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quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Aquecimento pode triplicar seca na Amazônia


 Seca em Silves (AM) em 2005. Foto: Ana Cintia Gazzelli/WWF

Seca em Silves (AM) em 2005. Foto: Ana Cintia Gazzelli/WWF
Modelos de computador sugerem que leste amazônico, que contém a maior parte da floresta, teria mais estiagens, incêndios e morte de árvores, enquanto o oeste ficaria mais chuvoso.
As mudanças climáticas podem aumentar a frequência tanto de secas quanto de chuvas extremas na Amazônia antes do meio do século, compondo com o desmatamento para causar mortes maciças de árvores, incêndios e emissões de carbono. A conclusão é de uma avaliação de 35 modelos climáticos aplicados à região, feita por pesquisadores dos EUA e do Brasil.
Segundo o estudo, liderado por Philip Duffy, do WHRC (Instituto de Pesquisas de Woods Hole, nos EUA) e da Universidade Stanford, a área afetada por secas extremas no leste amazônico, região que engloba a maior parte da Amazônia, pode triplicar até 2100. Paradoxalmente, a frequência de períodos extremamente chuvosos e a área sujeita a chuvas extremas tende a crescer em toda a região após 2040 – mesmo nos locais onde a precipitação média anual diminuir.
Já o oeste amazônico, em especial o Peru e a Colômbia, deve ter um aumento na precipitação média anual.
A mudança no regime de chuvas é um efeito há muito teorizado do aquecimento global. Com mais energia na atmosfera e mais vapor d’água, resultante da maior evaporação dos oceanos, a tendência é que os extremos climáticos sejam amplificados. As estações chuvosas – na Amazônia, o período de verão no hemisfério sul, chamado pelos moradores da região de “inverno” ficam mais curtas, mas as chuvas caem com mais intensidade.
No entanto, a resposta da floresta essas mudanças tem sido objeto de controvérsias entre os cientistas. Estudos da década de 1990 propuseram que a reação da Amazônia fosse ser uma ampla “savanização”, ou mortandade de grandes árvores, e a transformação de vastas porções da selva numa savana empobrecida.
Outros estudos, porém, apontaram que o calor e o CO2 extra teriam o efeito oposto – o de fazer as árvores crescerem mais e fixarem mais carbono, de modo a compensar eventuais perdas por seca. Na média, portanto, o impacto do aquecimento global sobre a Amazônia seria relativamente pequeno.
Ocorre que a própria Amazônia encarregou-se de dar aos cientistas dicas de como reagiria. Em 2005, 2007 e 2010, a floresta passou por secas históricas. O resultado foi ampla mortalidade de árvores e incêndios em florestas primárias em mais de 85 mil quilômetros quadrados. O grupo de Duffy, também integrado por Paulo Brando, do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), aponta que de 1% a 2% do carbono da Amazônia foi lançado na atmosfera em decorrência das secas da década de 2000. Brando e colegas do Ipam também já haviam mostrado que a Amazôniaestá mais inflamável, provavelmente devido aos efeitos combinados do clima e do desmatamento.
Os pesquisadores simularam o clima futuro da região usando os modelos do chamado projeto CMIP5, usado pelo IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática) no seu último relatório de avaliação do clima global. Um dos membros do grupo, Chris Field, de Stanford, foi um dos coordenadores do relatório – foi também candidato à presidência do IPCC na eleição realizada na semana passada, perdendo para o coreano Hoesung Lee.
Os modelos de computador foram testados no pior cenário de emissões, o chamado RMP 8.5, no qual se assume que pouca coisa será feita para controlar emissões de gases-estufa.
Eles não apenas captaram bem a influência das temperaturas dos oceanos Atlântico e Pacífico sobre o padrão de chuvas na Amazônia – diferenças entre os dois oceanos explicam por que o leste amazônico ficará mais seco e o oeste, mais úmido –, como também mostraram nas simulações de seca futura uma característica das secas recorde de 2005 e 2010: o extremo norte da Amazônia teve grande aumento de chuvas enquanto o centro e o sul estorricavam.
Segundo os pesquisadores, o estudo pode ser até mesmo conservador, já que só levou em conta as variações de precipitação. “Por exemplo, as chuvas no leste da Amazônia têm uma forte dependência da evapotranspiração, então uma redução na cobertura de árvores poderia reduzir a precipitação”, escreveram Duffy e Brando. “Isso sugere que, se os processos relacionados a mudanças no uso da terra fossem mais bem representados nos modelos do CMIP5, a intensidade das secas poderia ser maior do que a projetada aqui.”
O estudo foi publicado na PNAS, a revista da Academia Nacional de Ciências dos EUA. (Observatório do Clima/ #Envolverde/Utopia Sustentável)

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Gases de efeito estufa batem recordes


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Foto: Shutterstock
Dióxido de carbono, metano e óxido nitroso – os principais gases de efeito estufa liberados na atmosfera da Terra – mais uma vez atingiram concentrações médias recordes para o ano de 2014. Foto: Shutterstock
Em 2014 os oceanos do mundo incharam, os principais gases de efeito estufa que alimentam o aquecimento global bateram recordes e a temperatura da superfície do planeta atingiu seu ponto mais quente em 135 anos – informaram pesquisadores internacionais na quinta-feira, 16 de julho.
Os resultados estão contidos no Relatório sobre o Estado da Temperatura de 2014, um estudo que examina temperatura, precipitação e eventos climáticos ao redor do mundo.
Um total de 413 cientistas de 58 países de todo o mundo contribuíram para o relatório, o 25º de uma série que se baseia em dados coletados pelas estações de monitoramento ambiental e instrumentos em terra, água, gelo e no espaço.
O calor atingiu profundamente os oceanos e a atmosfera, e os cientistas alertam que o clima continua a mudar rapidamente em comparação à era pré-industrial – mudança que ainda não tem um fim à vista.
“Se fôssemos congelar os gases de efeito estufa em seus níveis atuais, os mares continuariam esquentando durante séculos, até milênios”, explicou à AFP o oceanógrafo Greg Johnson, do Laboratório Ambiental Marinho do Pacífico, ligado à Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA).
“E isso significa que quando eles aquecem, também se expandem e o nível do mar continuaria a subir”, afirmou Johnson em uma teleconferência para discutir o relatório.
‘Imagem consistente’
Muitas das mesmas tendências verificadas nas últimas duas décadas continuaram em 2014.
“O dióxido de carbono, metano e óxido nitroso – os principais gases de efeito estufa liberados na atmosfera da Terra – mais uma vez atingiram concentrações médias recordes para o ano de 2014″, afirmou.
Em meio a registros recordes de calor em todo o mundo, o leste da América do Norte foi a única região principal do mundo que experimentou temperaturas abaixo da média anual.
“A Europa teve seu ano mais quente já registrado por uma ampla margem, com cerca de duas dezenas de países batendo seus recordes de temperatura nacionais anteriores”, informou o documento.
“Muitos países na Ásia tiveram temperaturas anuais entre as 10 mais quentes já registradas, a África teve temperaturas acima da média em quase todo o continente ao longo de 2014; a Austrália vivenciou seu terceiro ano mais quente já registrado, após o calor recorde de 2013″.
Na América Latina, o México teve seu ano mais quente já registrado, enquanto Argentina e Uruguai tiveram, cada um, seu segundo ano mais quente já registrado.
“É um quadro bastante consistente”, disse Thomas Karl, diretor dos centros nacionais da NOAA para Informação Ambiental.
Foto: Shutterstock
Foto: Shutterstock
Aquecimento dos oceanos
Os oceanos do mundo tiveram um recorde de calor no ano passado, e o nível do mar também esteve em seu nível mais alto nos tempos modernos.
“Devido tanto ao aquecimento do oceano e quanto ao derretimento do gelo, o nível do mar global também bateu seu recorde em 201, 67 milímetros, maior do que a média anual de 1993″, quando as medições de satélite do nível dos oceanos começaram, disse o relatório.
Johnson explicou que os oceanos são uma boa medida do aquecimento global porque absorvem grande parte do calor e dióxido de carbono emitido pela queima de combustíveis fósseis.
Tendência irreversível
Infelizmente, mesmo que a humanidade tome medidas fortes para reduzir o uso dos combustíveis fósseis, a tendência não se reverteria tão cedo, apontou o pesquisador.
“Eu penso nisso mais como um volante ou um trem de carga. É preciso um grande esforço para fazer funcionar”, comparou Johnson.

O relatório completo foi publicado no Boletim da Sociedade Meteorológica Americana. Os dados do estudo reforçam a necessidade de que um acordo em nível global para a redução dos gases de efeito estufa – capaz de substituir o Protocolo de Kyoto – seja fechado em dezembro, quando representantes de 196 países estarão reunidos em Paris para a 21ª Conferência da ONU sobre Mudanças do Clima (COP21).(EcoD/ #Envolverde/Utopia Sustentável)

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Aquecimento é comparado a ameaça nuclear


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Alguns dos signatários da Declaração de Mainau 2015 sobre Mudanças Climáticas. Foto: Ch. Flemming / Lindau Nobel Laureate Meetings
Alguns dos signatários da Declaração de Mainau 2015 sobre Mudanças Climáticas. Foto: Ch. Flemming / Lindau Nobel Laureate Meetings
Em encontro anual na Alemanha, ganhadores de prêmios Nobel em ciência pedem acordo decisivo na conferência de Paris e esforço conjunto para evitar ‘tragédia humana por atacado’

Quase 40 vencedores de prêmios Nobel recomendam que os governos ajam imediatamente para reduzir emissões de gases de efeito estufa e minimizar os riscos das mudanças climáticas. Os cientistas, participantes da reunião anual de laureados com o Nobel em Mainau, na Alemanha, compararam os riscos das mudanças no clima à ameaça das armas nucleares. “Há quase 60 anos, aqui em Mainau, uma reunião semelhante de laureados com o Nobel de ciência lançou uma declaração sobre os perigos inerentes à então recém-desenvolvida tecnologia das armas nucleares. Até agora, temos evitado a guerra nuclear, embora a ameaça seja permanente. Acreditamos que nosso mundo hoje enfrenta outra ameaça de magnitude comparável”, diz a declaração, assinada por 36 dos 65 participantes do encontro.
O documento ressalta a importância de os governos agirem imediatamente e firmar um acordo decisivo em Paris, em dezembro deste ano, com o esforço conjunto de todas as nações, desenvolvidas ou em desenvolvimento. “A omissão sujeitará as futuras gerações da humanidade ao risco inconcebível e inaceitável”, diz o texto. A declaração cita a responsabilidade dos cientistas quanto à questão, uma vez que o progresso da ciência também gerou aumento do consumo de recursos naturais. “Se não for controlada, a demanda crescente por alimentos, água e energia acabará por superar a capacidade da Terra para satisfazer as necessidades da humanidade, e vai levar a tragédia humana por atacado.”
Os cientistas também alertaram para a necessidade de ação urgente em relação às populações mais vulneráveis a eventos extremos, em especial países e comunidades pobres do planeta. David Gross, Nobel de Física em 2004, um dos porta-vozes da declaração, relatou sua recente experiência em Ladakh, na Ásia. “São comunidades frágeis, muito dependentes dos rios que brotam das geleiras do Himalaia, e eles são os que sofrem em primeiro lugar.” O físico também aponta o risco de conflitos motivados pelos eventos extremos e escassez de recursos.
A declaração reafirma a importância das conclusões do IPCC, embora ainda aja incerteza entre alguns cientistas sobre as consequências das mudanças no clima. “Apesar de não ser perfeito, acreditamos que os esforços que levaram ao relatório representam a melhor fonte de informações sobre o estado atual do conhecimento sobre as mudanças climáticas”, diz a declaração. “Nós não falamos como especialistas na área, mas como um grupo diverso de cientistas que têm um profundo respeito e compreensão da integridade do processo científico.”

Sobre as dúvidas acerca da ciência do clima, o Nobel de medicina Peter Doherty separa ceticismo de negação. “Se você é cético, conversa com outros pesquisadores, olha para os dados. Se está em negação, simplesmente rejeita tudo o que é publicado.” Em uma crítica aos céticos do clima nos Estados Unidos, em especial aos políticos que advogam contra a causa no país, Steven Chu, Nobel de Física e ex-secretário de Energia dos EUA, argumenta que os satélites mostram claramente a diminuição das geleiras em todo o mundo. “Mas há pessoas no Congresso que não querem olhar para imagens de satélite. Isso é o que eu chamo de negação.” (Oservatório do Clima/ #Envolverde/Utopia Sustentável)

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Estabilizar aquecimento ainda é possível


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Geleira Hubbard en Seward, no Alasca. Foto: Bigstock/IPS
Geleira Hubbard en Seward, no Alasca. Foto: Bigstock/IPS
Adaptações na geração e no uso de energia poderiam contribuir para cenário climático mais otimista – em tese, diz estudo. O foco da nova pesquisa são as emissões no setor de energia.
Um estudo publicado recentemente no periódicoNature Climate Change sugere que a meta de limitar o aumento global de temperatura neste século a 1,5°C ainda não está totalmente fora de alcance. As possibilidades, porém, são remotas, e os custos, elevados.
A meta de 1,5°C foi reconhecida pela ONU em 2009, no Acordo de Copenhague, como um objetivo desejável de estabilização do aquecimento global. Ela resultou da pressão de países-ilhas, mais vulneráveis às consequências das mudanças no clima. Para eles, conter o aquecimento em 2°C em relação aos níveis pré-industriais pode não ser o suficiente. No entanto, como a própria meta de 2°C é algo cada vez mais distante, pouca gente tem levado a sério a possibilidade de alcançar o objetivo mais seguro de estabilização.
O foco da nova pesquisa são as emissões no setor de energia. “As ações são semelhantes ao cenário de limitação em 2°C, mas exigem ações de mitigação mais rápidas”, diz o estudo. O primeiro passo seria transformar o setor em um sistema de “carbono negativo” em 2050. No transporte, as mudanças também devem ser bruscas: os cenários incluem um significativo aumento no uso de veículos elétricos, além de 40-50% de biocombustíveis em 2050.
Os cenários para que o aquecimento se limite em 1,5°C também exigem otimismo quanto à demanda por energia: consideram apenas um ligeiro aumento da demanda atual até 2100, apesar do crescimento populacional e desenvolvimento econômico estável. Para tanto, políticas de eficiência energética têm papel primordial. “A maioria dos cenários para a limitação em 1,5°C assumem uma diminuição do consumo de energia por unidade do PIB em um ritmo mais rápido do que o observado historicamente”, ressaltam os autores do estudo.
Isto implica em grandes mudanças na economia global, já que hoje o elo entre emissões, uso de energia e atividades econômicas é muito forte. “Indicadores econômicos relevantes dos desafios de mitigação incluem a precificação do carbono para quantificar os custos marginais de redução de emissões, bem como o custo agregado e custos de mitigação de curto prazo”, diz a pesquisa.
Para além de todo o otimismo, o estudo também deixa bem claro que os custos de mitigação em longo prazo são maiores – os custos agregados podem ser duas vezes mais que os custos da limitação do aquecimento em 2°C. A redução de CO2 na atmosfera deveria chegar a zero até meados do século, de 10 a 20 anos mais cedo do que em cenários consistentes para a limitação em 2°C, considerando também emissões líquidas negativas entre 2050 e 2100 – o que não é um requisito para o máximo em 2°C.

“A janela de emissões em 2030 que ainda mantém a opção de limitar o aquecimento a menos de 1,5°C em 2100 é muito menor do que o cenário que aponta para os 2°C. Desviar investimentos para tecnologias de baixo carbono na próxima década é, portanto, fundamental”, determinam os autores, liderados por Joeri Rogelj, do programa de Energia do IIASA (International Institute for Applied Systems Analysis). (Observatório do Clima/ #Envolverde/Utopia Sustentável)

terça-feira, 28 de abril de 2015

Aquecimento em oceanos pode ter efeitos imprevisíveis para a Terra




Mussismilia-harttii com peixe. Foto: Projeto Coral Vivo
Mussismilia-harttii com peixe. Foto: Projeto Coral Vivo
Liderado por brasileiros, estudo sobre fixação de nitrogênio em corais foi publicado pelo grupo ‘Nature’
A elevação de temperatura nos oceanos poderá influenciar no processo de fixação de nitrogênio em corais. A conclusão é do estudo que acaba de ser publicado no “The ISME Journal”, do grupo “Nature”, que investigou os efeitos do aquecimentosobre as bactérias que vivem em associação com o coral Mussismilia harttii e que são capazes de fixar esse componente essencial para a vida. Ele foi realizado no mesocosmo marinho do Projeto Coral Vivo – um sistema experimental alimentado constantemente pela água do mar com equipamentos que permitem simular as projeções do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas), da ONU, para as próximas décadas.
Percebemos que a comunidade microbiana que fixa o nitrogênio ficou aumentada e a diversidade alterada consideravelmente com os tratamentos elevados a +2 º C e +4,5 º C. Isso é um alerta vermelho sobre o nitrogênio nosoceanos. Esse estudo com corais aponta que a diversidade e a quantidade de microrganismos com funções essenciais parao planeta poderá ser modificada, com consequências imprevisíveis para os ciclos biogeoquímicos ao longo do tempo”, observa Raquel Peixoto, coordenadora da pesquisa e professora do Instituto de Microbiologia Paulo de Góes da UFRJ. O estudo faz parte da Rede de Pesquisas Coral Vivo, que é patrocinada pela Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental e copatrocinada pelo Arraial d’Ajuda Eco Parque.
O experimento nos tanques foi feito durante 21 dias, após 15 dias de aclimatação e, em seguida, eles foram avaliados emlaboratório. Alterações da diversidade da microbiota do coral Mussismilia harttii do mar para o experimento também foram consideradas. Do controle para os que passaram pelo aquecimento monitorado dos tanques, houve ainda mais proliferação de microrganismos fixadores de nitrogênio, como algumas cianobactérias. Cabe observar que esse tipo de desenvolvimento costuma ser encontrado também nos casos em que os corais estão doentes, por exemplo. Tudo o que acontece no microambiente está relacionado ao macroambiente. “Para se ter uma ideia da importância do tema, a presença e a atividade da microbiota de corais está relacionada à degradação de DMSP, que é um composto produzido no coral. Quando esse componente é degradado ele vai para a atmosfera em forma de DMS, que está relacionado à formação de nuvens e a manutenção do clima local”,exemplifica a bióloga.
Escolhemos a espécie Mussismilia harttii, conhecida como coral vela ou coral couve-flor, porque é uma das principais construtoras de recifes brasileiros e cujo gênero só ocorre em águas brasileiras”, justifica o biólogo marinho Clovis Castro, coordenador geral do Projeto Coral Vivo e coordenador executivo do Plano de Ação Nacional para Conservação dos Ambientes Coralíneos (PAN Corais).
Mussismilia harttii - colônia gigante no Recife de Fora - mais de  3 metros de diâmetro. Projeto Coral Vivo
Mussismilia harttii – colônia gigante no Recife de Fora – mais de 3 metros de diâmetro. Projeto Coral Vivo
O trabalho fez parte da tese de doutorado do Henrique Fragoso dos Santos, e é o primeiro estudo que verifica o efeito da temperatura sobre as bactérias fixadoras de nitrogênio em recifes de coral. O estudo foi liderado por brasileiros, com o desenvolvimento do sistema experimental mesocosmo, a formulação da pergunta, a execução do experimento, assim como a liderança nas análises e na discussão. Foi realizado com uma colaboração ampla entre os pesquisadores do Instituto de Microbiologia Paulo de Góes, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, do Projeto Coral Vivo e do Centro para Estudos Ecológicos e Evolucionários, da Universidade de Groningen, Holanda.
Para o professor Clovis Castro, isso demonstra o potencial do trabalho colaborativo entre pesquisadores de diferentes especialidades sobre um problema concreto com o qual o Brasil se depara. “Estes e outros grupos de pesquisa brasileiros estão desenvolvendo diversos estudos para compreender os efeitos das mudanças climáticas e da qualidade da água, especificamente poluição, sobre os seres recifais. O objetivo é ajudar a compreender o que pode acontecer em diferentes cenários e, eventualmente, ajudar a procurar formas de aumentar a resiliência de nossos recifes frente às alterações esperadas”, conclui Castro.
Nitrogênio é essencial para a vida
Vale lembrar que o nitrogênio é um componente essencial para todos os seres vivos, e é constituinte de proteínas, DNA e do RNA, por exemplo. Contudo, a maior parte desse elemento se encontra na atmosfera, e de forma não assimilável por organismos em geral. Só quem consegue fixar esse nitrogênio atmosférico são alguns procariotos. Resumidamente, eles disponibilizam o nitrogênio fixado na forma de amônia ou nitrato no solo para as plantas, que os transforma em formas orgânicas, como aminoácidos. Os herbívoros consomem essas plantas, os carnívoros consomem os herbívoros e o nitrogênio, desta forma, no resto da cadeia. Esse processo também ocorre no ambiente marinho, onde o nitrogênio é transferido dos procariotos para os animais por meio de algas e plâncton.  Recentemente foi descoberto que os fixadores de nitrogênio também beneficiam os corais, por meio desta simbiose específica “Como esses microrganismos são os únicos que conseguem fixar o nitrogênio da atmosfera e disponibilizá-lo para outros organismos, torna-se importante que se estude a dinâmica deles, simulando as mudanças climáticas nos oceanos”, afirma Raquel.
Esse estudo aponta que a alteração de temperatura dos oceanos poderá alterar a relação simbiótica entre os microrganismos fixadores de nitrogênio e os corais. “Essa fixação de nitrogênio ocorre em nível intracelular, onde grande parte deste composto fixado é usado pelas algas zooxantelas – algas que vivem em simbiose com os corais e que são extremamente importantes para a nutrição deles”, explica o biólogo marinho Gustavo Duarte, coordenador executivo do Projeto Coral Vivo, e que participou do estudo.
Entenda o funcionamento do mesocosmo marinho do Coral Vivo
Com o intuito de simular as condições propostas pelo IPCC da ONU, o Projeto Coral Vivo desenvolveu um sistema experimental com 16 tanques que recebem água do mar continuamente, com capacidade de alterar temperatura, acidez ou adicionar poluentes em tempo real. De acordo com o biólogo Gustavo Duarte, esse mesocosmo marinho foi construído de maneira a propiciar maior realismo em comparação às pesquisas experimentais convencionais feitas em laboratório, sem o inconveniente das dificuldades logísticas das pesquisas de campo, como momentos de mar agitado e a impossibilidade do pesquisador permanecer muito tempo sob a água.
O ponto forte desse mesocosmo marinho é manter muitas das variáveis ambientais encontradas no mar, podendo alterar sua condição e simular impactos, como os de mudanças climáticas e contaminações por poluentes diversos, mantendo o realismo”, explica Duarte. O especialista destaca que eles têm conseguido resultados tão próximos aos do mar que, no experimento de acidificação em 2012, os corais que estavam sendo testados desovaram em pleno experimento. Com isso, os resultados são mais aplicáveis ao que se espera das mudanças climáticas futuras. Nossos experimentos vêm apresentando resultados significativamente interessantes e claros, comemora o especialista. O lugar escolhido como base de pesquisas do Coral Vivo é Arraial d’Ajuda, sul da Bahia – uma das regiões mais ricas do país em biodiversidade marinha.
Projeto Coral Vivo
O Coral Vivo faz parte da Rede BIOMAR (Rede de Projetos de Biodiversidade Marinha), que reúne também os projetos Tamar, Baleia Jubarte, Golfinho Rotador e Albatroz. Todos patrocinados pela Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental, eles atuam de forma complementar na conservação da biodiversidade marinha do Brasil, trabalhando nas áreas de proteção e pesquisa das espécies e dos habitats relacionados. As ações do Coral Vivo são viabilizadas também pelo copatrocínio do Arraial d’Ajuda Eco Parque, e realizadas pela Associação Amigos do Museu Nacional (SAMN) e pelo Instituto Coral Vivo (ICV). Mais informações na página no Facebook e no site.  e no site.
(Coral Vivo/Utopia Sustentável) 

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Desenvolvimento econômico x crise ambiental




“A posição do Brasil é um pouco ambígua; o país já teve um papel de liderança nas negociações sobre as mudanças climáticas, mas esse papel se reduziu na medida em que se optou por ser mais um dos BRICs ao invés de ser uma ponte entre os países desenvolvidos e os países que emergem, como já foi no passado”, avalia o economista Sérgio Besserman Vianna.
“A dicotomia meio ambiente de um lado, e crescimento econômico, combate à pobreza, combate à desigualdade do outro é anacrônica, é algo para ficar no século passado”, pontua Sérgio Besserman Vianna na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por telefone.
Segundo ele, neste século está “cada vez mais claro que só poderemos ter perspectivas de crescimento econômico se formos capazes de evitar a continuidade da degradação da natureza do planeta”. O economista enfatiza que as incertezas acerca de como a “humanidade vai reagir principalmente frente às mudanças climáticas” está “paralisando investimentos” e dificultando o cálculo da taxa de retorno de projetos de longo prazo. Essa insegurança, menciona, “virou uma restrição à retomada do crescimento desde a crise de 2008, dado que não só não há mais dicotomia, como muito possivelmente uma recuperação efetiva da economia global vai passar por uma tomada de decisões com relação a mudanças climáticas e outros problemas ambientais”.
Defensor de uma governança global para projetar ações relativas ao enfrentamento das mudanças climáticas, o economista enfatiza que um acordo global ou até mesmo uma proposta de governança “não ocorrerá por boa vontade de uma ou outra liderança”. A falta de convergência, assinala, deverá impactar as negociações do acordo a ser firmado em 2015, na Conferência das Partes em Paris, o qual substituirá o Protocolo de Kyoto. “As dificuldades serão imensas porque o que está em jogo é a geopolítica, ou seja, o poder e a segurança energética de países que dependem de fósseis. Também haverá muita dificuldade na distribuição, no cálculo da contribuição que cada país, cada nação dará para a redução dessas emissões, e dificuldades normais em qualquer negociação que afeta interesses envolvendo mais de 170 países”. Enquanto não se chega a um consenso, a prioridade, ressalta, é que “se retirasse imediatamente qualquer subsídio a combustíveis fósseis. Se não se consegue ainda começar a transição para a gigantesca redução das emissões de gases de efeito estufa, pelo menos é importante que se deixe de usar o dinheiro das pessoas, arrecadado em forma de tributo, para subsidiar o aquecimento do planeta”.
A “esperança”, “a grande novidade” poderá surgir durante a COP-21, com a participação dos EUA nas negociações do novo acordo climático. “O presidente Obama aparecerá nessas reuniões, principalmente em Paris, com capital para jogar. Ele não precisará mais ser o ‘cara do veto’, ele tem cartas na mão para o jogo político e diplomático, que são as reduções norte-americanas em função da substituição de carvão por gás natural. Da mesma maneira, a China tem compreensão de que se os Estados Unidos e a União Europeia entrarem em um processo de transmissão para baixo carbono, o crescimento econômico da China vai depender de ela também se engajar nesse processo, caso contrário retaliações comerciais seriam inevitáveis”. E conclui: “No que isso vai resultar e como a mudança da postura desses dois principais atores — Estados Unidos e China — afetará as negociações é o que nós vamos descobrir, mas pelo menos é um fator de alento para que tenhamos esperanças de sair da inércia”.
Sérgio Besserman Vianna é doutor em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, mestre em História Social da Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-RJ e graduado em Economia pela mesma universidade.
Confira a entrevista:
IHU On-Line – É possível pensar em crescimento da economia global sem gerar mais problemas ambientais? Trata-se de uma dicotomia ou essas duas propostas podem ser unidas?
Sérgio Besserman Vianna - Essas duas questões hoje, obrigatoriamente, têm de ser pensadas de uma forma conjunta. No século XXI está cada vez mais claro que não é a natureza, ou seja, o meio ambiente que tem problema. A natureza tem um tempo muito diferente do nosso — dezenas, milhões e bilhões de anos. Assim, qualquer coisa que a humanidade faça, a natureza, no tempo dela, vai se recuperar sem qualquer dificuldade. Mas, ao mesmo tempo, a ciência tem nos informado que esse crescimento tem se acelerado muito nos últimos anos e a natureza do nosso tempo, essa que admiramos, amamos e da qual dependemos, não está mais conseguindo se recuperar das degradações provocadas pelo processo produtivo de consumo humano a tempo de continuar a nos entregar serviços indispensáveis à economia e à humanidade, como clima, solos, biodiversidade, água, etc.
Então, a dicotomia meio ambiente de um lado, e crescimento econômico, combate à pobreza, combate à desigualdade do outro é anacrônica, é algo para ficar no século passado. Neste século é cada vez mais claro que só poderemos ter perspectivas de crescimento econômico se formos capazes de evitar a continuidade da degradação da natureza do planeta. Ao mesmo tempo, como esse conhecimento já está consolidado, a incerteza que continua a existir sobre como a humanidade vai reagir, principalmente, frente às mudanças climáticas, está paralisando investimentos, torna difícil — se não impossível — o cálculo da taxa de retorno de projetos de prazo mais longo e virou uma restrição à retomada do crescimento desde a crise de 2008, dado que não só não há mais dicotomia, como muito possivelmente uma recuperação efetiva da economia global vai passar por uma tomada de decisões com relação a mudanças climáticas e outros problemas ambientais.
IHU On-Line – Como o senhor vê os discursos de desenvolvimento sustentável e economia verde? Há uma tentativa de a economia se sobrepor às questões ambientais? Quais são os temas mais urgentes a serem discutidos quando se trata de economia e meio ambiente, tendo em vista a sustentabilidade e o atual momento econômico e ambiental?
Sérgio Besserman Vianna – É preciso distinguir os impactos ambientais locais — um rio, uma bacia hidrográfica, um território dentro de uma cidade ou um bioma — dos problemas ecossistêmicos globais. Do ponto de vista local, muita coisa tem sido feita, o Sebrae tem sido muito atuante, muitos atores econômicos e sociais têm participado da busca de produções locais. Os principais problemas estão relacionados aos recursos hídricos, como estamos observando hoje a crise no abastecimento de água em São Paulo e nos reservatórios de energia elétrica do país; aos resíduos sólidos, porque nós ainda estamos no século passado, querendo acabar com os lixões, quando no mundo mais desenvolvido o lixo tende a desaparecer, sendo grande parte reciclável e o resto produtor de energia ou outros insumos; e à gestão do território em si, porque a proteção da natureza é uma garantia de que nós vamos continuar a ter oferta de água, de clima e assim por diante. Então, proteger nascentes, proteger matas ciliares, florestas perto de cidades ou áreas verdes têm um impacto considerável no clima e muita coisa tem sido feita nesse contexto por aquilo que chamamos de economia verde. Cada sociedade, cada município, cada comunidade atribuiu um valor maior ou menor a essas questões, mas é crescente o engajamento, a participação e a busca por soluções.
Já no plano global são muitos os problemas, mas dois se destacam. Um deles é a crise da biodiversidade e a extinção das espécies. As projeções são de que até o meio do século serão extintas cerca de 20% ou mais das espécies vivas do planeta, e não sabemos o que ocorrerá quando isso se realizar. Há um acordo global sobre a conservação da biodiversidade, mas ele não é implementado.
O outro problema prioritário é o de mudanças climáticas. Esse é urgente, é grave, é profundo, porque nós não temos tempo, porque o estoque de gases na atmosfera já está elevado demais, já não temos tempo de evitar um aquecimento da temperatura média do planeta superior a 2 graus centígrados. Nos próximos anos, em duas ou três décadas, teremos de ter uma gigantesca revolução tecnológica envolvendo não apenas a produção, a oferta de energia, mas toda a economia, os materiais que se utiliza, o padrão de consumo. Haverá uma grande alteração nos preços relativos da economia de mercado global, negócios grandes deixarão de existir, oportunidades e outros negócios vão surgir e a mudança será muito grande. Se nós não fizermos nada, teremos um aumento da temperatura média do planeta superior a 4,5, talvez 6 graus centígrados, o que não será o fim do mundo, o fim da civilização, mas será um pesadelo com grandes consequências, principalmente sobre populações pobres, que são as que estão em posições mais vulneráveis e têm menos recursos para se defender.
IHU On-Line – Como o senhor avalia as interpretações de alguns economistas de que a transição ecológica é inseparável de uma transição social? Qual pode ser a contribuição dessa transição ecológica para as questões sociais?
Sérgio Besserman Vianna – Essa observação é muito justa. No século XIX, dois jovens, Karl Marx e Engels, escreveram o livro A ideologia alemã. Eles não gostaram do livro, o colocaram na gaveta para não ser publicado, mas ele foi achado, publicado e ali tem uma frase genial: “Só existe uma ciência, a ciência da história”. Essas divisões — economia, sociologia, antropologia, ciência política e a própria ecologia — são janelas que nós criamos para facilitar a tentativa de analisar e de entender a realidade, que é muito complexa, mas só existe uma ciência, uma realidade, e essa realidade é a história.
Na história do século XX, pelo fato de já sermos 7 bilhões de pessoas — seremos 10 bilhões —, pelo impacto ambiental ter aumentado enormemente, pelo fato de termos chegado aos limites do planeta em vários temas, mas com destaque para as mudanças climáticas e a biodiversidade, o que irá acontecer no restante deste século, principalmente na primeira metade, com relação às condições sociais de vida das pessoas, ao processo produtivo, àquilo que é objeto de desejo de consumo, à própria cultura, aos valores, é inseparável das decisões que a humanidade vai tomar com relação à crise ecológica. Nós vamos descobrir, de certa maneira, quem somos: se somos aqueles capazes de agir hoje para evitar problemas lá na frente, daqui a 20, 30 anos, e mais ainda para os nossos filhos e netos, ou se somos aqueles que não nos interessamos por isso, vivemos nossa vida e os que vão nascer no futuro resolverão essa questão mais adiante.
IHU On-Line – O senhor aponta a resolução dessas questões a partir de ações e atitudes individuais. Contudo, pensando no âmbito político, como pensar numa governança global nos dias de hoje, considerando que os países não conseguem chegar a acordos nas Conferências do Clima, por exemplo? Como essa governança global daria conta de catalisar ou sugerir uma direção para os diversos problemas a serem enfrentados atualmente, como as mudanças climáticas, a questão econômica?
Sérgio Besserman Vianna – Essa é uma grande incógnita. De fato não existe hoje uma governança global para essa tomada de decisão. Mais do que isso, a governança global está tão falha que não consegue lidar com praticamente nenhum problema, quanto mais com um problema complexo como esse das mudanças climáticas. Mas, a natureza não espera, ela não está dando a menor importância às nossas dificuldades diplomáticas, geopolíticas, econômicas. Nós temos uma janela de oportunidades de 10, 20 anos, no máximo, para iniciarmos a transição da economia de baixo teor de carbono e evitar os piores cenários de aquecimento global. Então, como haverá um encontro dessa necessidade com a atual incapacidade de tomada de decisão, ninguém sabe. As negociações diplomáticas não sugerem que um acordo seja possível, os interesses a serem contrariados são muito grandes, interesses econômicos, geopolíticos. De outro lado, o conhecimento, principalmente o científico, mas também os relatos de povos ao longo do mundo, que observam as transformações da natureza, deixam claro que, com relação a mudanças climáticas, a decisão tem de ser rápida.
Eu não sei a resposta e ninguém sabe, mas acredito firmemente que ela depende de cada um de nós, não só fazendo a sua parte, reduzindo emissões, etc., mas mais do que isso, fazendo política com “P” maiúsculo, política em torno de ideias. Somos nós os cidadãos do planeta, porque agora todos nós somos cidadãos locais e globais. Se no Brasil fizermos todo o dever de casa com relação ao desmatamento e milagrosamente chegarmos ao desmatamento zero, ainda assim, se formos para os piores cenários de aquecimento global, vamos perder grande parte — se não a maior parte — da Amazônia. Então, agora temos de nos manifestar e exigir dos nossos representantes, dentro das nossas nações, que conheçam o tema — porque são ignorantes na sua maioria — e se posicionem sobre o assunto, e devemos votar levando esse fator em conta.
IHU On-Line – Nas discussões das Conferências do clima sempre pesam as decisões econômicas e políticas dos países. As nações deveriam pensar outro modelo de desenvolvimento?
Sérgio Besserman Vianna – Isso não ocorrerá por boa vontade de uma ou outra liderança. O que está em jogo aqui não é um pequeno problema ambiental, o que está em jogo é a civilização dos combustíveis fósseis, é o jeito como vivemos em todos os lugares, na Escandinávia, na América Latina, na África, na Ásia, nos Estados Unidos. Essa civilização dos combustíveis fósseis tem que terminar, senão o planeta vai aquecer muitíssimo neste século, e o sofrimento em vida e os custos econômicos serão elevadíssimos. Um bom exemplo é perguntar: o que sai mais caro, despoluir a Baía de Guanabara agora ou ter trabalhado para que ela não fosse poluída antes? Despoluir é muito mais caro. Podemos fazer uma analogia com o planeta: enfrentar as consequências desse grande aquecimento global sairá muitíssimo mais caro do que evitá-lo, e já não é mais possível evitá-lo da forma como seria desejado.
Respondendo diretamente sua pergunta: a transição da atual civilização de combustíveis fósseis para uma economia de baixo teor de carbono traz custos, modifica os preços relativos, contraria diversos interesses, mas é inevitável. E todos os negócios, grandes e médias companhias do mundo, os próprios pequenos e médios empreendedores, todos vão se defrontar, em algum momento, com uma dramática alteração dos preços relativos, um custo que afetará muito os seus negócios. É preciso estar atento para evitar os principais problemas e aproveitar as oportunidades, mas o custo da inação já não é mais aceitável.
Então, em algum momento, não sabemos como, passará pela pressão da sociedade civil planetária, a transmissão para o baixo carbono terá de ser uma realidade e, mais do que isso, acelerada.
IHU On-Line – Qual tem sido o desempenho do Brasil no processo de enfrentamento das mudanças climáticas e da transição energética? O Brasil está atento a essa mudança?
Sérgio Besserman Vianna – A posição do Brasil é um pouco ambígua; o país já teve um papel de liderança nas negociações, mas esse papel se reduziu depois na medida em que se optou por ser mais um dos BRICs ao invés de ser uma ponte entre os países desenvolvidos e os países que emergem, como já foi no passado — isso do ponto de vista diplomático. Do ponto de vista político, o assunto já foi mais considerado e atualmente tem sido mais ignorado.
Nós temos um ponto positivo e uma preocupação muito grande: o ponto positivo é a redução do desmatamento; o controle do desmatamento reduziu muito as emissões brasileiras e há um trunfo para ser usado nas negociações. O ponto negativo é que na economia nós fizemos muito pouco, até há bons planos setoriais para a agricultura de baixo carbono e diversos outros, que não foram implementados, mas simultaneamente a nossa matriz energética vem se sujando mais a cada ano.
A matriz energética é muito limpa porque é baseada em hidroeletricidade, mas os problemas de escassez vêm afetando os reservatórios, e por conta disso tem se acionado térmicas, e térmicas a carvão, térmicas a óleo combustível. Nesse sentido, não há uma política clara de constituição de uma matriz energética que não apenas continue tão limpa quanto já foi no passado, mas que se torne mais limpa, ou seja, não há uma aposta clara em eficiência energética e das fontes renováveis de energia que levem em conta a necessidade de transição para baixo carbono.
IHU On-Line – É possível vislumbrar quais são as dificuldades em torno do documento que substituirá Kyoto, que já expirou em 2012, tendo em vista o novo acordo climático global a ser firmado em 2015, na França? Que temas deveriam ser prioridade nesse acordo que já começou a ser negociado?
Sérgio Besserman Vianna – As dificuldades serão imensas porque o que está em jogo é a geopolítica, ou seja, o poder e a segurança energética de países que dependem de fósseis.
Também haverá muita dificuldade na distribuição, no cálculo da contribuição que cada país, cada nação dará para a redução dessas emissões, e dificuldades normais em qualquer negociação que afeta interesses envolvendo mais de 170 países.
A ONU não é uma instituição habilitada à tomada de decisões rápidas; ela representa as nações, mas é pouco eficaz como a teoria dos jogos explicaria perfeitamente, porque qualquer país tem direito de veto e assim por diante.
As dificuldades, então, serão muito grandes, geopolíticas e principalmente econômicas, porque o que está em jogo também é o ritmo de depreciação dos ativos, é a mudança no processo de produção de consumo. É verdade que grandes companhias e empresários do mundo têm perfeita consciência de todo esse problema e já se posicionam para o novo mundo, digamos assim, mas também há muitas companhias e empresários que preferem ignorar e apostar tudo no lucro de curto prazo. Essas resistências serão as maiores dificuldades.
A prioridade maior de todas — porque embora haja uma data para o acordo em 2015, pode não se chegar a esse acordo — seria que em todos os países do mundo se retirasse imediatamente qualquer subsídio a combustíveis fósseis. Se não se consegue ainda começar a transição para a gigantesca redução das emissões de gases de efeito estufa, pelo menos é importante que se deixe de usar o dinheiro das pessoas, arrecadado em forma de tributo, para subsidiar o aquecimento do planeta. Isso ocorre na maior parte dos países e também no Brasil, por exemplo, com a manutenção artificialmente baixa do preço da gasolina, ou com subsídios na compra de automóveis sem discriminar os veículos que emitem muito ou que são mais eficientes.
IHU On-Line – Em relação à geopolítica, quais países terão mais peso nas negociações de 2015? Nas negociações de Kyoto, os EUA dificultaram as negociações. Hoje o país ainda desempenha um papel fundamental no sentido de assumir uma postura contrária ao acordo?
Sérgio Besserman Vianna – Até hoje nós tivemos um jogo naturalmente complicado, mas tanto os Estados Unidos quanto a China eram atores mais voltados para vetar e embarreirar o avanço do que para fazer as negociações progredirem. Isso mudou muito nos últimos anos com o gás não convencional — que no Brasil nós chamamos gás de xisto — nos Estados Unidos. Eles passaram a ter quase autonomia energética por mais de um século e meio, e embora o gás natural seja um fóssil que aqueça o planeta, ele é utilizado lá para substituir o carvão, sendo que nesse sentido é visto como uma vantagem, porque o carvão é muito pior que o gás natural.
A grande novidade em 2015 na Conferência das Partes — talvez já apareça um pouco nesse ano na Conferência das Partes de Lima, que é preparatória para a conferência de Paris — é que o presidente Obama aparecerá nessas reuniões, principalmente em Paris, com capital para jogar. Ele não precisará mais ser o “cara do veto”, ele tem cartas na mão para o jogo político e diplomático, que são as reduções norte-americanas em função da substituição de carvão por gás natural. Da mesma maneira, a China tem compreensão de que se os Estados Unidos e a União Europeia entrarem em um processo de transmissão para baixo carbono, o crescimento econômico da China vai depender de ela também se engajar nesse processo, caso contrário retaliações comerciais seriam inevitáveis. Então, no que isso vai resultar e como a mudança da postura desses dois principais atores — Estados Unidos e China — afetará as negociações é o que nós iremos descobrir, mas pelo menos é um fator de alento para que tenhamos esperanças de sair da inércia.
IHU On-Line – Quais as expectativas para a Conferência do Clima – COP-20 deste ano, em Lima, no Peru? Quais os principais temas a serem discutidos?
Sérgio Besserman Vianna – Esse modelo de negociações climáticas das Nações Unidas reproduz um pouco a forma de negociação da Organização Mundial de Comércio: é extremamente detalhado, e toda a tecnologia das negociações globais comercias foi trazida para as negociações das mudanças climáticas. Em 2014, em Lima, o que vai ser discutido de mais importante são os mecanismos de financiamentos para os países que necessitarão de recursos, seja para mudar o seu processo produtivo, seja para se adaptar aos impactos das mudanças climáticas, e o financiamento da redução do desmatamento, da preservação das florestas. Isso é importante, mas o mais importante em Lima serão as negociações de bastidores para ir preparando para 2015 uma negociação mais profunda e capaz de atender as metas que têm de ser alcançadas e que são muito grandes.* Publicado originalmente no site IHU On-Line.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

O futuro de nosso planeta depende de 58 pessoas




RSavio0976 O futuro de nosso planeta depende de 58 pessoas
Embora para muitos tenha passado inadvertidamente, o Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre Mudança Climática (IPCC) publicou, no dia 13 de abril, a terceira e última parte de um informe no qual adverte sem rodeios que temos apenas 15 anos para evitar ultrapassar a barreira de um aquecimento global de dois graus. Além disso, as consequências serão dramáticas.
Somente os mais míopes não tomam consciência do que se trata: aumento do nível do mar, furacões e tempestades mais frequentes e um impacto adverso na produção de alimentos.
Em um mundo normal e participativo, no qual 83% das pessoas que vivem hoje ainda existirão dentro de 15 anos, esse informe teria provocado uma reação dramática.
Entretanto, não houve um único comentário dos líderes dos 196 países nos quais habitam os 7,5 bilhões de “consumidores” do planeta.
Os antropólogos que estudam as semelhanças e diferenças entre os seres humanos e outros animais há um bom tempo chegaram à conclusão de que a humanidade não é superior em todos os aspectos.
Por exemplo, o ser humano é menos adaptável à sobrevivência do que muitos animais em casos de terremotos, furacões e outros desastres naturais. A esta altura, eles devem manifestar sintomas de alerta e mal-estar.
O primeiro volume desse informe do IPCC, divulgado em setembro de 2013 em Estocolmo, estabelece que os humanos são a causa principal do aquecimento global, enquanto a segunda parte, apresentada em Yokohama no dia 31 de março, afirma que “nas últimas décadas as mudanças climáticas causaram impactos nos sistemas naturais e humanos em todos os continentes e em todos os oceanos”.
O IPCC é formado por mais de dois mil cientistas de todo o mundo e essa é a primeira vez que chega a firmes conclusões finais desde sua criação pelas Nações Unidas, em 1988. A principal conclusão é que, para deter a corrida rumo a um ponto sem volta, as emissões globais devem cair entre 40% e 70% antes de 2050.
O informe adverte que “só as grandes mudanças institucionais e tecnológicas darão uma oportunidade superior a 50%” para o aquecimento global não ultrapassar o limite de segurança, e acrescenta que as medidas devem começar, no mais tardar, em 15 anos, completando-se em 35.
Vale a pena assinalar que dois terços da humanidade têm menos de 21 anos e em grande parte são eles que terão que suportar os enormes custos da luta contra a mudança climática.
A principal recomendação do IPCC é muito simples: as principais economias devem fixar um imposto sobre a contaminação com dióxido de carbono, elevando o custo dos combustíveis fósseis, para impulsionar o mercado de fontes de energias limpas, como a eólica, solar ou nuclear.
Dez países são causadores de 70% do total da contaminação mundial de gases-estufa, sendo que Estados Unidos e China respondem por 55% desse total.
Ambos estão tomando medidas sérias para combater a contaminação.
O presidente norte-americano, Barack Obama, tentou em vão obter o beneplácito do Senado e teve que exercer sua autoridade sob a Lei de Ar Limpo de 1970 para reduzir a contaminação de carbono dos veículos e instalações industriais, estimulando as tecnologias limpas. Mas não pode fazer mais nada sem apoio do Senado.
O todo poderoso presidente da China, Xi Jinping, considera prioritário o ambiente, em parte porque fontes oficiais estimam em cinco milhões anuais o número de mortes nesse país em razão da contaminação.
Mas a China precisa de carvão para seu crescimento, e a postura de Xi é: “por que deveríamos frear nosso desenvolvimento, quando os países ricos que criaram o problema atual querem que tomemos medidas que atrasam nosso crescimento?”.
Dessa forma, cria-se um círculo vicioso. Os países do Sul querem que as nações ricas financiem seus custos de redução da contaminação e os do Norte querem que esses deixem de contaminar e assumam seus próprios custos.
Como resultado, o resumo do informe, que destina-se aos governantes, foi despojado das premissas que poderiam dar a entender a necessidade de o Sul fazer mais, enquanto os países ricos pressionaram para evitar uma linguagem que pudesse ser interpretada como a necessidade de eles assumirem as obrigações financeiras.
Isso deveria facilitar um compromisso brando na próxima Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática, em Lima, onde se deveria alcançar um novo acordo global (lembremos o desastre da conferência de Copenhague, em 2009).
A chave de qualquer acordo está nas mãos dos Estados Unidos. O Congresso desse país bloqueia toda iniciativa sobre o controle climático, proporcionando uma saída fácil para China, Índia e o resto dos contaminadores: “por que devemos assumir compromissos e sacrifícios se os Estados Unidos não participam?”.
O problema é que os republicanos converteram a mudança climática em uma de suas bandeiras de identidade. A última vez que se propôs um imposto sobre o carbono, em 2009, depois de um voto positivo na Câmara de Representantes, controlada pelos democratas, o Senado, dominado pelos republicanos, o rejeitou.
Nas eleições de 2010, uma série de políticos que votaram a favor do imposto sobre carbono perderam suas cadeiras, o que contribuiu para que os republicanos assumissem o controle da Câmara.
Agora, a única esperança para os que querem uma mudança é aguardar as eleições de 2016 e esperar que o novo presidente norte-americano seja capaz de mudar a situação. Esse é um bom exemplo do que os gregos antigos diziam: que a esperança é a última deusa…
O quadro é muito simples. O Senado dos Estados Unidos tem cem integrantes, o que significa que bastam 51 votos para liquidar qualquer projeto de lei de imposto sobre os combustíveis fosseis.
Na China, a situação é diferente. Na melhor das hipóteses, as decisões são tomadas pelo Comitê Permanente do Comitê Central, formado por sete membros, que são o verdadeiro poder no Partido Comunista.
Em outras palavras, o futuro de nosso planeta é decidido por 58 pessoas de uma população de quase 7,7 bilhões de habitantes. Envolverde/IPS* Roberto Savio é fundador e presidente emérito da agência de notícias Inter Press Service (IPS) e editor do Other News.