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domingo, 30 de novembro de 2014

COP 20: ‘É hora de agir’




COP20 COP 20: É hora de agir
Foto: Observatório do Clima

Que se pode esperar da reunião a ser promovida pela ONU em Lima, no Peru, de representantes de quase 200 países, do próximo dia 10 ao dia 12, para discutir um acordo “vinculante”, no âmbito da Convenção do Clima, em que todos se comprometam a reduzir emissões de poluentes que aumentam a temperatura do planeta? Até aqui, dizem os promotores que pretendem chegar a um “rascunho” do acordo com metas obrigatórias, a ser assinado até o final do ano que vem, em Paris, e que vigore a partir de 2020. Mas, apesar das datas distantes, há certo ceticismo quanto à possibilidade de acordo mesmo para um rascunho, tantas são as divergências entre países industrializados, de um lado, e “emergentes” e “subdesenvolvidos”, do outro, quanto à definição das responsabilidades de cada um na redução (hoje, 1 bilhão de pessoas mais prósperas emitem metade dos poluentes no mundo; 3 bilhões na faixa intermediária, 45%; e 3 bilhões – metade sem energia elétrica – emitem 5%).
Os relatórios do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) são categóricos: é preciso reduzir até 2050 as emissões em 40% a 70% do que são hoje para impedir que a temperatura do planeta suba mais que 2 graus Celsius (já subiu 0,85% em relação ao século 19); e chegar a zero nas emissões até o fim deste século. O último relatório, de 5 mil páginas, foi escrito por 800 cientistas, que reviram os estudos de mais de 30 mil no mundo todo. Por isso o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, é categórico. “A ciência já falou. Não há ambiguidade. É hora de agir”, disse ele na última reunião do IPCC, em Copenhague.
E as tarefas não são fáceis. Em 2030 é preciso emitir 15% menos do que em 2010. É preciso trabalhar imediatamente no reflorestamento para que as áreas recuperadas ajudem na redução de temperaturas; avançar com a eficiência energética, que pode ajudar a reduzir a quantidade de poluentes emitidos na queima de combustíveis fósseis (carvão, óleo, gás) entre 3 bilhões e 7 bilhões de toneladas anuais de dióxido de carbono equivalente. Mas um dos avanços que também se conseguiria com isso seria reduzir os 7 milhões de mortes anuais por causa da poluição do ar (estudo da Organização Mundial de Saúde) na Índia, no Brasil, na China, no México e nos Estados Unidos – além da geração de 7 milhões de empregos nas áreas de energias renováveis. Tudo isso feito, as emissões anuais, que estarão em 47 gigatoneladas de CO2 em 2025, chegariam a 2050 com 22 gigatoneladas (55% menos que em 2012). Se nada for feito, poderemos chegar a 87 gigatoneladas em 2050.
Mas para avançar, calcula sir Nicholas Stern, estudioso respeitado, é preciso investir nos próximas anos nada menos que US$ 90 trilhões (quase 40 vezes o PIB brasileiro). E, pensam os cientistas, eliminar os subsídios ao consumo de combustíveis fósseis, hoje na casa dos US$ 600 bilhões por ano. E seguir nos caminhos de 2012, quando foram investidos cerca de US$ 360 bilhões em programas de eficiência energética, além de US$ 244 bilhões em energias renováveis.
Há quem veja como sinal para otimismo o fato de Estados Unidos e China (que, juntos, emitem 45% do total de poluentes, hoje) haverem firmado acordo pelo qual os norte-americanos se comprometem a reduzir suas emissões entre 26% e 28% até 2025, enquanto os chineses só diminuirão em 20% seu consumo de combustíveis fósseis a partir de 2030. Os mais céticos ironizam as datas. E François Hollande, presidente da França, pede mais pressa, porque um fracasso no acordo global “pode levar à guerra” e à “catástrofe” (Business and Financial News, 7/11). Angela Merkel, a chanceler alemã, pede à Austrália que reveja sua posição contra o acordo: os desastres do clima “não se limitarão a algumas ilhas do Pacífico, atingirão todos os países” (17/11).
Por essas e outras, diz um dos relatórios da ONU (AP, 19/11) que o mundo ainda não está no caminho de evitar os perigos gerados pelas ações humanas; seria preciso baixar as emissões para 42 bilhões de toneladas métricas de CO2 em 2030 – quando as projeções de hoje são para 15 bilhões a 19 bilhões de toneladas acima disso.
Há países já francamente assustados. O Nepal, por exemplo, mostra que a cobertura de gelo em suas montanhas se reduziu em 1.266 quilômetros quadrados em duas décadas – e o abastecimento de água de milhões de pessoas depende dela. Botswana demonstra que secas e inundações estão arrasando o país . O Banco Mundial manifesta preocupação com o que está acontecendo na Groenlândia e na Antártida. Se as temperaturas continuarem a subir, afirma (23/11), o nível dos oceanos poderá elevar-se em até 2,3 metros nos próximos séculos. Colheitas de soja no Brasil poderão baixar 70%; de trigo, 50%. O oeste dos Estados Unidos enfrenta uma sucessão de nevascas (dez pessoas morreram na última). A área dos vinhos na França está sofrendo com calor inédito e tempestades de granizo (Estado, 16/11). Lembra o Peru que em 30 anos os Andes perderam pelo menos 30% da cobertura de gelo.
Não estranha. De janeiro a outubro deste ano a temperatura média global esteve em 14,78 graus Celsius, a mais alta desde 1880, segundo a Agência de Administração Oceânica e da Atmosfera (NOAA), dos EUA. Ou 0,68 grau acima da média do século 20; recorde em cinco dos últimos seis meses.
Dinheiro resolveria, como o do Green Climate Fund, com o qual se espera reunir US$ 100 bilhões anuais para ajudar os países mais pobres e vulneráveis? Mesmo que seja, até agora só reuniu US$ 5 bilhões.
No Brasil, continuamos mergulhados em polêmica. Diz o Observatório do Clima (Estado, 25/11) que em 2013 aumentaram nossas emissões (1,57 bilhão de toneladas de CO2, mais 7,8%); diz o Ministério do Meio Ambiente que a metodologia oficial difere da que é usada nessa medição. Mas é tudo muito preocupante com os números sobre a perda de florestas – que está influenciando no clima, nas chuvas, no abastecimento.Washington Novaes é jornalista.

sábado, 29 de novembro de 2014

O futuro do planeta e a irresponsabilidade dos governos




planetasustentavel O futuro do planeta e a irresponsabilidade dos governos
O último informe do IPCC é muito mais dramático do que os anteriores: afirma de maneira concludente que a mudança climática se deve à ação do homem, e expõe uma extensa revisão sobre os danos que afetarão o setor agrícola, sobretudo em países pobres como a Índia. Foto: http://www.shutterstock.com/
Depois de alguns dias durante os quais todos celebraram o acordo histórico entre Estados Unidos e China sobre a redução das emissões de CO2, assinado no dia 12 deste mês, uma ducha muito fria chegou da Índia.
O ministro indiano de Energia, Piyush Goyal, declarou: “Os imperativos de desenvolvimento da Índia não podem ser sacrificados no altar de uma potencial mudança climática futura que demorará muitos anos. O Ocidente terá que reconhecer que nós enfrentamos as necessidades da pobreza”.
Trata-se de um duro golpe para o presidente norte-americano, Barack Obama, que após a assinatura de Pequim no acordo sobre redução de emissões de CO2 (dióxido de carbono) voltou para casa alardeando seu sucesso em estabelecer a política na região asiática.
Porém, mais importante ainda é que a posição de Nova Délhi fornece abundante munição ao Congresso norte-americano, controlado pela oposição republicana, que argumenta que os Estados Unidos não podem participar do controle climático, a menos que outros grandes contaminadores assumam compromissos semelhantes.
Este argumento se referia principalmente à China, que se recusava a qualquer tipo de compromisso até que seu presidente, Xi Jinping, para surpresa de todos, assinou o acordo com Obama.
A Índia é um país contaminador importante. Não chega aos níveis da China, que soma 9.900 toneladas métricas de CO2, contra 6.826 dos Estados Unidos, mas aumenta suas emissões rapidamente.
Goyal anunciou que o uso de carvão nacional na Índia passará dos 565 milhões de toneladas registrados no ano passado para mais de um bilhão de toneladas em 2019, e está entregando concessões para extração de carvão em grande velocidade.
Entretanto, o novo primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, proclamou que realizará um amplo programa de desenvolvimento de fontes renováveis de energia.
Há um aparente paradoxo no fato de muitos cientistas que integram o Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre a Mudança Climática (IPCC) serem indianos, como seu diretor, Rajendra K. Pachauri, que também é diretor-executivo do Instituto de Recursos Energéticos da Índia.
O último informe do IPCC é muito mais dramático do que os anteriores: afirma de maneira concludente que a mudança climática se deve à ação do homem, e expõe uma extensa revisão sobre os danos que afetarão o setor agrícola, sobretudo em países pobres como a Índia. O documento prevê que ao menos 37 milhões de pessoas serão deslocadas pela elevação do nível dos mares.
Metade dos agricultores indianos depende da água das geleiras do Himalaia, que estão derretendo pelo aquecimento global. As cidades da Índia são as mais contaminadas do mundo, e várias vezes ao ano se supera o pior dia de contaminação na China.
Porém, o mais preocupante é que os governos estão reagindo com extrema lentidão. Seria necessário um grande esforço, que não figura na agenda climática, para impedir que a temperatura global aumente mais do que dois graus centígrados, para depois começar a diminuir as emissões até 2020.
Estima-se que em 2014 as emissões serão as mais altas da história e chegarão a 40 bilhões toneladas, contra 32 bilhões de toneladas em 2010.
Existe consenso de que, para limitar o aquecimento do planeta a não mais do que dois graus centígrados acima do nível pré-industrial, os governos deveriam limitar as emissões adicionais procedentes de combustíveis fósseis a não mais de um trilhão de toneladas de dióxido de carbono.
Mas, segundo a investigação do IPCC, as companhias de energia já programaram reservas de carbono e petróleo que igualam várias vezes essa quantidade e estão investindo cerca de US$ 600 bilhões por ano em novas explorações.
Em contraste, gasta-se menos de US$ 400 bilhões por ano para reduzir as emissões. Essa quantidade é menor do que a renda de uma única corporação petroleira norte-americana, a ExxonMobil.
A última reunião do Grupo dos 20 (G20) países ricos e emergentes, realizada na cidade australiana de Brisbane, nos dias 15 e 16 deste mês, deu ao clima uma atenção inesperada.
Mas as nações do G20 gastam US$ 88 bilhões anuais em subsídios para a exploração de hidrocarbonos, que é o dobro do que investem para esse fim as 20 empresas privadas mais importantes do planeta.
Outro bom exemplo da falta de coerência dos governos ocidentais é que prometeram US$ 10 bilhões para o Fundo Verde para o Clima, cuja tarefa é apoiar os países do Sul em desenvolvimento na mitigação e adaptação à mudança climática.
Essa quantia é apenas dois terços do previsto para a criação do Fundo em 1999, que ainda está longe de ser operacional.
E agora a discussão passa para a 20ª Conferência das Partes (COP 20) da Convenção Marco das Nações Unidas sobre a Mudança Climática, que acontecerá nos 12 primeiros dias de dezembro em Lima, onde é previsível que, novamente, os governos serão incapazes de conseguir um acordo satisfatório sobre os problemas climáticos.
Se isso acontecer, diminuirá ainda mais o tempo disponível para a salvação do planeta.
Além da anunciada resistência por parte do Congresso norte-americano, se prevê a oposição de várias nações dependentes dos combustíveis fósseis, como Rússia, Austrália, Índia, Venezuela, Irã, Arábia Saudita e os países do Golfo.
Essas atitudes demonstram a ausência de coerência e de responsabilidade por parte dos governos.
Roberto Savio1 O futuro do planeta e a irresponsabilidade dos governos
Roberto Savio. Foto: IPS
E, quanto à opinião pública, se for feito um referendo perguntando à sociedade se prefere pagar US$ 800 bilhões a menos de impostos, retirando os subsídios contra a contaminação, há pouquíssimas dúvidas de que sairia ganhadora a redução tributária.
O mesmo resultado se obteria se lhe fosse perguntado se prefere gastar esses US$ 800 bilhões em energia limpa ou deixar as coisas como estão.
Uma agravante é que as corporações energéticas e os governos têm uma relação incestuosa, que está fora da vista do público.
Tudo isso prova que, quando estão em jogo a sobrevivência das ilhas, das costas, da agricultura e dos pobres, os governos não são capazes, ou não desejam, ver além de sua existência imediata.
A conclusão é que nossa geração precisa urgente e desesperadamente de uma governança global que seja capaz de enfrentar esse catastrófico tipo de globalização. Envolverde/IPS
Roberto Savio é fundador e presidente emérito da agência de notícias Inter Press Service (IPS) e editor do boletim Other News. (IPS) 

terça-feira, 30 de julho de 2013

Papa Sustentável


Republiquei  propositalmente o bom artigo do jornalista André Trigueiro, que admiro, intitulado “Papa fez história, mas não falou de sustentabilidade” para conversarmos um pouco sobre suas afirmações.

Fé e crenças à parte, é apenas uma outra leitura que fiz sobre o mesmo tema.  E como o assunto me apraz, explico os motivos.  

 

Quando o Papa, apesar de toda comitiva de segurança estar em carros luxuosos, preferiu andar em um modelo básico, sem ostentação, estava passando o recado que é possível, mesmo que possamos desfrutar de coisas mais requintadas, viver uma vida digna de forma simples; quando o Papa instigou jovens a irem para as ruas, contra a corrente, serem revolucionários e felizes, estava passando a mensagem de romper barreiras por um mundo melhor; quando o Papa declarou que é chegada a hora de pararmos com o consumismo desenfreado e desnecessário, estava dando o recado claro que nosso Planeta não suporta mais este modelo insustentável de ser; quando o Papa declarou que não entende como governantes  podem dormir tranquilos sabendo que existem sob sua responsabilidade cidadãos que passam fome e não têm educação, estava falando claramente em desigualdade, pobreza e falta de oportunidades, o que, também, é falar sobre sustentabilidade; quando o Papa declarou que não podemos mais viver sobressaltados com a queda de três ou quatro pontos percentuais nas bolsas de valores mundo afora, era porque enxergava ali que o foco para uma melhor qualidade de vida teria que ser o capital humano e a felicidade, não apenas seu lado financeiro.  Estava sinalizando que o importante é dar valor à vida e não ao dinheiro, o que, também, é sustentável.


Por isso, caro André Trigueiro, acredito que o que tenha sentido falta nos vários discursos do Papa seja a sustentabilidade explícita, o que concordo.  Mas não podemos ignorar, e aí discordo do título de seu artigo, que mesmo indiretamente, porém de forma bastante clara, o Pontífice tenha dado sinais que o mundo precisa mudar.  E rápido.

Se a Igreja Católica até pouco tempo atrás parecia insensível ao não ouvir a voz das ruas e vinha perdendo parte de seu rebanho, que clamava por mudanças que não ocorriam, agora, renovada após a eleição do Papa Francisco, é ela que pauta a agenda mundial ocupando espaços deixados por governos, partidos e políticos insensíveis às necessidades da humanidade.  

Semana passada li em algum periódico a entrevista de um integrante do “Anonymous” que declarou com clareza impressionante que a grande sacada do movimento são as “causas” que afligem as populações e perduram sem resolução há décadas.  São elas as grandes estrelas de hoje e reúnem multidões de pessoas mundo afora.  Disse, ainda, que a hora que as pessoas entenderem isso, será uma revolução.  Ou seja, pela ótica do movimento devemos ignorar direita ou esquerda, partidos e políticos e lutar por “CAUSAS”.

Se governos, políticos e partidos não entenderem ou não acreditarem nessa nova realidade de fazer política, corremos o risco (sustentável) de presenciar uma inacreditável aliança por mudanças na ordem econômica mundial, impensável até então, comandada por movimentos anônimos e a igreja. 

Abraços sustentáveis