quarta-feira, 16 de abril de 2014

Comunidade cria pousada flutuante com foco em turismo ecológico




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Pousada flutuante atrai turistas de todo o mundo. Foto: Edu Coelho

Uma das principais apostas das comunidades da Reserva Mamirauá para garantia de renda às gerações futuras é o turismo ecológico de base comunitária. A exemplo do que fazem em outras atividades, o turismo é desenvolvido tendo como pilar a questão da sustentabilidade e tem como carro chefe a Pousada Uacari, um empreendimento flutuante administrado pelas próprias comunidades com a ajuda do Instituto Mamirauá. O local é frequentado, principalmente, por estrangeiros.
A Pousada Uacari dá retorno financeiro aos ribeirinhos e às comunidades. “Com mais de 15 anos de existência, ela é um laboratório para atividades de ecoturismo e uma fonte de renda para as comunidades”, explica o gestor operacional da pousada e integrante do Programa Turístico de Base Comunitária do Instituto Mamirauá, Gustavo Pereira Pinto.
Segundo ele, dois fatores fazem dela uma experiência inovadora: “O primeiro é a conservação do meio ambiente; um laboratório para atrair turistas, mas sem prejudicar o meio ambiente. Em segundo lugar está a cogestão pelos próprios comunitários [cerca de 40 pessoas]. Eles decidem o que deve ser feito”, ressalta Gustavo.
A preocupação com a sustentabilidade do negócio está em todo canto da pousada flutuante. A comida é obtida nas roças plantadas pelas próprias comunidades. O aquecimento da água e a iluminação são à base de energia solar. A água das torneiras é retirada do próprio rio, e o esgoto recebe tratamento antes de ser despejado.
Cada bangalô possui duas placas de energia solar. Uma para aquecimento de água e outra para luz elétrica. Todos têm também caixa de dejetos, que filtram os resíduos antes de jogá-los no rio. Para melhor limpeza, são usados dois tambores de plástico com capacidade para 200 litros cada. Em um deles são depositadas as fezes e, no outro, cheio de pedaços de tijolos, é feita a filtragem anterior ao despejo.
“A água fica 90% limpa antes de ser despejada no rio. De tempos em tempos, os tambores são limpos, após a parte sólida ser removida e colocada em um buraco sob folhas. Enterrada, vira adubo”, explica o supervisor de lazer e manutenção, Antônio Coelho Rodrigues, 35 anos.
Maioria estrangeira
Mais de 70% do público que visita a pousada vêm do exterior. Em geral, casais com idade entre 30 e 50 anos, vindos dos Estados Unidos (EUA), do Reino Unido, da Alemanha, França e Holanda. “A Amazônia é um fetiche para o mundo todo e isso favorece o negócio dos ribeirinhos”, observa Gustavo. “Outro motivo que desperta interesse turístico é o fato de ela [a Pousada Uacari] já ser referência em guias de turismo e em revistas estrangeiras, principalmente dos EUA e da Inglaterra”, acrescenta.
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Trilhas submersas possibilitam deslizar nas pequenas canoas a remo. Foto: Daniel De Granville | Photo in Natura

Vindo de Minnesota (EUA), o empresário Randy Olson, 49 anos, relata que estava buscando um “tipo diferente” de turismo. “Sou avesso a lugares como Cancún (México), muito movimentados. Prefiro fazer turismo em localidades menores que proporcionem algum tipo de aprendizado”, completa à Agência Brasil.
“Para muitos norte-americanos, a Amazônia é um mistério. Imaginava que seria algo mais rústico e acabei surpreendido com a boa qualidade da pousada. A comida é excelente e é muito interessante que tudo seja tocado pelos nativos. Fico na torcida pelo sucesso do empreendimento e vou indicá-lo a outras pessoas”, garante.
Antes de chegar ao Brasil, Olson estava preocupado com o fato de desconhecer a estrutura aeroportuária de Tefé e as condições de transporte até a pousada.
Preocupações similares às de Olson são também da equipe de ribeirinhos que cuidam da pousada. Segundo a gerente Ednelza Martins, 42 anos, a notícia de fechamento do aeroporto de Tefé – em 2005 e 2006, devido à presença de pássaros nas pistas – acabou resultando na desistência de muitos turistas em visitar o local. “Isso causou reflexos negativos no negócio, porque eles ficaram inseguros para uma viagem de três dias de barco, a partir de Manaus. Muitos desmarcaram a vinda”, lamenta.
Em 2004, a pousada havia praticamente dobrado a renda obtida no ano anterior, chegando a R$ 185 mil. Com o boato de fechamento do aeroporto, a renda caiu para R$ 129 mil em 2005, e para R$ 104 mil em 2006. “Para a gente isso foi um problema, porque as comunidades obtêm ganhos diretos com trabalhos e com a venda de produtos para a pousada e para os turistas”, conta a gerente.
Entre 1998 e 2013, foram contabilizados praticamente R$ 1,9 milhão em benefícios diretos para as comunidades envolvidas (valores não corrigidos). O valor recorde foi obtido em 2013: R$ 233,6 mil.
“Os resultados mostram o estabelecimento de alternativa econômica, com benefícios individuais e coletivos; a diminuição do fluxo sazonal de caixa nos períodos de seca e de cheia [alta temporada]; a formação de recursos para proteção e vigilância da região, em especial para evitar pesca predatória, além de maior qualificação profissional e fortalecimento da organização comunitária”, disse Gustavo Pereira Pinto.
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De repente, numa curva de um canal a pousada surge, impressionante, como uma descoberta no meio da Várzea. Foto: JP Borges Pedro

Lucro e projetos
Ele cita como desafios para o futuro, a preservação das atividades econômicas tradicionais, de forma a evitar que os ribeirinhos as abandone; o fortalecimento da organização comunitária; a renovação da infraestrutura; a manutenção e melhoria da qualidade dos produtos; a formação de multiplicadores; o ensino do inglês aos moradores e o aumento da taxa de ocupação da pousada.
Há quatro anos, a pousada passou a dividir parte do lucro com a comunidade por meio de projetos. “Cada comunidade faz um projeto que beneficie ela como um todo. No final do ano, a gente faz as contas e dividimos o lucro”, disse Ednelza. A forma de divisão é estabelecida pelos presidentes das comunidades, segundo critérios de funcionamento. “Quem desobedece normas perde ponto e recebe menos.”
Na comunidade de Ednelza (Vila Alencar), por exemplo, o dinheiro obtido com a pousada resultou na construção de um centro e de uma cozinha comunitária e na reforma do barco da comunidade. Além de ser usado para eventos, assembleias e festas, o centro comunitário é usado pela escola, quando as salas estão cheias.
Atividades socioambientais
Atualmente, a Pousada Uacari tem capacidade para hospedar até 24 pessoas, divididas em cinco bangalôs com dez quartos. O objetivo é receber mil turistas a cada ano, número que ainda não foi atingindo. “Chegamos a pouco mais de 800”, disse Gustavo.
Entre as atividades promovidas pela equipe de 40 pessoas, há passeio por trilhas repletas de animais (na época da cheia é possível percorrer de canoa as copas das árvores, o que torna o passeio ainda mais bonito); visita ao Lago Mamirauá, onde há uma base para estudo dos botos da região; pesca tradicional de piranhas; e visitas a comunidades ribeirinhas – em especial, a quatro das oito mais envolvidas com a pousada: Vila de São José, Caburini, Boca do Mamirauá e Vila Alencar.
* Publicado originalmente no site Agência Brasil.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Rapidinhas Sustentáveis: coragem de Snowden premiada e Fred e a (falta de) solidariedade da classe

Coragem de Snowden premiada

Mais uma vez palmas para Edward Snowden.  A coragem das denúncias e a coragem de sua revelação, acabam de ser reconhecidas pelo mais importante prêmio do jornalismo mundial, na principal categoria do Pullitzer.
Resultado que coloca o tema privacidade e segurança no centro dos debates globais.  Mais uma vez, palmas para Snowden, Gleen Greenwald e todos os jornalistas que participaram do trabalho e que por questões de segurança não puderam ter suas identidades reveladas.


Fred tem razão

O jogador Fred está coberto de razão ao reclamar solidariedade de sua categoria em não apoiá-lo na luta pela paz nos estádios e contra a violência das ditas "torcidas organizadas".
O tema é importante e deveria estar sendo abordado e debatido por quem gosta e tem saudades dos velhos tempos de tranquilidade e folclore em nossos estádios.
Poder Público, mídia, clubes, torcedores, cartolas e jogadores, poderiam aproveitar a coragem de Fred para promover um amplo debate nacional e daí tirarmos os caminhos para combater a violência nos
campos.
Infelizmente, não deram o eco e os holofotes necessários para iluminar com a devida dimensão o assunto e o que vamos continuar a ver é mais violência, mais racismo, mais intolerância.

Abraços sustentáveis

Odilon de Barros

 

Aquecimento global: passou a hora de agir




NovaYork 300x199 Aquecimento global: passou a hora de agir
Pessoas caminham no South Street Seaport, área de Manhattan, em Nova York, que foi alagada pelo furacão Katrina. O novo relatório do IPCC sugere um futuro sombrio para o mundo. Foto: Spencer Platt / Getty Images North America / AFP
Novos estudos reforçam as evidências sobre a decisiva contribuição humana para o aumento da temperatura média do planeta.
Os resultados divulgados na semana passada pelo IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, em tradução de sua sigla em inglês) reforçaram o que já era de conhecimento até, plagiando Mino Carta, do mundo mineral. O relatório mais uma vez ratifica que o ser humano e suas atividades de alto impacto ambiental têm causado mudanças substanciais na dinâmica climática do planeta. A emissão dos chamados gases de efeito estufa continua, desculpe o trocadilho, a todo vapor e os problemas acarretados por esse fenômeno só tendem a piorar dramaticamente o que já está afetando a vida de bilhões de pessoas.
Tudo bem que não é necessário ser cientista para perceber que alguma coisa muito errada já vinha acontecendo com o nosso clima e não é de hoje. Os fenômenos climáticos extremos estão cada vez mais presentes em nosso cotidiano. Mas nada melhor do que estudiosos gabaritados para respaldar com informações e pesquisas exaustivas a constatação de que o aquecimento global é sim uma realidade nua e crua. Gostem ou não gostem nossas autoridades públicas, dirigentes de grandes corporações, especuladores e representantes do mercado financeiro, todos tão zelosos por seus interesses mais particulares que coletivos, será preciso agir para salvar os dedos mesmo que seja necessário entregar alguns poucos anéis.
De qualquer forma, o novo relatório do IPCC apontou, entre suas principais conclusões, que não há mais como duvidar do aquecimento global e da ação humana para esse fenômeno. E, a partir dessa constatação, para que não ultrapassemos dois graus Celsius no aumento da temperatura média na Terra, seria necessário interromper imediatamente a emissão de gases de efeito estufa, produzidos principalmente pela queima de combustíveis fósseis (petróleo, carvão, gás natural, etc.).
O lado mais pessimista do texto conclui ser o aquecimento do planeta algo irreversível. Seria necessária, para evitar piores resultados no futuro próximo, uma imediata e inadiável ação em escala global. Certo também, como apontado pelo documento, é que neste exato momento não estamos preparados para enfrentar essas mudanças.
Segurança Alimentar
O relatório reserva um espaço importante para abordar a produção de alimentos. No estudo anterior, divulgado em 2007, o IPCC levantava a hipótese de que o aumento da temperatura poderia beneficiar a agricultura de regiões mais frias, o que talvez compensasse as perdas em outras áreas mais quentes. Neste novo texto, essa possibilidade ficou descartada, pois os impactos negativos que já vem sendo registrados em culturas fundamentais, como arroz, milho e trigo, não serão capazes de equilibrar a oferta de alimentos. Aliás, entre os maiores perigos destacados pelo IPCC está justamente o aumento no preço dos principais gêneros alimentícios, um dos mais preocupantes. A perda de áreas agricultáveis devido ao calor excessivo deve aumentar as causas de instabilidade que já afetam um grande número de países. A fome e as imigrações forçadas tendem a se multiplicar e trazer ainda mais sofrimento para milhões de pessoas, principalmente as que vivem nas nações mais pobres e desprovidas de uma boa infraestrutura para enfrentar os problemas criados pelo aquecimento global.
Por mais fatalista que seja o novo relatório das mudanças climáticas, não nos resta outra atitude a não ser enfrenta-las seriamente. Os fatos estão aí à disposição de todos. Se já era difícil entender a letargia de nossos líderes mesmo com tantas evidências, agora diante dessas novas comprovações resta perguntar: o que mais será preciso para começar a agir?
* Reinaldo Canto é jornalista especializado em Sustentabilidade e Consumo Consciente e pós-graduado em Inteligência Empresarial e Gestão do Conhecimento. Passou pelas principais emissoras de televisão e rádio do País. Foi diretor de comunicação do Greenpeace Brasil, coordenador de comunicação do Instituto Akatu pelo Consumo Consciente e colaborador do Instituto Ethos. Atualmente é colaborador e parceiro da Envolverde, professor em Gestão Ambiental na FAPPES e palestrante e consultor na área ambiental.
** Publicado originalmente no site Carta Capital.