. Foto: Cristiano Costa/Greenpeace

Dias antes de iniciar a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas em Lima, o Brasil praticamente marcou um gol contra e sai em desvantagem nas negociações que acontecem de 1 a 12 de dezembro.
No que se refere à matriz energética, por exemplo, no dia 28 de novembro, foi realizado o último leilão de energia do ano que contratou 4.936 megawatts (MW) de energia elétrica para abastecer o mercado a partir de 2019. Mais de 65% do total de energia à venda no leilão era de solar, eólica e biomassa. No entanto, o resultado foi decepcionante, segundo avaliação do Greenpeace e tantas outras organizações que atuam em defesa do desenvolvimento justo e sustentável. “De toda a energia contratada, somente 19% virá de fonte eólica e 12%, de biomassa. As fontes que tiveram destaque foram os poluentes carvão e gás natural, frustrando as expectativas de um horizonte renovável e sustentável”, diz Greenpeace em nota.
“O triste paradoxo é que, ao participar da COP no Peru, o governo brasileiro pretende referendar seu papel de líder global para redução de emissões de gases de efeito estufa. Mas não faz sua própria lição de casa”, diz Ricardo Baitelo, coordenador da campanha de Clima e Energia do Greenpeace Brasil.
Mais de dois terços de toda a energia contratada foi de usinas térmicas a gás natural e carvão (equivalente a 3.399 MW). Já a energia eólica, infelizmente, teve somente 926 MW contratados, de um total ofertado de 14.155 MW. A energia solar, por sua vez, não teve um megawatt sequer contratado, resultado pífio para a mais promissora das fontes energéticas. Parte desse resultado deve-se ao preço definido pelo governo ser pouco atraente para investidores.
Na avaliação de ambientalistas, a volta do carvão como energia “contratável” representa um grande retrocesso para o futuro energético do Brasil e revela a falta de visão e responsabilidade do setor com o futuro do planeta. O carvão é uma fonte de energia do século XVIII, com alto impacto socioambiental, além de ser o maior emissor de gases de efeito estufa. Assim como o gás natural, que também é uma fonte fóssil e poluente.
Outro ponto crítico e desfavorável ao Brasil é apontado pelos especialistas do  Observatório do Clima, rede de organizações ambientalistas brasileiras. Como o Observatório do Clima apontou em seus recentes relatórios, a partir dos dados do Sistema de Estimativa de Emissões de Gases do Efeito Estufa (SEEG), as emissões brasileiras aumentaram 7,8% em 2013, mesmo com o baixo crescimento apresentado pelo país no ano passado (2,6%).
E mais: entre 2012 e 2013, a Amazônia sofreu com o aumento da taxa de desmatamento em 29%, que interrompeu uma sequência de quase uma década de reduções significativas. No ano passado, as emissões associadas ao desmatamento subiram 16%, de acordo com o Sistema de Estimativas de Emissões de Gases do Efeito Estufa (SEEG) do Observatório do Clima.
Nesse sentido, o Observatório do Clima “espera que o Brasil assuma uma posição condizente com aquilo que já apresentou em conferências passadas, alinhada com aquilo que se espera do país nesse momento importantíssimo das negociações climáticas”.
Paulo Lima é repórter da Agência Jovem de Notícias, projeto encabeçado pela ONG Viração Educomunicação. Todo o conteúdo produzido pela agência durante a COP20 será publicado pela Envolverde neste espaço. Acompanhe!
(Agência Jovem de Notícias) 

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Faço o que eu digo mas não faça o que eu faço. E o mundo que se dane.



Não existem mais sinais de que o clima está mudando, eles são fatos consumados e reais.  O último relatório do IPCC, escrito por 30 mil cientistas do mundo todo e revisto por outros 800 é definitivo e estarrecedor: se até 2050 não reduzirmos entre 40% e 70% as emissões globais e chegarmos até o final do século com zero de emissão, o planeta terá sua temperatura aumentada em mais de 2 graus Celsius e com isso as consequências serão devastadoras. 

A reunião preparatória da COP 20, organizada pela ONU, que acontece de 10 a 12 de dezembro em Lima, no Peru, mais uma vez tentará desatar o cabo de guerra em que se transformou a questão climática no mundo.  Enquanto países em desenvolvimento, entre eles o Brasil, acenam com uma proposta que diferencie e gradue os principais emissores do planeta, os ricos, comandados pelos EUA, sequer admitem ser fiscalizados.

 A ideia é avançar visando Paris 2015 e chegar a um rascunhão que comece a definir a parte de cada um nesse processo de redução. Improvável, pois esta é a vigésima Conferência do Clima e a constatação é desanimadora: muito pouco se avançou até aqui.  Para se ter ideia da falta de seriedade (ao menos necessária dada a gravidade do atual momento) e do duplo discurso com que  administram a questão dentro de seus países, EUA admitiram reduzir de 25% a 28% suas emissões até 2025 e China 20% até 2030.  Ambos são responsáveis por 45% das emissões globais. 

O Brasil, sexto maior emissor global, mesmo com a controversa redução do desmatamento da Amazônia, tem em seu plano decenal de energia a previsão de investimentos da ordem de 70% em combustíveis fósseis, sendo que no quesito “hidrelétricas”, 90% delas serão construídas na Amazônia.  Um desatino, em vez de investirmos em energias eólicas e solar, colocamos em risco comunidades indígenas e desmatamos ainda mais nossa floresta.  Além disso, estudos revelam que 70% de nossa produção de soja e 50% de trigo, diminuirão.




As sociedades deveriam ter um dispositivo de defesa global de consulta aos mais de 7 bilhões de Terráqueos que obrigasse governos a, em caso de questões que interferissem na perenidade do planeta ou na existência humana sobre a Terra, como ocorre agora com a questão climática, onde todos seremos afetados, o que valeria seria a vontade democrática da maioria e não interesses comerciais escusos.  Quem sabe inventam alguma coisa que faça a nós todos se comunicar em rede.  Utopia Sustentável, sim, e de sobrevivência também. 

Que bom seria se as mesmas pressões e ameaças que exercem sobre países militarmente mais fracos, caso do Irã com a questão da bomba atômica, onde EUA e aliados exigiram cinicamente fiscalização internacional (como se bomba também não tivessem), pudessem, agora, também servir de exemplo para exigirmos fiscalização de cumprimento de metas de redução de emissões.  Afinal se bombas matam, as tsunamis climáticas matarão muito mais.  Quem sabe inventam um organismo internacional que represente, de verdade, o interesse de todos.  Fica a dica.

O resultado de tamanho cinismo está escrito nas estrelas com firma reconhecida no cartório de Lúcifer: o desastre.  A impossibilidade de entregarmos para nossos filhos e netos um planeta igual ao que recebemos de nossos antepassados é o que mais dói.  A vingança é saber que jamais desfrutarão o tanto de dinheiro que estupidamente acumularam. 




Rajendra Pachauri, presidente do IPCC (Painel Intergovernamental da ONU sobre Mudanças Climáticas) foi categórico sobre os impactos caso as emissões continuem subindo: “Quanto mais tempo demorarmos para agir, mais difícil e caro será para frearmos o aumento da temperatura global”.

O Green Climate Fund, criado para juntar US$ 100 bilhões/ano, reuniu até agora pouco mais de US$ 5 bilhões.  O mundo precisa gastar nos próximos anos US$ 90 trilhões para salvar o planeta.  Ou fazemos história agora, ou não estaremos aqui para contá-la.

Abraços Sustentáveis


Odilon de Barros

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Alerta: desmatamento na Amazônia tende a crescer




amazonia desmatamento peter 1 Alerta: desmatamento na Amazônia tende a crescer
Desmatamento da Amazônia no Acre. Foto: © © Peter Muller/Bild

O mais recente relatório divulgado, na última semana, pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU (IPCC, na sigla em inglês) alertou: o planeta precisa de mudanças, caso contrário os danos ambientais e climáticos poderão ser irreversíveis. No Brasil, a situação não é diferente. Muito há que ser mudado, principalmente, no que se refere à conservação da maior floresta tropical do mundo, a Amazônia. Pelo fato de desempenhar um papel essencial no combate aos efeitos das mudanças climáticas, pesquisas recentes associam a destruição das florestas no norte do País às graves consequências para o clima, devido à sua função na estocagem do carbono e na regulação do regime das chuvas, que abastecem, por exemplo, as regiões Sudeste e Sul.
Apesar do alerta e da necessidade de mudança, o Brasil tem caminhado no sentido contrário, principalmente, no que diz respeito ao desmatamento da Amazônia. Antes mesmo da divulgação das estimativas oficiais de desmatamento em 2014, prevista para as próximas semanas, os números do sistema de Detecção do Desmatamento em Tempo Real (Deter) apontam uma tendência de crescimento no norte do País.
Segundo o sistema, baseado em estimativas a partir de imagens de satélites e destinado a orientar a fiscalização em campo, nos últimos três anos (2012, 2013 e 2014), houve um aumento de cerca de 49% nas taxas correspondentes entre agosto de um ano a julho do ano seguinte. Na comparação de 2013 a 2014, considerando apenas os meses do início da estação seca na Amazônia (maio-julho), os quais concentram boa parte do desmatamento anual, o valor dobrou, passando de 893 km2 para 1535 km2 (veja gráfico abaixo).
grafico desmatamento 1 Alerta: desmatamento na Amazônia tende a crescer
Grafico: © WWF-Brasil

O sistema Deter é um dos sistemas de monitoramento criado pelo governo para apontar alertas de desmatamento e demonstrar suas tendências. Por esta razão, serve também para estimar o que deve acontecer com os dados oficiais de referência para o monitoramento do desmatamento, por meio de um segundo sistema mais acurado. Este segundo sistema é o que gera os dados a serem divulgados nas próximas semanas, que terão por base os valores levantados pelo Programa de Cálculo do Desflorestamento da Amazônia (Prodes), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que registra, via satélite, áreas equivalentes a pouco mais de seis campos de futebol (6,25 hectares). Esta estimativa é divulgada sempre no final do ano, geralmente no mês de novembro. Em meados de julho do ano seguinte, as taxas são consolidadas oficialmente, após o detalhamento dos estudos. Entretanto, as estimativas de novembro contém uma imprecisão muito pequena em relação aos dados definitivos que serão divulgados no ano que vem.
“As taxas de desmatamento da Amazônia, consideradas como oficiais pelo governo brasileiro, são as do Prodes, que trabalha com imagens de melhor resolução espacial, capazes de mostrar também os pequenos desmatamentos. No entanto, os números apontados pelo Deter são importantes indicadores para os órgãos de controle e fiscalização e para nos mostrar a tendência que vem por aí”, explica Mauro Armelin, superintendente de conservação do WWF-Brasil. O Prodes, em seu último levantamento, já havia registrado um aumento em relação ao ano anterior de 29% nas taxas de desmatamento para o período de agosto de 2012 a julho de 2013, em que 5.891 km² de floresta amazônica foram perdidos. “Existe a tendência do Prodes acompanhar a tendência do Deter, ou seja, haver aumento do desmatamento registrado oficialmente em 2014. É claro que esperamos boas notícias, ou seja, que estejamos errados em nossa análise, e que as novas taxas do Prodes mostrem o recuo do desmatamento. Mas a tendência é justamente a contrária”, conclui.
Segundo Armelin, o Brasil corre o risco de fechar o ano com a pior performance ambiental dos últimos anos. “Estamos numa situação complicada. Ao mesmo tempo que o desmatamento tende a crescer, também não avançamos em alternativas energéticas de baixo carbono. Para piorar, os incentivos do governo têm aumentado para a expansão automobilística, com um forte incentivo a combustíveis fósseis, com cada vez mais subsídios para a gasolina, por exemplo”, avalia Armelin. Tais investimentos não contribuem em nada com as metas divulgadas pelo relatório do IPCC. O documento sugere que o uso, sem restrições de combustíveis fósseis (carvão, petróleo, gás), seja suspenso até o ano de 2100 e que o uso de alternativas renováveis suba até 70% até 2050. “Acreditamos que para contribuir com essas recomendações, o Brasil precisa ter um melhor planejamento energético que considere fontes de energia de menor impacto, como solar, eólica, baseada em biomassa e em pequenas centrais hidrelétricas, as PCHs”, explica Mauro.
Sem estes investimentos, continuaremos a ir na direção contrária ao desenvolvimento sustentável. “Precisamos finalmente entender, como sociedade, que as escolhas que fizermos agora irão refletir na qualidade de vida das futuras gerações. Eventos climáticos extremos, como a escassez de chuvas no sudeste que está ocorrendo agora, serão fenômenos que se tornarão mais comuns enquanto a temperatura do planeta continuar a crescer. A Amazônia é um ativo chave para a proteção da segurança climática, hídrica e energética, não só da população brasileira, mas também mundial”, alerta Armelin.
Alternativas
O atual cenário da Amazônia clama por uma intervenção urgente. O governo precisa agir rapidamente para evitar que o desmatamento fuja do controle e aumente os riscos para a região em termos da perda de sua biodiversidade e da depreciação de seu capital natural, com fortes impactos sobre sua população. “É preciso avançar em ações estruturantes, como a implementação em larga escala do Cadastro Ambiental Rural, de iniciativas de restauração florestal dentro das propriedades privadas, de forma a assegurar cumprimento da lei ambiental, e de ações de ordenamento e de planejamento do uso do solo”, ressalta Marco Lentini, coordenador do Programa Amazônia do WWF-Brasil.
Além disso, segundo o especialista, é preciso implementar de forma mais eficiente ações que levem ao bom uso e à valorização de florestas, principalmente em iniciativas de manejo florestal, e que apresentem alternativas econômicas contra o desmatamento. Um exemplo seria o desenvolvimento de um amplo sistema para o Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) como carbono, água e biodiversidade. “A floresta amazônica, além de proporcionar serviços imensuráveis em termos de regulação do clima e do regime de chuvas, oferece uma ampla gama de produtos que podem ser aproveitados de forma racional pela sociedade. Ou seja, podemos aliar conservação e desenvolvimento. Nossa sociedade tem investido em modelos que priorizam ou um objetivo, ou o outro. É chegado o momento de sairmos desta paralisia de paradigma”, avalia Lentini. site WWF Brasil.