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quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Nem “medalha de honra”!

Poluição afeta qualidade do ar olímpico do RJ.

Há sete anos, quando apresentou sua candidatura para sediar os Jogos Olímpicos de 2016, a cidade do Rio de Janeiro afirmou que a qualidade de seu ar estava dentro dos limites recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e garantiu que faria melhorias no controle dessa qualidade até a realização da competição. Hoje, faltando um dia para o início dos eventos esportivos, o ar carioca está pior do que em 2009 – que, a despeito da declaração oficial, não estava nem perto do recomendado pela OMS.
Faltando poucos dias para o começo dos Jogos Olímpicos, a qualidade do ar no Rio de Janeiro está abaixo do recomendado pela Organização Mundial da Saúde, aponta levantamento da agência Reuters. ]Foto: Dois Expressos/Flickr - Creative Commons
Faltando poucos dias para o começo dos Jogos Olímpicos, a qualidade do ar no Rio de Janeiro está abaixo do recomendado pela Organização Mundial da Saúde, aponta levantamento da agência Reuters. ]Foto: Dois Expressos/Flickr – Creative Commons

Segundo levantamento feito pela agência Reuters, usando dados oficiais, o ar na região metropolitana do Rio de Janeiro está duas a três vezes acima do limite anual da OMS para MP 10 (material particulado com diâmetro de 10 mícrons ou menos). Esse material é lançado diariamente para a atmosfera pela frota de 2,7 milhões de veículos motorizados que roda pelas ruas cariocas. De 2010 a 2014, a metrópole carioca apresentou média anual de 52 MP 10 por metro cúbico de ar, segundo dados do Instituto Estadual do Ambiente do Rio de Janeiro (INEA).
Para efeito de comparação, na última edição dos Jogos, realizada há quatro anos em Londres, o nível de MP 10 era de 23 por metro cúbico de ar. Pelos dados, a cidade do Rio de Janeiro tem o segundo ar mais poluído de todas as sedes olímpicas desde 1988, quando o nível de MP 10 começou a ser aferido. Apenas Pequim, sede dos Jogos de 2008, supera os índices do Rio de Janeiro – na capital chinesa, a concentração de MP 10 chegou a 82 durante a disputa da competição.
De acordo com a OMS, o MP afeta mais pessoas do que qualquer outro poluente atmosférico. Em 2012, a exposição ao MP 10 causou 3,7 milhões de mortes prematuras em todo o mundo, estima a Organização.
“Definitivamente, isso não é ‘ar olímpico’”, apontou Paulo Saldiva, patologista da Universidade de São Paulo (USP), para a Reuters. “Muito se falou sobre a poluição da água no Rio, mas muito mais pessoas morrem por causa da sujeira do ar do que da água. Você não é obrigado a beber água da Baía de Guanabara, mas você é obrigado a respirar o ar do Rio”.
Usando metodologia da OMS, Saldiva calculou que a poluição atmosférica no RJ causou a morte de 5,4 mil pessoas em 2014. Esse número seria superior ao índice de mortes causadas pela violência urbana no ano passado (quase 3,2 mil óbitos), um problema crônico da capital fluminense.
A Reuters, em parceria com Saldiva, realizou 22 testes de uma hora cada separados para níveis do MP 2,5 (a partícula fina que apresenta o maior risco para a saúde) em pontos importantes dos Jogos no Rio de Janeiro: em frente ao Parque Olímpico e à Vila Olímpica; próximo à arena do vôlei de praia (Copacabana); e do lado de fora do estádio do Engenhão, sede das competições de atletismo e futebol. Para essa partícula, a OMS tem como limite seguro 25 MP 2,5 por metro cúbico de ar.
De acordo com a Reuters, os resultados mostraram que os atletas, os moradores do entorno e o público estão expostos a altos níveis de material particulado desse tipo. O Engenhão apresentou pico de 65 MP 2,5 durante um teste em 30 de junho, realizado no período da manhã, no mesmo horário em que acontecerá a competição de atletismo. Copacabana registrou nível 57 no mesmo dia, e a Vila Olímpica, 32.
A má qualidade do ar do Rio de Janeiro pressiona ainda mais o poder público sobre o legado esperado das Olimpíadas para a cidade. A situação das águas da Baía de Guanabara, palco das competição de vela e windsurf, virou polêmica internacional, com atletas temendo efeitos do contato com a água contaminada por dejetos de esgoto da cidade. O entorno do Parque e da Vila Olímpica, na Barra da Tijuca, também é alvo de críticas por poluição: as águas que banham essas instalações estão repletas de esgoto e material orgânico em decomposição, o que resulta em um cheiro fétido que certamente incomodará atletas e público. (Página 22/ #Envolverde\Utopia Sustentável)

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Saneamento fica sem medalha

Na lagoa de Jacarepaguá é visível a mancha da águas negras, ao lado do Parque Olímpico, coração dos Jogos Olímpicos que acontecerão no Rio de Janeiro no próximo mês. A projetada dragagem não aconteceu, devido à restrição de fundos para a obra. Foto: Cortesia de Mario Moscatelli.
Na lagoa de Jacarepaguá é visível a mancha da águas negras, ao lado do Parque Olímpico, coração dos Jogos Olímpicos que acontecerão no Rio de Janeiro no próximo mês. A projetada dragagem não aconteceu, devido à restrição de fundos para a obra. Foto: Cortesia de Mario Moscatelli.

A grande frustração dos Jogos Olímpicos, que começarão no dia 5 no Rio de Janeiro, será o não cumprimento de metas e promessas de saneamento ambiental de seus corpos de água.

Rio de Janeiro, Brasil, 26/7/2016 – Perdeu-se a oportunidade de dar um empurrão decisivo na descontaminação da emblemática baía de Guanabara e das lagoas da cidade, tal como estabelecia o plano com que a cidade ganhou o direito de ser sede da Olimpíada 2016.
É um fracasso que possivelmente terá escassa repercussão para moradores e visitantes, diante da maior visibilidade dos projetos de transporte urbano e revitalização do centro carioca.O fato confirma uma tradição nacional de relegar o saneamento nas prioridades governamentais. Até agora, somente metade da população brasileira conta com esgoto e apenas uma pequena parte do que o sistema transporta é tratada.
“O ambiente não paga impostos e nem vota, por isso não atrai a atenção de nossos líderes políticos, nem da sociedade”, queixou-se o biólogo Mario Moscatelli, ativista do tema hídrico no Rio de Janeiro.Nem mesmo a lagoa de Jacarepaguá, em cujas margens foi construído o Parque Olímpico, coração dos Jogos da 31ª Olimpíada da era moderna, na zona oeste da cidade, foi devidamente tratada. Os rios e riachos continuam despejando água suja na lagoa o tempo todo, contou à IPS.
Sérgio Souza dos Santos no cais construído pelos pescadores de Tubiacanga, para entrar na baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, porque a sedimentação impede que suas embarcações se aproximem da margem, que há décadas era uma bela praia. Foto: Mario Osava/IPS
Sérgio Souza dos Santos no cais construído pelos pescadores de Tubiacanga, para entrar na baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, porque a sedimentação impede que suas embarcações se aproximem da margem, que há décadas era uma bela praia. Foto: Mario Osava/IPS
O aeroporto internacional Antônio Carlos Jobim, o Galeão – onde chegará a maioria dos atletas e torcedoresestrangeiros para os Jogos, está em uma das áreas mais contaminadas da baía de Guanabara, embora os visitantes não cheguem a notar isso.Localizado na ponta oeste da Ilha do Governador, onde viviam 212.754 pessoas em 2010, segundo o censo oficial, o aeroporto tem por vizinhos canais onde é despejado esgoto sem tratamento e o lixo de milhões de residências de bairros e cidades, através de rios convertidos em cloacas.
Pela estrada que leva ao centro da cidade pode-se vislumbrar o canal do Fundão, de águas negras e mau cheiro, que persistem apesar de uma recente dragagem por causa do que chega do conectado canal de Cunha. Neste convergem os dejetos de cinco rios que cruzam bairros muito povoados, incluindo várias favelas e indústrias.Atrás do Galeão, ao norte, o bairro de pescadores de Tubiacanga, sintetiza as tragédias ambientais da baía de Guanabara, que tem 412 quilômetros quadrados e se estende entre os bairros de Copacabana e Itaipu.
“Tínhamos sete ou oito metros de profundidade, agora na maré baixa pode-se andar com água pelo peito” na parte mais estreita do canal, entre a Ilha do Governador e Duque de Caxias, a cidade próxima em terra firme, contou à IPS o pescador Sergio Souza dos Santos, de 66 anos, dois terços vividos em Tubiacanga. A sedimentação por aterros, a lama trazida pelos rios e o lixo reduziram a profundidade da baía explicou.
“Tubiacanga fica no encontro das águas sujas, das marés que sobem desde a entrada da baía, inclusive por vários canais, incluído o do Fundão, e a água dos rios. Isso acumula sedimento e lixo diante do bairro”, cuja praia de areias brancas se converteu em lodaçal e lixão em poucas décadas, lamentou Santos.A baía recebe 90 toneladas de lixo e 18 mil litros de esgoto sem tratamento por dia, principalmente através dos 55 rios e canais que desembocam em suas águas, destacou Sergio Ricardo de Lima, ecologista fundador do Movimento Baía Viva.
Descontaminar 80% dos efluentes lançados na baía de Guanabara foi a meta anunciada no projeto olímpico. Chegou-se a 55%, declarou o ministro do Esporte, Leonardo Picciani, em um encontro com jornalistas estrangeiros, no dia 7 deste mês.“Só creio no que vejo: dos 55 rios da bacia, 49 se converteram em cursos de efluentes sem vida”, protestouMoscatelli, que assim deu voz ao ceticismo dos ambientalistas.
“A meta de 80% não era realista. Descontaminar totalmente a baía exigiria de 25 a 30 anos, com investimentos equivalentes a US$ 6 bilhões em saneamento, admitiu André Correa, secretário de Meio Ambiente do Estado do Rio de Janeiro, ao inaugurar, no dia 20 deste mês, uma ecobarreira no rio Meriti, uma das vias de contaminação.
As ecobarreiras são boias presas em cadeia que retêm o lixo flutuante e constituem uma medida de emergência para garantir que os esportes náuticos das Olimpíadas possam acontecer em alguns pontos da baía. Barcos recolhem o lixo retido e enviam para reciclagem.As 17 ecobarreiras prometidas são insuficientes e para sua melhor eficácia teriam que ser instaladas onde se concentra o lixo flutuante, como em Tubiacanga, e não perto da entrada da baía, onde acontecerão as competições náuticas, apontou Lima.
Assim está hoje o que no passado foi uma praia de areias brancas no bairro de pescadores de Tubiacanga, na baía de Guanabara, nas imediações do Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro. Os moradores contribuem para a contaminação e sedimentação da emblemática baía brasileira. Foto: Mario Osava/IPS
Assim está hoje o que no passado foi uma praia de areias brancas no bairro de pescadores de Tubiacanga, na baía de Guanabara, nas imediações do Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro. Os moradores contribuem para a contaminação e sedimentação da emblemática baía brasileira. Foto: Mario Osava/IPS
Sua implantação no rio Meriti atende esse critério do ambientalista. Mas se trata de uma “ação paliativa”, a solução é promover a coleta seletiva nas fontes, isto é, nas residências, no comércio e nas indústrias, e reciclar o máximo dos resíduos sólidos, como estabelece uma lei a respeito aprovada em 2010. “Atualmente só se recicla 1% do lixo da Região Metropolitana do Rio de Janeiro”, que tem 12 milhões  de habitantes, lembrou Lima.
A descontaminação da baía de Guanabara é um velho sonho. Foi a meta de um projeto iniciado em 1995 e que já custou US$ 3 bilhões, ao câmbio atual. Mas não foi evitada a deterioração ambiental da água e das praias locais.Oito estações de tratamento de efluentes (ETE) foram construídas ou ampliadas para melhorar a qualidade de sua água. Mas sempre operaram com pequena parte de sua capacidade, porque não foram construídos os troncos coletores necessários para recolher o esgoto e levá-lo às ETE, segundo Lima.
A contaminação da baía se agrava pelos vazamentos de petróleo. Além de uma refinaria e de um polo petroquímico instalados nas margens, em Duque de Caxias, em toda a frente do bairro de Tubiacanga, a baía de Guanabara é crescentemente cruzada por dutos transportando óleo, derivados e gás. Até hoje se sente os danos de um grande vazamento de petróleo ocorrido em janeiro de 2000 que teve impacto direto em Tubiacanga e na captura de seus pescadores.
“Os que mais sofrem as consequências da contaminação e melhor conhecem a baía de Guanabara, os pescadores, não são ouvidos, estamos encurralados, ameaçados de extinção”, concluiu Souza dos Santos, que incentiva seus quatro filhos a deixarem o ofício da pesca. Envolverde/IPS/Utopia Sustentável

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Turismo sustentável no Rio: um sonho possível

Turismo sustentável no Rio: um sonho possível

Morador de uma das cidades mais belas do mundo, e lá se vão cinqüenta e cinco anos, não raro nos surpreendemos com a beleza de nossa Cidade Maravilhosa. Foi o que aconteceu comigo no fim de semana.  Sabedor de minha paixão pela sustentabilidade, fui convidado pelo amigo Fernando Perrone para um giro de barco pela Lagoa Rodrigo de Freitas.  Até aí vocês podem estar se perguntando: mas o que esperar de diferente em um passeio de barco como esse?

Sabe aqueles dias em que tudo parece conspirar para acontecer da melhor maneira possível?  Ao chegar ao Estádio de Remo, um belo sol de inverno já brilhava no céu.  Mães passeavam empurrando carrinhos com seus bebês a bordo, remadores solitários ou em grupo arrumavam os últimos detalhes de seus barcos antes de colocá-los dentro d’água para mais um dia de treino.  Enfim, um dia perfeito.

Avistei o pessoal no ponto de encontro marcado e caminhei lentamente até o local, aproveitando ao máximo aquele velho visual da Lagoa, tão castigado quanto novo para mim.  Pela primeira vez estava prestes a entrar em um barco totalmente sustentável, emissão zero. 


Após ser apresentado ao Diretor da empresa Holos Brasil, Lorenzo de Souza, o responsável pelo projeto iniciou suas explicações enquanto movimentava lenta e silenciosamente o futuro ônibus escolar da comunidade de Santa Rosa, no sul do Pará. 

Foto: Fernando Perrone e Lorenzo de Souza 


O projeto teve o apoio do Ministério da Ciência e Tecnologia, da Eletrobras, que cedeu as dezoito placas fotovoltaicas que captam a energia solar e cobrem a embarcação, da WEG, que forneceu os dois motores que praticamente nunca são ligados e, ainda, CNPQ, Universidade Federal de Santa Catarina, Fotovoltaica e Ideal.

Com sua capacidade máxima de vinte e duas pessoas a bordo ocupada, sentia uma sensação boa, capaz de tranquilizar e captar, nos mínimos detalhes, a beleza daquele santuário, mesmo tão degradado e desrespeitado. Ouvia o barulho do silêncio (se isso é possível) e uma paz incomum.  Torcia para o tempo não passar.  Afinal, ver tudo aquilo ao contrário do que estava habituado em meu dia a dia, não tinha preço.

Extasiados, os convidados tiravam fotos sem parar.  E, diferente de embarcações a motor, em que a água fica muito mexida, no caso do barco da Holos – fabricado em fibra de vidro, que também compensa e economiza energia pelo pouco peso que tem -, o que forma é uma esteira suave sobre a superfície mantendo a água quase sem se movimentar, ou seja, não balança.



Com uma velocidade de até 18km/h/10 nós, o que lhe garante até três horas de autonomia, as trinta e seis baterias (dezoito para cada motor), levam até dois dias para carregar completamente.  O projeto custou cerca de R$ 400.000,00 e ainda nesse semestre o barco viaja para atender uma comunidade carente na Amazônia, levando e buscando crianças na escola.  Servirá, também, para ajudar os moradores locais, pescadores em sua grande maioria, a não venderem seus produtos (com medo que apodreçam), por qualquer valor para intermediários, pois a Vila onde moram não tem luz elétrica. 

Como um sonho bom, desperto para a dura realidade ao nos aproximarmos do cais.  Fico a imaginar que seu uso seria uma opção turística simples para as lagoas do Rio (Rodrigo de Freitas, Marapendi e Jacarepaguá, por exemplo).   E mais bem estudada, se transformar até em um transporte modal integrativo verde.

Com os grandes eventos se aproximando - Mundial e Olimpíadas -, carimbaríamos o passaporte de metrópole sustentável.  Em tempos de cobranças por melhor mobilidade urbana, fica essa boa iniciativa como ideia a ser desenvolvida, quem sabe, por uma parceria público-privada.

Abraços Sustentáveis

Odilon de Barros