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quinta-feira, 30 de abril de 2015

Oceanos teriam riqueza de US$ 24 trilhoes




Ecossistema de arrecifes coralinos no Refúgio Nacional de Vida Silvestre do Atol de Palmyra, nos Estados Unidos. Foto: Jim Maragos/Serviços de Pesca e Vida Silvestre dos Estados Unidos 
Ecossistema de arrecifes coralinos no Refúgio Nacional de Vida Silvestre do Atol de Palmyra, nos Estados Unidos. Foto: Jim Maragos/Serviços de Pesca e Vida Silvestre dos Estados Unidos

As riquezas sem aproveitar dos oceanos teriam um valor aproximado de US$ 24 trilhões, equivalente a várias das maiores economias do mundo, segundo um informe do Fundo Mundial para a Natureza (WWF) publicado na segunda quinzena de abril. O estudo, que descreve os oceanos como potências econômicas, alerta que a superexploração, o uso indevido e a mudança climática estão solapando rapidamente os recursos de alto mar.
“O oceano rivaliza com a riqueza dos países mais ricos do mundo, mas estamos permitindo que se afunde nas profundidades de uma economia falida”, afirmou Marco Lambertini, diretor-geral da WWF Internacional. “Como acionistas responsáveis, não podemos esperar com seriedade continuar extraindo imprudentemente os valiosos bens do oceano sem investir em seu futuro”, acrescentou.
Se compararmos com as 10 maiores economias do planeta, os oceanos ocupariam o sétimo lugar, com um valor anual de bens e serviços de US$ 2,5 trilhões, segundo o informe Reativar a economia oceânica, elaborado pelo WWF em associação com o Instituto da Mudança Mundial, da Universidade de Queensland, da Austrália, e a consultoria The Boston Consulting Group. O valor atual dos oceanos em sua totalidade chegaria a US$ 24 trilhões, calcula o estudo.
Após nove anos de intensas negociações, um Grupo de Trabalho da Organização das Nações Unidas (ONU), integrado pelos 193 Estados membros, acordou em janeiro convocar uma conferência intergovernamental para redigir um tratado juridicamente vinculante com a finalidade de conservar a vida marinha e os recursos genéticos dos oceanos, que agora estão, em grande parte, fora do alcance da lei.
Palitha Kohona, um dos presidentes do Grupo de Trabalho, que foi embaixador do Sri Lanka junto à ONU, disse à IPS que os oceanos são a próxima fronteira para a exploração comercial de grandes empresas, sobretudo aquelas que buscam desenvolver produtos farmacêuticos lucrativos a partir de organismos vivos e não vivos que existem em grande quantidade nas águas de alto mar.
“Os países tecnicamente avançados, que já estão com seus navios de pesquisa nos oceanos, e alguns dos quais desenvolvem produtos, incluídos valiosos medicamentos, com base no material biológico extraído de alto mar, resistem à ideia de regular a exploração deste tipo de material e compartilhar seus benefícios”, acrescentou Kohona.
Segundo a ONU, as águas de alto mar são aquelas que ficam fora das zonas de exclusão econômica nacionais, que constituem 64% dos oceanos, e o leito marinho que está além das plataformas continentais de cada país. Estas áreas representam quase 50% da superfície da Terra, e incluem alguns dos ecossistemas mais importantes para o ambiente, criticamente ameaçados e menos protegidos do planeta.
O tratado internacional proposto, o Acordo sobre a Biodiversidade em Alto Mar, abordaria o marco legal e institucional insuficiente, fragmentado e mal implementado que, atualmente, não protege os mares internacionais das numerosas ameaças que enfrentam no século XXI. Segundo o informe do WWF, mais de dois terços do valor anual dos oceanos dependem do estado saudável das águas para manter sua produção econômica.
A pesca minguante, o desmatamento dos mangues, bem com o desaparecimento dos corais e da vegetação marinha ameaçam a potencialidade econômica dos oceanos que sustenta os meios de vida de milhões de pessoas em todo o mundo. O informe também alerta que o oceano está mudando mais rapidamente do que em qualquer outro momento da história. Ao mesmo tempo, o crescimento demográfico e a dependência humana do mar fazem com que a restauração da econômica oceânica e de seus principais recursos seja um assunto de urgência internacional.
O estudo do WWF especificamente indica a mudança climática como principal causa da decadência da saúde dos oceanos. No ritmo atual do aquecimento global, os arrecifes de coral, que proporcionam alimentos, emprego e proteção contra as tempestades a centenas de milhões de pessoas, desaparecerão completamente até 2050. Mais do que aquecer as águas, a mudança climática provoca o aumento da acidez dos oceanos, algo que o meio ambiente demorará centenas de gerações para remediar.
A superexploração é outra das principais causas da decadência oceânica, já que 90% da população mundial de peixes foi superexplorada ou explorada em 100%, afirma o estudo. A população de atum vermelho do Pacífico diminuiu 96%, segundo o WWF.
“Não é muito tarde para reverter estas tendências preocupantes e garantir um oceano saudável que beneficie as pessoas, as empresas e a natureza”, afirma o documento, ao mesmo tempo em que propõe um plano de ação de oito pontos que restauraria os recursos oceânicos em todo seu potencial.
Entre as soluções mais urgentes está a incorporação da recuperação dos oceanos aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) que a ONU proporá este ano, a adoção de medidas internacionais contra a mudança climática e o cumprimento dos compromissos assumidos para proteger as áreas costeiras marinhas.
“O oceano nos alimenta, nos dá emprego e sustenta nossa saúde e nosso bem-estar. Mas, estamos permitindo que se desmorone diante de nossos olhos. Se os relatos cotidianos sobre a má saúde dos oceanos não inspiram nossos dirigentes, talvez o faça a dura análise econômica”, afirmou Lambertini. “Temos que trabalhar seriamente para proteger os oceanos, começando por compromissos mundiais reais sobre o clima e o desenvolvimento sustentável”, ressaltou. Envolverde/IPS/Utopia Sustentável

terça-feira, 28 de abril de 2015

Aquecimento em oceanos pode ter efeitos imprevisíveis para a Terra




Mussismilia-harttii com peixe. Foto: Projeto Coral Vivo
Mussismilia-harttii com peixe. Foto: Projeto Coral Vivo
Liderado por brasileiros, estudo sobre fixação de nitrogênio em corais foi publicado pelo grupo ‘Nature’
A elevação de temperatura nos oceanos poderá influenciar no processo de fixação de nitrogênio em corais. A conclusão é do estudo que acaba de ser publicado no “The ISME Journal”, do grupo “Nature”, que investigou os efeitos do aquecimentosobre as bactérias que vivem em associação com o coral Mussismilia harttii e que são capazes de fixar esse componente essencial para a vida. Ele foi realizado no mesocosmo marinho do Projeto Coral Vivo – um sistema experimental alimentado constantemente pela água do mar com equipamentos que permitem simular as projeções do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas), da ONU, para as próximas décadas.
Percebemos que a comunidade microbiana que fixa o nitrogênio ficou aumentada e a diversidade alterada consideravelmente com os tratamentos elevados a +2 º C e +4,5 º C. Isso é um alerta vermelho sobre o nitrogênio nosoceanos. Esse estudo com corais aponta que a diversidade e a quantidade de microrganismos com funções essenciais parao planeta poderá ser modificada, com consequências imprevisíveis para os ciclos biogeoquímicos ao longo do tempo”, observa Raquel Peixoto, coordenadora da pesquisa e professora do Instituto de Microbiologia Paulo de Góes da UFRJ. O estudo faz parte da Rede de Pesquisas Coral Vivo, que é patrocinada pela Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental e copatrocinada pelo Arraial d’Ajuda Eco Parque.
O experimento nos tanques foi feito durante 21 dias, após 15 dias de aclimatação e, em seguida, eles foram avaliados emlaboratório. Alterações da diversidade da microbiota do coral Mussismilia harttii do mar para o experimento também foram consideradas. Do controle para os que passaram pelo aquecimento monitorado dos tanques, houve ainda mais proliferação de microrganismos fixadores de nitrogênio, como algumas cianobactérias. Cabe observar que esse tipo de desenvolvimento costuma ser encontrado também nos casos em que os corais estão doentes, por exemplo. Tudo o que acontece no microambiente está relacionado ao macroambiente. “Para se ter uma ideia da importância do tema, a presença e a atividade da microbiota de corais está relacionada à degradação de DMSP, que é um composto produzido no coral. Quando esse componente é degradado ele vai para a atmosfera em forma de DMS, que está relacionado à formação de nuvens e a manutenção do clima local”,exemplifica a bióloga.
Escolhemos a espécie Mussismilia harttii, conhecida como coral vela ou coral couve-flor, porque é uma das principais construtoras de recifes brasileiros e cujo gênero só ocorre em águas brasileiras”, justifica o biólogo marinho Clovis Castro, coordenador geral do Projeto Coral Vivo e coordenador executivo do Plano de Ação Nacional para Conservação dos Ambientes Coralíneos (PAN Corais).
Mussismilia harttii - colônia gigante no Recife de Fora - mais de  3 metros de diâmetro. Projeto Coral Vivo
Mussismilia harttii – colônia gigante no Recife de Fora – mais de 3 metros de diâmetro. Projeto Coral Vivo
O trabalho fez parte da tese de doutorado do Henrique Fragoso dos Santos, e é o primeiro estudo que verifica o efeito da temperatura sobre as bactérias fixadoras de nitrogênio em recifes de coral. O estudo foi liderado por brasileiros, com o desenvolvimento do sistema experimental mesocosmo, a formulação da pergunta, a execução do experimento, assim como a liderança nas análises e na discussão. Foi realizado com uma colaboração ampla entre os pesquisadores do Instituto de Microbiologia Paulo de Góes, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, do Projeto Coral Vivo e do Centro para Estudos Ecológicos e Evolucionários, da Universidade de Groningen, Holanda.
Para o professor Clovis Castro, isso demonstra o potencial do trabalho colaborativo entre pesquisadores de diferentes especialidades sobre um problema concreto com o qual o Brasil se depara. “Estes e outros grupos de pesquisa brasileiros estão desenvolvendo diversos estudos para compreender os efeitos das mudanças climáticas e da qualidade da água, especificamente poluição, sobre os seres recifais. O objetivo é ajudar a compreender o que pode acontecer em diferentes cenários e, eventualmente, ajudar a procurar formas de aumentar a resiliência de nossos recifes frente às alterações esperadas”, conclui Castro.
Nitrogênio é essencial para a vida
Vale lembrar que o nitrogênio é um componente essencial para todos os seres vivos, e é constituinte de proteínas, DNA e do RNA, por exemplo. Contudo, a maior parte desse elemento se encontra na atmosfera, e de forma não assimilável por organismos em geral. Só quem consegue fixar esse nitrogênio atmosférico são alguns procariotos. Resumidamente, eles disponibilizam o nitrogênio fixado na forma de amônia ou nitrato no solo para as plantas, que os transforma em formas orgânicas, como aminoácidos. Os herbívoros consomem essas plantas, os carnívoros consomem os herbívoros e o nitrogênio, desta forma, no resto da cadeia. Esse processo também ocorre no ambiente marinho, onde o nitrogênio é transferido dos procariotos para os animais por meio de algas e plâncton.  Recentemente foi descoberto que os fixadores de nitrogênio também beneficiam os corais, por meio desta simbiose específica “Como esses microrganismos são os únicos que conseguem fixar o nitrogênio da atmosfera e disponibilizá-lo para outros organismos, torna-se importante que se estude a dinâmica deles, simulando as mudanças climáticas nos oceanos”, afirma Raquel.
Esse estudo aponta que a alteração de temperatura dos oceanos poderá alterar a relação simbiótica entre os microrganismos fixadores de nitrogênio e os corais. “Essa fixação de nitrogênio ocorre em nível intracelular, onde grande parte deste composto fixado é usado pelas algas zooxantelas – algas que vivem em simbiose com os corais e que são extremamente importantes para a nutrição deles”, explica o biólogo marinho Gustavo Duarte, coordenador executivo do Projeto Coral Vivo, e que participou do estudo.
Entenda o funcionamento do mesocosmo marinho do Coral Vivo
Com o intuito de simular as condições propostas pelo IPCC da ONU, o Projeto Coral Vivo desenvolveu um sistema experimental com 16 tanques que recebem água do mar continuamente, com capacidade de alterar temperatura, acidez ou adicionar poluentes em tempo real. De acordo com o biólogo Gustavo Duarte, esse mesocosmo marinho foi construído de maneira a propiciar maior realismo em comparação às pesquisas experimentais convencionais feitas em laboratório, sem o inconveniente das dificuldades logísticas das pesquisas de campo, como momentos de mar agitado e a impossibilidade do pesquisador permanecer muito tempo sob a água.
O ponto forte desse mesocosmo marinho é manter muitas das variáveis ambientais encontradas no mar, podendo alterar sua condição e simular impactos, como os de mudanças climáticas e contaminações por poluentes diversos, mantendo o realismo”, explica Duarte. O especialista destaca que eles têm conseguido resultados tão próximos aos do mar que, no experimento de acidificação em 2012, os corais que estavam sendo testados desovaram em pleno experimento. Com isso, os resultados são mais aplicáveis ao que se espera das mudanças climáticas futuras. Nossos experimentos vêm apresentando resultados significativamente interessantes e claros, comemora o especialista. O lugar escolhido como base de pesquisas do Coral Vivo é Arraial d’Ajuda, sul da Bahia – uma das regiões mais ricas do país em biodiversidade marinha.
Projeto Coral Vivo
O Coral Vivo faz parte da Rede BIOMAR (Rede de Projetos de Biodiversidade Marinha), que reúne também os projetos Tamar, Baleia Jubarte, Golfinho Rotador e Albatroz. Todos patrocinados pela Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental, eles atuam de forma complementar na conservação da biodiversidade marinha do Brasil, trabalhando nas áreas de proteção e pesquisa das espécies e dos habitats relacionados. As ações do Coral Vivo são viabilizadas também pelo copatrocínio do Arraial d’Ajuda Eco Parque, e realizadas pela Associação Amigos do Museu Nacional (SAMN) e pelo Instituto Coral Vivo (ICV). Mais informações na página no Facebook e no site.  e no site.
(Coral Vivo/Utopia Sustentável)