Mostrando postagens com marcador fome. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador fome. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Comida desperdiçada e a pobreza crescendo



Quando chegarão as políticas capazes de mudar esse panorama universal?
Nas últimas semanas têm sido muito frequentes na comunicação e nas cartas e artigos de leitores manifestações sobre uma foto estampada em jornais de um menino brasileiro sentado numa cadeira, com o rosto ensanguentado e as roupas rasgadas, após haver ficado debaixo das ruínas de sua casa que desabara – a própria imagem da desolação e da impotência. Nos mesmos dias, outra notícia informava (O Popular, 19/8): a milhares de quilômetros, na Colômbia, autoridades de Bogotá “disseram que a chuva torrencial que caiu na cidade na madrugada de ontem arrastou ao menos 30 moradores de rua que dormiam em duto de esgoto” – a morte nas cloacas, no mundo povoado de pobreza e de notícias tristes.desperdcio_de_alimentos
Que fazer? O Brasil precisa (Estado, 18/5) de mais US$ 7,2 bilhões ou R$ 25 bilhões extras por ano para acabar com a pobreza até 2030. O mundo precisará de US$ 10 trilhões (ou mais de U$S 600 bilhões por ano) para a mesma tarefa, em 15 anos. Mas não há recursos disponíveis, lá e cá, para prover os direitos sociais, criar emprego e renda, etc. O Brasil está em sexto lugar entre os países que mais precisam de recursos para tarefas como essas (em primeiro lugar, a Índia, com US$ 61 bilhões anuais; em segundo, a China, com US$ 37 bilhões; em terceiro, a Nigéria, com US$ 36 bilhões; depois, a Etiópia e a Indonésia).
Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), “a pobreza nos países em desenvolvimento está aumentando”, em 1950 viviam com menos de US$ 1,90 por dia cerca de 47% da população mundial, em 2012 eram 15%. “Mas o progresso é frágil: 40% dos africanos vivem na pobreza; e nos próprios países ricos a pobreza também aumentou; 30% da população mundial tem apenas 2% da renda total”. No Brasil, segundo o Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), a proporção de pobres caiu de 23,4% em 2001 para 7% em 2014; 26,3 milhões de pessoas saíram da linha de pobreza: eram 40,5 milhões e baixaram para 14,2 milhões em 12 anos E para assegurar US$ 3,1 por dia seriam necessários 0,3% do produto interno bruto; para garantir renda diária de US$ 5 a todos o Brasil precisaria ampliar os gastos sociais para US$ 23,2 bilhões anuais, ou 2% do PIB nacional.
Estamos longe, com a taxa de desemprego em 11%, com possibilidade de aumentar até o fim de 2016. Menos de 40% da renda da camada mais pobre da população vem de trabalho remunerado, lembra Guy Ryder, diretor da OIT (Estado, 19/5). Mas no ano passado 343 mil famílias deixaram o programa Bolsa Família por haverem aumentado sua renda (MDS, 12/5); 261,3 mil reduziram o benefício, pela mesma razão; 467,1 mil não se recadastraram. A bolsa contempla 14 milhões de famílias com renda média de R$ 163,57, que significa no total R$ 2,3 bilhões mensais. Entre os beneficiados, 10 milhões de pessoas, ou 5% da população (Estado, 28/4) . Apesar de nossos problemas sociais serem muito maiores que os de países “desenvolvidos”, nossos gastos sociais são menores (edivanbatista@yahoo.com.br, 21/7). Aplicamos 21,3% do PIB em 2013, por exemplo, quando a Alemanha aplicou 27,1% e a Suécia, 29,8%.
Resultado importante é o que mostra (Pnad 2014) que vem caindo desde 2003 o número de famílias da zona rural em situação de pobreza e pobreza extrema (renda mensal até R$ 77), abaixo da meta dos Objetivo do Desenvolvimento Sustentável, que é de 3% (MDS, 20/11/15). Dado preocupante, porém, é o de que a taxa de desemprego entre jovens da Grande São Paulo está em 36% (Estado, 27/6), quando o desemprego médio na área está em 16%. O desemprego total no País anda pela casa dos 11%; e quase metade desses desempregados é constituída de jovens (Estado, 27/6). A concentração da renda é evidenciada pelo fato de os 10% mas ricos da população deterem, em 2014 (O Popular, 7/5), 38% da renda tributável e 39% dos bens e direitos líquidos totais. A vulnerabilidade dos mais pobres é apontada pelo professor Ladislaw Dowbor: 19% da renda familiar é destinada ao pagamento de dívidas (terra.com.br).
Em abril último a Assembleia-Geral da ONU decidiu criar (FAO, 4/4) o Decênio de Ação sobre a Nutrição, já que 800 milhões de pessoas no mundo passam fome e mais de 2 bilhões sofrem com deficiência de nutrientes; 159 milhões de crianças com menos de 5 anos têm déficit no crescimento; 50 milhões estão abaixo do peso recomendável, enquanto na população geral 600 milhões são obesos. Nesta mesma hora, diz o site Oxfam (21/1) que a concentração da renda continua a aumentar; 62 pessoas têm tanto capital quanto a metade mais pobre da população mundial. Mas há dados diferentes. O Departamento de Informação Pública da ONU relata que 13% da população mundial vive em extrema pobreza e 2,4 bilhões não dispõem de saneamento adequado – embora as pessoas em pobreza extrema tenham diminuído mais de 50% desde 2002 e a mortalidade materna tenha diminuído 44%; a mortalidade de crianças baixou mais de 50%.
Com tantos problemas, tanta fome, a América Latina continua desperdiçando até 348 mil toneladas por dia de alimentos (FAO, 30/2). Cerca de 36 milhões de pessoas (mais que a população do Peru) poderiam suprir suas necessidades com o que é perdido nos pontos de venda direta ao consumidor. A Argentina perde 12% do que produz. A Unicef alerta (28/6) para o risco de 60 milhões de crianças com menos de 5 anos de idade morrerem até 2030 de doenças que poderiam ser evitadas. E 167 milhões viverão na pobreza, apesar de 36% dos cereais, 20% das sementes, carnes e laticínios, 35% dos peixes, 40% a 50% dos vegetais e frutas irem para o lixo ou outros formatos desperdiçadores (Folha de S.Paulo, 20/7). Os Estados Unidos desperdiçam um terço do que plantam. O paradoxo maior talvez seja o da África, que, juntamente com a fome, tem 65% das terras férteis não cultivadas do planeta e 10% da água doce (Eco-Finanças, 22/8). (O Estado de S. Paulo/ #Envolverde/Utopia Sustentável)

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Dez milhões em risco de fome


El Niño de 1997-98 observado pelo Topex/Poseidon. Foto: en.wikipédia.org
El Niño de 1997-98 observado pelo Topex/Poseidon. Foto: en.wikipédia.org

Pelo menos dez milhões das pessoas mais pobres do planeta poderiam passar fome em 2015 e 2016 devido às condições climáticas extremas e ao fenômeno El Niño, segundo a organização humanitária Oxfam. No informe Entrando em Águas Inexploradas, a Oxfam assinala a existência de padrões climáticos erráticos, incluídas altas temperaturas e secas, o que perturba as safras e a produção agrícola em todo o mundo.
Os países já enfrentam uma “emergência grave”, como é o caso da Etiópia, onde 4,5 milhões de pessoas necessitam de assistência alimentar devido à seca deste ano, indicou a organização. Em Malawi, quase três milhões de habitantes poderiam passar fome em consequência das chuvas irregulares, seguidas pela seca. Essas condições provocam a interrupção da produção de alimentos e o aumento dos preços. A organização Christian Aid informou que a produção de milho, alimento básico desse país, caiu 30% em 2014, enquanto seus preços subiram entre 50% e 100%.
Os produtores agrícolas da América Central também sofrem uma seca há quase dois anos, que afetou a produção de milho e diminuiu o acesso a uma alimentação suficiente.
A Oxfam adverte que as condições se agravarão devido à chegada do fenômeno El Niño/Oscilação do Sul (Enos), cuja fase quente ganha corpo quando aumenta a temperatura superficial da água nas áreas oriental e central do Pacífico equatorial. Esse aquecimento das águas da maior bacia oceânica do planeta, somado a outros padrões de circulação atmosférica de grande escala, ocasiona significativos efeitos climáticos regionais, que são observados em grande parte do mundo.
O Enos pode durar entre nove meses e dois anos, produzindo chuvas inferiores à média, além de altas temperaturas. Segundo a Oxfam, o fenômeno deste ano poderia ser o “mais poderoso” desde 1997, e já reduziu as chuvas de monção na Índia, o que poderia desencadear uma prolongada seca, além de insegurança alimentar na região oriental do continente asiático.
O aquecimento dos oceanos, agravado pela mudança climática, poderia duplicar a frequência dos mais poderosos desses fenômenos, segundo a Oxfam. A organização exortou por uma ação preventiva e recordou as terríveis consequências da falta de resposta, como a morte de 260 mil pessoas provocada pela crise alimentar no Chifre da África, em 2011.
A Christian Aid também destacou que Malawi tem déficit superior a US$ 130 milhões em suas necessidades de financiamento, o que dificulta o apoio às comunidades mais afetadas. “Se os governos e as agências tomarem medidas imediatas, como fazem alguns, então poderiam ser evitadas as grandes emergências humanitárias do próximo ano. Vale mais prevenir do que curar”, afirmou a Oxfam em seu informe.
Esse documento foi publicado no dia 1º deste mês, uma semana depois da adoção dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) em uma cúpula por ocasião da 70ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), que incluem compromissos para erradicar a fome e também a luta contra a mudança climática.
A Oxfam pontuou que a crise que está se desenvolvendo é o “primeiro teste” dos líderes mundiais que se reunirão em uma cúpula em Paris para participarem da 21ª Conferência das Partes (COP 21) da Convenção Marco das Nações Unidas sobre a Mudança Climática. A COP 21, que acontecerá de 30 de novembro a 11 de dezembro, deve forjar um acordo universal e vinculante para evitar que a temperatura da Terra supere os dois graus Celsius.
“Isso deve servir para chamar atenção dos governantes para que cheguem a um consenso sobre um acordo mundial para combater a mudança climática”, afirmou o presidente-executivo da Oxfam Grã-Bretanha, Mark Goldring. Segundo a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional, dos Estados Unidos, 2014 foi o ano mais quente da história. Entretanto, os dados mundiais em curso revelam que 2015 poderia superar essas temperaturas recordes. Envolverde/IPS/Utopia Sustentável

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Os ponteiros da ação


Twitt
Brasileiro José Graziano dirige a FAO. Foto: Ryan Brown/ONU
Brasileiro José Graziano dirige a FAO. Foto: Ryan Brown/ONU

O tempo das constatações ficou para trás. Alarmes econômicos e ambientais já cumpriram o seu papel: chegou a hora de ajustar os ponteiros da cooperação internacional para uma ação transformadora.
Vivemos uma transição de ciclo econômico. A correlação entre as escolhas do desenvolvimento e o manejo sustentável dos recursos naturais incorporou-se à pauta das nações. É através dela que todas as demais prioridades poderão respirar; sem contemplá-la, definharão.
Esse discernimento é indispensável para enxergar melhor a oportunidade e a relevância de três eventos agendados para este segundo semestre de 2015.
Em setembro, representantes de todo o planeta reúnem-se na ONU para aprovar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que sucederão os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM).
Essa não é uma mera mudança de siglas. Os ODM foram em grande medida uma criação das organizações internacionais impostas “top-down” aos países em desenvolvimento. Agora, com os ODS, vemos um processo inverso em marcha: os países membros do Sistema ONU, desenvolvidos e em desenvolvimento, tomaram a liderança em definir o “futuro que queremos”, como sugeria o título do documento final da Rio+20 que deu origem a tais metas.
Em dezembro, será a vez da Conferência do Clima, que acontece em Paris. A chamada CoP21 tem a missão de pactuar um novo consenso global para evitar um aquecimento da terra superior a 2º C até o final do século. Nesta ocasião, os compromissos concretos já assumidos por vários países esboçam o cenário de uma conferência que promete ir além de declarações superficiais.
Foto: Gare de Lyon, Paris/Shutterstock
Paris sediará no final deste ano a importante Conferência do Clima, COP21. Foto: Gare de Lyon, Paris/Shutterstock
Não estamos diante de um calendário protocolar. As reuniões de setembro e dezembro derivam e convergem para um mesmo fio condutor, aquele que o Papa Francisco resumiu de forma lapidar na encíclica “Louvado Seja”: o desafio do meio ambiente e o da pobreza são parte de uma mesma crise.
Novas formas de viver e de produzir cobram seu espaço nas metas que serão consagradas na ONU, em setembro e, três meses depois, nos compromissos para o clima, em Paris. A consciência da travessia só se transformará em ação consequente, porém, se a cooperação internacional providenciar os recursos necessários.
Entra aí o terceiro pilar deste ano decisivo: a Conferência da ONU sobre Financiamento ao Desenvolvimento, que ocorre em Adis Abeba em julho. Anterior às edições de Nova York e Paris, menos midiática, mas não menos importante – na verdade crucial- a reunião na capital etíope desafia as nações a firmarem um acordo para compartilhar a conta global do combate à fome e à pobreza extrema, do desenvolvimento sustentável, da adaptação à mudança climática e da transição para modelos de produção menos destrutivos.
Trata-se de harmonizar três imperativos: o crescimento equilibrado; o crescimento inclusivo e o crescimento sem fome. Um resultado prático poderá ser a inclusão dos mais pobres nos orçamentos nacionais dos países que definirem o combate à fome e à miséria como suas prioridades políticas.
Nos últimos 70 anos, a população mundial triplicou; a oferta per capita de comida quase duplicou. O número de pessoas com fome caiu em mais de 210 milhões desde 1990; a proporção dos que passam fome recuou cerca de 40%.
É possível – é imperativo – ir além: 800 milhões ainda vivem sob o torniquete da insegurança alimentar. Ao mesmo tempo, taxas de obesidade sobem em todo o planeta, na evidência incontornável de que a segurança alimentar adequada deixou de significar apenas a garantia mínima de calorias. Cada vez mais ela abarcará também o cuidado com a qualidade da dieta humana.
A abundância ao lado da fome reitera, sobretudo, a persistência de desafios de distribuição e acesso que extrapolam a questão agrícola.
Definitivamente, essa não é uma questão técnica. O ferrolho que comprime o passo seguinte do nosso tempo é de outra ordem. Destravá-lo implica uma coordenação cooperativa dos recursos para o desenvolvimento sustentável.
Trata-se, entre outras coisas, de dar ao desenvolvimento reprimido, à terra ociosa, ao trabalho subutilizado, o emprego, o crédito, a renda e os recursos tecnológicos necessários à superação da lógica movediça da crise mundial. Mais que nunca está claro, trata-se de uma crise fruto do desemprego e da desigualdade crescentes, e de uma saturação física no uso dos recursos que formam as bases da vida na terra.
A FAO se preparou para fazer a sua parte nessa travessia.
Equipes e recursos reforçaram a nossa presença nos países e regiões que mais precisam de apoio nessa transição.
Remanejamentos de quadros e de orçamento foram implementados para torná-la um centro irradiador de inteligência com os pés ancorados nas frentes da universalização da segurança alimentar, da produção sustentável, da valorização dos agricultores familiares, da inclusão social, e da resiliência às mudanças climáticas.
Interliga-se a essas diretrizes o desafio de incorporar 500 milhões de propriedades familiares ao novo padrão de crescimento do século 21, de modo a reforçar a segurança alimentar ali onde, paradoxalmente, ela é mais frágil: 75% da fome hoje concentra-se na área rural. Não estamos falando de boas intenções, mas de urgências dotadas de lastro social, político e tecnológico.
Há uma década, erradicar a fome no Brasil era considerado uma agenda utópica. O país provou que isso era possível e saiu do mapa da fome. Mundo afora, 72 de 129 nações em desenvolvimento monitoradas pela FAO alcançaram o desempenho previsto nos ODM de reduzir a proporção de pessoas subnutridas a menos da metade.
Podemos ser a primeira geração Fome Zero, consolidando o passo indispensável a um desenvolvimento equilibrado e inclusivo. É isso que os ponteiros da urgência e da oportunidade estão a nos dizer: chegou a hora. (EcoD/ #Envolverde/Utopia Sustentável)

José Graziano da Silva é diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO).

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Prazo de dez anos para acabar com a fome na África




hamb 629x419 Prazo de dez anos para acabar com a fome na África
A mudança climática é um obstáculo no caminho para acabar com a fome na África, pois afeta as terras de cultivo e destrói as colheitas dos agricultores em todo o continente. Foto: Tinso Mungwe

Embora as economias da África estejam entre as de maior crescimento do mundo, centenas de milhões de africanos vivem abaixo da linha de pobreza, de US$ 1,25 ao dia, um fator fundamental na fome generalizada que afeta o continente. Um dos principais temas discutidos na 24ª Cúpula da União Africana, que terminou na capital da Etiópia no dia 31 de janeiro, foi a segurança alimentar no contexto de desenvolvimento para a Agenda 2063, uma série de metas que o continente deverá alcançar até essa data.
A segurança alimentar é um elemento importante da Agenda 2063 e, como a fome é uma das preocupações mais angustiantes do continente, o programa prioriza as transformações socioeconômicas necessárias para sua erradicação, como proporcionar às pessoas as habilidades necessárias e criar empregos para melhorar sua renda e seu meio de vida.
Na frente agrícola se dá ênfase à expansão da produção alimentar e facilitação do intercâmbio comercial dentro da África, a fim de limitar a importação de alimentos. O objetivo é acabar com a fome em nível continental na próxima década.
Acabar com a fome também ocupou lugar de destaque nas atividades da União Africana em 2014, já que o declarou Ano Africano da Agricultura e da Segurança Alimentar, e os chefes de Estado e de governo africanos também aprovaram a Declaração de Malabo sobre o “crescimento agrícola acelerado e a transformação da prosperidade compartilhada e meios de vida melhorados”.
Ao mesmo tempo colocou em marcha a Aliança Renovada para uma Estratégia Unificada para Acabar com a Fome até 2025, no contexto do Programa Integral de Desenvolvimento Agrícola da África (CAADP). A associação é uma iniciativa conjunta da União Africana, Organização das Nações Unidas para a Alimentação de a Agricultura (FAO), do Instituto Lula, da Nova Aliança para o Desenvolvimento da África, da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental, do Banco Mundial, do Programa Mundial de Alimentos e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).
As estatísticas confirmam que a fome na África é real. A FAO calcula que uma em cada três pessoas na África subsaariana está desnutrida, mas a responsabilidade não cabe apenas à pobreza. Outro obstáculo no caminho para acabar com a fome é a mudança climática mundial, que afeta as terras de cultivo e destrói as colheitas dos agricultores em todo o continente.
Para colocar o tema da terra na agenda do desenvolvimento, a FAO designou 2015 Ano Internacional dos Solos, no contexto da Aliança Mundial pelo Solo e em colaboração com a secretaria da Convenção das Nações Unidas de Luta Contra a Desertificação. A intenção é sensibilizar a população e aumentar a compreensão da importância que o solo tem para a segurança alimentar e as funções dos ecossistemas essenciais, incluídas a adaptação à mudança climática e sua mitigação.
A mudança climática influi enormemente nos meios de subsistência dos pequenos agricultores, especialmente vulneráveis. As secas, inundações e outros desastres ambientais fazem com que as pessoas expostas tenham mais dificuldades para manter seus meios de vida ou inclusive pensar em aumentar sua produtividade agrícola.
Segundo Sipho Mthathi, diretora-executiva da organização humanitária Oxfam África do Sul, o sistema alimentar mundial é essencialmente injusto. “Isso significa que, por um lado, os países têm a capacidade de produzir suficiente comida para se alimentar e alimentar o mundo, por outro, a produção de alimentos é controlada e limitada pelas empresas transnacionais. Falta muito apoio, sobretudo para os pequenos produtores no continente”, disse à IPS, ressaltando que “isso significa que o potencial da África está prejudicado”.
Porém, os Estados membros da União Africana parecem lidar com a necessidade de expressar o crescimento econômico do continente em políticas que beneficiem a população em geral. A Organização Pan-Africana e seus países foram criticados pela lentidão na aplicação das declarações e demais acordos assinados.
Erastus Mwencha, vice-presidente da Comissão da União Africana, afirmou à IPS que no passado foram aplicadas muitas iniciativas para garantir o acesso aos alimentos, tais como ter contextos prontos para garantir a capacidade de recuperação quando os países sofrem seca. Graças aos acordos alcançados em 2014, há claras melhoras no setor da agricultura, apontou.
Segundo Mwencha, “a agricultura está recebendo prioridade nos orçamentos e planos de ação dos Estados membros. Vimos uma injeção de investimentos na agricultura, tanto dos governos, como do setor privado. Também vimos que vários países alcançaram níveis mais altos de nutrição, indicando que melhorou o investimento na segurança alimentar, agora que a agricultura adquiriu maior prioridade”.
Tacko Ndiaye, responsável de Gênero, Igualdade e Desenvolvimento Rural da FAO na África, acredita que a erradicação da fome poderá ser alcançada em uma década. “É algo realista sem existirem investimento, capacidades, mecanismo institucional, alianças. São objetivos muito realistas, mas todas essas dimensões devem estar presentes”, ressaltou. Envolverde/IPS/Utopia Sustentável

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Fome de água



Nos anos 80, em momentos de extrema carência para brasileirinhos carentes, o idealizador da “Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida”, o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, dizia que somente aqueles que sentiam na pele a falta de um alimento para comer tinham a exata dimensão da dor que aquilo causava.  Concordo.

Betinho mobilizou o Brasil para um problema que atingia 32 milhões de irmãos.  Mês passado a FAO, órgão da ONU que cuida da fome no mundo, anunciou que o Brasil estava fora do vergonhoso mapa da fome no mundo.  Um agradecimento “post mortem” que o país deveria fazer ao símbolo desta luta.  Obrigado Betinho!

Faz tempo ouço histórias sobre a seca no nordeste brasileiro.  É notório que o tema jamais mobilizou o andar de cima do sul e sudeste do país. Aliás, solidariedade é uma palavra pouco usada entre nós.  Cisternas, paisagens desérticas e transposições à parte, a verdade é que nunca houve vontade política para resolver o problema, que se alimenta da pobreza oriunda de seus habitantes para sobreviver, fazendo perpetuar no poder um coronelismo (hereditário) transmitido há gerações pelos velhos caciques incrustrados na carcomida cena política brasileira.

Depois de anos assistindo à derrubada da Floresta Amazônica sem que os gritos do silêncio de uma sociedade impotente (e omissa) tenham sido capazes de influenciar uma interesseira classe política nacional, fazendo cessar o desmatamento, os resultados de nossa displicência começam a iluminar, com potentes faróis, os reservatórios secos da Cantareira e adjacências.




Em outra ponta, recente boletim da Agência Nacional de Águas (ANA), informa que o Paraíba do Sul atingiu o nível mais baixo dos últimos 84 anos, com apenas 7,4% de sua capacidade.  O problema da água, ou da falta dela, que chega com força no sudeste, resume-se à:

1-      má gestão dos recursos hídricos pelos governos estaduais (que prolongaram tomar decisões por conta de questões eleitorais);
2-      péssima comunicação dos órgãos públicos (governos federal, estadual e municipal) com a sociedade e;
3-      falta de legislação rigorosa que permita ao governo federal jogar pesado, punindo exemplarmente aqueles que destroem a floresta.

Ou entendemos que o problema não é apenas de São Paulo e começamos a agir nacionalmente racionalizando a maneira como usamos nosso bem mais precioso implementando políticas públicas realistas e sérias ou em brevíssimo tempo o sistema hídrico do país entrará em colapso.  São irresponsáveis aqueles que dizem que está tudo sob controle.

Itu, no interior de São Paulo, é a primeira cidade do estado onde a crise da água chegou forte.  Lá o cotidiano da população mudou e o que se vê é uma rotina de guerra, com ataques à caminhões-pipa, saques, conselhos populares para analisar a melhor maneira de enfrentar o problema, filas gigantes em supermercados, embates entre moradores e policiais, protestos em frente à Prefeitura, enfim.

Assim como a fome, a água é essencial à vida e a sede só é possível imaginar quem tem.  Acreditem, caos está a caminho.  Portanto, é chegada a hora de a água entrar definitivamente na agenda de prioridades nacional, com tratamento abrangente das causas e consequências de sua falta.  Se deixarmos de lado a prepotência, avançaremos bastante se aceitarmos o diagnóstico de que o desmatamento desenfreado da Amazônia, a má gestão hídrica (estadual e federal) e a falta de participação da sociedade, compõem o cenário de problemas a serem atacados, conjuntamente, sem vaidades, por todos.

Que falta você faz, Betinho.

Abraços Sustentáveis
Odilon de Barros


terça-feira, 14 de outubro de 2014

Montanhas de comida no lixo e centenas de milhões passando fome



napoles Montanhas de comida no lixo e centenas de milhões passando fome
“Precisamos de uma mudança transformadora de nossas políticas alimentares e agrícolas para ter sustentabilidade”, afirmou Ren Wang, do Departamento de Agricultura e Proteção do consumidor da FAO. Foto: A.D. McKenzie/IPS
A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) calcula que o mundo desperdiça 1,3 bilhão de toneladas de alimentos a cada ano, enquanto 805 milhões de pessoas sofrem desnutrição crônica ou fome. Ren Wang, diretor-geral do Departamento de Agricultura e Proteção do Consumidor da FAO, anunciou esses números no XI Fórum Internacional para a Mídia sobre a Proteção da Natureza, acrescentando que “precisamos de uma mudança transformadora de nossas políticas alimentares e agrícolas para ter sustentabilidade”.
O fórum deste ano – Gente Que Constrói o Futuro. Alimentando o Mundo. Alimentação, Agricultura e Ambiente – reuniu especialistas, jornalistas e responsáveis políticos na cidade de Nápoles, entre os dias 8 e 11 deste mês, organizado pelo grupo ecologista italiano Greenaccord. O encontro aconteceu quando se aproxima o fim do ano que a Organização das Nações Unidas (ONU) dedicou à agricultura familiar, enquanto a alta de preços dos alimentos continua minando a renda dos setores vulneráveis.
Embora a produção mundial de alimentos tenha triplicado desde 1946 e a desnutrição mundial tenha caído de 18,7% para 11,3% nos últimos 20 anos, a segurança alimentar continua sendo um tema crucial, destacou Wang. A comida desperdiçada representa um terço da produção atual de alimentos. Por essa razão a expansão da produção agrícola não é necessariamente a resposta.
O mundo produz alimentos suficientes para que cada habitante consuma cerca de 2.800 calorias diárias, segundo os cientistas. Mas, enquanto algumas pessoas têm a possibilidade de desperdiçar a comida, para outras ela não chega a ser suficiente. Apesar de o desperdício e a fome não estarem diretamente relacionados, existe uma desigualdade inquestionável no sistema mundial de alimentos, afirmou Gary Gardner, do Instituto Worldwatch, um centro dedicado à pesquisa de políticas sustentáveis, com sede em Washington.
“Nos países ricos, o desperdício de comida acontece frequentemente em nível varejista e do consumidor, seja na loja ou em casa, onde se joga fora grande quantidade”, indicou Gardner à IPS. Pelo contrário, o mesmo fenômeno no Sul em desenvolvimento ocorre principalmente no nível “agrícola ou de processamento”, acrescentou. Segundo o especialista, “a comida se perde, em geral, por não haver sistemas que a transportem de maneira eficiente aos centros de processamento e depois ao consumidor”.
A perda e o desperdício de alimentos chegam a cerca de US$ 680 bilhões nos países industrializados e atingem US$ 310 bilhões no Sul em desenvolvimento, segundo a iniciativa Save Food (Salvar a Comida), um projeto da feira comercial alemã Messe Düsseldorf, em colaboração com a FAO e o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).
“Os consumidores dos países ricos desperdiçam quase tanto alimento (222 milhões de toneladas) quanto toda a produção alimentar da África subsaariana (230 milhões de toneladas)”, segundo a Save Food. “Embora fosse possível guardar apenas um quarto dos alimentos que se perde ou desperdiça no mundo, isso bastaria para alimentar 870 milhões de pessoas que passam fome”, acrescentou a organização.
Na Europa, a grande quantidade de comida que os supermercados jogam no lixo em certas ocasiões causa indignação pública, especialmente nos países onde é ilegal as pessoas recolherem o que é jogado fora. A cadeia de supermercados britânica Tesco reconheceu que descartou 28.500 toneladas de alimentos no primeiro semestre de 2013, e em geral o desperdício anual na Grã-Bretanha é calculado em15 milhões de toneladas.
Nos Estados Unidos, as autoridades calculam que aproximadamente 40% dos alimentos produzidos acabam no lixo, em grande parte devido aos supermercados. Mas nos dois lados do Atlântico é ilegal recolher produtos dos contêineres de lixo, um tema delicado para alguns ativistas que organizaram campanhas públicas que oferecem refeições preparadas com alimentos jogados fora.
No fórum de Nápoles, onde os especialistas analisam as consequências sociais e ambientais do desperdício, entre outros temas, Gardner falou sobre a experiência do ativista Rob Greenfield, que se alimentou com comida retirada dos contêineres de lixo enquanto percorria os Estados Unidos de bicicleta.
“Muitas vezes a comida estava em pacotes fechados, caixas inteiras de cereais, sucos, esse tipo de coisas que por diversas razões foram jogadas fora, mas que, para ele, eram alimentos em perfeito estado”, explicou Gardner. “Essa não é a melhor maneira de nos desfazermos dos resíduos. A melhor maneira, em primeiro lugar, é não gerá-los”, acrescentou.
A Tesco e outras redes de supermercados britânicos concordaram em aplicar um programa de redução de resíduos, e restaurantes em vários países também tomaram medidas não só para reduzir os dejetos como para convertê-los em biogás para gerar energia. Gardner opinou à IPS que, em lugar de jogar comida fora, os supermercados deveriam doar os produtos a organização locais, como as cozinhas populares, embora o melhor fosse “não gerar esse desperdício”.
Alguns oradores no Fórum disseram que o uso de alimentos ou dejetos do lar para a energia em nível local poderia contribuir com soluções ambientais de maior alcance, mas que o objetivo principal deve ser frear a geração de resíduos.
“A segurança alimentar e a mudança climática têm alguns desafios em comum”, ressaltou Adriana Opromollo, da Caritas Internacional, rede católica de organizações humanitárias. “Em nível local, vemos que o uso dos alimentos ou do lixo doméstico pode prosperar como estratégia de sucesso. Mas temos que nos concentrar nas soluções que se adaptam ao contexto particular”, afirmou à IPS.
A forma de reduzir a quantidade de resíduos pode começar com medidas simples. Algumas empresas de serviços de alimentação dos Estados Unidos descobriram que, quando nos restaurantes escolares eram dados aos estudantes apenas os pratos, sem as bandejas, os jovens pegavam apenas os alimentos que poderiam consumir, gerando 25% menos resíduos. Envolverde/IPS/Utopia Sustentável

terça-feira, 30 de setembro de 2014

A insustentável leveza de ser (rico)


Imagine 400 cidadãos americanos comprando o Brasil.  Parece brincadeira, mas não é.  A divulgação dessa possibilidade consta da publicação “Forbes 400”.  É que, segundo a revista americana, a fortuna desses “trabalhadores” chega a US$2,29 trilhões contra US$2,24 trilhões referentes ao PIB brasileiro.   Detalhe: estamos entre as dez maiores economias do mundo.  Apenas em 2013 a fortuna desses senhores cresceu US$270 bilhões.  

Um escárnio!  E prova cabal de que o modelo atual de consumo desenfreado, acumulação, desenvolvimento, está esgotado e precisa ser repensado.  Querem mais?  Em 2013, 85 cidadãos tinham renda maior que mais da metade da população do planeta.

Caro leitor, pense comigo....Qual o prazer em ostentar o título de “mais ricos do mundo” ignorando que vivemos em um planeta extremamente desigual e perverso? Como botar a cabecinha no travesseiro e dormir em paz sabendo que estamos, em qualquer parte do planeta, como diria o velho Betinho (da campanha contra a fome e a miséria), a uma esquina da miséria absoluta? 

Pois é, infelizmente, não são números para se comemorar e sim refletir, pensar em quanto estamos distante de um mundo mais justo, fraterno, igual...sustentável.   Acumular, acumular, acumular.  Pra quê? Com muita sorte vamos ficar por aqui, no máximo, 80/90 anos. 

Se inteligentes fossem (e parassem para pensar), ricos trabalhariam menos para viver muito bem as suas próprias vidas.  Acumular pelo simples prazer de acumular, significa, na prática, deixar fortunas de bilhões de dólares para outros gastarem. 
Acredito na tese de que aqueles que têm o estúpido prazer de chegar ao fim da vida com 200/300 milhões intactos em suas contas bancárias, não são ricos, mas otários.  Aqueles que o são, de verdade, usufruem da riqueza em vida.  Morrendo sem sequer tocá-las, famílias, sócios, amantes e outros sucessores, desfrutarão daquilo que não contribuíram para construir.  

É louco o cidadão que trabalhou por toda uma vida sem se divertir, que ficou paranoico com medo de ser roubado, sequestrado, perdeu saúde, adquiriu doenças, tudo isso apenas para ostentar o título de “rico”.  No fim, quando se dá conta do quão imbecil foi, a vida passou e a família muitas vezes torce por sua morte para, com tranquilidade, curtir seus “dinheirinhos”.  E o mundo está cheio desses exemplos. 

Esta semana li em algum lugar que o comunismo soube distribuir mas não soube produzir e o capitalismo produziu mas não soube distribuir. Ou seja, ambos fracassaram.  
Com minha “Utopia Sustentável” e sempre acreditando que é possível um mundo diferente desse em que vivemos, gostaria de ousar provocando economistas e suas teses mirabolantes, afirmando que nada aconteceria aos ricos do mundo caso viessem a abrir mão de 90% de suas fortunas em prol de se acabar com a fome e a pobreza no mundo.  

Em 2008, quando da crise financeira mundial, iniciada com a quebra do Lehman Brothers, a governança global gastou mais do que nosso PIB para salvar da quebradeira a camarilha irresponsável de banqueiros que há muito transformou nosso planeta em um grande cassino. 

Bem que a brincadeira de ganhar dinheiro comandada por esses cidadãos, doravante, poderia ser mais inteligente e, por exemplo, salvar o planeta investindo em energias renováveis, descobrir a cura da AIDS, do vírus Ebola, e por aí vai. 

Movimentos solitários já são vistos aqui e acolá, Bill Gates que o diga.  Talvez esteja faltando organizar a generosidade em um movimento global nesse sentido. Eu vou continuar acreditando que um dia eles vão acordar.

Abraços sustentáveis

Odilon de Barros


quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Estudo mostra que 805 milhões de pessoas no mundo ainda passam fome





Cerca de 805 milhões de pessoas no mundo, uma em cada nove, sofre de fome crônica no mundo, segundo o relatório O Estado da Insegurança Alimentar no Mundo (Sofi 2014, na sigla em inglês), divulgado nesta terça-feira (16) em Roma, na Itália, pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).
O estudo confirmou tendência positiva observada nos últimos anos de redução da desnutrição mundialmente: o número de pessoas subnutridas diminuiu em mais de cem milhões na última década e em mais de 200 milhões desde o período1990-1992.
Segundo o documento, a redução da fome nos países em desenvolvimento significa que a meta dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) de diminuir à metade a proporção de pessoas subnutridas até 2015 pode ser alcançado “se apropriados e imediatos esforços forem intensificados”.
Até o momento, 63 países em desenvolvimento alcançaram o objetivo, entre eles o Brasil, e outros seis estão a caminho de consegui-lo até 2015. O documento incluiu este ano sete estudos de casos, entre eles o Brasil. De acordo com o levantamento, o Programa Fome Zero, que colocou a segurança alimentar no centro da agenda política, foi o que possibilitou o país a atingir este ODM. O estudo também destaca os programas de erradicação da extrema pobreza, a agricultura familiar e as redes de proteção social como medidas de inclusão social no Brasil
O relatório é uma publicação conjunta da FAO, do Programa Mundial de Alimentos (PMA) e do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (Fida).
“Isto prova que podemos ganhar a guerra contra a fome e devemos inspirar os países a seguir adiante, com a ajuda da comunidade internacional se for necessário”, dizem, no relatório, o diretor-geral da FAO, o brasileiro José Graziano da Silva, o presidente do Fida, Kanayo Nwanze, e a diretora executiva do PMA, Ertharin Cousin. Eles ressaltaram que “substancial e sustentável redução da fome é possível com comprometimento político”.
O documento ressaltou que o acesso a alimentos melhorou significativamente em países que experimentaram progresso econômico, especialmente no Leste e Sudeste da Ásia. O acesso à comida também aumentou no Sul da Ásia e na América Latina, mas principalmente em países que têm formas de proteção social, incluídos os pobres no campo, segundo o estudo.
No entanto, o relatório apontou que apesar do progresso significativo geral, ainda persistem várias regiões que ficaram atrás. Na África Subsaariana, mais de uma em cada quatro pessoas continua com fome crônica. A Ásia abriga a maioria dos famintos – 526 milhões de pessoas. A América Latina e o Caribe são as regiões que fizeram os maiores avanços na segurança alimentar.
Como o número de pessoas subnutridas permanece alto, os chefes das agências reforçaram a necessidade de renovar o compromisso político para combater a fome por meio de ações concretas e encorajam o cumprimento do acordo alcançado na cúpula da União Africana, em junho, de acabar com a fome no continente até 2025.
Os líderes das organizações destacaram que a insegurança alimentar e a desnutrição são problemas complexos que devem ser resolvidos de maneira coordenada e apelam aos governos para trabalhar em estreita colaboração com o setor privado e a sociedade civil.
O relatório reforça que a erradicação da fome requer o estabelecimento de um ambiente propício e um enfoque integrado, que incluam investimentos públicos e privados para aumentar a produtividade agrícola, o acesso à terra, aos serviços, às tecnologias e aos mercados, além de medidas para promover o desenvolvimento rural e a proteção social dos mais vulneráveis. Agência Brasil


segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Redução do desperdício pode acabar com a fome, diz ONU





O relatório “Perdas e desperdícios de alimentos da América Latina e no Caribe”, realizado pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), demonstrou que seria possível acabar com a fome, apenas exterminando o desperdício.
A região é responsável por 6% da perda de alimentos em todo o mundo, chegam a ser desperdiçados 15% de tudo o que é produzido nesta parte do continente. No entanto, os especialistas explicam que boa parte do que vai para o lixo, ainda poderia ser reaproveitado, contendo altos valores nutricionais.
De acordo com a FAO, o desperdício acontece em diferentes etapas da cadeia. O consumidor e a produção são os maiores responsáveis pelas perdas, com 28% cada. Na sequência vêm mercado e distribuição, com 17%, manuseio e armazenamento, com 22% e o restante do processamento com 6%.
As soluções para este problema são bastante plausíveis. A ONU informa que, se for aumentada a eficiência somente no sistema de venda e varejo, ou seja, nos supermercados, feiras, armazéns e demais pontos de venda, seria possível alimentar 30 milhões de pessoas, o equivalente a 64% da população que passa fome.
Outra opção é a criação de bancos de alimento, que recolham a comida que seria descartada mesmo estando em bom estado para o consumo e a redistribui para quem necessita. Já existem sistemas deste tipo na Costa Rica, Chile, Guatemala, Argentina, República Dominicana, Brasil e México, sendo que este último resgatou 56 mil toneladas de alimentos em 2013.
“Ainda que seja importante dizer que os países da região possuem as calorias mais do que suficientes para alimentar todos os seus cidadãos, a enorme quantidade de alimentos que são perdidos ou que acabam na lixeira é simplesmente inaceitável enquanto a fome continuar afetado quase 8% da população regional”, desabafou o representante regional da FAO, Raul Benítez, emdeclaração oficial.
CicloVivo

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Um sistema alimentar que produz famintos e obesos




cn06 obesidade fome desperdicio cfn01 300x206 Um sistema alimentar que produz famintos e obesos
“O problema da fome tem a ver com a falta de democracia. Temos alimentos suficientes no mundo, mas não há acesso a eles para todas as pessoas”, pondera a ativista Esther Vivas.
“O problema, hoje, quando falamos de alimentação, não tem a ver somente com a fome, mas também com a má nutrição. Porque vivemos num mundo de famintos, mas também de obesos. O sistema alimentar atual não satisfaz corretamente as necessidades de comer das pessoas. É um sistema que produz simultaneamente pessoas que passam fome e pessoas que são obesas, fruto também de uma má alimentação. E este paradoxo de viver num mundo de famintos e de obesos mostra como o sistema alimentar atual não satisfaz as necessidades alimentares das pessoas. Fundamentalmente, o que o move é a lógica do capital, do dinheiro, do benefício econômico”, afirma a ativista Esther Vivas.
Esther Vivas enfatiza que o problema da fome é, fundamentalmente, político. Segundo ela, apesar de produzirmos uma quantidade de alimentos suficiente para alimentar uma população adicional de mais 5 bilhões de pessoas no mundo, temos hoje um bilhão de pessoas passando fome entre os 7 bilhões de habitantes do planeta — ou seja, um a cada sete habitantes passa fome. “Há um problema de democracia no sistema agrícola e alimentar. A resposta à pergunta de por que há hoje fome num mundo de abundância de alimentos, a encontramos quando analisamos quem determina as políticas agrícolas alimentares, quem sai ganhando com este modelo. O atual sistema agroalimentar está pensado basicamente para que umas poucas empresas ganhem dinheiro, mesmo que para isso muitas pessoas tenham que passar fome”, frisa.
A ativista lembra que a chamada revolução verde resultou na privatização da agricultura, já que os insumos agrícolas (todos aqueles elementos, entre bens e serviços, necessários para a produção de alimentos) são controlados por poucas empresas. Em consequência, a capacidade de decidir sobre o que e de que forma plantar, que antes era exercida pelo agricultor, agora é retida pela indústria alimentar. “Atualmente, não sabemos o que comemos, não sabemos o que está por trás do que consumimos. Alimentamo-nos com produtos quilométricos, que vêm do outro lado do mundo. Perdemos a capacidade de decidir sobre aquilo que levamos à boca”, adverte, ressaltando que essas políticas resultaram na perda da diversidade agrícola e alimentar e em uma sociedade que contrai doenças a partir daquilo que ingere.
Esther Um sistema alimentar que produz famintos e obesosEsther Vivas é ativista política e social, posicionando-se a favor da soberania alimentar e do consumo crítico. É jornalista e mestre em Sociologia.   Publicado originalmente no site IHU On-Line.