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quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Aquecimento pode triplicar seca na Amazônia


 Seca em Silves (AM) em 2005. Foto: Ana Cintia Gazzelli/WWF

Seca em Silves (AM) em 2005. Foto: Ana Cintia Gazzelli/WWF
Modelos de computador sugerem que leste amazônico, que contém a maior parte da floresta, teria mais estiagens, incêndios e morte de árvores, enquanto o oeste ficaria mais chuvoso.
As mudanças climáticas podem aumentar a frequência tanto de secas quanto de chuvas extremas na Amazônia antes do meio do século, compondo com o desmatamento para causar mortes maciças de árvores, incêndios e emissões de carbono. A conclusão é de uma avaliação de 35 modelos climáticos aplicados à região, feita por pesquisadores dos EUA e do Brasil.
Segundo o estudo, liderado por Philip Duffy, do WHRC (Instituto de Pesquisas de Woods Hole, nos EUA) e da Universidade Stanford, a área afetada por secas extremas no leste amazônico, região que engloba a maior parte da Amazônia, pode triplicar até 2100. Paradoxalmente, a frequência de períodos extremamente chuvosos e a área sujeita a chuvas extremas tende a crescer em toda a região após 2040 – mesmo nos locais onde a precipitação média anual diminuir.
Já o oeste amazônico, em especial o Peru e a Colômbia, deve ter um aumento na precipitação média anual.
A mudança no regime de chuvas é um efeito há muito teorizado do aquecimento global. Com mais energia na atmosfera e mais vapor d’água, resultante da maior evaporação dos oceanos, a tendência é que os extremos climáticos sejam amplificados. As estações chuvosas – na Amazônia, o período de verão no hemisfério sul, chamado pelos moradores da região de “inverno” ficam mais curtas, mas as chuvas caem com mais intensidade.
No entanto, a resposta da floresta essas mudanças tem sido objeto de controvérsias entre os cientistas. Estudos da década de 1990 propuseram que a reação da Amazônia fosse ser uma ampla “savanização”, ou mortandade de grandes árvores, e a transformação de vastas porções da selva numa savana empobrecida.
Outros estudos, porém, apontaram que o calor e o CO2 extra teriam o efeito oposto – o de fazer as árvores crescerem mais e fixarem mais carbono, de modo a compensar eventuais perdas por seca. Na média, portanto, o impacto do aquecimento global sobre a Amazônia seria relativamente pequeno.
Ocorre que a própria Amazônia encarregou-se de dar aos cientistas dicas de como reagiria. Em 2005, 2007 e 2010, a floresta passou por secas históricas. O resultado foi ampla mortalidade de árvores e incêndios em florestas primárias em mais de 85 mil quilômetros quadrados. O grupo de Duffy, também integrado por Paulo Brando, do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), aponta que de 1% a 2% do carbono da Amazônia foi lançado na atmosfera em decorrência das secas da década de 2000. Brando e colegas do Ipam também já haviam mostrado que a Amazôniaestá mais inflamável, provavelmente devido aos efeitos combinados do clima e do desmatamento.
Os pesquisadores simularam o clima futuro da região usando os modelos do chamado projeto CMIP5, usado pelo IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática) no seu último relatório de avaliação do clima global. Um dos membros do grupo, Chris Field, de Stanford, foi um dos coordenadores do relatório – foi também candidato à presidência do IPCC na eleição realizada na semana passada, perdendo para o coreano Hoesung Lee.
Os modelos de computador foram testados no pior cenário de emissões, o chamado RMP 8.5, no qual se assume que pouca coisa será feita para controlar emissões de gases-estufa.
Eles não apenas captaram bem a influência das temperaturas dos oceanos Atlântico e Pacífico sobre o padrão de chuvas na Amazônia – diferenças entre os dois oceanos explicam por que o leste amazônico ficará mais seco e o oeste, mais úmido –, como também mostraram nas simulações de seca futura uma característica das secas recorde de 2005 e 2010: o extremo norte da Amazônia teve grande aumento de chuvas enquanto o centro e o sul estorricavam.
Segundo os pesquisadores, o estudo pode ser até mesmo conservador, já que só levou em conta as variações de precipitação. “Por exemplo, as chuvas no leste da Amazônia têm uma forte dependência da evapotranspiração, então uma redução na cobertura de árvores poderia reduzir a precipitação”, escreveram Duffy e Brando. “Isso sugere que, se os processos relacionados a mudanças no uso da terra fossem mais bem representados nos modelos do CMIP5, a intensidade das secas poderia ser maior do que a projetada aqui.”
O estudo foi publicado na PNAS, a revista da Academia Nacional de Ciências dos EUA. (Observatório do Clima/ #Envolverde/Utopia Sustentável)

domingo, 27 de setembro de 2015

Papa pede ação por mudanças climáticas


"A mudança climática é um problema que já não pode ser deixado para uma futura geração." Foto: U.S. Air Force photo/Tech. Sgt. Robert Cloys
“A mudança climática é um problema que já não pode ser deixado para uma futura geração.” Foto: U.S. Air Force photo/Tech. Sgt. Robert Cloys
Em breve menção ao tema no Congresso dos EUA, o pontífice destacou o papel da atividade humana na degradação ambiental e a necessidade de posicionamento político
Em visita histórica aos Estados Unidos, o papa Francisco clamou por ação contra as mudanças climáticas em seu discurso aberto na Casa Branca e também no Congresso norte-americano. Esta é a primeira vez que um papa discursa aos parlamentares estadunidenses. Em uma declaração abrangente em que falou sobre agendas globais urgentes, como a crise dos refugiados na Síria e o fundamentalismo religioso, o pontífice dedicou um trecho ao desenvolvimento sustentável, citando o papel da atividade humana no esgotamento de recursos naturais.
“Na Laudato Si ‘, eu chamo um esforço corajoso e responsável para redirecionar nossos passos e evitar os efeitos mais graves da deterioração ambiental causada pela atividade humana”, disse. “Estou convencido de que podemos fazer a diferença e eu não tenho nenhuma dúvida de que os Estados Unidos – e este Congresso – têm um papel importante a desempenhar.” Assim como na encíclica Laudato Si’, divulgada em junho deste ano, o papa ressaltou a relação entre degradação ambiental e problemas sociais.
Entre os parlamentares norte-americanos, mudanças climáticas são um tema polêmico, uma vez que os republicanos são em sua maioria céticos sobre o tema. No discurso ao Congresso nesta quinta-feira, o líder católico não citou o termo mudanças climáticas ou aquecimento global, diferentemente da abordagem na sua fala nos jardins da Casa Branca no dia anterior, quando foi assistido por mais de 10 mil pessoas. “Está claro para mim que a mudança climática é um problema que não pode mais ser deixado para as futuras gerações”, disse ontem.
“Eu gostaria que todos os homens e mulheres de boa vontade neste grande país apoiassem os esforços da comunidade internacional para proteger os mais vulneráveis ​​em nosso mundo e para estimular modelos integrais e inclusivos de desenvolvimento.”
As palavras do papa sobre o tema foram ecoadas pelo presidente Barack Obama, que tem trabalhado por mudanças no planejamento energético dos EUA para fontes limpas e reforçado a agenda bilateral do país no tema, em especial com países em desenvolvimento. “Você nos lembra que temos uma obrigação sagrada de proteger nosso planeta, presente magnífico de Deus para nós”, disse Obama ao pontífice, que, por sua vez, elogiou os esforços do presidente na redução de emissões de gases de efeito estufa.
Apesar do pouco destaque ao assunto na fala aos parlamentares, o Guardian apurou que ambientalistas nos EUA estão satisfeitos com a intervenção do pontífice no Congresso. “Apenas por estar aqui, ele está forçando a discussão sobre a mudança climática”, disse Erich Pica, presidente da Friends of the Earth. “A inclinação do papa ao tema é uma tentativa de mudar ainda mais a discussão nos EUA, particularmente no Partido Republicano, e assim conseguir mais conservadores que falam sobre a mudança climática.” (Observatório do Clima/ #Envolverde/Utopia Sustentável)

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Água e educação: momento de transição




A cultura do desperdício faz parte do dia a dia do povo brasileiro, principalmente nos grandes centros urbanos. Este valor tão enraizado tem como um dos principais motivos a disponibilidade, riqueza e abundância dos recursos naturais em nosso país, pois este ambiente de fartura nos propicia um inconsciente coletivo que potencializa o esbanjamento permanente, lembrando que o nosso modo de vida e cultura estão intimamente ligados ao meio em que vivemos.
Hoje somos 7 bilhões de habitantes que consomem 50% a mais de recursos naturais renováveis disponíveis no planeta[1], e no Brasil 85% da população reside nos centros urbanos, ambientes que afastam as pessoas da natureza e de seus ciclos, ampliando o analfabetismo ambiental. A lógica dos ambientes urbanos estimula o consumo, e não apoia a racionalidade no uso cotidiano da água, dos alimentos, da energia e outros recursos, e isso vem trazendo enormes prejuízos, problemas e instabilidade em relação ao nosso futuro comum, até mesmo a continuidade da espécie humana na Terra.
A crise hídrica é uma ameaça e, ao mesmo tempo, uma oportunidade para os 20 milhões de habitantes que moram nos 36 municípios da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê, aprenderem sobre a gestão da água e para que possam redesenhar sua relação com este precioso bem comum. Os gestores públicos das áreas de Educação, Saúde, Comunicação, Meio Ambiente e Recursos Hídricos poderiam encarar esta situação conjuntamente e promover um processo socioeducativo transformador destes valores, onde Pouco pode ser Muito. Evidenciar os limites dos recursos naturais é um dos primeiros passos, rompendo assim com a lógica do infinito que está internalizada na base da cultura do desperdício. Por exemplo, todos deveriam saber que: a região Norte concentra quase 70% de toda água doce disponível no País. Já a Sudeste dispõe de apenas 6%, porém abriga 43% da população ante 8% do Norte. Se dividirmos essa disponibilidade hídrica no Sudeste pelo número de habitantes, a situação aqui é igual a do Nordeste, com 3% da água e 23% de população, ou 0,1% de disponibilidade de água por habitante em ambas as regiões. Porém no ND a população, que sempre conviveu e convive com a seca economiza cada gota, enquanto que no SD as pessoas desperdiçam. Estas e muitas outras informações deveriam fazer parte do conhecimento básico das pessoas, porém a cultura do consumismo e da ausência de valores ligados a vida e a ética estão levando a sociedade à outro rumo.
Mas pergunto a vocês leitores, qual será o plano das Secretarias Estaduais e Municipais de Educação, Saúde, Comunicação, Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê? Alguém sabe? Alguém ouviu falar? Infelizmente as secretarias não se conversam e não possuem nenhum plano comum de atuação para aproveitar este rico momento, e assim continuamos a cambalear rumo ao abismo da incerteza que tanto nos entristece.
Existem muitos inconformados, visionários e ativistas na cidade de São Paulo e região que estão reagindo a esta crise, ensinando as pessoas a Cuidar da água[2]! Estas iniciativas de “Cuidar” da água, estimulam as pessoas a descobrir nascentes e rios enterrados na cidade, captar a água de chuva, plantar árvores nas áreas de mananciais, economizar água no cotidiano, tais como: tomar banho e reservar a água numa bacia para usar na descarga da privada, reutilizar a água da máquina de lavar roupa para limpar o chão, e escovar os dentes utilizando um copo d’água, o que exige boa vontade e dedicação. Se houver estímulo político e mercadológico, em breve estas tecnologias estarão disponíveis para que estas ações sejam automatizadas, mas até lá vamos ter que exercitar a mente, o coração e o corpo para dar conta de enfrentar a crise como uma oportunidade de amadurecer nossa consciência socioambiental, rumo a construção de uma sociedade sustentável e justa.
Infelizmente estas iniciativas vêm sendo encaradas pelo poder público com certo desprezo, não dando crédito devido ao poder transformador que estas práticas de sustentabilidade têm junto ao inconsciente coletivo da sociedade. Acredito que ao começarmos a estimular o cuidado com a nossa água, possamos romper esta lógica de que somos apenas consumidores passivos, e assim trazer novos pensamentos, dinâmicas e olhares para a nossa relação com a água e com os demais recursos naturais.
Para que possamos incluir a cultura da sustentabilidade do uso dos recursos naturais será necessário que haja a ampliação da consciência socioambiental[3], ou seja, de que somos dependentes dos recursos naturais que há na Terra, rompendo a analfabetismo ambiental no qual estamos imersos. Para que haja esta mudança de pensamento, fala e atitude será necessário um forte investimento na Ecopedagogia[4], que trata da aprendizagem de uma educação com sentido na vida cotidiana para promover sociedades sustentáveis, principalmente junto as lideranças, governantes e tomadores de decisão.
Referências 
[1] Living Planet Report, 2014 – WWF
2 Para conhecer os resultados do Seminário Água & Educação visite o site:http://www.5elementos.org.br/site/index.php/resultados-do-seminario-agua-educacao-praticas-e-reflexoes/
3 A Política Nacional de Educação Ambiental LEI No 9.795, DE 27 DE ABRIL DE 1999 e sua implantação acontece muito lentamente, não sendo prioridade nos governos do Brasil.
4 Este conceito foi criado por F. Gutiérrez, educador e pesquisador costa-riquenho, estudioso da obra de Paulo Freire, no início da década de 1990, no contexto da conferência da RIO-92 e está relacionado aos princípios da Carta da Terra, documento produzido por um fórum da sociedade civil e representantes de todos os povos, sendo considerado, por isso, expressão da Cidadania Planetária. (#Envolverde)
* Mônica Pilz Borba é pedagoga pela PUC-SP e possui pós-graduação em Educação Ambiental pela Faculdade de Saúde Pública da USP e em Agricultura Biológico Dinâmica pelo Instituto Elo, é fundadora e gestora do Instituto 5 Elementos – Educação para a Sustentabilidade desde 1993, coordenadora e professora de cursos de educação ambiental. Foi vice-presidente do Subcomitê Pinheiros Pirapora da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê, coordenou o Centro de Educação Ambiental do Parque Villa-Lobos, e o Centro de Educação Ambiental em Caucaia do Alto (Cotia/SP), projeto do HSBC. Em 2014 coordenou o projeto Consumo Sustentável e Ação dos Resíduos Sólidos na Subprefeitura da Lapa (SP), financiado pelo Fundo Especial de Meio Ambiente do Município de SP e pela Natura. Coordenou programas como o de Energia Social para a Sustentabilidade Local, da Odebrecht Agroindustrial, realizado em várias cidades do País para promover o Desenvolvimento Sustentável Local por meio de uma gestão participativa apoiada em ações educativas e realizou diversos projetos nas áreas de cultura, educação, atividades produtivas, saúde, segurança e meio ambiente. Possui várias publicações voltadas a Educação Ambiental, tais como Águas nos Oeste do Alto Tietê disponível para download.(Envolverde/Utopia Sustentável) 

terça-feira, 15 de julho de 2014

Como mudar a educação na raiz




shutterstock reciclagem Como mudar a educação na raiz
Foto: http://www.shutterstock.com/
As pessoas saíam das lojas para olhar o acontecimento.
– Piriri, piriri, obá! Oi quem vem lá, obá!
A cantoria se espalhava pelos ouvidos de concreto.
– Piriri, piriri, obá!
Nas janelas dos carros, curiosos esticavam seus pescoços. O policial observava a marcha com atenção. O atendente da loja de sapatos saiu para a porta com a testa franzida em sinal de interrogação. Uma mulher chamou a atenção da amiga para juntas varrerem a cena com suas pestanas.
– Por onde passa, obá! Estremece a terra, obá!
Ainda que discreta, a marcha chamou atenção. Sem megafones, sem faixas, sem cartazes. Não havia black blocks. Não se tratava de uma manifestação comum. Não eram os “fraldas pintadas”, não era a esquerda, não era a direita. Quem compunha a marcha? Vinte e uma crianças de 5 e 6 anos e três educadores. Como reivindicação, pediam a cidade inteira. Pediam parques, praças, ruas. Pediam que a cidade recebesse as crianças com cuidado e carinho. Pediam que as pessoas olhassem nos olhos umas das outras. Pediam que ninguém se esquecesse de brincar. Pediam respiros. Pediam o retorno da poesia à presidência das imaginações. Pediam cor. Pediam que os adultos voltassem a ver o mundo ao redor.
Sim, pediam que os adultos voltassem a ver o mundo ao redor.
As crianças não gritavam frases políticas nem carregavam cartazes para requerer tais demandas. Seu ato berrava mais do que qualquer palavra ou faixa, demandava o sonho enquanto o realizava. Tratava-se de um ato de ocupação criativa da cidade, de brincação caminhativa. A marcha saiu da escola municipal de ensino infantil Gabriel Prestes com um destino final: uma biblioteca. No trajeto, andamos apenas algumas quadras, ritmados pela cantoria do “piriri, obá!”. Nesses poucos metros, sentimos a realidade se deslocar.
As pessoas ao redor haviam, de repente, quebrado suas resistências secas. Sorriam de boca aberta, escancarada de espanto positivo. As crianças riam em enxurradas, animadas, hiperpresentes. Como é raro encontramos grupos de crianças em ruas movimentadas, a marcha impressionou as pessoas. E as crianças saem pouco para as ruas por que é perigoso? Viver é perigoso, claro. Hoje em dia, as pessoas acreditam que tudo é perigoso e seguem, pouco a pouco, fugindo de tudo que as coloque em atrito com nossa cultura, que as joguem na aspereza da pele dos dias ou nas brechas lúdicas da cidade, e assim perdem o que há de mais pulsante e educativo na realidade. Quanto mais fogem do perigo, mais o alimentam. Quanto mais se iludem ao achar que escaparam, mais se sufocam. As crianças que marchavam pelas ruas do centro de São Paulo, acompanhadas por educadores, provavam que a resolução mais madura é destruir o perigo na raiz, ocupando sua casa – e ocupando-a criativamente.
No fim do dia, uma das professoras que estava na caminhança pelas ruas falou: “A cidade ouviu as vozes da infância e seus percursos!”. Outra educadora comentou: “Senti a mesma emoção quando levamos as crianças da minha escola, à pé, até o prédio do Banespa. As pessoas sorriam e viam as crianças na rua, me senti humanizando a cidade”. E eu pensava, no meu silêncio fervilhante: há algo muito errado na desconexão crônica do adulto com qualquer coisa que o cerca, um desconcerto que as crianças desmancham com um simples malabarismo de olhar. Numa conversa sobre essa experiência, cheguei a lançar uma provocação brincante: “Se fôssemos realmente radicais, colocaríamos as crianças para educar os adultos. O que temos a aprender com elas não é mais importante do que o que elas têm a aprender com a gente?”.
foto andre gravata Como mudar a educação na raiz
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Resistir e criar
Em uma cidade de cidadãos não praticantes e com altruísmo sedentário, como provocamos uma mudança na relação entre as pessoas? E as ruas, como torná-las apoteoses da mudança, lugares onde se deem mais e mais encontros potentes? “As ruas já não conduzem apenas, elas mesmas são lugares”, dizia o escritor John Brinckerhoff Jackson, um teórico que lidava com a temática das paisagens. Estimular que as crianças e jovens ocupem o território ao seu redor de maneira criativa, gerando contatos genuínos, é um ato educativo, político, de saúde e cuidado. É dizer para as novas gerações que suas presenças mudam o entorno. É apontar uma nova cultura, que demanda uma nova construção de aprendizagem, na qual a cidade como um todo é reconhecida como um organismo vivo de educação – várias expressões e projetos têm vindo à tona para tocar esse ponto crucial da mudança da nossa cultura pela percepção que a educação demanda um cuidado coletivo, como bairro-escola, cidade educadora, comunidade de aprendizagem e território educativo.
Já pensou se a aprendizagem informal que mora nas brechas das cidades for mais e mais descoberta? Quantas pessoas não aceitariam compartilhar suas histórias, ensinar o que sabem? Já imaginou se você passasse a se reconhecer como um educador das ruas? Podemos criar um novo imaginário sobre o que é educação, percebendo que a educação que transborda pela cidade é um símbolo diferente dos outros que se perpetuaram até agora. É uma raiz que vai mais fundo e encontra outras raízes – nessa linha profunda, educação é cuidado consigo mesmo, com o outro e o ambiente.
Sempre que analiso a urgência por mudanças na educação me lembro do olhar de Gandhi sobre as causas do seu tempo. Depois de se mudar para a África do Sul para trabalhar, ainda jovem, Gandhi sofreu bastante preconceito por ser indiano. Ao entrar nos trens sul-africanos, na primeira classe, exigiam que fosse transferido para a terceira classe, mas nunca consentia com esse tipo de situação. Ele sentia fortemente que não dava mais para aceitar que uma pessoa fosse menosprezada por sua cor ou nacionalidade. E esse sentimento de “não dá mais”, essa necessidade de não cooperar com uma situação ou mesmo resistir a ela, se repete quando Gandhi percebe que os indianos importavam sal da Inglaterra, sendo que era possível pegar sal diretamente na Índia. Sentindo que não dá mais para colaborar com esse tipo de situação, Gandhi estimula a não cooperação, a desobediência criativa, e leva à frente a Marcha do Sal, na qual milhares de pessoas seguiram até o litoral do Oceano Índico para buscar o sal direto na fonte. Essa urgência no olhar retorna quando Gandhi se depara com indianos pagando impostos absurdos. Não dá mais. Não dá mais.
E nessa linha de pensamento, o que “não dá mais” em relação à nossa educação deseducadora?
Não dá mais para acharmos normal um aluno passar doze anos na escola e mesmo assim não aprender nem a ler. Não dá mais para perguntarmos a jovens de 17 anos se eles têm um sonho e ouvir que a aspiração é repetir as carreiras que outros tantos hoje seguem, rumo a oceanos de infelicidade, sem que tenham refletido minimamente sobre quem são e como podem lapidar sua singularidade. Não dá mais para chegar em escolas, ficar impressionado com o número de professores de licença, muitos em depressão, e achar que um sistema que deixa a mente e o corpo das pessoas domado, mutilado e dolorido deve ser reaberto do mesmo jeitinho todos os dias. Não dá mais para acharmos que a violência é um caminho a ser seguido – e o que fazemos com as crianças, jovens e professores hoje é violência. Violentamos sonhos que nem chegam a ser sonhados. E cada vez mais acredito que só quando nos apropriarmos do ambiente ao nosso redor com ênfase, criatividade e generosidade é que deixaremos espaço para emergir uma abordagem de aprendizagem forte o suficiente para mudar a educação em larga escala.
andre gravata1 Como mudar a educação na raiz
Recentemente uma amiga compartilhou no Facebook uma imagem com uma piada que ironiza nossas relações rachadas, dizia assim: “Fiquei sem internet por um dia e descobri que tem um pessoal aqui em casa, até sentei com eles na mesa, acho que é minha família”. E bem assim acontece com nosso entorno, imaginem a situação: “Um dia tropecei numa pedra na rua e descobri que tem um pessoal caminhando ao meu lado, até parei um deles para perguntar quem era, acho que também é um ser humano como eu”. Se não cultivarmos laços fortes com a cidade e as pessoas ao redor, aprendendo com elas, aceleraremos o processo de desumanização em curso. Viraremos máquinas, pedras, rinocerontes com sonhos natimortos. Na peça “O rinoceronte”, do franco-romeno Eugène Ionesco, há uma epidemia de “rinocerite” em uma cidade, que transforma quase todo mundo nesses grandes mamíferos de pele espessa, sem porosidade. Apenas um homem resiste – e, ainda bem, ele resiste até o final.
Resistir e criar: dois movimentos urgentes
Para continuar essa reflexão tão necessária, sugiro que você organize um encontro na rua, com amigos e desconhecidos, para dialogar sobre as seguintes perguntas: Que propostas um educador pode colocar em prática para incluir a cidade como território a ser explorado? O que seria um educador das ruas? O que dá para aprendermos caminhando, observando, perdendo-se pela cidade? Se morar em São Paulo, participe do encontro que estou organizando, no dia 3 de agosto: http://cinese.me/encontros/deriva-sobre-educacao
Resistir e criar.
Piriri, piriri, obá!
** Publicado originalmente na Coluna Livre do Portal Aprendiz.