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quinta-feira, 20 de outubro de 2016

A era das grandes turbulências

O Ocidente declina, mas os EUA conservam o poder militar decisivo. A crise do capitalismo arrasta-se, espalha insegurança, corrói a democracia. Onde encontrar a esperança?

Foto: Shutterstock
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Qual o desenho do novo cenário mundial? Quais são suas principais características? Que dinâmicas estão determinando o funcionamento real de nosso planeta? Que características dominarão nos próximos 15 anos, daqui a 2030?
Para analisar este novo cenário e prever seu futuro imediato, vamos utilizar a bússola da geopolítica, uma disciplina que nos permite compreender o jogo geral das potências e avaliar os principais riscos e perigos. Para antecipar, como um tabuleiro de xadrez, os movimentos de cada potência adversária.
E o que nos diz esta bússola?
1. O declínio do Ocidente
A principal constatação é o declínio do Ocidente. Pela primeira vez desde o século 15, os países ocidentais estão perdendo poder frente a ascensão das novas potências emergentes. Começa a fase final de um ciclo de cinco séculos de dominação ocidental do mundo. A liderança internacional dos EUA viu-se ameaçada pelo surgimento de novos polos de poder (China, Rússia e Índia) em escala internacional. A “degradação estratégica” dos EUA já começou. O “século americano” parece chegar ao seu fim, enquanto o “sonho europeu” desaparece.
Embora os EUA sigam sendo uma das principais potenciais planetárias, estão perdendo sua hegemonia econômica para a China. E já não exercerão mais sua “hegemonia militar solitária” como fizeram desde o fim da Guerra Fria (1989). Estamos caminhando para um mundo multipolar em que os novos atores (China, Rússia e Índia) têm vocação para construir sólidos polos regionais e a disputar a supremacia internacional com Washington e seus aliados históricos (Reino Unido, França, Alemanha e Japão).
Na terceira linha aparece uma série de potenciais intermediarias, com demografias em alta e fortes taxas de crescimento econômico, convertendo-se também em polos hegemônicos regionais e com tendência a se transformar, daqui a 15 anos, em um grupo de influência planetária (Indonésia, Brasil, Vietnã, Turquia, Nigéria, Etiópia).
Para ter uma ideia da importância e da rapidez da degradação ocidental que se avizinha, basta observar essas cifras: a participação dos países ocidentais na economia mundial vai passar de 56% hoje para 25% em 2030… Ou seja, em menos de 15 anos o Ocidente perderá mais da metade de sua preponderância econômica. Uma das principais consequências será que os EUA e seus aliados não terão mais os meios financeiros para assumir o policiamento do mundo… De tal modo que está mudança estrutural poderá debilitar o Ocidente duplamente.
2. A incontível emergência da China
O mundo está “desocidentalizando” e é cada vez mais multipolar. Destaca-se, mais uma vez, o papel da China que emerge, a principio, como uma grande potência no coração do século 21 — apesar de estar longe de representar ainda uma autêntica rivalidade com Washington. Por um lado, a estabilidade de Pequim não está garantida porque coexistem em seu seio o capitalismo mais selvagem e o comunismo mais autoritário. A tensão entre essas duas dinâmicas causará, cedo ou tarde, uma ruptura que poderá debilitar sua potência.
De qualquer maneira, hoje, em 2016, os EUA seguem exercendo uma indiscutível dominação hegemônica sobre o planeta. Tanto no terreno militar (fundamental), quanto em vários outros setores cada vez mais determinantes: em particular, na tecnologia (internet) e no soft power (cultura de massas). Isso não quer dizer que a China não tenha realizado também avanços prodigiosos nos últimos anos. Nunca na história, um país cresceu tanto em tão pouco tempo.
No momento, enquanto declina o poder dos EUA, a ascensão da China é incontornável. Já é a segunda potência econômica do mundo (à frente do Japão e Alemanha).
Para Washington, a Ásia é agora a zona prioritária desde que o presidente Barack Obama decidiu a reorientação estratégica de sua política externa. Os EUA buscam frear a expansão da China, cercando-a com bases militares e apoiando seus aliados locais tradicionais: Japão, Coreia do Sul, Taiwan e Filipinas. É significativo que a primeira viagem de Obama, depois da sua reeleição em 2012, tenha sido para Birmânia, Camboja e Tailândia, três países da Associação de Nações da Ásia do Sudeste (ASEAN), uma organização que reúne os aliados de Washington na região, cujos membros têm problemas de limites marítimos com Pequim.
Os mares da China tornaram-se as zonas com maior potencial de conflito armado da área Ásia-Pacífico. Há tensões entre Pequim e Tóquio, a propósito da soberania sobre as ilhas Senkaku (Diaoyú para os chineses). Também a disputa com Vietnã e Filipinas sobre a propriedade das ilhas Spratly está subindo o tom perigosamente. A China está modernizando toda sua marinha em alta velocidade. Em 2012, lançou seu primeiro porta-aviões, o Lioning, e está construindo um segundo, com a intenção de intimidar a Casa Branca. Pequim suporta cada vez menos a presença militar dos EUA na Ásia. Entre estes dois gigantes, esta se instalando uma perigosa “desconfiança estratégica” que, sem nenhuma dúvida, poderá marcar a política internacional nesta reginão até 2030.
3. O terrorismo jihadista
Outras das ameaças globais indicadas por nossa bússola é o terrorismo jiahadista praticado ontem pela Al-Qaeda e hoje pelo Estado Islâmico (ISIS). As principais causas do terrorismo atual têm de ser buscadas nos desastrosos erros e crimes cometidos pelas potências que invadiram o Iraque em 2003 — além das intervenções caóticas na Líbia (2011) e na Síria (2014).
No Oriente Médio segue situado no atual foco de desestabilização do mundo. Em particular, em torno da inexplicável guerra civil na Síria. O que está claro é que, neste país, as grandes potências ocidentais (EUA, Reino Unido, França), aliadas aos Estados que mais difundem pelo mundo a concepção mais arcaica e retrógrada do islã (Arábia Saudita, Qatar e Turquia), decidiram apoiar (com dinheiro, armas e instruções) a insurgência islamista sunista. Os EUA constituíram nesta região um amplo “exército sunita” com o objetivo de derrubar Bashar Al-Assad e prejudicar um grande aliado regional de Teerã. Entretanto, o governo de Assad, com o apoio da Rússia e do Irã, resistiu e segue consolidando-se. O resultado de tantos erros é o terrorismo jihadista atual que multiplica os atentados odiosos contra civis inocentes na Europa e nos EUA.
Algumas capitais ocidentais seguem pensando que a potência militar maciça é suficiente para derrotar o terrorismo. Mas a história militar mostra exemplos abundantes de grandes potências incapazes de derrotar adversários mais débeis. Basta recordar os fracassos norte-americanos no Vietnã em 1975, e na Somália em 1994. Em um combate assimétrico, aquele que pode mais, não ganha necessariamente. O historiador Eric Hobsbawn nos recorda que “Na Irlanda do Norte, durante certa de 30 anos, o poder britânico se mostrou incapaz de derrotar um exercito minúsculo como o IRA. Certamente o IRA não venceu, porém nem por isso, foi vencido”.
Os conflitos do novo tipo, quando uma potência enfrenta o débil ou o louco, são mais fáceis de começar do que de terminar. E o emprego maciço de meio militares pesados não necessariamente permite alcançar os objetivos buscados.
A luta contra o terrorismo também está justificando, em matéria de governança e de política doméstica, todas as medidas autoritárias e todo os excessos, inclusive uma versão moderna do “autoritarismo democrático” que tem como alvo, além das organizações terroristas, todos os manifestantes que se opõem às políticas globalizadoras e neoliberais.
4. Há crises para muito tempo…
Outra constatação importante: os países ricos seguem padecendo de consequências do terremoto econômico-financeiro que foi a crise de 2008. Pela primeira vez, a União Europeia, (e o “Brexit” confirma), vê ameaçada sua coesão e até sua existência. Na Europa, a crise econômica durará ao menos mais uma década, até pelo menos 2025.
Há crise, em qualquer setor, quando algum mecanismo deixa de atuar, começa a ceder e acaba rompendo-se. Essa ruptura impede que o conjunto da maquinaria siga funcionando. É o que aconteceu com a economia mundial desde o estouro da crise das sub-primes em 2007-2008.
As consequências sociais desse cataclismo econômico foram brutalmente inéditas: 23 milhões de desempregados na União Europeia e mais de 80 milhões de pobres… Os jovens, em particular, são as principais vítimas; gerações sem futuro. Mas as classes médias também estão assustadas porque o modelo neoliberal de crescimento abandonou-as à margem do caminho.
A velocidade da economia financeira de hoje é de relâmpago, enquanto que a velocidade da política, em comparação, é de caracol. Resulta que fica cada vez mais difícil conciliar tempo econômico e tempo político. E também crises globais e governos nacionais. Tudo isto provoca, nos cidadãos, frustração e angústia.
A crise global produz perdedores e ganhadores. Os ganhadores encontram-se, essencialmente, na Ásia e nos países emergentes, que não têm uma visão tão pessimista da situação, como os europeus. Também há muitos ganhadores no interior dos países ocidentais, cujas sociedades encontram-se fraturadas pela desigualdade entre ricos cada vez mais ricos e pobres cada vez mais pobres.
Na realidade, não estamos suportando uma crise, mas uma série de crises, uma soma de crises mescladas tão intimamente umas às outras que não conseguimos distinguir entre causas e efeitos. Porque os efeitos de umas são as causas das outras, e assim até formar um verdadeiro sistema de crises. Ou seja, enfrentamos uma autêntica crise sistêmica do mundo ocidental, que afeta a tecnologia, a economia, o comércio, a política, a democracia, a identidade, a guerra, o clima, o meio ambiente, a cultura, os valores, a família, a educação, a juventude etc.
Do ponto de vista antropológico, essas crises estão sendo traduzidas por um aumento do medo e do ressentimento. As pessoas vivem em estado de ansiedade e incerteza. Voltam os grandes pânicos ante ameaças indeterminadas, como podem ser a perda do emprego, os choques tecnológicos, as biotecnologias, as catástrofes naturais, a insegurança generalizada… Tudo isso constitui um desafio para as democracias. Porque esse terror transforma-se às vezes em ódio e em repúdio. Em vários países europeus, e também nos EUA, ele dirige-se hoje contra o estrangeiro, o imigrante, latinos, ciganos, subsaarianos, “sem visto”, e etc. Crescem os partidos xenofóbicos e de extrema direita.
5. Decepção e desencanto
É preciso entender que, desde a crise financeira de 2008 (de que ainda não saímos), nada é igual em nenhum lugar. Os cidadãos estão profundamente desencantados. A própria democracia, como modelo, perdeu credibilidade. Os sistemas políticos foram sacudidos pela raiz. Na Europa, por exemplo, os grandes partidos tradicionais estão em crise. E em toda parte percebemos o crescimento de formações de extrema direita (na França, na Áustria e nos países nórdicos) ou de partidos anti-sistema e anticorrupção (Itália, Espanha). A paisagem política parece radicalmente transformada.
Esse fenômeno chegou aos Estados Unidos, um país que já conheceu, em 2010, uma onda populista de direita devastadora, então encarnada pelo Tea Party. A ascensão do multimilionário Donald Trump na corrida pela Casa Branca prolonga essa onda e se constitui numa revolução eleitoral que nenhum analista soube prever. Ainda que sobreviva, aparentemente, a velha bicefalia entre democratas e republicanos, a ascensão de um candidato tão heterodoxo como Trump constitui um verdadeiro terremoto. Seu estilo direto, popularesco, e sua mensagem maniqueísta e reducionista, com apelo aos baixos instintos de certos setores da sociedade, conferiram-lhe um caráter de autenticidade aos olhos do setor mais decepcionado dos eleitores de direita.
A esse respeito, o candidato republicano soube interpretar o que poderíamos chamar de “rebelião das bases”. Melhor que todos, percebeu a fratura cada vez maior entre as elites políticas, econômicas, intelectuais e midiáticas, por um lado, e a base do eleitorado conservador, por outro. Seu discurso violentamente anti-burocracia de Washington, anti-mídia e anti-Wall Street seduz, em particular, os eleitores brancos, pouco cultos e empobrecidos pelos efeitos da globalização econômica.
6. Terremotos e mais terremotos
Poderíamos dizer que outra grande característica do novo cenário global são os terremotos. Terremotos financeiros, monetários, das bolsas; terremotos climáticos, energéticos, tecnológicos, sociais, geopolíticos como o restabelecimento de relações entre Cuba e Estados Unidos, ou, em outro sentido, o recente golpe de Estado institucional no Brasil contra a presidenta Dilma Rousseff. Terremotos eleitorais como a recente vitória do “não” na Colômbia aos Acordos de Paz entre o governo de Juan Manuel Santos e as FARC; ou o recente “Brexit” no Reino Unidos, ou o êxito da extrema direita na Áustria, ou a derrota de Angela Merkel em várias eleições parciais na Alemanha. Ou o enorme terremoto que poderia constituir, efetivamente, a eventual vitória eleitoral de Donald Trump nos Estados Unidos.
Acontecimentos imprevistos irrompem com força sem que ninguém, ou quase ninguém, os tenha visto chegando. Há uma falta de visibilidade geral. Se governar é prever, vivemos uma evidente crise de governança geral. Em muitos países, o Estado que protegia os cidadãos deixou de existir. Há uma crise da democracia representativa: “Não nos representam!”, diziam os “indignados”. As pessoas reivindicam que a autoridade política volte a assumir seu papel condutor na sociedade. Insiste-se na necessidade de reinventar a política e de que o poder político ponha fim ao poder econômico e financeiro dos mercados.
7. Internet, ciber-espionagem e ciber-defesa
O novo cenário global também se caracteriza pela multiplicidade de rupturas estratégicas, cujo significado às vezes não compreendemos. Hoje, a internet é o vetor da maioria das mudanças. Quase todas as crises recentes têm alguma relação com as novas tecnologias da comunicação e da informação, com a desmaterialização e a digitalização generalizadas, e com a explosão inédita das redes sociais. Mais que uma tecnologia, a Internet é pois um ator fundamental da crise. Basta recordar o papel de WikiLeaks, Facebook, Twitter e das demais redes sociais na aceleraçao da informação e da conectividade social pelo mundo.
Daqui a 2030, no novo cenário, algumas das maiores coletividades do planeta já não serão países, mas comunidades congregadas e vinculadas entre si pela internet e pelas redes sociais. Por exemplo, ‘Facebooklandia’: mais de um bilhão de usuários… Ou ‘Twitterlandia’, mais de 800 milhões… Sua influência, no jogo da geopolítica mundial, poderia revelar-se decisiva. Hoje, as estruturas de poder se borram graças ao acesso universal à rede e ao uso de novas ferramentas digitais.
Por outro lado, pela estreita cumplicidade que algumas grandes potências estabeleceram com as grandes empresas privadas que dominam as indústrias de informática e de telecomunicações, a capacidade em termos de espionagem de massas cresceu também de forma exponencial. As mega empresas como Google, Apple, Microsoft, Amazon e mais recentemente Facebook estabeleceram laços estreitos com o aparato do Estado em Washington, especialmente com os responsáveis pela política exterior. Essa relação converteu-se numa evidência. Compartilham as mesmas ideias politicas e têm idêntica visão de mundo. Em última instância, os estreitos vínculos e a visão comum do mundo, por exemplo, do Google e do governo estadunidense estão a serviço dos objetivos da política externa dos Estados Unidos.
Essa aliança sem precedentes (Estado + aparato militar de segurança + empresas gigantes da Web) – criou um verdadeiro império da vigilância, cujo objetivo claro e concreto é colocar a internet sob escuta, toda a internet e todos os internautas, como denunciaram Julian Assange e Edward Snowden.
O ciberespaço converteu-se numa espécie de quinto elemento. O filósofo grego Empédocles sustentava que nosso mundo estava formado por uma combinação de quatro elementos: terra, ar, água e fogo. Mas o surgimento da Internet, com seu misterioso “inter-espaço” superposto ao nosso, formado por bilhões de intercâmbios digitais de todo tipo, por seu roaming, seu streaming e seu clouding, engendrou um novo universo, de certo modo quântico, que vem completar a realidade do nosso mundo contemporâneo como se fosse um autêntico quinto elemento.
Nesse sentido, deve-se ressaltar que cada um dos quatro elementos tradicionais constitui, historicamente, um campo de batalha, um lugar de confronto. E que os Estados tiveram de desenvolver componentes específicos das forças armadas para cada um desses elementos: para a terra, o exército; para o ar, a aeronáutica; para a água, a Marinha; e, com caráter mais singular, para o fogo, os bombeiros, ou “soldados do fogo”. De modo natural, todas as grandes potências estão acrescentando hoje, aos três exércitos tradicionais e aos combatentes do fogo, um novo exército, cujo ecosistema é o quinto elemento: o ciberexército, encarregado da ciberdefesa, que tem suas próprias estruturas orgânicas, seu Estado maior, seus cibersoldados e suas próprias armas: supercomputadores preparados para defender as ciberfronteiras e travar a ciberguerra digital no âmbito da Internet.
8. Uma mutação do capitalismo: a economia colaborativa
Trinta anos depois da expansão maciça da Web, os hábitos de consumo também estão mudando. Impõe-se pouco a pouco a ideia de que a opção mais inteligente é usar algo em comum, e não necessariamente comprando-o. Isso significa abandonar, pouco a pouco, uma economia baseada na submissão dos consumidores e no antagonismo ou na competição entre os produtores — e passar a uma economia que estimula a colaboração e o intercâmbio entre os usuários de bens e serviços. Tudo isso causa uma verdadeira revolução no seio do capitalismo, que está operando uma nova mutação, diante de nossos olhos.
É um momento irresistível. Milhares de plataformas digitais de intercambio de produtos e serviços estão se expandindo com muita rapidez. A quantidade de bens e serviços que podem ser alugados ou trocados mediante plataformas online, sejam pagas ou gratuitas (como a Wikipedia), é já literalmente infinita.
Em nível planetário, essa economia colaborativa cresce atualmente entre 15% e 17% ao ano. Com alguns exemplos de crescimentos absolutamente espetaculares. Por exemplo o Uber, o aplicativo digital que conecta passageiros com motoristas, em apenas cinco anos de existência já vale 68 bilhões de dólares e opera em 132 países. O Airbnb, a plataforma online de hospedagem para particulares surgida em 2008 e que já encontrou cama para mais de 40 milhões de viajantes, vale hoje na Bolsa (sem ser proprietária de uma única habitação) mais de 30 bilhões de dólares, ou seja, mais que os grande grupos Hilton, Marriott ou Hyatt.
A esse respeito, outro traço fundamental que está mudando – e que foi nada menos que a base da sociedade de consumo –, é o sentido de propriedade, o desejo de posse. Adquirir, compar, ter, possuir eram os verbos que melhor traduziam a ambição essencial de uma época em que o ter definia o ser. Acumular “coisas” (casas, carros, geladeiras, televisores, móveis, roupa, relógios, livros, quadros, telefones etc) constituía, para muitas pessoas, a principal razão da existência. Parecia que, desde o início dos tempos, o sentido materialista de posse era inerente ao ser humano.
A economia colaborativa constitui assim um modelo baseado no intercâmbio e no compartilhamento de bens e serviços por meio do uso de plataformas digitais. Inspira-se nas utopias de compartilhamento e de valores não mercantis como a ajuda mútua ou a convivialidade, e também do espírito de gratuidade, mito fundador da internet. Sua ideia principal é: “o meu é seu”, ou seja, compartilhar em vez de possuir. E o conceito básico é a troca. Trata-se de conectar, por via digital, as pessoas que buscam “algo” com as pessoas que o oferecem. As empresas mais conhecidas desse setor são: Uber, Airbnb, Netflix, Blabacar etc.
Muitos indícios levam a pensar que estamos assistindo ao ocaso da 2ª revolução industrial, baseada no uso maciço de energias fósseis e em telecomunicações centralizadas. E vemos a emergência de uma economia colaborativa que obriga, como já dissemos, o sistema capitalista a mudar.
Por outro lado, num contexto em que as mudanças climáticas tornaram-se a principal ameaça para a sobrevivência da humanidade, os cidadãos não desconhecem os perigos ecológicos inerentes ao modelo de hiperprodução e de hiper-consumo globalizado. Aí também a economia colaborativa oferece soluções menos agressivas para o planeta.
Num momento como o atual, de forte desconfiança com relação ao modelo neoliberal e às elites políticas, financeiras, midiáticas e bancárias, a economia colaborativa parece aportar respostas a muitos cidadãos em busca de sentido e de ética responsável. Exalta valores de ajuda mútua e desejo de compartilhamento. São critérios que, em outros momentos, foram argamassa de teorias comunitárias e de ambições socialistas. Mas que hoje são – e ninguém duvide – o novo rosto de um capitalismo mutante, desejoso de afastar-se da selvageria amarga de seu recente período ultraliberal.
Nossa bússola também nos indica a aparição de tensões entre os cidadãos e alguns governos em dinâmicas que vários sociólogos qualificam de “pós-políticas” ou “pós-democráticas”… Por um lado, a generalização do acesso à Internet e a universalização do uso das novas tecnologias estão permitindo à cidadania alcançar altas cotas de liberdade e desafiar seus representantes políticos (como durante a crise dos “indignados”). Mas essas mesmas ferramentas eletrônicas proporcionam aos governos, como já vimos, uma capacidade sem precedentes para vigiar seus cidadãos.
9. Ameaças não militares
“A tecnologia – assinala um informe recente da CIA – continuará sendo o grande nivelador, e os futuros magnatas da internet, como poderia ser o caso do Google e do Facebook, possuem montanhas de base de dados, e manejam em tempo real muito mais informação que qualquer governo”. Por isso, a CIA recomenda ao governo dos EUA que faça frente a essa ameaça eventual das grandes corporações de internet, ativando o Special Collection Service, um serviço de inteligência ultrassecreto – administrado em conjunto pela NSA (National Security Agency) e o SCE (Service Cryptologic Elements) das Forças Armadas – especializado na captação clandestina de informações de origem eletromagnética. O perigo de que um grupo de empresas privadas controle toda essa massa de dados reside, principalmente, em que poderia condicionar o comportamento em grande escala da população mundial e inclusive das entidades governamentais. Também se teme que o terrorismo jihadista seja substituído por um ciberterrorismo ainda mais impactante.
A CIA leva a sério esse novo tipo de ameaça porque, afinal, o declínio dos Estados Unidos não foi provocado por uma causa externa, mas por uma crise interna: a quebra econômica ocorrida a partir de 2007-2008. O informe insiste em que a geopolítica de hoje deve interessar-se por novos fenômenos que não possuem, forçosamente, um caráter militar. Pois ainda que as ameaças militares não tenham desaparecido, alguns dos principais perigos que nossas sociedades correm hoje são de ordem não militar: mudanças climáticas, mutação tecnológica, conflitos econômicos, crime organizado, guerras eletrônicas, esgotamento dos recursos naturais…
Sobre esse último aspecto, é importante saber que um dos recursos que está se esgotando mais aceleradamente é a água doce. Em 2030, 60% da população mundial terá problemas de abastecimento de água, dando lugar ao surgimento de “conflitos hídricos”… Em contraste, no que diz respeito aos combustíveis fósseis, a exploração de petróleo e de gás de xisto está alcançando niveis excepcionais, graças às novas técnicas de fraturação hidráulica. Os Estados Unidos já são quase autossuficientes em gás, e em 2030 poderão sê-lo em petróleo, cujos custos de produção tendem a baratear. Além disso, encorajam a relocalização de suas indústrias. Mas se os EUA – principal importador atual de combustíveis fósseis – deixaram de importar petróleo, pode-se prever a queda do preço do barril. Quais serão então as consequências para os grandes países exportadores?
10. Rumo ao triunfo das cidades e das classes médias
No mundo a que nos dirigimos, 60% das pessoas viverão nas cidades, pela primeira vez na história da humanidade. E, como consequência da redução acelerada da pobreza, as classes médias serão dominantes e triplicarão, passando de 1 para 3 bilhões de pessoas. Isso que, em si, é uma revolução colossal, acarretará como consequência, entre outros efeitos, uma mudança geral dos hábitos culinários e, em particular, um aumento do consumo de carne em escala planetária – o que agravará a crise ambiental.
Em 2030, os habitantes do planeta seremos 8,5 bilhões, mas o aumento demográfico cessará em todos os continentes, menos na África, com o consequente envelhecimento geral da população mundial. Em troca, o vinculo entre o ser humano e as tecnologias protéticas acelerará o surgimento de novas gerações de robôs e a aparição de “super-homens” capazes de proezas físicas e intelectuais inéditas.
Muito raramente o futuro é previsível. Nem por isso, deve-se deixar imaginá-lo, em termos de prospectiva. Isso nos prepara para agir diante de diversas circunstâncias possíveis, das quais só uma se realizará. Para isso, a geopolítica é uma ferramenta extremamente útil. Ajuda-nos a tomar consciência das rápidas evoluções em curso e a refletir sobre a possibilidade, para cada um de nós, de intervir e apontar o rumo. Para tratar de construir um futuro mais justo, mais ecológico, menos desigual e mais solidário. (Outras Palavras/ #Envolverde\Utopia Sustentável)

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Golpe de 2016 é o maior retrocesso da democracia no Brasil desde 1964


Mário Magalhães


aaato2014
A democracia perdeu: 6 dias após eleição já pediam para rasgar os votos – Eduardo Anizelli/Folhapress
No derradeiro dia de agosto, o Senado acaba de depor a presidente constitucional Dilma Rousseff.
A conspiração comandada por suspeitos e acusados dos crimes mais cabeludos derrubou uma mulher inocente, contra quem inexiste indício de ter se apropriado de bens públicos.
O capo do conluio no parlamento, o correntista Eduardo Cunha, permanece protegido por seu mandato na Câmara.
O julgamento farsesco evidenciou que a presidente não cometeu crime de responsabilidade. É possível que o depoimento mais esclarecedor tenha sido o do professor Luiz Gonzaga Belluzzo.
Impeachment sem crime de responsabilidade constitui golpe de Estado, com ou sem blindados e tropas nas ruas.
Governo ruim não configura crime de responsabilidade. Deve ser derrotado pelos cidadãos, em eleições diretas.
Um colégio de 81 senadores violentou a soberania do voto popular. Em 2014, 54.501.118 brasileiros sufragaram Dilma.
Assume de vez o Planalto quem não se elegeu presidente, e sim vice.
O missivista Michel Temer encabeça um governo de enrolados na Operação Lava Jato, sem ministra, sem ministro negro, com venda de patrimônio nacional e intenção de fulminar conquistas dos pobres.
O governo Temer nasce irrevogavelmente ilegítimo.
golpe vagabundíssimo de 2016 é mais um na história do país.
A República, em 1889, foi proclamada num golpe.
Idem o governo imposto pelo golpe de 1930.
Seu chefe, Getulio Vargas, sapecou mais um golpe, em 1937, introduzindo a ditadura do Estado Novo.
Foi destituído por outro, em 1945.
Depois de Getulio regressar ao Catete bafejado pelas urnas, liquidaram-no numa madrugada de agosto de 1954 com uma dita licença do cargo. O golpe foi revertido pela bala no peito.
Em 1964, o golpe adiado por uma década depôs o presidente João Goulart e pariu a ditadura de 21 anos que barbarizou com golpes dentro do golpe.
O golpe de 2016 é o maior retrocesso da democracia brasileira nos últimos 52 anos.
Frustrou-se a esperança de que prevaleceria a vontade expressa nas urnas.
No lugar das diretas, indireta.
Na democracia, presidente se escolhe com o voto dos cidadãos.
Nessa tarde trágica, em tempos tormentosos, Renato Russo ecoa de novo: “Hoje a tristeza não é passageira. (…) E quando chegar a noite cada estrela parecerá uma lágrima''.
UOL/blog Mário Magalhães

Utopia Sustentável

segunda-feira, 28 de março de 2016

Política e democracia na escola

Foto: Shutterstock
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Veja dicas de vídeos e materiais que podem ser usados para discutir temas como democracia, impeachment e direitos humanos com alunos
Por Marina Lopes e Maria Victória Oliveira, do Porvir –
Nas últimas semanas, a crise política brasileira monopolizou noticiários, virou tema de conversas – e até brigas – entre amigos e familiares e repercutiu nas redes sociais. Diante de tantas discussões e incertezas, também entrou nas salas de aula, mesmo quando os professores não planejaram abordar o tema. Mas a política deve ser tema de sala de aula? Especialistas consultados pelo Porvir dizem que sim e defendem a importância de tratar, no contexto atual, de questões relacionadas ao funcionamento das instituições políticas, princípios da democracia e cidadania.
Pedro Markun, um dos autores do livro Quem Manda aqui?, que discute alguns mecanismos políticos de forma leve, colorida e própria para crianças, é um dos que defende tratar do assunto desde cedo . “Eu acredito que quando a gente conversa com a criança sobre qualquer coisa, ela se instrumentaliza para entender melhor esse assunto”, afirma Markun, que faz parte do Laboratório Hacker.
Ele conta que, quando sua primeira filha nasceu, pensou como iria conversar sobre política com ela. Em contraponto, defende que “é uma burrice pensar que crianças não conseguem conversar sobre assuntos complexos. Você fala de política com seu filho, só não percebe”. A ideia do livro Quem Manda Aqui?, portanto, é ser um instrumento para que as famílias consigam iniciar o debate com seus filhos. “Criar mecanismos que facilitam um primeiro ponto de contato com a política é extremamente saudável”.
Além disso, Markun ressalta que é preciso mostrar aos pequenos que, apesar de ser um campo complexo, onde existem divergências de pensamento, a educação política é o melhor caminho para formar adultos conscientes. “É muito importante que a gente comece a educar as crianças politicamente desde cedo, senão a gente vai ter uma classe adulta política igual a de hoje, de adultos despreparados para falar sobre política, raivosos e que não conseguem discutir amigavelmente com o coleguinha”.
E como aproximar crianças e adolescentes desse debate? Para Bruno Bissoli, cofundador e educador do Pé na Escola, um negócio social voltado para educação em direitos e democracia, os alunos já demonstram naturalmente interesse em temas como direitos humanos e política. No entanto, a escola precisa abrir espaço para que eles possam se expressar. “Isso é essencial para o exercício da nossa cidadania, mas desde sempre acabamos tendo que aprender como autodidatas. A escola se mantém muito distante disso, sendo que é uma matéria essencial para que a gente atue como um cidadão pleno”, reflete.
Antes de inciar um diálogo sobre o tema, a também cofundadora Vanessa Pinheiro afirma que os educadores devem sair da posição de quem tem a verdade, para ouvir o que os estudantes têm a dizer. “O professor também tem um papel de trabalhar dentro de si os seus próprios preconceitos e discursos que ele está reproduzindo”, afirma. Segundo ela, uma estratégia interessante é incentivar que os alunos possam criar suas próprias regras internas para que o debate possa dar espaço a todos.
Ao dar voz para os alunos, os educadores devem se colocar em uma posição de mediador. De acordo com Mariana Vilella, cofundadora e educadora do Pé na Escola, eles precisam analisar se a conversa está fluindo de forma democrática e se todos estão conseguindo colocar o seu posicionamento. “O educador tem um papel bastante importante de mediar o diálogo, uma coisa que está faltando tanto na política e na educação”, explica.
Em tempos de discussões acirradas, Mariana menciona que é importante tornar o debate mais complexo, saindo de uma divisão polarizada entre bem e mal, para tentar entender como existem outras leituras da realidade. “Temos que colocar o estudante em uma posição que não é confortável para ele e forçar que ele também se coloque no lugar do outro”, afirma. Ela também defende que a escola não fique apenas no diálogo sobre política, mas também proponha a criação de projetos e pesquisas que possam refletir essa lógica de participação democrática. “Mais do que passar conceitos, a nossa preocupação principal é passar uma mensagem sobre o que é o pensar e o agir politicamente.”
Para os educadores que desejam abordar assuntos relacionados a política e democracia, o Porvir também separou alguns materiais que podem subsidiar a discussão. Confira a lista:
Da cédula de papel ao sensor biométrico, o infográfico interativo mostra a evolução do voto ao longo da história história. A linha do tempo começa em 1889, no período da República Velha, e passa por diferentes momentos, como a criação do envelope oficial para cédula (1930) ou a informatização do sistema (1985).
Em uma série de cinco games, são apresentadas movimentações políticas nacionais e elementos da democracia de forma divertida. Com uma linguagem de histórias em quadrinhos, o jogo Agentes do Destino analisa causas e consequências de períodos históricos desde a Revolução de 30 até os dias atuais.
Desenvolvido pelo Ministério Público Federal, o site Turminha do MPF traz diversos conteúdos que explicam temas como eleições, para que servem as leis e direitos das crianças. O site ainda conta com uma série de jogos e atividades, além de uma seção que explica o significado de termos como administração pública e corrupção.
O portal Plenarinho é um canal da Câmara dos Deputados voltado para o universo infantil. O site traz notícias, jogos, indicações de leitura e animações que explicam sobre o funcionamento da Câmara dos Deputados, o que é um projeto de lei, entre outros temas.
A série “E eu c/ isso?” explica, de forma simples e rápida, como funciona o sistema político brasileiro. Ao todo, são quatro vídeos curtinhos (o maior deles tem três minutos) que, com a ajuda de desenhos, explica as esferas de poder (executivo, legislativo, judiciário), quem faz parte de cada um deles e quais são seus papéis. O personagem principal é o João que, ao longo da série, vai entendendo seu papel político.
Para os fãs de vídeos, o canal Política sem mistérios também explica o assunto de forma bem didática. A maioria dos 25 vídeos traz ilustrações coloridas, com direito a bonequinhos de políticos, que ajudam a abordar temas desde os mais simples até os mais complexos. O que é política, a diferença entre Câmara, Senado e Congresso, o que é o marco civil, lei antiterrorismo e a diferença entre referendo e plebiscito estão na lista.
Acompanhando temas que estão em discussão na agenda política nacional, o Politize traz explicações sobre termos e acontecimentos de Brasília. Com o objetivo de levar educação política, o site produz conteúdos em uma linguagem acessível e descomplica assuntos como corrupção, política externa e funcionamento dos três poderes.
O vídeo produzido pela Agência Pública apresenta o passo a passo de um processo de impeachment, tema que tem aparecido com frequência nos noticiários ou até mesmo em discussões. Por meio de animações, ele também mostra qual seria uma eventual linha de sucessão do governo em caso de impeachment.
Se você quer fazer uma votação de forma mais parecida com uma eleição, precisa conhecer o Apertaquem. Trata-se de uma urna eletrônica para Windows que pode ser usada em enquetes ou até mesmo em eleição de grêmios estudantis. No site, estão disponíveis as versões gratuita e premium que, para escolas públicas, sai por R$ 24,00.
Criado a partir de seis oficinas realizadas com crianças de São Paulo e Ouro Preto, em Minas Gerais, o livro Quem Manda aqui? é o primeiro de uma série de livros infantis sobre política, especialmente para os pequenos. Disponível gratuitamente online e nas livrarias, o livro, iniciativa do Laboratório Hacker, foi inicialmente financiado por uma campanha de financiamento coletivo.
Apesar de ter sido proclamada em 1948, muita gente ainda não conhece todos os 30 direitos e liberdades listados na Declaração dos Direitos Humanos. Entretanto, o estudo desse documento é importante para que as crianças conheçam seus deveres, responsabilidades e saibam o que espera-se de um cidadão consciente. (Porvir/ #Envolverde/Utopia Sustentável)

terça-feira, 21 de julho de 2015

Uma jovem chamada Democracia


Twitt
Foto: Shutterstock
Foto: Shutterstock

O fruto depende da semente. O ser humano é fruto, é semente. Somos passado, presente, futuro. Somos diferentes. Somos únicos. Somos criadores. Como criadores, somos semeadores do futuro. A energia primeira e última, que nos faz ser semente e fruto, que mora em cada um ser, é, foi e será a maior maravilha da existência. Acredite em você.
Apesar dos milhares de anos que o ser humano habita a Terra só há pouco tempo é que começamos a falar de igualdades, de democracia, de liberdade.
Você sabe definir democracia? Fácil? Humm, eu tenho minhas dificuldades, pois quando nasci ela era coisa rara, não só fora como dentro de casa. Hoje é festejada e já se desenvolve dentro da família. Julgo que só no século XVIII os defensores da política democrática começaram a ir para as ruas. Portugal, por exemplo, só em 1974 foi batizada pela democracia.
A democracia, hoje uma força global, tida como a maior descoberta da história, solidifica-se onde o progresso econômico cresce, mas nem sempre o inverso é verdadeiro. O aumento das desigualdades, muitas vezes causado pelo rápido e selvagem desenvolvimento econômico, tende a minar as instituições democráticas. Derrotados, quando a economia falha, culpam as políticas liberais e facilmente podem entregar-se a ditaduras, como ocorreu no passado recente na América Latina.
Tocqueville, francês, que viveu entre 1805 e 1859, autor de “Democracia na América”, escreveu: “É evidente de igual modo para todos que uma grande revolução democrática decorre entre nós, mas nem todos olham para ela à mesma luz”. Este momento, retratado pela crise da Grécia, uma pequena partícula da Europa, palco de duas guerras mundiais, merece sim um repensar de nossas democracias.
Já li “ilustres” figuras mundiais escrevendo que um enfarto na musculosa economia da China, a asfixia e paralisia da Europa com o desemprego e a crescente emigração, a depressão profunda da doentia Rússia e mais um possível AVC de Israel causado por um futuro Irã livre, são bombas que o rastilho do caos das finanças mundiais pode acender. Como reduzir tais atos, que todos dizem ser loucura, mas que o passado recente demonstrou não ser?
A democracia do futuro deverá ser repensada para excluir a via da guerra. Entre UTI e a guerra certamente todos nós, simples cidadãos, votantes, preferiremos a UTI para alguns, desde que seja para o bem da maioria, da democracia. Melhorar o convívio da política fiscal com a monetária é preciso. Será que o controle da política monetária feita por uma elite financeira, não eleita, um “clube”, é democrático? E o referendo? A Suíça, exemplo de democracia, já comprovou que tal mecanismo é salutar e não deixa feridas entre irmãos e mais não a levou à guerra.
O referendo, por exemplo, ao ato de guerra por um país devia ser obrigatório. As Nações Unidas deveriam rever seu código, condicionando que um país só seria aceito se tivesse em sua Constituição, a obrigação do referendo para declarar guerra. Não me passa pela cabeça ser obrigado a ir para uma guerra, ter meus filhos e netos em armas, por decisão de um homem ou mesmo por uma assembleia de dezenas, nem centenas. Não aceito, não cumprirei. O voto, na era digital, não mais pode ser um cheque em branco. Tudo muda. O referendo é a via da futura democracia. Uma nova democracia é preciso.
É hora de ouvir, seguir grandes pensadores, como o Papa Francisco. É momento de colocar na mesma mesa: democracia, liberdade, igualdade e progresso económico. É hora de priorizar o emprego, reduzir a pobreza, cuidar da Terra, extinguir a corrupção, rever o sistema financeiro mundial, unir os povos, viver a paz. É hora de oxigenar a democracia.
O Brasil, que hoje limpa a corrupção, aflorada na década de 1990 nas grandes democracias (aqui tudo chega depois), retrata seus políticos com escárnio, mas não é só aqui. Na Alemanha uma palavra, “politikverdrossenheit”, traduzida por “cansaço da política”, revela que há necessidade de mudanças.
Em pesquisa de 1999, na França, 61% dos eleitores consideravam os políticos corruptos e quando tal pesquisa era restrita a jovens de 18 a 25 anos, o índice passava para 75% . Hoje a situação é pior.  A pergunta que fica é: “não será a política moderna venal? O que é preciso fazer-se para mudar tal quadro? Acredite em você. Você pode e deve provocar a mudança em nossa democracia.
Longa vida à democracia. Ela é uma bela, sadia, promissora jovem adolescente. Uma flor. Ela precisa ser regada, amada.

Valdemiro A. M. Gomes é engenheiro civil, escreveu 3 livros de crônicas ( sementes) publicados em jornais do Pará e outros. Seguidor do pensar do Mahatma Gandi.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

O renascer do jornalismo de qualidade




jornalismomidia O renascer do jornalismo de qualidade
O jornalista está em um momento especial de libertação das grandes mídias, como ator principal em novos meios que podem chegar a milhões de pessoas com a velocidade de um click. Foto: Reprodução/Internet
Uma das principais garantias para a construção e manutenção da democracia é o jornalismo de qualidade, comprometido com fatos e dados relevantes para a sociedade
O jornalismo costuma ser a primeira vítima das ditaduras. A censura e a mentira são armas utilizadas por forças autoritárias, de direita ou de esquerda, para manter o controle da sociedade. Durante mais de 20 anos no Brasil o jornalismo esteve no centro da resistência ao autoritarismo, com publicações “alternativas” defendendo bandeiras específicas, como os jornais Movimento, Ex, Mulher, CooJornal, Pasquim, Lampião e muitos outros já registrados em livros e documentos históricos. Além disso, mesmo jornalões como O Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde tiveram seus capítulos de oposição, assim como a Veja, que um dia foi muito diferente do que é hoje, sob a batuta do jornalista Mino Carta e uma valorosa equipe de profissionais.
No entanto, nem só de patrões venais é feito o mau jornalismo. Jornalistas descomprometidos com a sociedade e que buscam apenas a fama da bazófia fazem da profissão um exercício inútil e sem relevância. Nesse novo momento da democracia brasileira o jornalismo de qualidade precisa ressurgir das cinzas em que foi lançado durante a campanha eleitoral e reassumir um papel relevante como guardião da democracia. Agora que as eleições foram decididas, manda a democracia que quem venceu governe e quem perdeu assuma a oposição responsável, com foco maior em políticas públicas, lambendo as feridas partidárias na espera por um novo pleito.
O jornalismo comprometido precisa ajudar na recomposição das teias sociais e políticas sem o peso do partidarismo. É preciso que jornalistas reassumam a vanguarda informativa tomada de assalto pelas redes sociais durante a campanha eleitoral. O momento é outro, de formação de opinião não mais sobre propostas, mas sobre ações que deverão repercutir no cotidiano da cidadania.
Talvez seja bom, também, lembrar que o jornalista está em um momento especial de libertação das grandes mídias, como ator principal em novos meios que podem chegar a milhões de pessoas com a velocidade de um click. Essa libertação transforma os profissionais em grifes, em referências onde os leitores buscam uma “certificação” da informação que está sendo divulgada.
Acabou a campanha, é preciso trabalhar pela boa governança do Estado e da democracia, e isso somente é possível com fatos e versões comprometidos com a sociedade brasileira e não mais apenas com bandeiras partidárias. O bom jornalismo foi uma das vítimas da campanha presidencial, no entanto, para o bem do Brasil, é melhor que esteja apenas combalido e não mais um corpo estendido no chão.
Dal Marcondes é jornalista, diretor da Envolverde e especialista em meio ambiente e desenvolvimento sustentável.
** Publicado originalmente no site Carta Capital.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Jornalismo como garantia da democracia




Politica e Democracia para jovens Jornalismo como garantia da democracia
Foto: danijelala / Fotolia.com

A Envolverde acredita que o jornalismo deve manter o olhar atento sobre a política, de forma a oferecer à sociedade a mais correta informação de suporte à governança.
O jornalismo de qualidade é a melhor garantia para uma democracia plural e capaz de oferecer caminhos para uma sociedade megadiversa como a brasileira. Uma mídia diversificada, capaz de olhares múltiplos e atentos sobre cada nuance da economia, da política e da ação social é necessária para que o Brasil seja capaz de assumir suas responsabilidades frente às diferenças regionais. Da diversidade vem a riqueza da sociedade brasileira e para unir esse valor e dar unidade a uma nação relevante no planeta, é preciso que essa sociedade tenha acesso à informação e conhecimento qualificados e não apenas a opiniões e dados desencontrados no ambiente das mídias sociais.
O compromisso do Portal Envolverde nesse momento de reafirmação da teia social é oferecer um jornalismo plural, capaz de contextualizar demandas sociais, econômicas e ambientais que são parte da realidade brasileira e global. Passado o momento eleitoral as forças capazes de alavancar o Brasil em direção ao futuro precisam se recompor e buscar a colaboração necessária para enfrentamentos urgentes em áreas como educação, mudanças climáticas, macroeconomia, urbanismo e para a construção e adequação de modelos que garantam a qualidade de vida dos brasileiros e a liderança do país, por exemplo, em áreas onde a biodiversidade é um magnífico capital.
A democracia não pode prescindir de uma sociedade bem informada e de um jornalismo comprometido com fatos e versões capazes de compor uma teia de conhecimento sobre a realidade. O exercício cotidiano do jornalismo, da busca por dados, fatos e opiniões relevantes para que a sociedade empreenda em direção ao futuro é a missão do Portal Envolverde desde 1996, quando pela primeira vez foi publicado na internet.
O jornalismo da Envolverde conta com o apoio de profissionais, organizações e empresas que veem na informação um fator transformador da sociedade e capaz de fomentar o debate e o empreendedorismo em direção a um futuro desejável, onde a economia sirva à sociedade e o Estado tenha o papel de prover os serviços fundamentais à qualidade de vida e ao desenvolvimento.
Envolverderestrospectiva Jornalismo como garantia da democracia

O olhar atento de jornalistas que tem na informação correta o ideal de uma profissão já definida como o “Quarto Poder” é parte de uma rede garantidora da liberdade e capaz de inibir malfeitos. Mais do que isso, a informação é a base da construção de uma institucionalidade com foco na boa governança do Estado e na garantia dos direitos da cidadania.
O jornalismo brasileiro já demonstrou em outros momentos cruciais da história sua capacidade de oferecer informação relevante e transformadora. Agora é preciso reconstruir essa capacidade e se afastar da crítica fácil, da piada pronta, da bazófia e reconquistar os espaços de mídia para a tarefa fundamental de apoiar a cidadania e o empreendedorismo estruturante de um novo modelo de desenvolvimento.
O jornalista, profissional que nos últimos anos tem sofrido ataques e a tentativa de desconstrução de sua relevância para a sociedade, precisa reagir, resgatar o ideal do informar, do investigar, do confrontar ideias, dados e fatos que permitam aos empreendedores políticos, econômicos e sociais a estruturação de suas ações.
O profissional de jornalismo vive um momento mágico. Alguns anos atrás para o exercício da profissão era necessário um volume imenso de capital que pudesse construir e manter mídias convencionais como jornais, revistas ou emissoras de rádio e TV. Hoje essa realidade está em transformação. A sociedade busca suas informações em outros canais. Cabe ao jornalista se impor nesse cenário como garantidor da informação de qualidade.
É nesse ambiente de transmutação que a Envolverde surgiu e cresceu e busca se manter relevante para o diálogo necessário para a governança desse país continental que carrega o nome de árvore e uma das maiores diversidades geográficas,  ambientais e humanas do planeta.
O bom jornalismo é fundamental e estruturante para o Brasil dos próximos. O Portal Envolverde seguirá na trilha de sua missão, que é “Ampliar o conhecimento social da sustentabilidade através do jornalismo e da comunicação e ser parte de um processo transformador da sociedade em direção à uma economia sustentável”. (Envolverde)