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segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Conferência do clima começa em Paris


Foto: Reprodução/ UNFCCC
Foto: Reprodução/ UNFCCC
COP21 é o maior encontro de chefes de Estado e governo fora da sede das Nações Unidas. Sessão de abertura tem declarações otimistas e reforça necessidade de compromisso político e moral

A conferência do clima das Nações Unidas começou oficialmente na manhã desta segunda-feira (30), em Paris. A COP21 recebe hoje 150 chefes de Estado e de governo – é o maior encontro de líderes mundiais fora da sede das Nações Unidas.
Na sessão de abertura, que contou com a presença do príncipe Charles, o clima foi de otimismo quanto ao resultado da conferência. As autoridades da COP e das Nações Unidas reforçaram a necessidade de um acordo eficaz para reduzir emissões de gases de efeito estufa e firmar cooperação internacional para que os objetivos sejam alcançados.
O ministro do Meio Ambiente do Peru, Manuel Pulgar-Vidal, que liderou a conferência em Lima em 2014, transmitiu a presidência da COP ao ministro de Relações Exteriores da França, Laurent Fabius. Pulgar-Vidal reforçou o caráter urgente de chegar a um acordo climático global, perseguido há mais de duas décadas, e a necessidade de passar uma mensagem de união entre os governos. “Estamos buscando um acordo que possa atender a questão climática, mas à questão do terrorismo, também. Podemos mostrar ao mundo que somos capazes de trabalhar juntos”, disse.
O peruano elogiou os esforços dos cochairs, a dupla encarregada de redigir o rascunho do acordo, em entregar um texto enxuto, claro e focado. “Esperamos que no dia 11 de dezembro às 18h possamos comemorar o acordo com um bom champanhe francês e um bom pisco, também.”
Laurent Fabius, o novo presidente da COP, pediu aos negociadores que facilitem a convergência. “Precisamos de duas coisas para alcançar um acordo: capacidade de ouvir e transparência.”
A secretária-geral da UNFCCC, a convenção do clima da ONU, Christiana Figueres, afirmou não ter dúvidas sobre um acordo ambicioso em Paris. Porém, pediu aos negociadores que não percam o foco. “Nós finalmente vemos um caminho, com engajamento e ação ousada dos países. Mas a tarefa ainda não está cumprida.”
O príncipe Charles, convidado de honra na sessão de abertura, também reforçou o caráter moral da negociação de clima. “Raramente tantas pessoas depositaram sua confiança nas mãos de tão poucos”, afirmou, destacando que as decisões tomadas em Paris impactarão mais nas futuras gerações.
Além da presença de mais de 150 chefes de estado e de governo, os registros voluntários de metas nacionais para reduzir as emissões de gases de efeito estufa também são responsáveis pelo otimismo em Paris. De acordo com a UNFCCC, 190 países registraram as suas INDCs – sigla para os compromissos nacionais apresentados. Esses países representam 95% das emissões globais.
No entanto, apesar do aspecto positivo, os cálculos sobre as metas apresentadas até agora não atendem ao objetivo principal: limitar o aquecimento global em 2ºC em relação ao período pré-industrial – limite considerado seguro para evitar os piores efeitos das mudanças climáticas.

* Publicado originalmente no site Observatório do Clima.

domingo, 30 de novembro de 2014

COP 20: ‘É hora de agir’




COP20 COP 20: É hora de agir
Foto: Observatório do Clima

Que se pode esperar da reunião a ser promovida pela ONU em Lima, no Peru, de representantes de quase 200 países, do próximo dia 10 ao dia 12, para discutir um acordo “vinculante”, no âmbito da Convenção do Clima, em que todos se comprometam a reduzir emissões de poluentes que aumentam a temperatura do planeta? Até aqui, dizem os promotores que pretendem chegar a um “rascunho” do acordo com metas obrigatórias, a ser assinado até o final do ano que vem, em Paris, e que vigore a partir de 2020. Mas, apesar das datas distantes, há certo ceticismo quanto à possibilidade de acordo mesmo para um rascunho, tantas são as divergências entre países industrializados, de um lado, e “emergentes” e “subdesenvolvidos”, do outro, quanto à definição das responsabilidades de cada um na redução (hoje, 1 bilhão de pessoas mais prósperas emitem metade dos poluentes no mundo; 3 bilhões na faixa intermediária, 45%; e 3 bilhões – metade sem energia elétrica – emitem 5%).
Os relatórios do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) são categóricos: é preciso reduzir até 2050 as emissões em 40% a 70% do que são hoje para impedir que a temperatura do planeta suba mais que 2 graus Celsius (já subiu 0,85% em relação ao século 19); e chegar a zero nas emissões até o fim deste século. O último relatório, de 5 mil páginas, foi escrito por 800 cientistas, que reviram os estudos de mais de 30 mil no mundo todo. Por isso o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, é categórico. “A ciência já falou. Não há ambiguidade. É hora de agir”, disse ele na última reunião do IPCC, em Copenhague.
E as tarefas não são fáceis. Em 2030 é preciso emitir 15% menos do que em 2010. É preciso trabalhar imediatamente no reflorestamento para que as áreas recuperadas ajudem na redução de temperaturas; avançar com a eficiência energética, que pode ajudar a reduzir a quantidade de poluentes emitidos na queima de combustíveis fósseis (carvão, óleo, gás) entre 3 bilhões e 7 bilhões de toneladas anuais de dióxido de carbono equivalente. Mas um dos avanços que também se conseguiria com isso seria reduzir os 7 milhões de mortes anuais por causa da poluição do ar (estudo da Organização Mundial de Saúde) na Índia, no Brasil, na China, no México e nos Estados Unidos – além da geração de 7 milhões de empregos nas áreas de energias renováveis. Tudo isso feito, as emissões anuais, que estarão em 47 gigatoneladas de CO2 em 2025, chegariam a 2050 com 22 gigatoneladas (55% menos que em 2012). Se nada for feito, poderemos chegar a 87 gigatoneladas em 2050.
Mas para avançar, calcula sir Nicholas Stern, estudioso respeitado, é preciso investir nos próximas anos nada menos que US$ 90 trilhões (quase 40 vezes o PIB brasileiro). E, pensam os cientistas, eliminar os subsídios ao consumo de combustíveis fósseis, hoje na casa dos US$ 600 bilhões por ano. E seguir nos caminhos de 2012, quando foram investidos cerca de US$ 360 bilhões em programas de eficiência energética, além de US$ 244 bilhões em energias renováveis.
Há quem veja como sinal para otimismo o fato de Estados Unidos e China (que, juntos, emitem 45% do total de poluentes, hoje) haverem firmado acordo pelo qual os norte-americanos se comprometem a reduzir suas emissões entre 26% e 28% até 2025, enquanto os chineses só diminuirão em 20% seu consumo de combustíveis fósseis a partir de 2030. Os mais céticos ironizam as datas. E François Hollande, presidente da França, pede mais pressa, porque um fracasso no acordo global “pode levar à guerra” e à “catástrofe” (Business and Financial News, 7/11). Angela Merkel, a chanceler alemã, pede à Austrália que reveja sua posição contra o acordo: os desastres do clima “não se limitarão a algumas ilhas do Pacífico, atingirão todos os países” (17/11).
Por essas e outras, diz um dos relatórios da ONU (AP, 19/11) que o mundo ainda não está no caminho de evitar os perigos gerados pelas ações humanas; seria preciso baixar as emissões para 42 bilhões de toneladas métricas de CO2 em 2030 – quando as projeções de hoje são para 15 bilhões a 19 bilhões de toneladas acima disso.
Há países já francamente assustados. O Nepal, por exemplo, mostra que a cobertura de gelo em suas montanhas se reduziu em 1.266 quilômetros quadrados em duas décadas – e o abastecimento de água de milhões de pessoas depende dela. Botswana demonstra que secas e inundações estão arrasando o país . O Banco Mundial manifesta preocupação com o que está acontecendo na Groenlândia e na Antártida. Se as temperaturas continuarem a subir, afirma (23/11), o nível dos oceanos poderá elevar-se em até 2,3 metros nos próximos séculos. Colheitas de soja no Brasil poderão baixar 70%; de trigo, 50%. O oeste dos Estados Unidos enfrenta uma sucessão de nevascas (dez pessoas morreram na última). A área dos vinhos na França está sofrendo com calor inédito e tempestades de granizo (Estado, 16/11). Lembra o Peru que em 30 anos os Andes perderam pelo menos 30% da cobertura de gelo.
Não estranha. De janeiro a outubro deste ano a temperatura média global esteve em 14,78 graus Celsius, a mais alta desde 1880, segundo a Agência de Administração Oceânica e da Atmosfera (NOAA), dos EUA. Ou 0,68 grau acima da média do século 20; recorde em cinco dos últimos seis meses.
Dinheiro resolveria, como o do Green Climate Fund, com o qual se espera reunir US$ 100 bilhões anuais para ajudar os países mais pobres e vulneráveis? Mesmo que seja, até agora só reuniu US$ 5 bilhões.
No Brasil, continuamos mergulhados em polêmica. Diz o Observatório do Clima (Estado, 25/11) que em 2013 aumentaram nossas emissões (1,57 bilhão de toneladas de CO2, mais 7,8%); diz o Ministério do Meio Ambiente que a metodologia oficial difere da que é usada nessa medição. Mas é tudo muito preocupante com os números sobre a perda de florestas – que está influenciando no clima, nas chuvas, no abastecimento.Washington Novaes é jornalista.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Mudanças climáticas: escutem o homem ou assumam o prejuízo!




shutterstock planetaterra Mudanças climáticas: escutem o homem ou assumam o prejuízo!
A matança generalizada na Amazônia apenas – sem contar com a promovida na Mata Atlântica, Pantanal e Cerrado – é o maior extermínio em massa por meio de ação antrópica da história do planeta. Foto: http://www.shutterstock.com/

A imprensa parece cada vez mais alimentar sua bipolaridade e idiossincrasias. Quando o assunto envolve ciência de um lado e interesses econômicos de outro, o surto psicótico é geral. Sempre surgem os argumentos sobre a necessidade de fornecer panoramas completos no noticiário, da pluralidade e outros contos da carochinha que só servem para iludir quem não é do meio. O bloco do ‘engana público’ sai porta afora, sem pudores, a cumprir os desejos de suas anomalias.
O dia 30 de outubro de 2014 ficará na história da imprensa nacional, se é que ela se apercebeu disto. Repórteres especializados, generalistas, editores agitados, blogueiros de meia cura, a mídia engajada, a de ar solene, a displicente, a pseudoengajada e toda a fauna existente escutou por duas horas um dos mais brilhantes cientistas brasileiros, Antonio Donato Nobre,  e integrante do Centro de Ciência do Sistema Terrestre, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) lançar o relatório “O Futuro Climático da Amazônia” numa linguagem para leigos, para o cidadão mediano conseguir compreender o desastre do desmatamento.
E mesmo – literalmente – desenhando, como está fazendo nas redes sociais com o projeto Árvore, Ser Tecnológico, choveram dúvidas no deserto da ignorância. Logo Nobre se apercebeu de algo, o jornalista brasileiro não lê o material que tem em mãos, não se prepara para questionar. No entanto o estrangeiro, além de se qualificar para a entrevista sua abordagem tem colocações muito mais pertinentes e contextualizadas. Desculpas tupiniquins ?! Aos montes e sempre as mesmas, por mais absurdas e antiprofissionais que possam parecer: “não tive tempo”, “assunto muito complexo”, “prefiro não ter uma visão preconcebida” entre outras barbáries.
Homens e bois
Se na bipolaridade midiática tem um componente extremamente ativo, esse é a hipocrisia. Tratar o maior biocídio – no sentido lato da palavra, eliminação da vida – sem o devido preparo deixou de ser temerário para se tornar criminoso, nivelado a cumplicidade. A matança generalizada na Amazônia apenas – sem contar com a promovida na Mata Atlântica, pantanal e cerrado – é o maior extermínio em massa por meio de ação  antrópica da história do planeta. Em 40 anos são mais de 42 bilhões de árvores e 50% dos biomas que compõem a floresta sob a ação do fogo, da motosserra, da ganância,  da negligência e cumplicidade oficial.  E a mídia dá de ombros, por pura ignorância, ou por comprometimentos econômicos camuflados sob “condutas editoriais”.
A seca do sudeste, região  tende a se tornar um deserto, tem evidências científicas de estar intimamente relacionada a somatória do desmatamento da Amazônia, da Mata Atlântica, de anomalias oceânicas no Atlântico Sul e queimadas – uma prática cada vez mais frequente e impune em todos os cantos do país. Soma-se a isso um Código Florestal feito sob demanda do agropecuarista e um governo federal comprometido com sua perpetuação no poder, a qualquer custo. O resultado é destruição em larga escala, não só do patrimônio público, mas principalmente da vida.
O interessante desta mistura fétida e que comprova as observações do cientista, é ter sido a imprensa estrangeira a dar os primeiros sinais do grau de comprometimento econômico-político na destruição da floresta. As primeiras a verem o problema foram a BBC e o El País. Em 23 de setembro, a BBC manchetava; “Brasil não assina acordo mundial para reduzir desmatamento”. No dia 14 de outubro, o El País: “Grandes proprietários, a causa do desflorestamento na Amazônia”.
Uma semana depois do anúncio do relatório de Nobre, novamente a imprensa nacional noticiou o caso com a versão governista, sem qualquer contextualização. Para piorar, o Brasil dos commodities, da imprensa repleta do fervor ‘agroufanista’ (neologismo para definir tão intensa satisfação) e do país com o maior rebanho para abate do mundo, destacou em suas editorias de economia que o Pará comemorava ter alcançado a marca de 21 milhões de cabeças de gado, o terceiro entre os gigantescos rebanhos brasileiros.
Com isso, o Estado do Pará chegava ao posto de maior rebanho dentro da Amazônia Legal.  Embora a mídia tenha se esquecido de dizer que a população paraense é de 8 milhões de pessoas. Ou seja, se tem 2,6 vacas e bois para cada habitante. E entre 1988 até 2013, o Pará foi o Estado amazônico que liderou os desmatamentos e as queimadas, posto que ainda não perdeu. Isso retrata bem a distribuição e o uso da terra.
Fonte suspeita
Neste ponto do artigo, o melhor é deixar o leitor com os comentários do cientista Antonio Donato Nobre sobre a postura da imprensa brasileira quanto ao desmatamento e o maior biocídio provocada pelo homem na história do planeta. Pois derruba-se a floresta, matam os animais silvestres e abatem milhões de cabeças de gado por ano. Um ciclo vicioso pautado na morte e no extermínio, e – principalmente – no lucro rápido e da posse das terras da União.
Segue a entrevista na integra com o pesquisador, um desabafo que revela a comportamento da imprensa mesmo diante de um quadro alarmante em todos os sentidos.
E quanto a imprensa, Nobre?
“Existe uma indústria do embaralhamento cognitivo e a mídia cai nela direto. Entre 100 cientistas tem menos de 3 com alguma dúvida sobre o aquecimento global, gente sem nenhum expressão, sem qualquer trabalho, sem credencial ou publicação e que acabam tendo mais de 50% do espaço da imprensa. E muitos deles são financiados por interesses escusos.
Mas tem precedentes?
Antonio Donato Nobre – Esse é um processo que já aconteceu na indústria do tabaco, por 50 anos essa indústria fez esse embaralhamento cognitivo, e dos anos 90 para cá a industria do carvão, do petróleo e no nosso caso da desmatamento faz a mesma coisa. O que é triste disto tudo é que a questão do tabaco já se resolveu, em diversos países já se percebeu que isso não afeta só a saúde como a economia. Esse nível de intolerância com algo que já foi demonstrado pela ciência sendo danoso deveria ser adotado em relação ao desmatamento, a queimada e a fuligem tem que ser parado hoje, não há mais tempo.
A mídia está na zona de conforto ou participa disto?
A.D.N. – Uma coisa é certa: não dá mais para ficar alimentando esse embaralhamento cognitivo, não tem mais tempo, é preciso dizer e prestar atenção na verdade. Isso eu digo para a imprensa olhos nos olhos, chega disto! E foi o motivo que mudei a linguagem do relatório, agora é para o cidadão, isso vai impactar inclusive a imprensa, num curto circuito. Se a imprensa está participando deste jogo cognitivo, para que eu vou entrar neste jogo ? Se gasta uma energia enorme e sem resultados.
Como você notou isso ?
A.D.N. – Eu tenho evidências, mostro a imagem de satélite, vários dados e estudos e vem um sujeito e diz “eu não acredito em nada disto” e a imprensa dá uma quilometragem imensa para isso. O grande exemplo é o Jô Soares, recebe o cara que nunca publicou um só trabalho para comentar o assunto e quem é sério, que trabalha e pesquisa isso a vida inteira, não consegue espaço. E depois temos que ficar explicando por três meses para a imprensa as mesmas coisas, na tentativa de desdizer o que o fulano disse  no programa.  Poxa, você vai na internet, pesquisa o cara e vê que ele tem ligações com pessoas e empresas que tem interesse no desmatamento, é ligado às indústrias poluentes que estão presentes no Brasil. Assim fica muito difícil, muito”.
[Depois desta entrevista, concedida no dia 07 de novembro, o cientista foi obrigado a tirar alguns dias de descanso tal seu desgaste, principalmente provocado pela imprensa, que o assediava permanentemente com questionamentos cuja as respostas estavam todas no relatório. Em tempo, Nobre já passou por quatro cirurgias no coração, teve um AVC, malária e entre outras doenças tropicais. Em apenas uma hora, mais de 10 veículos de comunicação lhe contataram via telefone e ele recebeu ainda duas equipes de reportagem.]
Júlio Ottoboni é jornalista diploma e pós graduado em jornalismo científico.
** Publicado originalmente no site Observatório de Imprensa.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Brasil perde oportunidade para mostrar engajamento real com futuras ações climáticas




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Na Cúpula do Clima, a presidente Dilma Rousseff reafirmou o que o país fez e o que está fazendo, mas não falou nada sobre o futuro da luta contra as mudanças climáticas no Brasil
O Observatório do Clima lamenta que a presidente da República, Dilma Rousseff, tenha ido à Cúpula do Clima, em Nova York, para se omitir sobre os esforços futuros do Brasil para reduzir suas emissões de gases de efeito estufa (GEE) a partir de 2020. Em seu discurso, a presidente não demonstrou que o Brasil vai se comprometer com metas ambiciosas de redução no futuro.
A realização desse evento de alto nível, num momento tão importante no processo de negociação do novo acordo climático, nos dava a esperança de que os anúncios feitos pelos líderes globais demonstrassem o nível de compromisso desses países com o futuro da luta contra as mudanças do clima. Infelizmente, a presidente Dilma repetiu discursos antigos, dizendo o que o Brasil já fez – importante redução de emissões de desmatamento na Amazônia ao longo de 10 anos – e o que está fazendo atualmente, perdendo uma excelente oportunidade para o Brasil desempenhar efetivamente um papel de liderança nas negociações internacionais em clima.
Infelizmente, o cenário brasileiro não é tão otimista quanto a fala de Dilma. Depois de uma década de queda consistente no desmatamento da Amazônia – o que resultou numa diminuição considerável das emissões nacionais neste período -, a devastação da floresta cresceu 29% entre 2012 e 2013, e a tendência é que esse crescimento persista entre 2013 e 2014. Além disso, as emissões em setores estratégicos, como energia, transportes, processos industriais, agropecuária e resíduos sólidos, estão crescendo consistentemente nos últimos anos, o que comprometerá esforços futuros de redução das emissões no Brasil.
Além disso, o governo federal reduziu o investimento em fontes renováveis de energia; hoje, 70% dos recursos investidos em energia no país são destinados para combustíveis fósseis. Na corrida pelo desenvolvimento de tecnologias de energia limpa, estamos ficando atrás da Europa, dos Estados Unidos e da China.
A realidade é essa: as emissões estão crescendo em todos os setores, fazendo do Brasil o 7º maior emissor mundial. Segundo estudo publicado recentemente na IOP Science, o Brasil já é o 4º maior responsável pelo aquecimento global, atrás apenas de Estados Unidos, China e Rússia. Apesar de dizer que para o Brasil o novo acordo climático precisa ser universal, ambicioso e legalmente vinculante, Dilma Rousseff sai da Cúpula olhando para o retrovisor e perdendo a oportunidade de olhar estrategicamente para a realidade e para o futuro que se avizinha. E, ao final, ainda deixou, em seu discurso, alguma dúvida no ar: enquanto defende que o Brasil é um caso de sucesso na busca pelo desenvolvimento aliado à ação climática, sua fala cria, ao final, a sensação de que, ao priorizar o desenvolvimento e melhoria de qualidade de vida das pessoas, esta prioridade seria superior à ação climática. Está mais do que claro que o maior risco ao desenvolvimento é a falta de ação. E isto é um desafio de todos, em especial dos grandes emissores de gases de efeito estufa, como o Brasil Definitivamente, a Presidente Dilma não atendeu à nossa expectativa. Publicado originalmente no site Observatório do Clima.