Morei na Itália no início do novo milênio. Cidadão ítalo-descendente, vivenciei de perto
as agruras daqueles que imigram por conta da fome, guerras e falta de trabalho.
Duplo-cidadão originário da Região Basilicata (*), não raro ouvia adjetivos
pejorativos travestidos de brincadeiras, e que na verdade escondiam xenofobia e
preconceito. E olha que era um deles.
Certamente esse não é um problema italiano, mas europeu, do
Planeta Terra e desse estúpido capitalismo selvagem (e falido) que nos é
imposto pela ordem econômica vigente. Um
sistema que permite que 80 terráqueos, apenas 80, tenham mais dinheiro que
metade dos habitantes de todo o Globo Terrestre. É possível parar e pensar o quão louco é este
número que acabei de escrever?
Ainda sobre aquele período, presenciei a inoperância
do sistema oficial diante de verdadeiras legiões de africanos e europeus do
leste que se deslocavam em busca de um futuro melhor se sujeitando a trabalhar até
catorze horas por dia em troca de comida e um lugar para dormir. Cansei de ver lindíssimas meninas romenas,
moldavas e albanesas vendendo flores e até seus corpos juvenis em sinais. Um círculo vicioso difícil de sair, mas ainda
assim muito melhor do que suas duras realidades regionais.
Para fugir de encargos trabalhistas muitos patrões começaram
a empregar extra comunitários (**), que além de ganhar bem menos que os
italianos, ainda trabalhavam no “Nero” (***).
Em maior ou menor grau isso acontece na grande maioria das nações do velho
continente e é o preço a ser pago por todos os sistemas e países que sempre
optaram pela obtusidade de políticas econômicas míopes que só enxergam cifrões em
detrimento do ser humano.
O tempo passou e de lá para cá ingredientes não faltaram para
o problema se alastrar e tornar-se epidêmico.
O caminhão frigorífico com dezenas de corpos em estado
parcial de decomposição no baú, encontrado essa semana em uma estrada da
Áustria, próximo à fronteira da Hungria, justo no dia da abertura da Cúpula dos
Bálcãs Ocidentais, que tratará, entre outras coisas, da crise migratória, é uma
vergonha para a humanidade, para o mundo moderno.
Tentar prender o motorista do caminhão ou seu chefe, é não
enxergar o óbvio, tapar o sol com peneira.
Nesse imenso circo dos horrores em que se transformaram essas viagens
desesperadas de quem não tem mais nada a perder, arriscar a vida é apenas um
detalhe. Traficar pessoas e despejá-las
onde der, faz parte do jogo. Negócio
capitalista dos bons.
Inútil dizer que discursos pregando a necessidade de
desenvolver os países não membros da UE e hipócritas como o de Angela Merkel,
de que traficantes de seres humanos não se preocupam com vidas, são cortinas de
fumaça para nada se fazer.
Importante lembrar que faz pouco mais de um mês a mandatária
alemã e essa mesma União Europeia, colocaram de joelhos, mais uma vez, a Grécia
e seu povo, ao firmarem um acordo que o tempo se revelará impagável.
Enquanto os países ricos não se conscientizarem que jamais
terão paz com tamanha desigualdade, cada vez mais veremos sociedades e povos
encontrando suas próprias saídas para sobreviver. E elas nem sempre serão boas (ou pacíficas)
para nós.
Se quisermos realmente avançar enquanto sociedade, já será um
bom começo enxergar não haver diferença entre nações que impõem políticas
econômicas desumanas a seus povos e os traficantes que enricam se aproveitando
do desespero alheio. Afinal, em ambos os
casos os beneficiários finais não enxergam apenas o desejo pelos cifrões em
detrimento do ser humano?
Semana que passou, José “Pepe” Mujica, ex-presidente do
Uruguai, esteve no Rio para uma conferência.
Em seu discurso, para uma plateia repleta de estudantes na Universidade
do Estado do Rio de Janeiro, falou sobre a importância da integração dos povos. E, com inteligência e clareza, em uma única
frase definiu o que o mundo tanto necessita.
“Precisamos pensar como espécie, não como países. Os povos da
África não são da África, são nossos. Os que morrem tentando atravessar o
Mediterrâneo são nossos. Sem
solidariedade, não há civilização”.
Viva Mujica.
(*) – Basilicata – Região localizada no sul da Itália;
(**) - Extra
Comunitários – Cidadãos nascidos fora da comunidade europeia;
(***) - Nero – Salário pago a trabalhadores italianos fora
das regras oficiais e sem a incidência de impostos.
Abraços Sustentáveis
Odilon de Barros
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