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segunda-feira, 25 de julho de 2016

Produzir alimentos ou conservar florestas

O mundo enfrenta um enorme desafio: por um lado, a necessidade imperiosa de produzir alimentos para a crescente população mundial, por outro, a pressão de frear e reverter o desaparecimento das florestas, tão necessárias para a vida humana como cobrir as necessidades de sua dieta.
Desmatamento. Foto: FAO
Desmatamento. Foto: FAO

As florestas têm um papel fundamental no desenvolvimento da agricultura sustentável por vários fatores: ciclos da água, conservação de solos, sequestro de carbono, controle natural de pestes, incidência nos climas locais, e preservação do habitat dos polinizadorese de outras espécies.
Mas a agricultura responde pela maior parte do desmatamento. Nas regiões tropicais ou subtropicais, a agricultura comercial e a de subsistência são responsáveis por 50% e 33%, respectivamente, da conversão de florestas, e os restantes 27% do desmatamento ocorre pelo crescimento urbano, pela expansão da infraestrutura e da mineração.
Para conseguir os dois objetivos, as agências da Organização das Nações Unidas (ONU) encarregadas da alimentação e da agricultura oferecem dados específicos que falam por si mesmos. “A agricultura continua sendo a principal responsável pelo desmatamento e é urgente a necessidade de promover interações mais positivas entre ela e a silvicultura, para construir sistemas agrícolas sustentáveis e melhorar a segurança alimentar”, destacou a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).
Essa foi a principal mensagem do informe O Estado das Florestas do Mundo, apresentado no dia 18 deste mês, na abertura da sessão do Comitê Florestal da FAO (Cofo), que termina hoje. “A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável e o Acordo de Paris sobre mudança climática reconhecem que não podemos pensar a segurança alimentar e a gestão dos recursos naturais separadamente”, pontuou o diretor-geral da FAO, José Graziano da Silva.
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Foto: FAO

“Os dois acordos exigem um enfoque coerente e integrado da sustentabilidade de todos os setores da agricultura e dos sistemas alimentares”, apontou Graziano. “As florestas e a silvicultura têm um papel importante nesse campo. A mensagem do Cofo é clara: não precisa desmatar para produzir mais alimentos”, ressaltou. A agricultura ocupa um lugar importante na retórica sobre as florestas, mas a FAO destaca que estas cumprem muitas funções ecológicas vitais que beneficiam a própria agricultura, já que incentivam a produção de alimentos.
“A segurança alimentar pode ser obtida pela intensificação da agricultura e de outras medidas como proteção social, em lugar da expansão das áreas cultivadas à custa das florestas”, disse Eva Müller, diretora da Divisão de Recursos e Políticas Florestais da FAO. “Precisa-se é de melhor coordenação entre os setores das políticas agrícolas, florestais, de alimentação e de uso da terra, bem como melhor planejamento do uso da terra, marcos legais efetivos e maior participação das comunidades e dos pequenos agricultores”, afirmou.
Para Müller, os “governos deveriam garantir às comunidades locais não somente a posse da terra, como também direitos sobre as florestas. Um agricultor sabe como manejar seus próprios recursos, mas costuma carecer dos instrumentos legais para isso”.
Melhorar a segurança alimentarfrear o desmatamento
O fato é que as florestas bem administradas têm um potencial enorme para promover a segurança alimentar. Além de sua vital contribuição ecológica, diz o informe a FAO. As florestas são um meio de subsistência para as comunidades rurais e uma forma de aliviar a pobreza, ao permitirem a geração de renda mediante a elaboração de produtos florestais e serviços ambientais.
Cerca de 24 bilhões de pessoas usam lenha para cozinhar e deixar a água potável. Além disso, as florestas oferecem proteínas, vitaminas e minerais às comunidades e são uma alternativa em casos de escassez de alimentos.Desde 1990, mais de 20 países conseguiram melhorar a segurança alimentar porque mantiveram ou melhoraram sua cobertura vegetal, demonstrando que não é necessário cortar árvores para produzir alimentos, segundo o informe da FAO.
Os 12 países que aumentaram sua cobertura vegetal são: Argélia, Chile, China, República Dominicana, Gâmbia, Irã, Marrocos, Tailândia, Tunísia, Turquia, Uruguai e Vietnã. Seu êxito se baseou em um conjunto de ferramentas: marcos legais efetivos, garantias na posse da terra, medidas para regular a mudança de uso da terra, incentivos para a silvicultura e a agricultura sustentável, fundos adequados e definições claras sobre papéis e responsabilidades de governos e comunidades locais.
Foto: FAO
Foto: FAO

Casos de sucesso
O informe apresenta sete estudos de casos de sucesso, de Chile, Costa Rica, Gâmbia, Geórgia, Gana, Tunísia e Vietnã. Esse grupo de países, segundo o documento, ilustra as oportunidades de melhoria na segurança alimentar, bem como o aumento ou a manutenção da cobertura vegetal. Seis desses países conseguiram mudanças positivas entre 1990 e 2015 em dois indicadores de segurança alimentar (prevalência de pessoas subalimentadas e o número de pessoas subalimentadas), bem como no aumento da superfície reflorestada.
No caso de Gâmbia, único país de baixa renda entre os sete mencionados, se conseguiu o primeiro objetivo de reduzir pela metade a proporção de pessoas com fome nesse período.O Vietnã, por exemplo, implantou com sucesso uma reforma agrária para garantir a posse da terra, como forma de impulsionar o investimento de longo prazo. O processo foi acompanhado de uma mudança na gestão florestal, de uma silvicultura estatal para uma de múltiplos atores, com a participação das comunidades locais, incluído o programa de destinação de áreas florestais e contratos para sua proteção com os moradores locais.
A reforma agrária também foi acompanhada de instrumentos para aumentar a produtividade agrícola, como isenção de impostos, empréstimos brandos, promoção da exportação, garantia de preços, apoio à mecanização e redução das perdas de cultivos colhidos.
Na Costa Rica, o desmatamento atingiu seu máximo na década de 1980, principalmente pela conversão de florestas em áreas de pastagem. O país conseguiu reverter essa tendência graças a uma lei florestal que proíbe mudanças no uso das florestas naturais e a um sistema de pagamento por serviços ambientais, que oferece aos agricultores incentivos para plantar árvores e apoio para a conservação florestal. Graças a essas medidas, a cobertura florestal aumentou para quase 54% da superfície do país em 2015.
Na Tunísia, os planos de desenvolvimento nacional reconhecem os benefícios das florestas em proteger a terra da erosão e da desertificação. A produção agrícola aumentou com intensificação, que melhora o uso das terras cultiváveis existentes mediante a irrigação, os fertilizantes, a mecanização, melhores sementes e práticas agrícolas. Os incentivos para fomentar o plantio de árvores incluem distribuição gratuita de sementes e compensações pela perda de renda derivada da agricultura.
Os temas mais importantes da sessão do Comitê Florestal da FAO buscavam responder diretamente aos acordos históricos de 2015 e pesquisar como as florestas e a gestão sustentável podem contribuir para o sucesso dos objetivos de desenvolvimento acordados pela comunidade internacional.
Na Semana Florestal Mundial, o Comitê avalia como aproveitar melhor o potencial das florestas, incluída sua contribuição parao sustento, a segurança alimentar, o emprego, a igualdade de gênero e muitos outros dos objetivos de desenvolvimento incluídos na Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável e no Acordo de Paris. Envolverde/IPS/Utopia Sustentável

terça-feira, 22 de março de 2016

Florestas: essenciais para a estabilidade do clima global


Foto: FAO/Giulio Napolitano
Foto: FAO/Giulio Napolitano
Declaração foi feita pelo secretário-geral da ONU para marcar o Dia Internacional das Florestas; Ban Ki-moon afirmou que habitantes de grandes cidades, como Rio de Janeiro, dependem das matas para obter parte da água potável.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, afirmou que as florestas são “essenciais para a prosperidade futura do mundo e para a estabilidade do clima global”.
A declaração foi feita para marcar o Dia Internacional das Florestas, comemorado esta segunda-feira, 21 de março.
Rio de Janeiro
Segundo Ban, os habitantes de grandes cidades, como Rio de Janeiro, Bogotá, Durban, Jacarta, Madrid, Nova York, entre outras, dependem das áreas florestais para obter uma parte significativa de água potável.
O chefe da ONU explicou que quando as autoridades protegem e restauram as bacias hidrográficas é possível economizar na construção de usinas para a purificação da água.
Ele disse que com o crescimento da população e o aumento da demanda, está se tornando cada vez mais urgente salvaguardar a capacidade de fornecimento de água das nascentes nas florestas.
Dados das Nações Unidas mostram que até 2025, quase 1,8 bilhão de pessoas vão viver em regiões com absoluta escassez de água e dois terços da população mundial podem enfrentar condições de dificuldade para obter o bem natural.
Mudança Climática
Ban Ki-moon deixa claro que as florestas são também fundamentais para combater a mudança climática. Elas fornecem um dos sistemas naturais mais baratos e eficazes para absorver carbono.
O secretário-geral disse que o investimento nas florestas representa uma apólice de seguro para o planeta.
Apesar dessa importância, Ban afirmou que as florestas continuam sendo desmatadas ou danificadas. A cada ano, 7 milhões de hectares de florestas naturais são perdidas e 50 milhões de hectares, queimados.
O chefe da ONU pediu a governos, empresários e sociedade civil que adotem políticas e práticas que protejam, restaurem e mantenham as florestas saudáveis para o futuro comum do planeta. (Rádio ONU/ #Envolverde/Utopia Sustentável)

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Desmate “a prestação” explode na Amazônia


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Área de desmate recente na Amazônia. Foto: Araquém Alcântara/Imazon
Área de desmate recente na Amazônia. Foto: Araquém Alcântara/Imazon

Degradação de florestas para atividade agropecuária, que engana satélite, cresce 207% em um ano, diz Imazon; alertas de corte raso sobem 63% e sugerem alta na taxa oficial, que sai no fim do ano.
O número de alertas de desmatamento na Amazônia cresceu 63% em 2014 em comparação com o ano anterior. O dado foi divulgado nesta quinta-feira (27) pelo Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia).
Segundo o SAD, o sistema do Imazon que estima em tempo real a velocidade da devastação, entre agosto de 2014 e julho de 2015 a maior floresta tropical do mundo perdeu 3.322 quilômetros quadrados. Isso equivalente a pouco mais de duas vezes a área da cidade de São Paulo. No período entre agosto de 2013 e julho de 2014, a perda foi de 2.044 quilômetros quadrados.
O que mais chama atenção nos dados, porém, é a chamada degradação florestal – ou seja, as florestas que foram muito alteradas mas que não sofreram corte raso naquele ano. Esse desmatamento “a prestação”, que se converterá em corte raso no futuro, teve um aumento de 207% em 2014.
Alguns especialistas atribuem a maior degradação na Amazônia a uma mudança no padrão da devastação: os desmatadores deixam algumas árvores em pé para manter parte do dossel e plantam capim sob a copa das árvores. Na prática, essas florestas estão tão empobrecidas que não preservam mais a biodiversidade, nem retêm carbono.
“É o chamado engana-satélite”, afirma Adalberto Veríssimo, pesquisador-sênior do Imazon. Como os pontos (pixels) de florestas degradadas não aparecem nas imagens de satélite como corte raso, os desmatadores usam esse recurso para driblar a vigilância do Ibama.
“A velha e conhecida grilagem de terras e a expansão das atividades produtivas, em especial a pecuária, estão se adaptando a essa nova situação de estarem submetidas a monitoramento contínuo”, diz Valmir Ortega, consultor ambiental e ex-secretário do Meio Ambiente do Pará. “A melhor forma de reduzir o risco de fiscalização e punição é mascarar esses processos, mantendo uma cobertura florestal altamente empobrecida, mas que não se caracteriza como desmatamento. A análise de dados de sensoriamento remoto deveria ter um olhar mais acurado sobre isso”, prossegue.
Segundo Adalberto Veríssimo, a taxa de degradação já viu melhores momentos na Amazônia, mas também já viu piores. Em 2014, porém, a sinalização é preocupante, porque o número de alertas de desmatamento também indica forte alta.
Lentes diferentes
O desmatamento na Amazônia é medido por diversos satélites. Cada um deles olha a floresta de um jeito e conta a mesma história de uma forma diferente.
A taxa oficial anual, aferida de agosto de um ano a julho do ano seguinte, é dada pelo sistema Prodes, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). O Prodes usa imagens de satélites como o sino-brasileiro CBERS e o americano Landsat, que têm alta resolução, mas observam a floresta com menor frequência. O número é divulgado todo fim de ano – quando indica queda, o governo faz questão de divulgá-lo durante as conferências do clima da ONU.
O desmatamento em tempo (quase) real é medido pelos sensores Modis, a bordo dos satélites americanos Terra e Aqua, que em compensação são “míopes”: não enxergam desmatamentos pequenos. Suas imagens são usadas em dois sistemas: o Deter, do Inpe, que alimenta a fiscalização do Ibama, e o SAD, do Imazon.
Nenhum dos dois é usado para fazer cálculo de área desmatada, mas ambos dão boas pistas sobre se a taxa oficial daquele ano será maior ou menor.
Até recentemente, os pesquisadores do Imazon conseguiam produzir estimativas razoáveis da taxa oficial usando o SAD. Isso mudou no ano passado, quando o sistema de alerta da ONG apontou uma ligeira alta na taxa e o Prodes mostrou uma queda de 15%.
Segundo Veríssimo, a discrepância provavelmente se explica pela mudança no padrão de desmate: “O SAD era mais preciso no passado porque havia grandes polígonos de desmatamento”, afirma. Agora, as derrubadas estão mais pulverizadas pela região, em maior número, mas em menor área – mais perto do limite de detecção do Modis.
“Desta vez acho muito pouco provável que o Prodes dê um número que não vá para cima”, diz Veríssimo. O El Niño de 2015, se vier com a força prometida, pode também elevar a taxa de 2015, ao secar a floresta e aumentar o número de incêndios em matas já impactadas pela degradação.

Em 2014, Mato Grosso foi o Estado campeão em alertas de desmatamento, com um aumento de 152% em relação ao ano anterior. O Pará ficou em segundo lugar, apesar de uma queda de 14% na velocidade da devastação. O maior aumento proporcional, de 165%, ocorreu em Rondônia, terceiro Estado que mais desmatou. Na contramão de quase todos os outros Estados, o Tocantins teve uma queda de 86% na taxa de desmatamento. (Observatório do Clima/ #Envolverde/Utopia Sustentável)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Consumindo o que não poderemos repor




planeta esgotamento Consumindo o que não poderemos repor
Segundo a organização internacional, Global Footprint Network, em 19 de agosto de 2014 a humanidade esgotou os recursos naturais do planeta disponíveis para o ano. Foto: Creative Commons

Já não soam hoje como “conversas de ecoterroristas” ou de “ambientalistas radicais” textos em que é discutida a chamada “crise de recursos naturais” ou o consumo desregrado de bens provindos do meio físico. É difícil que não se reconheça a gravidade da situação. Muito menos frequente, entretanto, é a discussão sobre o caminho da exaustão de certos recursos hoje usados em atividades vitais para o ser humano. Mas nos últimos anos algumas vozes conceituadas – como a do professor Ricardo Abramovay, da Faculdade de Economia da USP – alertam para a caminhada rumo à exaustão de certos bens e a gravidade do problema. Eles têm mostrado que hoje o consumo de vários bens físicos já é da ordem de 70 bilhões de toneladas por ano, ou quase 10 toneladas anuais por ser humano – e esses bens não têm como ser repostos, ainda mais que a população cresce.
É o caso, por exemplo, de certos minérios, areias, solos e outros materiais que não terão como ser repostos. O próprio relatório de 2014 do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente chama a atenção para esse uso insustentável de 40 bilhões de toneladas anuais só de areia e cascalho, ou seja, quase 6 toneladas anuais por pessoa. E o Brasil, a China, a Índia e a Turquia estão entre os países mais responsáveis nessa área, pois se incluem entre os principais produtores de cimento no mundo – e por esse caminho são também grandes mineradores de areia, já que cerca de 80% desse material vai para obras (O Globo, 4/1, texto de Flávia Milhorance). Da mesma forma, na construção de rodovias, que exige 30 mil toneladas de areia por quilômetro (uma casa precisa de 20 toneladas).
As consequências disso estão em trechos devastados de litoral, já que as areias de desertos não são consideradas adequadas para essa finalidade. Há também no Brasil áreas como a bacia do Rio Guandu, no Estado do Rio de Janeiro, onde já se encontram crateras resultantes da extração.
Texto veiculado pelo professor Luiz Fernando Badejo Carvalho (luiz_badejo@yahoo.com.br), mestre em Tecnologia e Administração de Empresas, traz também informações importantes sobre essas áreas entre nós, principalmente na construção. Ele lembra que no País existem quase 7 mil olarias, com forte uso desses insumos – renováveis e não renováveis -, metade pelo menos em fornos a lenha (principalmente no Nordeste). E a média de calorias consumidas para gerar um milheiro de tijolos é de 150 megajoules – ou de 15,5 quilos de madeira incinerados para cada milheiro de tijolos. Como há poucos anos o IBGE estimou uma produção de 63 bilhões de peças pelas olarias – das quais 75% como blocos e tijolos -, a cada ano seriam 47,25 bilhões de peças. Só nos fornos a lenha o uso seria de 368,5 mil toneladas de biomassa por ano – e aí o consumo não seria apenas de materiais que não podem ser repostos, mas também de biomassa de florestas, com 6,7 milhões de árvores “para atender ao suprimento de lenha só para a produção de metade das olarias em funcionamento”.
Diz o trabalho que a construção vertical no Estado de São Paulo, já há alguns anos, absorvia 605 mil metros cúbicos de madeira, 80% descartados após o uso em formas para concreto, andaimes e escoramentos. O volume de madeiras descartadas ou utilizadas apenas uma vez chegaria a 3 milhões de árvores a cada ano, para confecção de formas para concreto, andaimes e escoramentos. No País todo 15,4 milhões anuais de árvores – que, somadas a mais 6 milhões incineradas em olarias, levariam ao total de 392 quilômetros quadrados de florestas derrubadas por ano. E tudo isso ainda se soma ao uso associado com materiais físicos que não podem ser repostos e levam a um impasse civilizatório, como dizem alguns autores.
Lembra o autor do trabalho que há alternativas disponíveis para uso mais racional de recursos, a redução do descarte. Vários caminhos. Mas são veredas muito pouco trilhadas até aqui. Um número citado está nos resíduos sólidos domésticos levados para aterros. Só nas 260 maiores cidades brasileiras, entre 1999 e 2010, eles teriam sido suficientes, reciclados, para a construção de 10 milhões de residências com 100 metros quadrados cada uma.
No final de 2014, a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro aprovou em primeira discussão projeto de lei que prevê a isenção do pagamento de ICMS para produtos derivados da reciclagem de resíduos na construção civil. Mas é preciso acrescentar estímulos à substituição de produtos que não podem ser repostos, principalmente areia, cerâmica, minérios e outros.
Outro texto ainda, de Catarina Anderaos (secovi.com.br) menciona estudo com profissionais que atuam em incorporadoras imobiliárias no País. Para 82% deles, “o custo adicional da obra é a principal barreira para que a construção sustentável decole”. E esse custo variaria entre 1,6% e 8,6% em incorporadoras experientes, entre 3,5% e 17,66% “para as sem experiência”. “Edifícios sustentáveis” poderiam economizar 35% do consumo de água e energia elétrica.
Todos esses estudos mostram que precisamos de avanços urgentes, para reduzir o desperdício e a perda de materiais (renováveis e não renováveis), assim como para a implantação de métodos adequados na construção e em outros setores. É ilusório supor que poderemos, aqui e em outros países, continuar trilhando caminhos insustentáveis ou – pior ainda – que levem à exaustão de recursos físicos em várias áreas. Até mesmo porque, se não o fizermos por nossa conta, a isso seremos obrigados pelos países mais ricos, que hoje consomem 80% dos recursos naturais – e nossas balanças comerciais estão fortemente baseadas em produtos primários.
Tudo isso também mostra quanta inovação ainda nos falta nos currículos escolares em todos os níveis. Não apenas para qualificar profissionalmente os alunos. Mas também para promover uma revolução cultural e de vida. O Estado de S. Paulo.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

O desmatamento é uma má notícia – e a ciência não se cansa de nos alertar




desmatamentoAmazonia O desmatamento é uma má notícia – e a ciência não se cansa de nos alertar
Área de floresta amazônica desmatada, no norte do Mato Grosso, para expansão da atividade agrícola. Foto: © Paulo Pereira/Greenpeace

Levantamento aponta que a destruição de florestas tropicais já pode estar afetando a produção mundial de alimentos.
O desmatamento é ruim para o meio ambiente e para o clima. Também é péssimo para a biodiversidade, além de liberar gases do efeito estufa na atmosfera. Isso tudo nós já sabemos.
Mas a ciência está agora cada vez mais certa de que o desmatamento também é um péssimo negócio para a agricultura. Ele provoca o aumento das temperaturas e interfere nos sistemas de chuvas, tornando o clima mais seco.
Este mês, uma análise detalhada sobre os impactos do desmatamento de florestas tropicais na agricultura (Effects of tropical deforestation on climate and agriculture), publicado na revista Nature pelas pesquisadoras Deborah Lawrence e Karen Vandecar, do Departamento de Ciências Ambientais da Universidade de Virgínia (EUA), lançou luz sobre a relação existente entre o desmatamento destas florestas, a mudança da temperatura, os padrões de precipitação e seu subsequente risco para a produção mundial de alimentos.
As florestas são parte vital do ciclo da água. Elas são responsáveis por transportar a água do solo para a atmosfera, por evaporação – tecnicamente chamada de evapotranspiração. As florestas tropicais são capazes de transportar mais água do que qualquer outro ecossistema terrestre. Esta umidade cai em forma de chuva, seja localmente ou em outras regiões. A evapotranspiração também tem um efeito resfriador no ambiente, assim como a transpiração humana. Em geral, o desmatamento gera um clima mais seco e quente.
A agricultura sofre com extremos de temperatura. Plantas de determinadas culturas, por exemplo, não são capazes de resistir a altas temperaturas. Estações chuvosas fora de época, períodos com muita ou pouca chuva, precipitações frequentes ou muito espaçadas, todas estas oscilações também têm efeito sobre a produção agrícola.
Um exemplo apresentado na revisão de modelos de desmatamento fora de áreas protegidas prevê uma queda de 25% no rendimento da soja em pelo menos metade da área total cultivada hoje em dia. Consequentemente, algumas áreas de pecuária não seriam mais viáveis.
Outro fato importante é que o desmatamento de florestas tropicais também oferece risco a produção de alimentos cultivados a milhares de quilômetros. Em 2013, o Greenpeace publicou o relatório “An Impending Storm”, (Tempestade Iminente), com algumas das mais recentes pesquisas científicas que mostram como as florestas (e seu desmatamento) influenciam o clima global.
O estudo lançado este mês corrobora com nosso trabalho, inclusive nos exemplos citados, como a conclusão de que o desmatamento da Amazônia e das florestas tropicais da África central causaram a redução das precipitações no centro-oeste norteamericano na temporada de plantio. Do mesmo modo, o completo desmatamento da floresta da Bacia do Congo, na África, deve intensificar as monções no Oeste africano, enquanto o aumento de temperatura, que deve ficar entre 2 e 4 ˚C, e a redução em até 50% nas chuvas, devem afetar toda a região.
O novo estudo também descreve, de uma maneira bem realista, os impactos do desmatamento parcial. O desmatamento pode tornar-se crítico quando o “ponto de inflexão” é atingido quando não há chuva suficiente para que a floresta possa se sustentar, de tal forma que ela acabe substituída por savana ou pastagem. Os autores sugerem que, para a Amazônia, e possivelmente para a África Central, o ponto de inflexão pode ser alcançado com os níveis de desmatamento entre 30-50%. Este ponto pode ser bem menor em algumas florestas costeiras que são importantes na condução de umidade do oceano para o interior dos continentes.
A pesquisa conclui que o desmatamento de florestas tropicais aumenta as incertezas e os riscos para a produção de alimentos, seja perto ou longe das áreas desmatadas, graças as mudanças de temperatura e alteração nos sistemas de chuvas.
A evidência científica que aponta para o fato de que todos dependemos das florestas tropicais, independente do lugar do mundo onde se viva, está se tornando cada vez mais forte. Isso mostra a importância de prevenir a destruição das florestas e até de recuperar áreas degradadas, o que poderá garantir que as florestas continuem a regular o clima e a temperatura do planeta, mantendo nossa capacidade de produzir alimentos e de conservar a biodiversidade.
Não faltam provas de que a manutenção das florestas tropicais são fundamentais para a vida na terra. Mas ainda hoje continuamos a perder anualmente extensas áreas de Floresta Amazônica, seja em desmatamentos legais ou ilegais.
Alguns dos principais fatores que promovem o desmatamento do bioma são a atividade madeireira ilegal, a pecuária e a cultura de soja. Temas que se tornaram centrais em campanhas do Greenpeace Brasil. Acreditamos que desmatar, sob qualquer pretexto, não faz mais sentido algum. Felizmente, não estamos sozinhos nessa.
O projeto de Lei do Desmatamento Zero, lançado em 2012, prevê o fim da emissão de licenças de desmatamento em florestas nativas, ou seja, mesmo a porcentagem permitida por lei não poderá mais ser desmatada A iniciativa já conta com o apoio de mais de 1 milhão de brasileiros. Faça parte deste movimento, assine a petição. Greenpeace Brasil.