Mostrando postagens com marcador crise. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador crise. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

A era das grandes turbulências

O Ocidente declina, mas os EUA conservam o poder militar decisivo. A crise do capitalismo arrasta-se, espalha insegurança, corrói a democracia. Onde encontrar a esperança?

Foto: Shutterstock
Foto: Shutterstock

Qual o desenho do novo cenário mundial? Quais são suas principais características? Que dinâmicas estão determinando o funcionamento real de nosso planeta? Que características dominarão nos próximos 15 anos, daqui a 2030?
Para analisar este novo cenário e prever seu futuro imediato, vamos utilizar a bússola da geopolítica, uma disciplina que nos permite compreender o jogo geral das potências e avaliar os principais riscos e perigos. Para antecipar, como um tabuleiro de xadrez, os movimentos de cada potência adversária.
E o que nos diz esta bússola?
1. O declínio do Ocidente
A principal constatação é o declínio do Ocidente. Pela primeira vez desde o século 15, os países ocidentais estão perdendo poder frente a ascensão das novas potências emergentes. Começa a fase final de um ciclo de cinco séculos de dominação ocidental do mundo. A liderança internacional dos EUA viu-se ameaçada pelo surgimento de novos polos de poder (China, Rússia e Índia) em escala internacional. A “degradação estratégica” dos EUA já começou. O “século americano” parece chegar ao seu fim, enquanto o “sonho europeu” desaparece.
Embora os EUA sigam sendo uma das principais potenciais planetárias, estão perdendo sua hegemonia econômica para a China. E já não exercerão mais sua “hegemonia militar solitária” como fizeram desde o fim da Guerra Fria (1989). Estamos caminhando para um mundo multipolar em que os novos atores (China, Rússia e Índia) têm vocação para construir sólidos polos regionais e a disputar a supremacia internacional com Washington e seus aliados históricos (Reino Unido, França, Alemanha e Japão).
Na terceira linha aparece uma série de potenciais intermediarias, com demografias em alta e fortes taxas de crescimento econômico, convertendo-se também em polos hegemônicos regionais e com tendência a se transformar, daqui a 15 anos, em um grupo de influência planetária (Indonésia, Brasil, Vietnã, Turquia, Nigéria, Etiópia).
Para ter uma ideia da importância e da rapidez da degradação ocidental que se avizinha, basta observar essas cifras: a participação dos países ocidentais na economia mundial vai passar de 56% hoje para 25% em 2030… Ou seja, em menos de 15 anos o Ocidente perderá mais da metade de sua preponderância econômica. Uma das principais consequências será que os EUA e seus aliados não terão mais os meios financeiros para assumir o policiamento do mundo… De tal modo que está mudança estrutural poderá debilitar o Ocidente duplamente.
2. A incontível emergência da China
O mundo está “desocidentalizando” e é cada vez mais multipolar. Destaca-se, mais uma vez, o papel da China que emerge, a principio, como uma grande potência no coração do século 21 — apesar de estar longe de representar ainda uma autêntica rivalidade com Washington. Por um lado, a estabilidade de Pequim não está garantida porque coexistem em seu seio o capitalismo mais selvagem e o comunismo mais autoritário. A tensão entre essas duas dinâmicas causará, cedo ou tarde, uma ruptura que poderá debilitar sua potência.
De qualquer maneira, hoje, em 2016, os EUA seguem exercendo uma indiscutível dominação hegemônica sobre o planeta. Tanto no terreno militar (fundamental), quanto em vários outros setores cada vez mais determinantes: em particular, na tecnologia (internet) e no soft power (cultura de massas). Isso não quer dizer que a China não tenha realizado também avanços prodigiosos nos últimos anos. Nunca na história, um país cresceu tanto em tão pouco tempo.
No momento, enquanto declina o poder dos EUA, a ascensão da China é incontornável. Já é a segunda potência econômica do mundo (à frente do Japão e Alemanha).
Para Washington, a Ásia é agora a zona prioritária desde que o presidente Barack Obama decidiu a reorientação estratégica de sua política externa. Os EUA buscam frear a expansão da China, cercando-a com bases militares e apoiando seus aliados locais tradicionais: Japão, Coreia do Sul, Taiwan e Filipinas. É significativo que a primeira viagem de Obama, depois da sua reeleição em 2012, tenha sido para Birmânia, Camboja e Tailândia, três países da Associação de Nações da Ásia do Sudeste (ASEAN), uma organização que reúne os aliados de Washington na região, cujos membros têm problemas de limites marítimos com Pequim.
Os mares da China tornaram-se as zonas com maior potencial de conflito armado da área Ásia-Pacífico. Há tensões entre Pequim e Tóquio, a propósito da soberania sobre as ilhas Senkaku (Diaoyú para os chineses). Também a disputa com Vietnã e Filipinas sobre a propriedade das ilhas Spratly está subindo o tom perigosamente. A China está modernizando toda sua marinha em alta velocidade. Em 2012, lançou seu primeiro porta-aviões, o Lioning, e está construindo um segundo, com a intenção de intimidar a Casa Branca. Pequim suporta cada vez menos a presença militar dos EUA na Ásia. Entre estes dois gigantes, esta se instalando uma perigosa “desconfiança estratégica” que, sem nenhuma dúvida, poderá marcar a política internacional nesta reginão até 2030.
3. O terrorismo jihadista
Outras das ameaças globais indicadas por nossa bússola é o terrorismo jiahadista praticado ontem pela Al-Qaeda e hoje pelo Estado Islâmico (ISIS). As principais causas do terrorismo atual têm de ser buscadas nos desastrosos erros e crimes cometidos pelas potências que invadiram o Iraque em 2003 — além das intervenções caóticas na Líbia (2011) e na Síria (2014).
No Oriente Médio segue situado no atual foco de desestabilização do mundo. Em particular, em torno da inexplicável guerra civil na Síria. O que está claro é que, neste país, as grandes potências ocidentais (EUA, Reino Unido, França), aliadas aos Estados que mais difundem pelo mundo a concepção mais arcaica e retrógrada do islã (Arábia Saudita, Qatar e Turquia), decidiram apoiar (com dinheiro, armas e instruções) a insurgência islamista sunista. Os EUA constituíram nesta região um amplo “exército sunita” com o objetivo de derrubar Bashar Al-Assad e prejudicar um grande aliado regional de Teerã. Entretanto, o governo de Assad, com o apoio da Rússia e do Irã, resistiu e segue consolidando-se. O resultado de tantos erros é o terrorismo jihadista atual que multiplica os atentados odiosos contra civis inocentes na Europa e nos EUA.
Algumas capitais ocidentais seguem pensando que a potência militar maciça é suficiente para derrotar o terrorismo. Mas a história militar mostra exemplos abundantes de grandes potências incapazes de derrotar adversários mais débeis. Basta recordar os fracassos norte-americanos no Vietnã em 1975, e na Somália em 1994. Em um combate assimétrico, aquele que pode mais, não ganha necessariamente. O historiador Eric Hobsbawn nos recorda que “Na Irlanda do Norte, durante certa de 30 anos, o poder britânico se mostrou incapaz de derrotar um exercito minúsculo como o IRA. Certamente o IRA não venceu, porém nem por isso, foi vencido”.
Os conflitos do novo tipo, quando uma potência enfrenta o débil ou o louco, são mais fáceis de começar do que de terminar. E o emprego maciço de meio militares pesados não necessariamente permite alcançar os objetivos buscados.
A luta contra o terrorismo também está justificando, em matéria de governança e de política doméstica, todas as medidas autoritárias e todo os excessos, inclusive uma versão moderna do “autoritarismo democrático” que tem como alvo, além das organizações terroristas, todos os manifestantes que se opõem às políticas globalizadoras e neoliberais.
4. Há crises para muito tempo…
Outra constatação importante: os países ricos seguem padecendo de consequências do terremoto econômico-financeiro que foi a crise de 2008. Pela primeira vez, a União Europeia, (e o “Brexit” confirma), vê ameaçada sua coesão e até sua existência. Na Europa, a crise econômica durará ao menos mais uma década, até pelo menos 2025.
Há crise, em qualquer setor, quando algum mecanismo deixa de atuar, começa a ceder e acaba rompendo-se. Essa ruptura impede que o conjunto da maquinaria siga funcionando. É o que aconteceu com a economia mundial desde o estouro da crise das sub-primes em 2007-2008.
As consequências sociais desse cataclismo econômico foram brutalmente inéditas: 23 milhões de desempregados na União Europeia e mais de 80 milhões de pobres… Os jovens, em particular, são as principais vítimas; gerações sem futuro. Mas as classes médias também estão assustadas porque o modelo neoliberal de crescimento abandonou-as à margem do caminho.
A velocidade da economia financeira de hoje é de relâmpago, enquanto que a velocidade da política, em comparação, é de caracol. Resulta que fica cada vez mais difícil conciliar tempo econômico e tempo político. E também crises globais e governos nacionais. Tudo isto provoca, nos cidadãos, frustração e angústia.
A crise global produz perdedores e ganhadores. Os ganhadores encontram-se, essencialmente, na Ásia e nos países emergentes, que não têm uma visão tão pessimista da situação, como os europeus. Também há muitos ganhadores no interior dos países ocidentais, cujas sociedades encontram-se fraturadas pela desigualdade entre ricos cada vez mais ricos e pobres cada vez mais pobres.
Na realidade, não estamos suportando uma crise, mas uma série de crises, uma soma de crises mescladas tão intimamente umas às outras que não conseguimos distinguir entre causas e efeitos. Porque os efeitos de umas são as causas das outras, e assim até formar um verdadeiro sistema de crises. Ou seja, enfrentamos uma autêntica crise sistêmica do mundo ocidental, que afeta a tecnologia, a economia, o comércio, a política, a democracia, a identidade, a guerra, o clima, o meio ambiente, a cultura, os valores, a família, a educação, a juventude etc.
Do ponto de vista antropológico, essas crises estão sendo traduzidas por um aumento do medo e do ressentimento. As pessoas vivem em estado de ansiedade e incerteza. Voltam os grandes pânicos ante ameaças indeterminadas, como podem ser a perda do emprego, os choques tecnológicos, as biotecnologias, as catástrofes naturais, a insegurança generalizada… Tudo isso constitui um desafio para as democracias. Porque esse terror transforma-se às vezes em ódio e em repúdio. Em vários países europeus, e também nos EUA, ele dirige-se hoje contra o estrangeiro, o imigrante, latinos, ciganos, subsaarianos, “sem visto”, e etc. Crescem os partidos xenofóbicos e de extrema direita.
5. Decepção e desencanto
É preciso entender que, desde a crise financeira de 2008 (de que ainda não saímos), nada é igual em nenhum lugar. Os cidadãos estão profundamente desencantados. A própria democracia, como modelo, perdeu credibilidade. Os sistemas políticos foram sacudidos pela raiz. Na Europa, por exemplo, os grandes partidos tradicionais estão em crise. E em toda parte percebemos o crescimento de formações de extrema direita (na França, na Áustria e nos países nórdicos) ou de partidos anti-sistema e anticorrupção (Itália, Espanha). A paisagem política parece radicalmente transformada.
Esse fenômeno chegou aos Estados Unidos, um país que já conheceu, em 2010, uma onda populista de direita devastadora, então encarnada pelo Tea Party. A ascensão do multimilionário Donald Trump na corrida pela Casa Branca prolonga essa onda e se constitui numa revolução eleitoral que nenhum analista soube prever. Ainda que sobreviva, aparentemente, a velha bicefalia entre democratas e republicanos, a ascensão de um candidato tão heterodoxo como Trump constitui um verdadeiro terremoto. Seu estilo direto, popularesco, e sua mensagem maniqueísta e reducionista, com apelo aos baixos instintos de certos setores da sociedade, conferiram-lhe um caráter de autenticidade aos olhos do setor mais decepcionado dos eleitores de direita.
A esse respeito, o candidato republicano soube interpretar o que poderíamos chamar de “rebelião das bases”. Melhor que todos, percebeu a fratura cada vez maior entre as elites políticas, econômicas, intelectuais e midiáticas, por um lado, e a base do eleitorado conservador, por outro. Seu discurso violentamente anti-burocracia de Washington, anti-mídia e anti-Wall Street seduz, em particular, os eleitores brancos, pouco cultos e empobrecidos pelos efeitos da globalização econômica.
6. Terremotos e mais terremotos
Poderíamos dizer que outra grande característica do novo cenário global são os terremotos. Terremotos financeiros, monetários, das bolsas; terremotos climáticos, energéticos, tecnológicos, sociais, geopolíticos como o restabelecimento de relações entre Cuba e Estados Unidos, ou, em outro sentido, o recente golpe de Estado institucional no Brasil contra a presidenta Dilma Rousseff. Terremotos eleitorais como a recente vitória do “não” na Colômbia aos Acordos de Paz entre o governo de Juan Manuel Santos e as FARC; ou o recente “Brexit” no Reino Unidos, ou o êxito da extrema direita na Áustria, ou a derrota de Angela Merkel em várias eleições parciais na Alemanha. Ou o enorme terremoto que poderia constituir, efetivamente, a eventual vitória eleitoral de Donald Trump nos Estados Unidos.
Acontecimentos imprevistos irrompem com força sem que ninguém, ou quase ninguém, os tenha visto chegando. Há uma falta de visibilidade geral. Se governar é prever, vivemos uma evidente crise de governança geral. Em muitos países, o Estado que protegia os cidadãos deixou de existir. Há uma crise da democracia representativa: “Não nos representam!”, diziam os “indignados”. As pessoas reivindicam que a autoridade política volte a assumir seu papel condutor na sociedade. Insiste-se na necessidade de reinventar a política e de que o poder político ponha fim ao poder econômico e financeiro dos mercados.
7. Internet, ciber-espionagem e ciber-defesa
O novo cenário global também se caracteriza pela multiplicidade de rupturas estratégicas, cujo significado às vezes não compreendemos. Hoje, a internet é o vetor da maioria das mudanças. Quase todas as crises recentes têm alguma relação com as novas tecnologias da comunicação e da informação, com a desmaterialização e a digitalização generalizadas, e com a explosão inédita das redes sociais. Mais que uma tecnologia, a Internet é pois um ator fundamental da crise. Basta recordar o papel de WikiLeaks, Facebook, Twitter e das demais redes sociais na aceleraçao da informação e da conectividade social pelo mundo.
Daqui a 2030, no novo cenário, algumas das maiores coletividades do planeta já não serão países, mas comunidades congregadas e vinculadas entre si pela internet e pelas redes sociais. Por exemplo, ‘Facebooklandia’: mais de um bilhão de usuários… Ou ‘Twitterlandia’, mais de 800 milhões… Sua influência, no jogo da geopolítica mundial, poderia revelar-se decisiva. Hoje, as estruturas de poder se borram graças ao acesso universal à rede e ao uso de novas ferramentas digitais.
Por outro lado, pela estreita cumplicidade que algumas grandes potências estabeleceram com as grandes empresas privadas que dominam as indústrias de informática e de telecomunicações, a capacidade em termos de espionagem de massas cresceu também de forma exponencial. As mega empresas como Google, Apple, Microsoft, Amazon e mais recentemente Facebook estabeleceram laços estreitos com o aparato do Estado em Washington, especialmente com os responsáveis pela política exterior. Essa relação converteu-se numa evidência. Compartilham as mesmas ideias politicas e têm idêntica visão de mundo. Em última instância, os estreitos vínculos e a visão comum do mundo, por exemplo, do Google e do governo estadunidense estão a serviço dos objetivos da política externa dos Estados Unidos.
Essa aliança sem precedentes (Estado + aparato militar de segurança + empresas gigantes da Web) – criou um verdadeiro império da vigilância, cujo objetivo claro e concreto é colocar a internet sob escuta, toda a internet e todos os internautas, como denunciaram Julian Assange e Edward Snowden.
O ciberespaço converteu-se numa espécie de quinto elemento. O filósofo grego Empédocles sustentava que nosso mundo estava formado por uma combinação de quatro elementos: terra, ar, água e fogo. Mas o surgimento da Internet, com seu misterioso “inter-espaço” superposto ao nosso, formado por bilhões de intercâmbios digitais de todo tipo, por seu roaming, seu streaming e seu clouding, engendrou um novo universo, de certo modo quântico, que vem completar a realidade do nosso mundo contemporâneo como se fosse um autêntico quinto elemento.
Nesse sentido, deve-se ressaltar que cada um dos quatro elementos tradicionais constitui, historicamente, um campo de batalha, um lugar de confronto. E que os Estados tiveram de desenvolver componentes específicos das forças armadas para cada um desses elementos: para a terra, o exército; para o ar, a aeronáutica; para a água, a Marinha; e, com caráter mais singular, para o fogo, os bombeiros, ou “soldados do fogo”. De modo natural, todas as grandes potências estão acrescentando hoje, aos três exércitos tradicionais e aos combatentes do fogo, um novo exército, cujo ecosistema é o quinto elemento: o ciberexército, encarregado da ciberdefesa, que tem suas próprias estruturas orgânicas, seu Estado maior, seus cibersoldados e suas próprias armas: supercomputadores preparados para defender as ciberfronteiras e travar a ciberguerra digital no âmbito da Internet.
8. Uma mutação do capitalismo: a economia colaborativa
Trinta anos depois da expansão maciça da Web, os hábitos de consumo também estão mudando. Impõe-se pouco a pouco a ideia de que a opção mais inteligente é usar algo em comum, e não necessariamente comprando-o. Isso significa abandonar, pouco a pouco, uma economia baseada na submissão dos consumidores e no antagonismo ou na competição entre os produtores — e passar a uma economia que estimula a colaboração e o intercâmbio entre os usuários de bens e serviços. Tudo isso causa uma verdadeira revolução no seio do capitalismo, que está operando uma nova mutação, diante de nossos olhos.
É um momento irresistível. Milhares de plataformas digitais de intercambio de produtos e serviços estão se expandindo com muita rapidez. A quantidade de bens e serviços que podem ser alugados ou trocados mediante plataformas online, sejam pagas ou gratuitas (como a Wikipedia), é já literalmente infinita.
Em nível planetário, essa economia colaborativa cresce atualmente entre 15% e 17% ao ano. Com alguns exemplos de crescimentos absolutamente espetaculares. Por exemplo o Uber, o aplicativo digital que conecta passageiros com motoristas, em apenas cinco anos de existência já vale 68 bilhões de dólares e opera em 132 países. O Airbnb, a plataforma online de hospedagem para particulares surgida em 2008 e que já encontrou cama para mais de 40 milhões de viajantes, vale hoje na Bolsa (sem ser proprietária de uma única habitação) mais de 30 bilhões de dólares, ou seja, mais que os grande grupos Hilton, Marriott ou Hyatt.
A esse respeito, outro traço fundamental que está mudando – e que foi nada menos que a base da sociedade de consumo –, é o sentido de propriedade, o desejo de posse. Adquirir, compar, ter, possuir eram os verbos que melhor traduziam a ambição essencial de uma época em que o ter definia o ser. Acumular “coisas” (casas, carros, geladeiras, televisores, móveis, roupa, relógios, livros, quadros, telefones etc) constituía, para muitas pessoas, a principal razão da existência. Parecia que, desde o início dos tempos, o sentido materialista de posse era inerente ao ser humano.
A economia colaborativa constitui assim um modelo baseado no intercâmbio e no compartilhamento de bens e serviços por meio do uso de plataformas digitais. Inspira-se nas utopias de compartilhamento e de valores não mercantis como a ajuda mútua ou a convivialidade, e também do espírito de gratuidade, mito fundador da internet. Sua ideia principal é: “o meu é seu”, ou seja, compartilhar em vez de possuir. E o conceito básico é a troca. Trata-se de conectar, por via digital, as pessoas que buscam “algo” com as pessoas que o oferecem. As empresas mais conhecidas desse setor são: Uber, Airbnb, Netflix, Blabacar etc.
Muitos indícios levam a pensar que estamos assistindo ao ocaso da 2ª revolução industrial, baseada no uso maciço de energias fósseis e em telecomunicações centralizadas. E vemos a emergência de uma economia colaborativa que obriga, como já dissemos, o sistema capitalista a mudar.
Por outro lado, num contexto em que as mudanças climáticas tornaram-se a principal ameaça para a sobrevivência da humanidade, os cidadãos não desconhecem os perigos ecológicos inerentes ao modelo de hiperprodução e de hiper-consumo globalizado. Aí também a economia colaborativa oferece soluções menos agressivas para o planeta.
Num momento como o atual, de forte desconfiança com relação ao modelo neoliberal e às elites políticas, financeiras, midiáticas e bancárias, a economia colaborativa parece aportar respostas a muitos cidadãos em busca de sentido e de ética responsável. Exalta valores de ajuda mútua e desejo de compartilhamento. São critérios que, em outros momentos, foram argamassa de teorias comunitárias e de ambições socialistas. Mas que hoje são – e ninguém duvide – o novo rosto de um capitalismo mutante, desejoso de afastar-se da selvageria amarga de seu recente período ultraliberal.
Nossa bússola também nos indica a aparição de tensões entre os cidadãos e alguns governos em dinâmicas que vários sociólogos qualificam de “pós-políticas” ou “pós-democráticas”… Por um lado, a generalização do acesso à Internet e a universalização do uso das novas tecnologias estão permitindo à cidadania alcançar altas cotas de liberdade e desafiar seus representantes políticos (como durante a crise dos “indignados”). Mas essas mesmas ferramentas eletrônicas proporcionam aos governos, como já vimos, uma capacidade sem precedentes para vigiar seus cidadãos.
9. Ameaças não militares
“A tecnologia – assinala um informe recente da CIA – continuará sendo o grande nivelador, e os futuros magnatas da internet, como poderia ser o caso do Google e do Facebook, possuem montanhas de base de dados, e manejam em tempo real muito mais informação que qualquer governo”. Por isso, a CIA recomenda ao governo dos EUA que faça frente a essa ameaça eventual das grandes corporações de internet, ativando o Special Collection Service, um serviço de inteligência ultrassecreto – administrado em conjunto pela NSA (National Security Agency) e o SCE (Service Cryptologic Elements) das Forças Armadas – especializado na captação clandestina de informações de origem eletromagnética. O perigo de que um grupo de empresas privadas controle toda essa massa de dados reside, principalmente, em que poderia condicionar o comportamento em grande escala da população mundial e inclusive das entidades governamentais. Também se teme que o terrorismo jihadista seja substituído por um ciberterrorismo ainda mais impactante.
A CIA leva a sério esse novo tipo de ameaça porque, afinal, o declínio dos Estados Unidos não foi provocado por uma causa externa, mas por uma crise interna: a quebra econômica ocorrida a partir de 2007-2008. O informe insiste em que a geopolítica de hoje deve interessar-se por novos fenômenos que não possuem, forçosamente, um caráter militar. Pois ainda que as ameaças militares não tenham desaparecido, alguns dos principais perigos que nossas sociedades correm hoje são de ordem não militar: mudanças climáticas, mutação tecnológica, conflitos econômicos, crime organizado, guerras eletrônicas, esgotamento dos recursos naturais…
Sobre esse último aspecto, é importante saber que um dos recursos que está se esgotando mais aceleradamente é a água doce. Em 2030, 60% da população mundial terá problemas de abastecimento de água, dando lugar ao surgimento de “conflitos hídricos”… Em contraste, no que diz respeito aos combustíveis fósseis, a exploração de petróleo e de gás de xisto está alcançando niveis excepcionais, graças às novas técnicas de fraturação hidráulica. Os Estados Unidos já são quase autossuficientes em gás, e em 2030 poderão sê-lo em petróleo, cujos custos de produção tendem a baratear. Além disso, encorajam a relocalização de suas indústrias. Mas se os EUA – principal importador atual de combustíveis fósseis – deixaram de importar petróleo, pode-se prever a queda do preço do barril. Quais serão então as consequências para os grandes países exportadores?
10. Rumo ao triunfo das cidades e das classes médias
No mundo a que nos dirigimos, 60% das pessoas viverão nas cidades, pela primeira vez na história da humanidade. E, como consequência da redução acelerada da pobreza, as classes médias serão dominantes e triplicarão, passando de 1 para 3 bilhões de pessoas. Isso que, em si, é uma revolução colossal, acarretará como consequência, entre outros efeitos, uma mudança geral dos hábitos culinários e, em particular, um aumento do consumo de carne em escala planetária – o que agravará a crise ambiental.
Em 2030, os habitantes do planeta seremos 8,5 bilhões, mas o aumento demográfico cessará em todos os continentes, menos na África, com o consequente envelhecimento geral da população mundial. Em troca, o vinculo entre o ser humano e as tecnologias protéticas acelerará o surgimento de novas gerações de robôs e a aparição de “super-homens” capazes de proezas físicas e intelectuais inéditas.
Muito raramente o futuro é previsível. Nem por isso, deve-se deixar imaginá-lo, em termos de prospectiva. Isso nos prepara para agir diante de diversas circunstâncias possíveis, das quais só uma se realizará. Para isso, a geopolítica é uma ferramenta extremamente útil. Ajuda-nos a tomar consciência das rápidas evoluções em curso e a refletir sobre a possibilidade, para cada um de nós, de intervir e apontar o rumo. Para tratar de construir um futuro mais justo, mais ecológico, menos desigual e mais solidário. (Outras Palavras/ #Envolverde\Utopia Sustentável)

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Dirimindo dúvidas e alguns conceitos sobre o momento atual


Faz tempo que uma grande confusão vem tomando conta de corações e mentes da sociedade brasileira.  Com o agravamento da crise que o país atravessa e um maniqueísmo incentivado, didática e criminosamente, por grande parte de nossa mídia, que cada vez mais se presta a defender os interesses de seus controladores em detrimento daqueles que, imparcialmente, deveria se comunicar. 

Vivemos um impasse jamais visto sem saber, até o momento, para onde ir.  Pior, as saídas constitucionais que ora se apresentam são de dar dó.  E antes que pensem outras coisas, que fiquemos apenas dentro das constitucionais. 
   
Nesse cenário, às vezes, muito incomoda a falta de discussão existente entre grupos de amigos e familiares, em tese o espaço ideal para dirimir e/ou reforçar, nesse momento, opiniões.  Uma loucura.  Afinal, não ferir suscetibilidades e manter amizades de longa data, acreditam, pode ser melhor que participar e ajudar o país a sair do buraco que se encontra.  Importante acreditar que consciências se formam a partir de experiências vividas, sentidas, praticadas e estudadas, para que não sejamos inocentes úteis na mão daqueles que sempre tutelaram as massas.

Mas lendo, hoje, duas brilhantes colunas de Leonardo Sakamoto (links abaixo), tudo clareou.  Foram vários os momentos em que me vi ali em sua pele.  Parabéns Japa, você conseguiu traduzir o exato sentimento que venho sentindo. 
 
Cansei de ser confundido com petista por ter ideias progressistas e ser contra o impeachment da forma como se vem tentando fazer; ao mesmo tempo apanho deles quando em discussões privadas me coloco como crítico de suas atuais práticas e de grupos que tomaram o Partido de assalto.  Há tempos denuncio que a sigla errou feio quando não expulsou, a partir das condenações do mensalão, conforme reza seu estatuto, filiados metidos em falcatruas com trânsito julgado.

Depois, respire fundo, engate uma segunda e leia o seguinte: “Caça às Bruxas. A tentativa de criminalizar Guilherme Boulos e o MTST”.  É preciso estar atento.  Faço minhas suas palavras.



Abraços

Odilon de Barros


terça-feira, 13 de outubro de 2015

Crise de final imprevisível


Dilma
A presidente Dilma Rousseff durante assinatura de uma lei, em 6 de outubro, em Brasília, enquanto o cerco opositor contra ela tenta fazer com que renuncie ou que um julgamento político a tire do Palácio do Planalto. Foto Roberto Stuckert Filho/PR

O Brasil sofre sobressaltos quase diários, há vários meses, que mantêm o país em tensão permanente, impotente diante do agravamento da crise econômica e dos descaminhos da política nacional. “O desenlace é imprevisível”, reconheceu a deputada Luiza Erundina, do opositor Partido Socialista Brasileiro (PSB), em Brasília, epicentro da crise. São muitos os atores decisivos e por sua vez vulneráveis a fatos em evolução.
A presidente Dilma Rousseff sofreu, no dia 7 deste mês, a rejeição de suas contas de 2014 pelo Tribunal de Contas da União, órgão consultivo do Congresso. Essa avaliação, se for ratificada pelos legisladores, pode justificar um processo de impeachment no Senado, que poderia anular o mandato presidencial. Neste caso, Dilma Rousseff seria substituída pelo vice-presidente, Michel Temer, do PMDB, principal aliado doPartido dos Trabalhadores (PT), partido da presidente, que está no poder desde janeiro de 2011.
Quem mais incentiva a ação de impeachment é o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, que, por sua vez, é acusado de receber US$ 5 milhões como suborno para facilitar negócios de estaleiros com a Petrobras. Informações de bancos suíços, que comprovariam a existência de contas de Cunha com dinheiro da corrupção, incentivaram um grupo de deputados a pedir seu afastamento do cargo por violação do decoro parlamentar. Isso depende de uma decisão da Comissão de Ética da Câmara.
Apesar de ser membro do PMDB e da coalizão oficial, e de ter como aliado o ministro da Ciência e Tecnologia, Cunha exerce uma feroz oposição à presidente desde julho, depois que apareceu como um dos investigados por corrupção na chamada Operação Lava Jato da Polícia Federal. “As investigações enfraqueceram o presidente da Câmara, com o afastamento de seus aliados que se opõem ao governo, abrandando o ímpeto pelo impeachment da presidente”, afirmou Erundina. Além disso, este mês foi realizada uma reforma no governo, e sete ministérios foram entregues ao PMDB para recompor a coalizão e neutralizar as tentativas de derrubá-la.
Porém, outro risco ameaça a permanência de Dilma Rousseff no poder. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidiu, no dia 6 deste mês, investigar denúncias de que a chapa Rousseff-Temer cometeu abusos de poder econômico e político na campanha eleitoral de 2014, quando foi reeleita. A suspeita é que dinheiro da corrupção tenha apoiado sua campanha. Em caso de comprovação da violação das regras, o resultado da eleição seria impugnado e seria convocada nova votação, uma alternativa que anima os partidos de oposição.
“Pela primeira vez, Dilma Rousseff aparece nas pesquisas de opinião com metade das possibilidades de não permanecer na Presidência até o final de seu mandato (31 de dezembro de 2018), diante do agravamento da crise econômica”, apontou à IPS André Pereira, consultor político independente em Brasília. Isso pode ocorrer pelo impeachment, devido a fraudes nas contas do governo em 2014, pela impugnação pelo Poder Judicial do resultado eleitoral no mesmo ano, ou pela renúncia, acrescentou.
Congresso Nacional, onde, no dia 7 de outubro, foi dado o primeiro passo no Senado para um possível julgamento político da presidente Dilma Rousseff, que eventualmente levaria ao seu impeachment. Foto: Creative Commons
Congresso Nacional, onde, no dia 7 de outubro, foi dado o primeiro passo no Senado para um possível julgamento político da presidente Dilma Rousseff, que eventualmente levaria ao seu impeachment. Foto: Creative Commons
“Em Brasília, o clima é de incerteza geral, de perplexidade e de temor de que outros políticos sejam envolvidos nas investigações sobre corrupção nos negócios da Petrobras ou apareçam novas evidência contra os suspeitos. Isso gera desconfiança entre todos”, afirmou Pereira.
Apesar da recessão econômica que se estenderia durante o próximo ano, com o risco de degenerar em uma depressão, o mundo político não se mobiliza nem dialoga em busca de soluções, mas se racha ainda mais em função de interesses pessoais ou de pequenos grupos. E isso, por sua vez, agrava a crise econômica. “Isso reflete o esgotamento do sistema político. Em meus 16 anos de vida parlamentar, sempre ouvi falar da necessidade e de propostas de reforma política, mas a plenária segue à mercê do que pensa cada um em seu próprio interesse”, lamentou Erundina.
“Não creio que se possa aprovar uma reforma política, embora sejam necessárias medidas para reduzir a quantidade de partidos. Um cidadão comum não compreende a existência de mais de 30 partidos, muitos deles chamados “de aluguel”, cujo objetivo é ganhar dinheiro. Seria preciso limitá-los a menos de dez”, opinou Pereira. “Com menos partidos, ainda que sejam os mesmos que dominam a política brasileira, se tornarão mais orgânicos. O PT, por exemplo, poderia se recriar e voltar a atuar como nos anos 1980. Sem a reforma, cai Dilma, vem outro presidente e a crise continuará”, concluiu o analista político.
O esquerdista PT governa o país desde 2003, primeiro com Luiz Inácio Lula da Silva e depois com Dilma Rousseff. O PSB, o partido de centro-esquerda de Erundina, foi aliado dos governos do PT até 2013. Entretanto, para a deputada, a múltipla crise que o país vive não se deve apenas ao distorcido sistema eleitoral, mas também ao fato de ter se rompido o princípio da independência dos poderes e é preciso reestruturar o Estado, com “melhor distribuição do poder entre União, Estados e municípios”.
É fundamental, por exemplo, uma reforma do “injusto” sistema tributário brasileiro, com “impostos regressivos” que taxam mais o consumo e os salários, em lugar do lucro e do patrimônio. “A injustiça tributária impede a justiça social. Os impostos também são um mecanismo para distribuir renda, reduzir a desigualdade, taxando mais quem ganha mais”, pontuou Erundina.
“Combinar a democracia representativa com a direta, que avança no mundo” é uma fórmula defendida pela deputada. No regime presidencialista brasileiro, “o presidente pode tudo” e isso contamina inclusive o parlamento, onde Cunha permanece na presidência da Câmara, apesar das denúncias e evidência de sua participação no grande escândalo de corrupção da Petrobras, acrescentou Erundina.
Esse marco impede que as autoridades compreendam a “insatisfação generalizada da sociedade”, manifestada nos protestos de massa de junho de 2013, segundo Erundina. “Ao descrédito da representação política se soma a corrupção, efeito e não causa das distorções do sistema”, ressaltou.
“O clima raivoso” que se instalou no país após as eleições de 2014 impedem o diálogo em busca de saídas para a crise, admite a deputada. Mas isso não é exclusivo do Brasil. Segundo Erundina, “vivemos o fim de um ciclo no mundo, não só em nosso país, e não sabemos qual será o novo ciclo, mas a história não anda para trás. Às vezes avança a saltos, como ocorreu (em 1985) ao final da ditadura militar no Brasil, que parecia interminável”. Envolverde/IPS/Utopia Sustentável

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

O planeta rumo a 3 graus

Twitt
Fb-Button
Display da sorveteria Ben&Jerry's em Bonn; marca lançou sorvete "sabor mudança climática". Foto: Claudio Angelo/OC
Display da sorveteria Ben&Jerry’s em Bonn; marca lançou sorvete “sabor mudança climática”. Foto: Claudio Angelo/OC
Nova análise conclui que, com compromissos de redução de emissões para 2030, manter aquecimento no limite de 1,5 grau é impossível e alvo de 2 graus Celsius fica caro demais. 
Por Claudio Angelo, do OC, em Bonn –
Uma nova análise dos planos climáticos submetidos pelos países para a conferência de Paris confirma que o mundo está no rumo dos 3oC de aquecimento neste século caso não haja uma séria escalada na ambição das metas propostas para 2030.
Segundo afirmou nesta quarta-feira o Climate Action Tracker, um grupo que reúne pesquisadores de quatro instituições europeias, as INDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas Pretendidas) apresentadas por 29 governos até agora, que cobrem cerca de 65% das emissões do mundo, ainda deixam o planeta em 2030 com 17 bilhões a 21 bilhões de toneladas de gás carbônico a mais do que seria necessário para evitar que o aquecimento global atinja o limite de 2oC.
Essa temperatura foi acordada na conferência de Copenhague, em 2009, como o limiar máximo em relação à era pré-industrial para evitar os piores impactos da mudança do clima, como o aumento potencialmente catastrófico do nível do mar – embora vários estudos tenham apontado desde então que mesmo esse grau de aquecimento é perigoso demais.
Das INDCs apresentadas até aqui, apenas duas – as da Etiópia e do Marrocos – são consistentes com um aquecimento menor do que 2oC. Todas as outras foram qualificadas como “inadequadas” ou “médias”.
A avaliação do Climate Action Tracker confirma o estudo apresentado na semana passada pelo Idesam (Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável do Amazonas) sobre a insuficiência das INDCs. Segundo o Idesam, as propostas apresentadas até aqui excedem em 3,6 bilhões de toneladas o teto de emissões neste século compatível com os 2oC. Se incluídas as metas chinesas, o buraco de ambição chegaria a 31 bilhões de toneladas.
Ambos usaram metodologias diferentes: o Idesam calculou o déficit considerando a média de emissões anuais permitidas neste século pelo orçamento de carbono disponível segundo os cientistas (1 trilhão de toneladas de CO2). O Climate Action Tracker procurou olhar especificamente para os anos de 2025 e 2030.
O estudo divulgado em Bonn aponta que estabelecer metas capazes de segurar o aquecimento da Terra em 1,5oC, como desejam alguns países, já não é mais possível. Limitar o aquecimento a 2oC com metas para o ano de 2030 será, na melhor das hipóteses, caro demais.
Segundo Bill Hare, pesquisador da Climate Analytics e um dos responsáveis pelo Climate Action Tracker, a única saída para o impasse é adiantar o prazo das metas e propor compromissos de mais curto prazo.
“Está claro que, se o acordo de Paris travar os compromissos atuais no ano de 2030, segurar o aquecimento em 2oC poderia tornar-se basicamente impraticável e, em 1,5oC, fora de alcance. Dado o nível de ação climática na mesa, metas só deveriam ser adotadas até 2025”, disse Hare, em comunicado.
O grupo também sugere que os países que já colocaram suas metas na mesa aumentem significativamente sua ambição até Paris, e os que ainda não o fizeram – entre eles o Brasil e a Índia – apresentem metas muito elevadas.
O alemão Arthur Runge-Metzger, negociador da União Europeia, diz que não há a menor chance de uma revisão prévia das INDCs. “Havia essa proposta no ano passado, na conferência de Lima, mas ela foi jogada fora”, afirmou ao OC. Os ciclos de compromisso de cinco anos vêm sendo defendidos pela UE e por outros países, como o Brasil. “Mas tudo só será decidido em Paris.”
Veja o Ambiciômetro, ferramenta criada pelo Idesam para visualizar as metas dos países. (Observatório do Clima/ #Envolverde/Utopia Sustentável)

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

O preço da estupidez


Morei na Itália no início do novo milênio.  Cidadão ítalo-descendente, vivenciei de perto as agruras daqueles que imigram por conta da fome, guerras e falta de trabalho. Duplo-cidadão originário da Região Basilicata (*), não raro ouvia adjetivos pejorativos travestidos de brincadeiras, e que na verdade escondiam xenofobia e preconceito.  E olha que era um deles.

Certamente esse não é um problema italiano, mas europeu, do Planeta Terra e desse estúpido capitalismo selvagem (e falido) que nos é imposto pela ordem econômica vigente.  Um sistema que permite que 80 terráqueos, apenas 80, tenham mais dinheiro que metade dos habitantes de todo o Globo Terrestre.  É possível parar e pensar o quão louco é este número que acabei de escrever?

Ainda sobre aquele período, presenciei a inoperância do sistema oficial diante de verdadeiras legiões de africanos e europeus do leste que se deslocavam em busca de um futuro melhor se sujeitando a trabalhar até catorze horas por dia em troca de comida e um lugar para dormir.  Cansei de ver lindíssimas meninas romenas, moldavas e albanesas vendendo flores e até seus corpos juvenis em sinais.  Um círculo vicioso difícil de sair, mas ainda assim muito melhor do que suas duras realidades regionais.




Para fugir de encargos trabalhistas muitos patrões começaram a empregar extra comunitários (**), que além de ganhar bem menos que os italianos, ainda trabalhavam no “Nero” (***).  Em maior ou menor grau isso acontece na grande maioria das nações do velho continente e é o preço a ser pago por todos os sistemas e países que sempre optaram pela obtusidade de políticas econômicas míopes que só enxergam cifrões em detrimento do ser humano. 

O tempo passou e de lá para cá ingredientes não faltaram para o problema se alastrar e tornar-se epidêmico. 

O caminhão frigorífico com dezenas de corpos em estado parcial de decomposição no baú, encontrado essa semana em uma estrada da Áustria, próximo à fronteira da Hungria, justo no dia da abertura da Cúpula dos Bálcãs Ocidentais, que tratará, entre outras coisas, da crise migratória, é uma vergonha para a humanidade, para o mundo moderno.

Tentar prender o motorista do caminhão ou seu chefe, é não enxergar o óbvio, tapar o sol com peneira.  Nesse imenso circo dos horrores em que se transformaram essas viagens desesperadas de quem não tem mais nada a perder, arriscar a vida é apenas um detalhe.  Traficar pessoas e despejá-las onde der, faz parte do jogo.  Negócio capitalista dos bons. 

Inútil dizer que discursos pregando a necessidade de desenvolver os países não membros da UE e hipócritas como o de Angela Merkel, de que traficantes de seres humanos não se preocupam com vidas, são cortinas de fumaça para nada se fazer. 

Importante lembrar que faz pouco mais de um mês a mandatária alemã e essa mesma União Europeia, colocaram de joelhos, mais uma vez, a Grécia e seu povo, ao firmarem um acordo que o tempo se revelará impagável.

Enquanto os países ricos não se conscientizarem que jamais terão paz com tamanha desigualdade, cada vez mais veremos sociedades e povos encontrando suas próprias saídas para sobreviver.  E elas nem sempre serão boas (ou pacíficas) para nós. 


Se quisermos realmente avançar enquanto sociedade, já será um bom começo enxergar não haver diferença entre nações que impõem políticas econômicas desumanas a seus povos e os traficantes que enricam se aproveitando do desespero alheio.  Afinal, em ambos os casos os beneficiários finais não enxergam apenas o desejo pelos cifrões em detrimento do ser humano?

Semana que passou, José “Pepe” Mujica, ex-presidente do Uruguai, esteve no Rio para uma conferência.  Em seu discurso, para uma plateia repleta de estudantes na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, falou sobre a importância da integração dos povos.  E, com inteligência e clareza, em uma única frase definiu o que o mundo tanto necessita.

“Precisamos pensar como espécie, não como países. Os povos da África não são da África, são nossos. Os que morrem tentando atravessar o Mediterrâneo são nossos.  Sem solidariedade, não há civilização”. 

Viva Mujica.

(*) – Basilicata – Região localizada no sul da Itália;
(**) -  Extra Comunitários – Cidadãos nascidos fora da comunidade europeia;
(***) - Nero – Salário pago a trabalhadores italianos fora das regras oficiais e sem a incidência de impostos.

Abraços Sustentáveis


Odilon de Barros  

domingo, 9 de agosto de 2015

Sonhei com Dilma e...



Noite passada sonhei com a presidenta Dilma.  Coisa esquisita! Ela me chamava para assumir o posto do tonto do Mercadante.  Como o tema tem dominado a grande mídia e vivo o dia a dia político intensamente, não titubeei, aceitei o cargo!!! 

Apresentado aos serviçais palacianos tomei posse com pompa e status de ministro. Como a situação era delicada, no mesmo dia lá estava eu, despachando cara a cara com a toda poderosa no gabinete de crise instalado no terceiro andar do Palácio para a primeira reunião.  Como de praxe, enfileirado fui sendo apresentado a Jaques Wagner, o demissionário e preterido Mercadante, Edinho Silva, Temer, Gilberto Kassab, Eliseu Padilha, líder e vice-líder do Governo, Virgílio Guimarães e Alessandro Molon, e Dilma, que disparou sem pestanejar: e aí Odilon, quais rumos tomar diante de tantos problemas.  Fazer o quê?

Assustado com minha importância repentina, pensei comigo: hora de botar em prática todas aquelas viagens que rumino sozinho anos a fio.  Bem, presidenta (nas apresentações minutos antes, sua mãe, de passagem pelo Alvorada, me cochichou que ela só gosta de ser chamada assim), não dá mais para tapar o sol com peneira, a segunda prisão do Zé fez ruir a última linha de defesa, os últimos pilares éticos daqueles que ainda acreditavam que tudo não passava de manobra midiática golpista para acabar com o PT e da tese de que as prisões eram políticas.  Desculpe senhora, não era para começar por aí, mas isso me incomoda muito.  Dilma percebeu o quão trêmulo e nervoso estava e gritou por Genésio, seu garçom predileto, que ao se aproximar já trouxe água e café. E tentando evitar que o ritmo fosse interrompido emendou ...continue, Odilon.

Presidenta, quem está acabando com o PT é o próprio PT com sua soberba e prepotência em não reconhecer perante a Nação os erros cometidos até aqui.  Senhores ministros, é inadmissível não terem excluído após o trânsito em julgado os dirigentes condenados no Mensalão conforme prevê o estatuto, cris-ta-li-na-men-te, em seu Art. 231.



Quem está acabando com o Partido é sua elite dirigente (que jamais saiu do eixo Paulista), aquela mesma que comanda, sem renovação e desde sua fundação, a sigla.  Está na hora de o Partido dos Trabalhadores conjugar o verbo ROUBAR em todas as pessoas.  Presidenta, a crise é antes de mais nada moral.  E precisa ser reconhecida com um mea culpa amplo, geral e irrestrito.  E também humilde, sem medo de ser (in) feliz.

Mas é preciso que voltemos um pouco no tempo para entender o que está acontecendo agora, Excelência.  Com o fim da ditadura (que maquiavelicamente trouxe em seu bojo a anistia), nossas oligarquias criaram o advento da redemocratização, e estamos nessa faz 30 anos.  Não passar o país a limpo e dizer à sociedade e novas gerações, com todas as letras, que o que ocorreu naquele intervalo de vinte e poucos anos foi um grave erro, foi jogada de mestre.  Na verdade, se quiséssemos avançar enquanto sociedade deveríamos aceitar, pedir desculpas à Nação e punir os responsáveis pelas atrocidades cometidas como todos nossos vizinhos fizeram.  Videla, aquele General torturador da Argentina, morreu sentado, perdão presidenta, cagando em um vaso sanitário dentro de uma cela sozinho e com duas perpétuas nas costas.  Esse dever de casa não aconteceu aqui no Brasil.  Nesse momento percebi que os olhos de Dilma brilhavam, emocionada.  Prossiga, Odilon. 

Saímos de um regime de força para outro democrático como quem desce de um ônibus que quebrou no meio do caminho e pega outro, já lotado, e todos se acomodam, normalmente.  E isso, em política, sabemos, não existe.

Desde a fundação do Partido, em 80, acompanho sua trajetória e lembro como se fosse hoje a febre e o modismo das estrelinhas vermelhas.  Intelectuais de todas as matizes, cientistas, historiadores, igreja, quanta gente boa embarcou no sonho romântico de uma nova forma de fazer política. 

O modelo de rigidez nas coligações levado a cabo no início de sua existência conjugado ao discurso de ética na política, atraía milhões de novos correligionários.  A senhora não deve se lembrar pois à época ainda era Brizolista.  É lógico que tudo era mais fácil por conta do Partido não ser Governo, ainda. 

Mas as contradições não tardaram e o Partido, ora para manter a filosofia inicial e, posteriormente, com o discurso da necessidade de caminhar para a frente, começou a perder importantes quadros.  Foi assim com Erundina, Bete Mendes, Heloísa Helena, Plínio de Arruda Sampaio, Eliomar Coelho, Chico Alencar, Luciana Genro, Cristóvão Buarque, Frei Beto e tantos outros. Uma pena.


Agora vemos um modelo político esgarçado, sem referências políticas fortes, líderes ou estadistas.  Um presidencialismo (chantagista) de coalizão em prol de uma fajuta governabilidade e convidativo ao extremo à corrupção.  Esgotou-se, presidenta.  Minha fala soava como a 5ª de Beethoven em seus ouvidos.

Na cabeceira da grande mesa oval de reunião, que jamais pensei sentar, Dilma, com um sorrisinho de soslaio, me autorizava a continuar.  Ministros cascudos e tarimbados ensaiavam pedir a palavra, porém a seriedade da presidenta inibia qualquer manifestação.  E sem conseguir falar, apenas se entreolhavam como que se perguntando: mas quem é esse louco fazendo uma catarse política de nosso Partido a essa altura do campeonato?  Senti que a mandatária vibrava de prazer, aliás, pode ser que esteja enganado, mas aqui pra nós, seus olhos brilhavam, há tempos não a via com uma fisionomia tão suave, tinha o semblante dos apaixonados. Era tudo que precisava para despir meus medos.  Fui em frente.

Presidenta, ninguém sai de 70% de popularidade para 8% da noite para o dia.  O tempo de queda é proporcional às bobagens que o Partido vem cometendo.  Se aliar a Maluf, Collor, Sarney, Jader... é claro que essa fatura um dia ia chegar.  É preciso ousar, romper barreiras, e antes de tudo ter vontade política para dar a esperada e necessária guinada à esquerda. Nesse momento ouço uma voz firme interpelar-me, era o ministro Padilha, da Aviação Civil, que indagou: escuta aqui Sr. Odilon, não me desloquei até aqui à toa.  O Sr. chega sem um plano de ação, vomita um monte de baboseiras soltas e sem nexo no ar e quer o quê? 

Com a consciência de quem não tem nada a perder respirei fundo e calmamente engatei uma segunda e... Sra. Presidenta Dilma Roussef, vivemos uma crise sem precedentes com membros dos três níveis de governo envolvidos em desvios e malfeitos.  Padilha ainda ameaçou me interromper mais uma vez e ouviu um cala boca tão alto que até a Guarda postada na entrada do Alvorada deve ter ouvido.  Me senti fortalecido e, mais uma vez, fui em frente.

Presidenta, é inútil tentar continuar ignorando as ruas, pois vem muito mais por aí com as delações de Duque e Baiano, quiçá a de Marcelo Odebrecht também.  A Casa caiu, senhores.  E mesmo que seu Governo tente dar o exemplo agora, nada garante que vai conseguir a sonhada estabilidade para governar.

Portanto, o momento exige atitudes drásticas, diferentes, medidas que apenas estadistas são capazes de propor. Sentindo o bom momento, o deputado Alessandro Molon, pediu e foi atendido, para que fosse convocado imediatamente ao Palácio o ex-ministro e governador, Tarso Genro.  Entendi o recado.  Estava no caminho certo.  Vamos às medidas:

1-     Reunião com a cúpula partidária para exigir a desfiliação imediata de todos os condenados com trânsito em julgado conforme prevê o estatuto do PT em seu Art.231;
2-     Convocação de Congresso extraordinário do PT visando oxigenação e maior transparência no tocante à administração orgânica e combate incessante à corrupção.  Ter a ética e a moral como valores principais da sigla;
3-     Mensagem ao Congresso Nacional para convocação de Constituinte exclusiva composta por notáveis de nossa sociedade visando uma profunda reforma política com ênfase, principalmente nos seguintes pontos: regras rígidas para fortalecimento dos partidos (fidelidade partidária, cláusula de barreira, fim do voto obrigatório, fim do financiamento privado de campanhas); revisão da lei anticorrupção com aumento considerável das penas mínimas e fim da progressão do regime fechado para aberto com 1/6 de pena cumpridos nos casos de crimes financeiros para corruptos e corruptores;
4-     Convocação de cadeia nacional para um pedido formal de desculpas à Nação do Governo e do Partido dos Trabalhadores;
5-     Declaração pública de guerra à corrupção com envio de Medida Provisória ao Congresso Nacional encampando os itens constantes da proposta elaborada pelo Ministério Público, e ratificação do apoio e independência aos órgãos do Poder Judiciário em seu combate.

Nesse momento, mais uma vez sou interrompido de forma grosseira pelo ministro Eliseu Padilha que aos gritos me chamava de chantagista e insano.


Estava calmo e não me abati.  Presidenta, isso não é chantagem, é desprendimento, grandeza e um reconhecimento de que a situação é gravíssima.  Acredito em sua honradez, mas dissociar-se de algo de que se faz parte há 15 anos não é tarefa fácil. 

Na dança do meu pirão primeiro com todos tentando salvar a própria pele delatando ou atacando, um bom sinal parece vir da podridão proporcionada pela Lava Jato onde, pela primeira vez, vemos uma socialização dos cárceres do país.  Alvíssaras.

Como acredito em sua história e honestidade, não se apegue à cadeira, sugiro, porém, que o faça em bloco com aqueles que ainda lutam desesperadamente para o PT acordar e retomar seu caminho.  Isso é mais do que normal em países que respeitam suas sociedades.  Caso contrário vai ser apenas questão de tempo para o impeachment ser tirado da cartola mágica do desesperado presidente da Câmara ou o Partido implodir na primeira derrota majoritária.  Chega, bradiu Dilma, gostei!!! Acabou Sr. Odilon?

Estou finalizando, presidenta. Ficar só valerá se for para realmente mudar.  Manter o “status quo” atual é um raciocínio obtuso e o pior legado que seu Partido pode deixar para o Brasil. 

Nesse momento, a confusão tomou conta da sala. De um lado Dilma, Molon e Tarso.  Como um flash, acordei assustado sem entender ao certo o que era real ou fantasia.  Nos jornais as manchetes estampavam: “Dilma convoca Nação para pronunciamento extraordinário, hoje, às 20h”. 

Abraços sustentáveis


Odilon de Barros