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sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Consumindo o que não poderemos repor




planeta esgotamento Consumindo o que não poderemos repor
Segundo a organização internacional, Global Footprint Network, em 19 de agosto de 2014 a humanidade esgotou os recursos naturais do planeta disponíveis para o ano. Foto: Creative Commons

Já não soam hoje como “conversas de ecoterroristas” ou de “ambientalistas radicais” textos em que é discutida a chamada “crise de recursos naturais” ou o consumo desregrado de bens provindos do meio físico. É difícil que não se reconheça a gravidade da situação. Muito menos frequente, entretanto, é a discussão sobre o caminho da exaustão de certos recursos hoje usados em atividades vitais para o ser humano. Mas nos últimos anos algumas vozes conceituadas – como a do professor Ricardo Abramovay, da Faculdade de Economia da USP – alertam para a caminhada rumo à exaustão de certos bens e a gravidade do problema. Eles têm mostrado que hoje o consumo de vários bens físicos já é da ordem de 70 bilhões de toneladas por ano, ou quase 10 toneladas anuais por ser humano – e esses bens não têm como ser repostos, ainda mais que a população cresce.
É o caso, por exemplo, de certos minérios, areias, solos e outros materiais que não terão como ser repostos. O próprio relatório de 2014 do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente chama a atenção para esse uso insustentável de 40 bilhões de toneladas anuais só de areia e cascalho, ou seja, quase 6 toneladas anuais por pessoa. E o Brasil, a China, a Índia e a Turquia estão entre os países mais responsáveis nessa área, pois se incluem entre os principais produtores de cimento no mundo – e por esse caminho são também grandes mineradores de areia, já que cerca de 80% desse material vai para obras (O Globo, 4/1, texto de Flávia Milhorance). Da mesma forma, na construção de rodovias, que exige 30 mil toneladas de areia por quilômetro (uma casa precisa de 20 toneladas).
As consequências disso estão em trechos devastados de litoral, já que as areias de desertos não são consideradas adequadas para essa finalidade. Há também no Brasil áreas como a bacia do Rio Guandu, no Estado do Rio de Janeiro, onde já se encontram crateras resultantes da extração.
Texto veiculado pelo professor Luiz Fernando Badejo Carvalho (luiz_badejo@yahoo.com.br), mestre em Tecnologia e Administração de Empresas, traz também informações importantes sobre essas áreas entre nós, principalmente na construção. Ele lembra que no País existem quase 7 mil olarias, com forte uso desses insumos – renováveis e não renováveis -, metade pelo menos em fornos a lenha (principalmente no Nordeste). E a média de calorias consumidas para gerar um milheiro de tijolos é de 150 megajoules – ou de 15,5 quilos de madeira incinerados para cada milheiro de tijolos. Como há poucos anos o IBGE estimou uma produção de 63 bilhões de peças pelas olarias – das quais 75% como blocos e tijolos -, a cada ano seriam 47,25 bilhões de peças. Só nos fornos a lenha o uso seria de 368,5 mil toneladas de biomassa por ano – e aí o consumo não seria apenas de materiais que não podem ser repostos, mas também de biomassa de florestas, com 6,7 milhões de árvores “para atender ao suprimento de lenha só para a produção de metade das olarias em funcionamento”.
Diz o trabalho que a construção vertical no Estado de São Paulo, já há alguns anos, absorvia 605 mil metros cúbicos de madeira, 80% descartados após o uso em formas para concreto, andaimes e escoramentos. O volume de madeiras descartadas ou utilizadas apenas uma vez chegaria a 3 milhões de árvores a cada ano, para confecção de formas para concreto, andaimes e escoramentos. No País todo 15,4 milhões anuais de árvores – que, somadas a mais 6 milhões incineradas em olarias, levariam ao total de 392 quilômetros quadrados de florestas derrubadas por ano. E tudo isso ainda se soma ao uso associado com materiais físicos que não podem ser repostos e levam a um impasse civilizatório, como dizem alguns autores.
Lembra o autor do trabalho que há alternativas disponíveis para uso mais racional de recursos, a redução do descarte. Vários caminhos. Mas são veredas muito pouco trilhadas até aqui. Um número citado está nos resíduos sólidos domésticos levados para aterros. Só nas 260 maiores cidades brasileiras, entre 1999 e 2010, eles teriam sido suficientes, reciclados, para a construção de 10 milhões de residências com 100 metros quadrados cada uma.
No final de 2014, a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro aprovou em primeira discussão projeto de lei que prevê a isenção do pagamento de ICMS para produtos derivados da reciclagem de resíduos na construção civil. Mas é preciso acrescentar estímulos à substituição de produtos que não podem ser repostos, principalmente areia, cerâmica, minérios e outros.
Outro texto ainda, de Catarina Anderaos (secovi.com.br) menciona estudo com profissionais que atuam em incorporadoras imobiliárias no País. Para 82% deles, “o custo adicional da obra é a principal barreira para que a construção sustentável decole”. E esse custo variaria entre 1,6% e 8,6% em incorporadoras experientes, entre 3,5% e 17,66% “para as sem experiência”. “Edifícios sustentáveis” poderiam economizar 35% do consumo de água e energia elétrica.
Todos esses estudos mostram que precisamos de avanços urgentes, para reduzir o desperdício e a perda de materiais (renováveis e não renováveis), assim como para a implantação de métodos adequados na construção e em outros setores. É ilusório supor que poderemos, aqui e em outros países, continuar trilhando caminhos insustentáveis ou – pior ainda – que levem à exaustão de recursos físicos em várias áreas. Até mesmo porque, se não o fizermos por nossa conta, a isso seremos obrigados pelos países mais ricos, que hoje consomem 80% dos recursos naturais – e nossas balanças comerciais estão fortemente baseadas em produtos primários.
Tudo isso também mostra quanta inovação ainda nos falta nos currículos escolares em todos os níveis. Não apenas para qualificar profissionalmente os alunos. Mas também para promover uma revolução cultural e de vida. O Estado de S. Paulo.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

A comunicação, o consumo e a sustentabilidade

 

comunicacaomundo A comunicação, o consumo e a sustentabilidade
Foto: shutterstock
Sempre vejo as imagens que retratam sustentabilidade serem traduzidas por diversos tons de verde. Uma verdadeira injustiça com a natureza, que é multicolorida. Este raso retrato de sustentabilidade acabou tornando o tema “ecochato”, nichado, distante e pouco maduro.
Tudo comunica alguma coisa. Desde o corte do cabelo até o sapato que usamos, a faculdade que escolhemos, o destino das férias, a opção do transporte que fazemos. Tudo tem um significado e colabora com a formação da nossa imagem. A cultura de uma sociedade depende de variadas formas de comunicação para sobreviver, para se manter, para transpor suas raízes através das gerações. Nossa cultura de consumo, característica da nossa sociedade, é produto das várias formas de comunicação que se estabeleceram desde a revolução industrial, que, ao mesmo tempo que fragilizou as relações humanas, foi capaz de criar marcas ultravaliosas.
Na contramão de tudo isso, estamos sofrendo uma cobrança cada vez maior para sermos “mais sustentáveis”. Ora, se sustentabilidade vem do verbo sustentar, a fugacidade das relações humanas, baseadas na lógica do consumo, retratada por Bauman, não parece ser capaz de conviver com um conceito deste. Um consumo sustentável significa que você deve beber água sem secar a fonte, reduzir, reutilizar e reciclar seu lixo, comer o peixe sem que ele se extinga. Também significa manter uma boa saúde, seja por alimentação ou por higiene, significa consciência de compra, saber para que empresa você está dando seu voto de consumo – se esta empresa escraviza pessoas ou extingue espécies de fauna ou flora, ela merece seu voto? Significa que nossa necessidade de consumo vai até a responsabilidade de descarte, seja pela quantidade ou pelo destino.
Está faltando às empresas ajudarem os consumidores a entenderem que, todos nós, formamos um sistema único. A comunicação para uma sociedade mais sustentável pode ter um fator educacional fundamental para transformar definitivamente necessidades, desejos, comportamentos de consumo e, porque não, a cultura de uma sociedade.
Comunicar para sustentar. A história de uma nação se sustenta através de comunicação e, portanto, a comunicação é fator chave para a sustentabilidade da vida. Eu acredito que nunca houve um momento tão bom para construir um futuro melhor, até porque não se fala mais em “se” vamos fazer algo, mas sim “como” o faremos. Os produtos e serviços têm a chance de serem ferramentas essenciais para que nossa sociedade seja mais saudável, mais informada, mais responsável, mais inclusiva, mais consciente. A diferença estará no conteúdo de marketing deste produto ou serviço. Mais do que isso, a real diferença estará na escolha que o consumidor faz, todos os dias, para sustentar seu modelo de vida e através dele ter a consciência do poder da mudança que ele pode promover. Seja para que lado for.
* Ligia Camargo é gerente de Sustentabilidade da Unilever. Entre suas principais atribuições está a coordenação de programas institucionais de responsabilidade social e sustentabilidade, além da coordenação de projetos das marcas.
** Publicado originalmente no site Akatu.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Será possível consumir sem alienar-se?




140808 BarCode Será possível consumir sem alienar se?
Novo aplicativo permite desvendar, pelo código de barras, práticas antiéticas que empresas tentam esconder.
Imagine-se entrando em um supermercado para comprar uma garrafa de cerveja. Chegando lá, além de escolher pelo preço ou pelo sabor, você também pode analisar. Rejeita a marca que desrespeita os direitos dos trabalhadores. Evita aquela que faz publicidade machista. Por fim, escolhe a que utiliza ingredientes orgânicos. Na prateleira de cosméticos, pula os que ainda fazem testes em animais. Assusta-se ao perceber que uma das marcas faz parte de multinacional de alimentos. Finalmente, escolhe o creme hidratante da empresa que usa energia renovável.
Essa é a ideia do aplicativo Buycott (um trocadilho de “buy” — comprar, em inglês — com “boycott” — boicote). Criado por Darcy Burner, uma ex-desenvolvedora norte-americana da Microsoft, o programa para celulares ligados à internet baseia-se numa ferramenta do próprio capitalismo: o código de barras… Estimula os usuários escaneá-los, com o próprio telefone. E, ao identificar cada produto, associa seu fabricante a um banco de dados que pode tornar-se cada vez mais completo. Oferece todas as informações disponíveis: desde se o produto utiliza químicos cancerígenos até se a empresa apoia o direito dos transexuais.
O software é participativo. As classificações dos produtos são chamadas de campanhas, e podem ser criadas por qualquer usuário, dentro de algumas categorias. Algumas delas: direitos dos animais, justiça econômica, meio ambiente, comida, direitos humanos, direitos das mulheres. O usuário escolhe participar das campanhas que quiser e, em seguida, pode passar a escolher um produto de acordo com seus princípios pessoais.
No Brasil, ainda é bastante difícil achar produtos que estejam em listas. Isso pode ser rapidamente alterado. Depende apenas de que usuários da internet comecem a registrar produtos e criar campanhas. Isso permitiria diversos tipos de boicote: contra empresas que financiam certos políticos; contra uma indústria que esteja na lista do trabalho escravo; ou alguma marca cujo presidente mostrou-se contra os direitos das mulheres, por exemplo. Para testar, escaneamos o código de barras de dois produtos. O primeiro foi uma câmera Canon. Sobre ela, o aplicativo avisou: “você apoia esta marca por responsabilidade ecológica”, e mostrou que a marca está na lista positiva de “Energia limpa e renovável”. Acessamos seu site e vimos que realmente há uma campanha de reciclagem de toners de suas impressoras, por exemplo.
Já no momento em que fotografamos o código de barras de um cosmético da L’Oreal, o Boycott advertiu: “evite este produto”. Em seguida, explica: a marca faz parte do conglomerado da Nestlé. Por isso, está na lista suja de uma campanha de boicote à multinacional. O movimento adverte que o presidente da empresa, Peter Brabeck-Latmathe, já afirmou que “o acesso à água não é um direito humano”, e sua a indústria rouba a água potável de uma pequena comunidade no Paquistão, deixando seus habitantes passarem sede.
A L’Oreal ainda pertence a outra campanha: a “Long live Palestine, boycott Israel” (“longa vida à Palestina, boicote Israel”). Esta é uma das de mais sucesso nas últimas semanas, como afirma a página de trends do aplicativo — já tem 230 mil seguidores. “A L’Oreal estabeleceu Israel como seu centro comercial no Oriente Médio e aumentou o investimento e atividades manufatureiras”, alerta. Se acreditar que deve haver um boicote econômico a Israel, após o massacre na faixa de Gaza das últimas semanas, o consumidor pode escolher não comprar a marca. Se fizesse isso sozinho, sua ação não seria nem levemente sentida pela marca de cosméticos. Mas, em rede, essa atitude tende a crescrer consideravelmente — e, talvez, pode chegar até a incomodar a gigante Nestlé.
Por séculos, o consumo tem sido uma das bases do processo de alienação capitalista. Ao comprar algo, legitimamos e fortalecemos relações sociais que ignoramos. É como se nossos valores éticos fossem irrelevantes ou impotentes, e devêssemos consumir levando em conta apenas fatores superficiais: preço, aparência, publicidade, suposta “qualidade” do produto. Agora, parece que a tecnologia pode ser utilizada para atitudes distintas. Haverá consciência social suficiente para que elas se disseminem?* Publicado originalmente no site Outras Palavras.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Planeta Blade Runner


Imagine-se com dois filhos pequenos.  Sem pensar no futuro deles você, já cansado e idade avançada, proprietário de uma bela casa, localizada em um bairro chic, não faz manutenção ou reformas e a casa vai se deteriorando.  Sua esposa, preocupada com as crianças, lhe pede para pensar nelas e então, egoísta que é, você dá de ombros ignorando os apelos.

Pergunto: é justo castrar das futuras gerações uma vida ao menos parecida com a que vivemos por aqui, por conta de um consumismo desenfreado e desnecessário, tirando  de pessoas que ainda não chegaram sequer a nascer e que nem mesmo poderão se defender do tamanho estrago que lhes estamos causando?

Somos egoístas e não pensamos nem mesmo neles, filhos, netos, bisnetos.  A continuar nessa toada, não verão belas praias, paisagens paradisíacas, céus de brigadeiro, nem terão o suficiente para comer ou beber.

Cena do filme

Hoje temos 250 pessoas com patrimônio acima de US$ 1 bilhão cada, o que significa o PIB conjunto dos 40 países mais pobres do mundo, onde moram 600 milhões de pessoas.  Mais, 92 mil pessoas acumulam em paraísos fiscais US$ 20 trilhões.  Os números fazem parte de recente artigo do prof. Marcus Eduardo de Oliveira, extraídos do relatório “O Estado do Mundo” (elaborado pelo Worldwatch Institute). 
Ainda segundo o estudo, em 2008 foram vendidos no mundo 68 milhões de veículos, 85 milhões de refrigeradores, 297 milhões de computadores e 1,2 bilhão de telefones celulares. O consumo da humanidade em bens e serviços saiu de US$ 4,9 trilhões, em 1960 (calculado em dólares de 2008); para US$ 23,9 trilhões (1996), chegando em US$ 30 trilhões (2006) e, em US$ 41 trilhões, em 2012.
Mais, o gasto mundial anual em armamentos e equipamentos bélicos se aproxima de US$ 900 bilhões, enquanto apenas US$ 9 bilhões (portanto, 1% do que as grandes potências gastam para matar gente inocente) seriam suficientes para levar água e saneamento básico para toda a população mundial.
Com produtos com vida útil cada vez menor, continuamos esbanjando estupidez e consumindo, sem necessidade, mais e mais.  Com especial grau de sadismo, exterminamos, cotidianamente, espécies de peixes, plantas e animais, matando junto com elas o equilíbrio tão necessário à vida e as pesquisas. 

cena do filme

Sem perceber ou não acreditando que estamos cavando nossas próprias sepulturas, adaptamos com perfeição “Blade Runner” para o mundo atual.  Pobre Planeta, terra de tolos. Não imaginam os imbecis quão inútil é acumular vinte ou trinta trilhões se só temos uma vida para gastar, um Planeta para morar, e que, breve breve, seremos todos iguais.
No avesso do avesso do avesso do avesso, a racionalidade irracional dos humanos talvez explique porque os animais, irracionais por natureza, sejam mais racionais que nós humanos. 
Saudações sustentáveis
Odilon de Barros