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segunda-feira, 11 de maio de 2015

Eventos climáticos extremos vão aumentar


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Os eventos extremos provocados pelas mudanças climáticas continuará a castigar o Estado de São Paulo ainda mais, principalmente as áreas conurbadas como as regiões metropolitanas da capital, do Vale do Paraíba e de Campinas. A grande concentração urbana em faixas contínuas ocupando imensas áreas tem provocado episódios potencializados das alterações nos microclimas regionais.
Eventos como secas prolongadas intercaladas com grandes tempestades e a presença de fenômenos com alto poder destrutivo como os tornados serão cada vez mais frequentes. Os invernos deverão ser mais curtos, os verões ainda mais quentes e as tempestades substituirão de vez as chuvas brandas e prolongadas. Assim como epidemias agravadas pelo desequilíbrio ambiental, como dengue e malária. O cenário é dos piores.
O alerta vem dos principais centros de pesquisas do país, como o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), ambos  de São José dos Campos, além de estudos de diversas universidades como da Unicamp e da USP entre outras, inclusive do exterior.
No último dia 20 um tornado F3 na escala Fujita atingiu em cheio a cidade Xanxerê, Santa Catarina, e outros 33 povoados em seu caminhado. No seguinte, foi a vez da cidade de Ponte Serrada ser devastada pelo fenômeno. O Brasil é o segundo país no mundo em volume de tornados e São Paulo é o maior detentor destas ocorrências. O Vale do Paraíba registra casos significativos quanto ao fenômeno, como os ocorridos em São José dos Campos, Cachoeira Paulista, Guaratinguetá, Taubaté entre outras cidades paulistas. No trecho fluminense, Volta Redonda e Resende já registraram o surgimento de tornados.
Há 20 anos, esse fenômeno formado a partir de nuvens de cumulonimbus, nome técnico às formações de tempestades, sequer era reconhecido pelos meteorologistas brasileiros que diziam ser inexistente esse tipo de ocorrência em território nacional.
Catástofre em Teresópolis
Catástofre em Teresópolis
De acordo com uma pesquisa publicada nesta semana pela revista científica britânica Nature  feita pelo Instituto de Ciências Atmosféricas e Climáticas da universidade ETH Zurique, cerca de 75% de altas temperaturas extremas registradas no planeta estão ligadas diretamente ao aquecimento global. E 18% das precipitações extremas também têm a mesma origem e são decorrentes de ações antrópicas.
O pesquisador do Centro de Ciência do Sistema Terrestre, Antonio Donato Nobre, é um dos cientistas que tem alertado para a necessidade de se preparar para o novo modelo de clima na região e sobre a necessidade urgente de ações mitigadoras.
“Existe uma vasta literatura sobre o assunto, os eventos extremos vão aumentar de frequência e intensidade com as mudanças climáticas globais. Temos pelo menos 20 anos de alertas dados.  Agora, no caso de alertas sobre tornados individuais, precisamos ter uma rede de radares doppler e mesmo assim o melhor que se consegue de antecedência é alguns poucos minutos. Não era mais fácil termos cuidado do clima planetário, termos preservado nossas florestas, termos replantado o que foi destruído?”, questionou o cientista.
Para do Cemaden e criador do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (Cptec), Carlos Nobre, a situação é grave e merece uma atenção redobrada por parte de todos.
“Só para dar uma ideia, de outubro de 2013 a março de 2014, choveu cerca de 50% do que deveria ter chovido nesses seis meses. De outubro de 2014 ao final de março de 2015 choveu 75% do que seria esperado e ficou 25% abaixo da média ainda, o que é bem seco, mas muito diferente da mega seca que foi há um ano”, observou.
Para Nobre, as mudanças climáticas vão diminuir o espaçamento entre as recorrências. Inexiste no momento como saber qual será essa diminuição.
“Podemos dizer que eventos dessa natureza, que eram muito raros, vão acontecer com mais frequência e em seus extremos. A mudança climática cria essa situação, onde havia uma certa variabilidade de fenômenos extremos raros começam a ficar mais frequentes”.
No caso das áreas conurbadas a tendência é que se tornem cada vez mais quentes e com isso, propícias as grandes tempestades e secas mais rigorosas. E a ilha de calor já mudou o ciclo das chuvas em São Paulo e continuará a alterar nas faixas de aglomerados urbanos. Atualmente, na capital paulista chove de 30% a 35% a mais do que há 80 anos. (#Envolverde)
Júlio Ottoboni é jornalista diplomado, pós graduado em jornalismo científico. tem 30 anos de profissão, atuou na AE, Estadão, GZM, JB entre outros veiculos. Tem diversos cursos na área de meio ambiente, tema ao qual de dedica.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Pedalada Pelada reúne ciclistas

 


Os ciclistas nus e seminus que ocupam as ruas de São Paulo neste sábado (14) não sairão de suas casas para cometerem um ato obsceno e nem apelar para a sexualidade, mas para evidenciar a fragilidade de quem anda de bicicleta nos grandes centros urbanos. A Pedalada Pelada é a edição brasileira do World Naked Bike Ride (WNBR), movimento que ocorre em várias partes do mundo e tem um número de adeptos cada vez maior nas cidades brasileiras.
Com o lema “Obsceno é o trânsito”, os participantes da manifestação procuram reverter a invisibilidade dos ciclistas nas vias públicas, utilizando seus corpos como cartazes para espalhar as mensagens de conscientização. Quem sair de casa para pedalar com o grupo não precisa tirar a roupa, mas a nudez é incentivada pelos organizadores em todo o trajeto, que tem início na Praça do Ciclista.

Foto: edugreen/Flickr
A fotógrafa e cicloativista Anna Lúcia disse que, na primeira vez em que participou da Pedalada Pelada, ficou espantada com a ideia, mas, depois, buscou informações sobre o movimento e se juntou aos demais ciclistas. “Fiquei muito curiosa com a manifestação e decidi me engajar. Além de chamarmos atenção de muita gente, foi bem divertido”, conta Anna, que adota a bicicleta como meio de transporte devido aos benefícios proporcionados à saúde e à sensação de estar em contato com a cidade.
Embora a polícia tenha agido de forma violenta em diversas manifestações em todo o país, na última edição da Pedalada Pelada, os agentes simplesmente garantiram o bloqueio das vias para a circulação segura dos ciclistas. Bem diferente do que aconteceu na edição de 2008, quando alguns participantes foram presos. “Há seis anos, era bem mais difícil andar de bike em São Paulo. Hoje em dia, muita coisa mudou, mas é preciso manter esta bandeira erguida”, afirma Anna.

Foto: L’écureuil/Flickr
A invisibilidade do ciclista urbano que os participantes abordam durante a Pedalada Pelada não é apenas uma sensação. Um dia após a bicicletada de 2013, o ciclista David Santos de Souza foi atropelado na Avenida Paulista e teve seu braço jogado num córrego, crime que evidenciou a fragilidade de quem usa a bike como transporte.

Foto: L’écureuil/Flickr
A oitava edição da Pedalada Pelada tem início às 20h na Praça do Ciclista, e, durante a concentração, os participantes fazem as pinturas corporais. CicloVivo/Utopia Sustentável

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Catadores de SP podem receber bicicleta adaptada para facilitar coleta





A prefeitura de São Paulo estuda levar para a cidade uma iniciativa que tem auxiliado os catadores de recicláveis de Pernambuco. Apelidada de Projeto Relix, a ação doa bicicletas coletoras que substituem as carroças usadas pelos catadores.
Conforme informado por Eduardo Suplicy, secretário de Direitos Humanos da capital paulista, o prefeito, Fernando Haddad tem discutido a proposta e buscado formas de implantar o projeto também na cidade de São Paulo.
Em sua página no Facebook, Suplicy publicou uma foto em que está reunido com o prefeito e com Lina Rosa Vieira, responsável pela criação do programa aplicado em Recife. Segundo ele, Haddad já conseguiu o apoio do Serviço Social da Indústria (Sesi) para disponibilizar a Ciclolix, bicicletas adaptadas, aos catadores de São Paulo.
Em Pernambuco o sistema já funciona através da parceria entre a Prefeitura e o Sesi e entregou cem bicicletas aos coletores de Recife. As Ciclolix possuem diversas facilidades que melhoram a eficiência da coleta e também a quantidade de materiais que podem ser transportados por cada catador.
A bicicleta é capaz de transportar até 500 quilos de materiais recicláveis. O seu espaço para armazenamento possui divisórias, para que os resíduos sejam dispostos separadamente. Além disso, as bikes são equipadas com amassador de latinhas, espelhos laterais, sinalizadores e é totalmente adaptada para oferecer mais segurança e rapidez aos catadores. CicloVivo/Utopia Sustentável

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Á beira do colapso, Governo do Estado de SP cria Comitê de Crise Hídrica




Aliança pela Água de SP divulga nota sobre a criação do comitê de crise hídrica. Para a rede, a iniciativa chega atrasada e com pouca participação social. Confira a nota na íntegra.
O governo do Estado de São Paulo publicou nesta quarta-feira (4) o Decreto nº 61.111, que institui, sob a coordenação da Secretaria de Saneamento e Recursos Hídricos, o Comitê de Crise Hídrica no âmbito da Região Metropolitana de São Paulo. A medida vinha sendo cobrada pela sociedade civil desde outubro do ano passado, quando vários indicadores apontavam a dimensão da crise hídrica e climática que ameaça o abastecimento de água em São Paulo.
Para a Aliança pela Água, rede com mais de 50 entidades que vem monitorando a crise e apresentando propostas, embora seja um primeiro passo importante, o Comitê criado pelo governo deveria ter um mandato mais amplo e mais político para incidir na gestão da crise. A Aliança defende que, além de gerir o racionamento de forma transparente, este Comitê deve discutir e apresentar propostas e alternativas para complementar o fornecimento de água, garantir o abastecimento aos serviços essenciais e a comunicação clara com a sociedade, a fim de evitar pânico e impactos à saúde.
aguacrise Á beira do colapso, Governo do Estado de SP cria Comitê de Crise Hídrica
Falta de água em Itu, 2014-Mídia Ninja

Este Comitê de Crise Hídrica precisa ainda ampliar a representação dos diferentes segmentos da sociedade civil que serão fundamentais na mobilização popular para enfrentar o colapso.
Com o agravamento da crise nos últimos dois meses e as incertezas frente aos cenários climáticos, é difícil dizer quanto tempo a estiagem e a restrição no abastecimento podem perdurar. Será necessário um plano de emergência bem mais detalhado e abrangente e um comitê com real força política para garantir segurança e cumprimento de direitos à população. site Instituto Socioambiental/Utopia Sustentável.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

“Racionamento é inevitável e não tem prazo para acabar”




EL Geraldo Alckmin aumento de agua para o abastecimento do Alto Tiete Foto Edson Lopes 27 01 2015 27012015 02 1024x682 Racionamento é inevitável e não tem prazo para acabar
Geraldo Alckmin no córrego Guaratuba. Obra anunciada nesta terça-feira pretende aumentar vazão para o Sistema do Alto Tietê. Foto: Edson Lopes Jr/ A2AD/ Fotos Públicas

O diagnóstico é do coordenador da Frente Nacional pelo Saneamento. Edson Aparecido da Silva explica que as obras emergenciais não evitarão as medidas drásticas.
O rodízio de abastecimento de água na cidade de São Paulo é inevitável e sem prazo para ser suspenso, aponta o técnico em saneamento Edson Aparecido da Silva, coordenador da Frente Nacional pelo Saneamento Ambiental e parte do Coletivo de Luta pela Água. Nesta terça-feira 27, o diretor metropolitano da companhia, Paulo Massato Yoshimoto, afirmou que, caso continue a chover abaixo da média e as obras emergenciais não consigam suprir a demanda da população, o governo pode optar por realizar um rodízio de níveis “drásticos”: dois dias de abastecimento para cinco dias sem água.
A Frente Nacional pelo Saneamento e o Coletivo de Luta pela Água (este formado no último dia 20 de janeiro) reúnem entidades do movimento popular e sindical, como a CUT (Central Única dos Trabalhadores), a ASSEMAE (Associação Nacional dos Serviços Municipais de Saneamento), a FNU (Federação Nacional dos Urbanitários), o Sindicato dos Trabalhadores em Água e Esgoto de Campinas e o Sindicato dos Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio Ambiente do Estado de São Paulo. Para essas entidades, a falta de planejamento da gestão do governador Geraldo Alckmin é a principal responsável pelo descalabro hídrico no estado.
Para Edson Aparecido, esse quadro de falta de água de contornos calamitosos não é uma possibilidade, mas sim uma constatação do cenário real do Estado. Segundo ele, os planos emergenciais capazes precisam de mais tempo do que as reservas podem aguentar — os projetos variam de nove a trinta meses de execução.
Uma dessas obras é a transposição do Rio Paraíba do Sul, cujo edital será lançado nesta sexta-feira 30. As obras, entretanto, só serão iniciadas 90 dias após o lançamento da licitação. O projeto faz parte do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e estava previsto para ser iniciado em 2020, mas foi adiantado em 5 anos por conta da crise. Ele interligará a bacia do Rio Paraíba do Sul com o Sistema Cantareira. O Governo Federal também liberou $ 2,6 bilhões para as obras no Sistema Produtor São Lourenço, que poderá abastecer sete cidades da região metropolitana. A previsão de conclusão das obras, que acontece no sistema de Parceria Público Privada (PPP), é para 2017.
O governo vem tentando aumentar a capacidade de tratamento das reservas do Guarapiranga, do Alto Tietê e do Alto da Boa Vista, mas as medidas ainda são insuficientes para atenuar os danos da falta d’água e impedir a aplicação do rodízio.
Além de castigar a população, o rodízio de água preocupa por conta dos danos que pode causar à infra-estrutura da rede hídrica do estado mais populoso do País. Isso porque a rede de abastecimento é muito antiga e a interrupção do fluxo pode gerar alguns traumas:
Contaminação externa: com o fluxo constante de água, interferências externas não conseguem entrar na rede. Com a interrupção do fluxo, contaminações do solo e do lençol freático conseguirão invadir a rede por meio das rupturas e rachaduras na tubulação.
Arrebentação das redes: com o sistema normalizado, o fluxo de água é extremamente intenso, porém estável. A preocupação dos especialistas é que, após o desligamento das redes, ao religá-la o alto fluxo poderia romper as tubulações desgastadas pelo tempo.
Rompimento de registros: a manobra de interromper o fluxo de água é física. Engenheiros da Sabesp terão de desligar enormes registros de água – semelhantes ao que temos em casa, porém com cerca de um metro de diâmetro. Tais registros são muito antigos e também podem quebrar ao serem manuseados.
Para evitar colocar o sistema todo em cheque, o especialista em saneamento diz que planos emergenciais mais profundos poderiam ter sido colocados em prática há mais tempo. “Pelo menos desde o início de 2014 já era possível saber que, pelo cenário, eram necessárias medidas mais duras para evitar que a crise chegasse ao nível que chegou”, diz Edson Aparecido. “Isso não foi feito porque poderia atrapalhar o projeto de reeleição do governador.”
Outra crítica ao governo é a respeito do esvaziamento dos fóruns de discussão estadual e federal entre prefeitos. “Os Comitês de Bacia Hidrográfica foram esvaziados, o Conselho de Desenvolvimento da Região Metropolitana (que reúne 39 prefeitos) se reuniu uma única vez em 2014 e sem a presença do governador e o Conselho Nacional de Recursos Hídricos também se encontrou uma única vez no ano, mesmo com o tamanho dessa crise”, afirma o técnico.
As críticas do Coletivo apontam que a falta de transparência do governo em admitir a gravidade da situação obrigou as medidas mais drásticas de agora. “Em janeiro de 2014 o governo deveria ter decretado o racionamento, chamado o setor empresarial, os trabalhadores, a sociedade e, principalmente, os prefeitos das cidades do Estado para colocar a gravidade da crise e planejar ações em conjunto”.
O governador Geraldo Alckmin admitiu o racionamento no Estado pela primeira vez apenas no dia 14 de janeiro de 2015, quando o nível do Sistema Cantareira atingiu a marca de 6,3%, já somadas as duas parcelas do volume morto. Carta Capital/Utopia Sustentável

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Sabesp esconde contratos de empresas que mais consomem água




Sistema Cantareira atinge volume zero em 2014 mes de junho20140515 0002 Sabesp esconde contratos de empresas que mais consomem água
Sistema cantareira, em seca. Foto: Vagner Campos/ A2 FOTOGRAFIA (16/05/2014)/ Fotos Públicas
Em resposta a pedido pela Lei de Acesso à Informação, companhia defende sigilo de dados de interesse público alegando “segredo industrial” e “direito à privacidade e intimidade”
Embora a Lei de Acesso à Informação (LAI) determine, já no seu primeiro artigo, que toda a administração pública está sujeita a ela, incluindo “autarquias, fundações públicas, empresas públicas, sociedades de economia mista e demais entidades” a Sabesp parece se considerar uma exceção.
Desde dezembro do ano passado, nossa reportagem (Agência Pública)  pede, através da LAI, os contratos de Demanda Firme assinados pela Companhia de Saneamento com cerca de 500 empresas para o fornecimento de altos volumes de água. Juntas, elas consomem, em média, 1,9 milhão de m³/mês.
Agora, em resposta ao recurso da reportagem a Sabesp alega que as empresas têm direito à privacidade como as pessoas, este estabelecido pelo artigo 5º da Constituição. “A pessoa jurídica goza das garantias relativas à privacidade, garantindo-lhe o direito a segredos comerciais, fórmulas e métodos que lhe pertencem reservadamente, constituindo os elementos que compõem sua esfera privada”, defende a empresa na resposta.
Participantes do Fórum de Preservação e Defesa do Rio Paraíba denunciam irregularidades na atividade de mineração em municípios do Baixo Paraíba (Foto: Mano de Carvalho)O povo contra os areeiros mateus-reconstituc_ao2Dois meninos e uma sentença de morte Protesto de povos indígenas contra projetos hidrelétricos; em 2013, protestos se estenderam a BrasíliaCala-boca em Belo Monte
Para a advogada da organização Artigo 19, Karina Quintanilha, a comparação não tem respaldo legal. “O direito à privacidade, assim como o direito à informação, é um direito humano e tem certos critérios para ser aplicado. Não existe direito à privacidade de uma empresa, de pessoa jurídica”. Segundo ela, a posição da Sabesp não leva em conta a sujeição da empresa à Lei de Acesso. “A regra é o acesso à informação, a abertura dos documentos públicos e contratos. A exceção é o sigilo, e somente nos casos previstos na lei, nenhuma outra hipótese seria possível. Como a Sabesp é uma empresa de economia mista, está enquadrada no artigo primeiro, não tem como fugir disso”.
A Sabesp também alega risco de prejuízo às empresas contratantes. “As informações solicitadas que se referem a um dos segmentos de mercado atendido pela Sabesp, podem apresentar uma vulnerabilidade, tais como perdas financeiras e ameaças à realização de seus objetivos”. Mas esse argumento também não se justifica, segundo a advogada. “Estamos falando de contratos públicos já que a empresa por vontade própria estabeleceu uma relação jurídica com um órgão público. A partir do momento em que ela firmou esse contrato de demanda firme com a Sabesp, [o contrato] está sujeito à lei da transparência”. Para ela, a disponibilidade de contratos dessa natureza é fundamental “para que se tenha acesso à forma como esses órgãos administram os recursos públicos – no caso, a água”.
Na mesma resposta, a Sabesp menciona o Artigo 29 do decreto 58.052, que regulamentou a LAI no Estado de São Paulo, e determina: “O disposto neste decreto não exclui as demais hipóteses legais de sigilo e de segredo de justiça nem as hipóteses de segredo industrial decorrentes da exploração direta de atividade econômica pelo Estado ou por pessoa física ou entidade privada que tenha qualquer vínculo com o poder público”.
Segundo Karina, para que exceção pudesse ser feita teria que haver uma ação prévia da empresa nesse sentido. “[A Sabesp] deveria previamente classificar o sigilo, se fosse o caso, de acordo com a LAI. No caso do pedido sobre os contratos de demanda firme, caso existisse alguma informação protegida pelo sigilo industrial eles teriam que apresentar o registro disso. Mas essa é uma hipótese muito improvável já que o sigilo industrial ocorre quando tem alguma ‘fórmula’ da empresa a ser protegida por exemplo” explica.
Precedente negativo
Em um caso similar, o TRF da 2ª Região decidiu favoravelmente ao pedido do jornal Folha de S. Paulo para obter “relatórios de análise” de contratos firmados pelo BNDES. “Não há como acolher a tese de que o BNDES exerceria suas atividades de maneira idêntica às instituições financeiras privadas, sob o regime de direito privado, de modo a isentá-lo da fiscalização de toda a sociedade brasileira”, argumentou o juiz. E ainda acrescentou que “(…) os ‘Relatórios de Análise’ objeto do presente mandamus [ação judicial] são documentos produzidos pelo Órgão da Administração Indireta e que versam sobre utilização de recursos públicos, enquadrando-se, portanto, perfeitamente nas disposições da Lei de Transparência”.
Agora a reportagem da Pública recorreu à segunda instância, que é a Corregedoria-Geral da Administração (CGA), e está aguardando a resposta. Para Karina, se a tese da Sabesp for acatada pela CGA, pode abrir um precedente perigoso, “justamente porque através desses documentos de contratos é que a gente consegue informações precisas sobre as negociações estabelecidas ente empresas e o poder público”, explica.
“A Sabesp está colocando o segredo industrial como um princípio maior, acima do direito à informação. Isso levaria com certeza a um precedente muito negativo para a liberdade expressão e o acesso à informação”, diz a advogada da Artigo 19.
A Sabesp já foi alvo de críticas da organização, que monitora a aplicação da LAI no país, em um relatório publicado em dezembro sobre a crise do sistema Cantareira. De sete pedidos feitos à Companhia, nenhum foi respondido. “A gente entende que justamente nesse momento de crise é essencial garantir a transparência. É isso que vai possibilitar que a sociedade possa participar das decisões, e elas podem se continuamente monitoradas e acompanhadas pelas pessoas que são as mais afetadas”, completa Karina.
Contratos estimulam o consumo de água
Os contratos de demanda firme estão no centro da discussão sobre as políticas adotadas pela Sabesp nos últimos anos. Eles começaram a ser usados em 2002 pela Sabesp como forma de “fidelizar” clientes do comércio ou indústria que têm grande consumo de água. Em 2010, o contrato passou a valer para clientes que consomem acima de 500m³/mês. Empresas como a General Motors do Brasil, o aeroporto de Congonhas, a SPTrans, o Jockey Club de São Paulo, a Ford Brasil e a Universidade Metodista já assinaram contratos dessa modalidade, garantindo um desconto que pode chegar a ate 40% do valor pelo alto consumo de água.
O programa prevê um consumo mínimo de água. Se o cliente consumir menos, pagará o valor completo de todo jeito. Se ultrapassar a quantidade acordada, paga a diferença. Ou seja, a empresa é penalizada se economizar, e é instada a usar mais água, já que pagará de qualquer forma. Outro problema nesse tipo de contrato é que a Sabesp exige exclusividade de fornecimento. Uma reportagem do Valor Econômico mostrou que um centro comercial na zona oeste de São Paulo foi forçado a abandonar dois poços artesianos para receber apenas água da Sabesp, em troca do desconto na conta.
As taxas cobradas não estão disponíveis no site da Sabesp. Procurada pela reportagem, a assessoria de imprensa afirmou apenas que “cada contrato tem sua característica própria” e “as informações são confidenciais”. De acordo com os dados do Plano Estadual de Recursos Hídricos 2004-2007, o setor industrial respondia por 30,4% do consumo de água no estado.
A Sabesp finalmente reviu essa obrigação de consumo mínimo em março do ano passado, depois do agravamento da crise hídrica. Em 29 de dezembro, durante uma audiência na Arcesp, chegou a anunciar a intenção de isentar os clientes dos contratos de demanda firme da sobretaxa dos consumidores que aumentarem o consumo em relação à média do ano anterior – afinal liberada pelo TJ para vigorar neste janeiro. Depois da repercussão negativa já no dia seguinte nos jornais, as grandes clientes foram incluídas na sobretaxa. Mas os descontos previstos pelos contratos de demanda firme continuam a vigorar.
Para Marussia Whately, coordenadora da Aliança pela Água, coalizão de organizações da sociedade civil, esses contratos não levam em conta que a água é um bem escasso e é muito importante que sejam conhecidos pela população. “Muitas vezes os contratantes são prestadores de serviços para as pessoas, como supermercados, academia de ginásticas; com a crise há um interesse ainda maior em relação a como a água é consumida”. Além disso, ela destaca que “a postura da Sabesp e do governo do Estado, de ausência de informações claras e de canais mais amplos de diálogo com a sociedade, até contribuiu para piorar a crise”.* Publicado originalmente no site Agência Pública.

Crise hídrica: Alarme!



suspensao racionamento nh Crise hídrica: Alarme!

Diante da crise da água em São Paulo, o coordenador geral da Rede Nossa São Paulo e do Programa Cidades Sustentáveis faz um apelo às autoridades e aos cidadãos para que assumam as devidas responsabilidades. Confira:
A cidade de São Paulo está diante de uma catástrofe social, econômica e ambiental sem precedentes. O nível do sistema Cantareira está em cerca de 6% e segue baixando por volta de 0,1% ao dia. O que significa que, em aproximadamente 60 dias, o sistema pode secar COMPLETAMENTE!
O presidente da Sabesp declarou que o sistema pode ZERAR em março ou, na melhor das hipóteses, em junho deste ano. E NÃO HÁ UM PLANO B em curto prazo. Isto significa que seis milhões de pessoas ficarão praticamente SEM UMA GOTA DE ÁGUA ou com enorme escassez. Não é que haverá apenas racionamento ou restrição. Poderá haver ZERO de água, NEM UMA GOTA.
Você já se deu conta do que isto significa em termos sociais, econômicos (milhares de estabelecimentos inviabilizados e enorme desemprego) e ambientais? Você já se deu conta de que no primeiro momento a catástrofe atingirá os mais vulneráveis (pobres, crianças e idosos) e depois todos nós?
O que nos espanta é a passividade da sociedade e das autoridades diante da iminência desta monumental catástrofe. Todas as medidas tomadas pelas autoridades e o comportamento da sociedade são absolutamente insuficientes para enfrentar este verdadeiro cataclismo.
Parece que estamos todos anestesiados e impotentes para agir, para reagir, para pressionar, para alertar, para se mobilizar em torno de propostas e, principalmente, em ações e planos de emergência de curto prazo e políticas e comportamentos que levem a uma drástica transformação da nossa relação com o meio ambiente e os recursos hídricos.
Há uma unanimidade de que esta é uma crise de LONGUÍSSIMA DURAÇÃO por termos deixado, permitido, que se chegasse a esta dramática situação. Agora, o que mais parece é que estamos acomodados e tranquilos num Titanic sem nos dar conta do iceberg que está se aproximando.
Nosso intuito, nosso apelo, nosso objetivo com este alarme é conclamar as autoridades, os formadores de opinião, as lideranças e os cidadãos a se conscientizarem urgentemente da gravíssima situação que vive a cidade, da dimensão da catástrofe que se aproxima a passos largos.
Precisamos parar de nos enganar. É fundamental que haja uma grande mobilização de todos para que se tomem ações e medidas à altura da dramática situação que vivemos. Deixar de lado rivalidades e interesses políticos, eleitorais, desavenças ideológicas. Não faltam conhecimentos, não faltam ideias, não faltam propostas (o Conselho da Cidade de São Paulo aprovou um grande conjunto delas). Mas faltam mobilização e liderança para enfrentar este imenso desafio.
Todos precisamos assumir nossa responsabilidade à altura do nosso poder, de nossa competência e de nossa consciência. O tempo está se esgotando a cada dia.
Oded Grajew é empresário, coordenador da secretaria executiva da Rede Nossa São Paulo, presidente emérito do Instituto Ethos e idealizador do Fórum Social Mundial. site Rede Nossa São Paulo/Utopia Sustentável.

sábado, 17 de janeiro de 2015

Crise da água é principal risco para 2015, revela pesquisa




agua onu Crise da água é principal risco para 2015, revela pesquisa
Conflitos por acesso a água tendem a se intensificar nos próximos anos. Foto: Kibae Park/ONU

Qual é o item que pode gerar maior impacto no mundo em 2015? A crise da água aparece em primeiro lugar em pesquisa realizada pelo Fórum Econômico Mundial com cerca de 900 especialistas. Foi a primeira vez, desde 2007, que a economia não apareceu como principal risco para o planeta.
Anualmente, os principais líderes do mundo se reúnem na cidade suíça de Davos para debater os grandes temas mundiais. Antes do encontro – que será realizado na próxima semana –, os organizadores realizam pesquisa com os temas que mais preocupam a elite econômica, política e social do planeta.
Nos últimos anos, a economia apareceu isolada como principal preocupação em termos de impacto: colapso do preço dos ativos entre 2007 e 2010, crise fiscal em 2011, problema sistêmico nas finanças globais em 2012 e 2013 e crise fiscal em 2014. Neste ano, porém, a pesquisa mostra que a crise da água é o tema com maior probabilidade impactar o planeta.
A saída dos temas econômicos da lista de preocupações acontece em período em que os Estados Unidos deixam o pior da crise e se preparam para retomar o crescimento mais vigoroso e a normalidade da economia. A crise, contudo, ainda é viva na zona do euro e dá cada vez mais sinais em países emergentes.
Outros temas
Depois da água, os entrevistados citaram como outros temas preocupantes a rápida disseminação de doenças infecciosas e as armas de destruição em massa.
A pesquisa também questiona sobre o problema mais provável para os próximos dez anos. Para os entrevistados, os problemas que têm maior probabilidade de acontecer são: conflito internacional com impacto regional, eventos climáticos extremos, problema de governança nacional, crise ou colapso de Estados e, em quinto na lista, o único item econômico: elevado desemprego estrutural.
“O risco geopolítico aparece em destaque em 2015 após período de ausência do panorama de riscos principais durante a última meia década. Com a geopolítica influenciando cada vez mais a economia global, estes riscos são três dos cinco mais prováveis e dois dos que apresentam maior impacto potencial para 2015”, diz a pesquisa divulgada pela organização do Fórum Econômico Mundial.site EcoD.  Utopia Sustentável

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

São Paulo não pode permitir retrocessos em sua legislação ambiental




retrocessoambiental São Paulo não pode permitir retrocessos em sua legislação ambiental
A aprovação do projeto de lei diminuiria as faixas de recuperação de Áreas de Preservação Ambiental Permanentes (APPs) ciliares voltadas à conservação da água. Foto: Reprodução

Contrariando alertas de especialistas e ignorando a maior crise hídrica da história de São Paulo, deputados paulistas aprovaram na Assembleia Legislativa, no dia 10 de dezembro, projeto de lei que regulamenta o Código Florestal de 2012 no Estado. O PL 219/14, de autoria do deputado Barros Munhoz (PSDB), líder do governo na Assembleia Legislativa, e de outros cinco parlamentares governistas, aguarda agora a sanção do governador Geraldo Alckmin.
O projeto, que dispõe sobre o Programa de Regularização Ambiental (PRA), reproduz em São Paulo as principais falhas da Lei Federal, sobretudo no que se refere às Áreas de Preservação Permanente (APPs). Essas áreas são essenciais para os mananciais, rios e nascentes, uma vez que as florestas protegem todo o fluxo hídrico, impedem o assoreamento de rios e represas e ainda têm o papel de extrair umidade do ar e levá-la aos aquíferos, cumprindo a função de reguladoras climáticas.
Estudo da SOS Mata Atlântica divulgado em outubro constatou que a cobertura florestal nativa na bacia hidrográfica e nos mananciais que compõem o Sistema Cantareira, centro da crise no abastecimento de água, está muito abaixo dos níveis ideais e deve ser recuperada. Restam apenas 488 km2 (21,5%) de vegetação nativa na bacia hidrográfica e nos 2.270 km2 do conjunto de seis represas que formam o sistema. Não restam dúvidas de que o desmatamento da Mata Atlântica tem relação direta com a escassez da água na região sudeste. Com menos proteção florestal, teremos menos água. Portanto, com a aprovação do PL 219, essas áreas serão ainda mais prejudicadas, o que acentuará a grave situação dos mananciais do Estado.
Ao aprovar um projeto de lei para regularizar atividades e usos do solo até então irregulares e que passarão a ser considerados consolidados, o projeto diminuiu as faixas de recuperação de APPs ciliares voltadas à conservação da água. A recuperação de nascentes e olhos d’água, por exemplo, estabelecida em um raio de 50 metros, foi reduzida para apenas 15 metros.
Outro ponto preocupante é a possibilidade de São Paulo exportar para outros Estados dos biomas Mata Atlântica e Cerrado a recomposição da reserva legal, sem considerar as bacias hidrográficas. Essa medida beneficiaria principalmente grandes proprietários rurais que desmataram florestas em território paulista e que agora poderão compensá-las em regiões onde o valor da terra é menor, como no Nordeste.
Para completar o retrocesso, o projeto traz ainda artigo que trata do uso de culturas lenhosas e espécies exóticas na recomposição de áreas de preservação permanente, descaracterizando completamente a função legal que é unicamente a de preservar permanentemente.
Ainda mais preocupante é a situação do Cerrado paulista, bioma que abrange cerca de 15% do Estado, já que o projeto prevê isentar propriedades do Cerrado de recomposição florestal, o que trará enorme impacto negativo.
Importante lembrar que o novo Código Florestal é objeto de Ação Direta de Inconstitucionalidade, movida pelo Ministério Público Federal, em três questões que ainda estão sendo julgadas e que foram repetidas no projeto de lei paulista. Dessa forma, o Estado de São Paulo, que sempre foi referência no país no que se refere a inovações e tecnologia na área ambiental, perde a chance de corrigir as distorções da lei federal.
Desperdiça também a oportunidade de definir instrumentos de apoio e incentivo à conservação, como o Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) – tema desvalorizado no projeto aprovado pelos deputados paulistas. O Estado ainda perde tempo e se desgasta politicamente com uma regulamentação repetitiva, nada inovadora e que não aperfeiçoa o Sistema de Meio Ambiente e mecanismos de desenvolvimento para um agronegócio moderno e sustentável.
Ao aprovar o projeto de afogadilho, repetindo erros e no apagar das luzes do mandato eletivo, o Legislativo Paulista deixou claro valorizar o interesse de grupos pontuais, mesmo que isso signifique rejeitar as necessidades da população e do Estado.
Cabe agora ao governador Geraldo Alckmin reagir de forma efetiva na defesa dos reais interesses da sociedade, que já sofre com a falta de água. Não permitir em São Paulo retrocessos como os praticados na legislação federal, que agravam a crise hídrica e fragilizam a proteção das nossas florestas, é reforçar a importância do Pacto Federativo e a soberania dos Estados, que podem e devem ser mais restritivos em matéria ambiental para atender as necessidades e especificidades de sua população e atividades econômicas.site SOS Mata Atlântica.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Mizuno doa centenas de tênis a coletores de lixo de São Paulo





A nova campanha da Mizuno resolveu homenagear não os atletas profissionais da corrida propriamente, mas trabalhadores que correm como maratonistas todos os dias para limpar as ruas da cidade. A marca preparou para esses "atletas invisíveis" uma surpresa no final de 2014. Na semana do Natal, a marca acompanhou a rotina desse time pelas ruas de São Paulo. Foram 40 horas de gravação e pesquisas, ruas percorridas e muito lixo coletado para entender como funciona a engrenagem dos coletores. O extrato desse projeto é um minidocumentário que acaba de ser lançado no Facebook e YouTube da marca.
Em ação criada pela F/Nazca Saatchi & Saatchi, a marca surpreendeu esses ‘atletas’, que correm por trabalho mas também por prazer e bem-estar. A empresa doou centenas de pares de tênis para esses jovens que passam todos os dias, inclusive a noite de Natal, correndo pelas ruas da cidade. "Eles são verdadeiros maratonistas e nem sabem disso. Como uma marca que investe e aposta no segmento de running, achamos que eles também representam o espírito de Mizuno, que busca a superação diária. Foi um grande prazer poder presenteá-los com os tênis numa data especial", explica Rogério Barenco, gerente de Mizuno no Brasil. Ciclovivo/Utopia Sustentável

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Falta de água força 36 milhões de latino-americanos a escolher entre necessidades básicas




O alerta é do Banco Mundial, que acrescenta que, com as mudanças climáticas, o problema da falta de chuvas – e de abastecimento – tende a piorar nas regiões mais áridas do mundo. Projetos de cooperação buscam soluções no tema.
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Todos os dias, Jane Fernandes gasta pelo menos uma hora e meia indo e voltando da cisterna do assentamento rural de Caraúbas, abastecida pelo Exército. Foto: Mariana Kaipper Ceratti/Banco Mundial

Aos 40 anos, a boleira Maria Dilvânia Lima nunca tomou um banho de chuveiro. Duas vezes por semana, ela se junta a sete colegas para assar bolos em uma associação de mulheres de uma pequena cidade do nordeste brasileiro.
Nenhuma receita leva água. “Substituímos por polpa de frutas ou leite”, conta ela, orgulhosa. Nos dias de produção normal, 25 quitutes (de coco e mandioca, entre outros sabores) saem de uma pequena cozinha para serem vendidos aos vizinhos.
Nos últimos tempos, porém, tem sido difícil manter a produção. Por causa da seca que há três anos maltrata o semiárido, o assentamento rural onde vive não recebe chuva suficiente para encher as cisternas das casas. Pior: fora a água trazida pelo Exército a cada semana, não há outra fonte de abastecimento, o que obriga as mulheres de Caraúbas (Rio Grande do Norte) a tomar decisões cada vez mais difíceis no dia a dia.
“A água é necessária tanto para lavar as vasilhas quanto para a obra de ampliação da nossa cozinha. Estamos deixando de gastar para não faltar em casa, para a família e o rebanho”, comenta Dilvânia. Como as vizinhas, ela diariamente sai cedo de casa para encher as 10 latas d’água a que os moradores têm direito.
Se não há água, não há bolos nem renda para o grupo. As famílias acabam dependendo quase exclusivamente do pagamento do Bolsa Família, do Garantia Safra (que protege os agricultores em caso de perdas) e da aposentadoria, três dos principais benefícios concedidos pelo governo brasileiro.
Água cinza
A história ilustra um desafio que 748 milhões de pessoas enfrentam em todo o mundo, 36 milhões só na América Latina. A falta d’água significa que, diariamente, essas pessoas precisam escolher entre preparar comida ou lavar a louça, entre tomar banho ou regar a horta.
Com as mudanças climáticas, o problema da falta de chuvas – e de abastecimento – tende a piorar nas regiões mais áridas do mundo. “O nordeste brasileiro sofre, particularmente, os impactos das secas relacionadas com o fenômeno El Niño, que podem se tornar mais frequentes em um planeta 4°C mais quente”, informa a versão latino-americana do relatório Diminuir o Calor, do Banco Mundial.
Tantas limitações obrigam qualquer projeto de fornecimento de água a também ensinar a população a usar o líquido da forma mais eficiente possível.
A boa notícia para as famílias de Caraúbas é que, entre setembro e dezembro deste ano, a vila finalmente terá abastecimento regular, por meio de uma adutora que puxará a água do poço localizado a 5km da vila.
“Será possível levar água encanada às 43 famílias do assentamento, permitir a elas cuidar das pequenas plantações em seus quintais, vender o excedente na feira. E as doceiras vão poder continuar suas atividades”, empolga-se Ana Guedes, gerente executiva do projeto de desenvolvimento Rio Grande do Norte Sustentável, que une o governo do estado ao Banco Mundial.
Além disso, os moradores aprenderão a aproveitar até o líquido do banho e da descarga, chamado de “água cinza” pelos especialistas na área.
Aliás, essa é uma lição que as regiões mais ricas do Brasil, como São Paulo, vêm aprendendo a duras penas, pois a seca e a falta d’água deixaram de ser um problema exclusivo do campo e do Nordeste do Brasil.
O fim de um peso
Iniciativa semelhante, concluída em 2010, já havia levado acesso a água potável para 53 mil famílias em vários municípios do Rio Grande do Norte. O impacto social foi imediato e significativo.
As mulheres dessas cidades – antes responsáveis por buscar a água em enormes latas – se livraram do fardo e puderam passar mais tempo fazendo atividades remuneradas ou brincando com os filhos. Estudo feito em 20 comunidades mostrou que, como resultado, elas tiveram aumento de 30% na renda familiar.
“Mesmo com os investimentos já realizados, a demanda por água ainda é uma necessidade para diversas famílias na área rural”, comenta Fátima Amazonas, especialista em desenvolvimento rural do Banco Mundial. Ela acrescenta que o novo projeto também atuará na recuperação ambiental de áreas degradadas e em capacitações para os agricultores.
Essas possibilidades animam a dona de casa Jane Fernandes, 27 anos, mãe de duas filhas. Todos os dias, ela gasta pelo menos uma hora e meia indo e voltando da cisterna do assentamento, abastecida pelo Exército. “Meus sonhos: que eu termine meus estudos para dar uma vida melhor às meninas e que essa água chegue”, conta.
Jane, como outros milhões de latino-americanos, também sonha tomar um banho de chuveiro. site ONU Brasil.