segunda-feira, 4 de julho de 2016

Frequentar parques e florestas faz bem à saúde

Mirante_Cartao_postal_Ernesto_V_CastroA receita é de especialistas. Segundo eles, o contato com a natureza afasta o estresse, revigora as energias e melhora a qualidade de vida das pessoas.

Caos urbano, rush, correria. O relógio conspira contra o tempo, insuficiente para que as pessoas possam cumprir todos os compromissos do dia a dia, seja trabalhador, mãe, estudante. As consequências de tanta agitação aparecem em forma de doenças da modernidade, como estresse, ansiedade, pânico, depressão ou, mesmo, obesidade.
O ritmo do ser humano na chamada sociedade moderna, trabalhando muitas horas por dia, submetendo-se a uma alimentação menos natural, compromete a qualidade de vida. Mas, o que aconteceria se as pessoas optassem por passar parte do dia, principalmente nas folgas de fins de semana, em contato direto com a natureza?
Caminhadas em grupo renovam energias Parna de BSBSó há uma certeza: quando mergulham em uma floresta, as pessoas relaxam e se aproximam do estado de bem estar. A natureza, por meio de seus estímulos visuais, sons e cheiros, tem o poder de acalmar a todos. Basta um tempo em ambiente natural para que mente, corpo e alma se sintam revitalizados.
O Brasil conta com vários locais para relaxamento na natureza. Os mais propícios são as chamadas unidades de conservação (UCs), berçários de biodiversidade. Mais conhecidas popularmente como parques e reservas naturais, elas se espalham pelos biomas Amazônia, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica, Pampa, Pantanal e Marinho/Costeiro.
Ao todo, são 325 áreas protegidas por lei federal, geridas pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Juntas, somam mais de 76 milhões de hectares. O número de visitantes nas UCs cresce a cada ano. No último ranking divulgado, o Brasil saiu de um patamar de quase 3 milhões de visitantes em 2007 para mais de sete milhões em 2015. Clique aqui para conferir os dados sobre o aumento de visitantes nos parques e outras unidades de conservação.
E, como não poderia deixar de ser, toda essa riqueza natural preservada promove a melhoria da saúde humana. O conceito de floresta ou, no geral, natureza como instrumento de terapia e de prevenção a doenças ganha aliados mundo afora.
Ser humano: miniatura do mundo natural
Para Aristein Woo, filho de Mestre Woo e médico da Secretaria de Saúde do Governo do Distrito Federal (GDF), responsável técnico pelas aulas de tai chi chuan ministradas há anos na Praça da Harmonia, em Brasília, a filosofia e as práticas de saúde da medicina tradicional chinesas consideram o ser humano como uma miniatura do mundo natural.
Visitante do Parna de BSB fazendo tai chi chuan1“Vários pontos de acupuntura têm nomes de rios, lagos e montanhas, por exemplo. Os elementos da natureza, como calor, frio, secura, umidade, também tem seus correspondentes no nosso organismo e, nos desequilíbrios, são causadores de doenças. O organismo (microuniverso) e a natureza devem estar em harmonia. A humanidade doente acaba por adoecer a natureza, e, por outro lado, a natureza “adoentada” é prejudicial ao homem”, frisa Aristein.
Segundo ele, tudo que é vivo tem energia da vida e essa energia nutre a saúde humana, fortalecendo-a para que o homem resista às doenças, bem como promove a recuperação do corpo. “Concreto, cimento, prédios, carros, são estruturas não-vivas, ou seja, destituídas dessa energia. Os sadios precisam de ter mais contato com a natureza para promover a sua saúde. Os doentes precisam disso também, para recuperá-la”, explica o médico e professor de tai chi.
Como exemplo, Aristein cita um caso simples. “Um paciente asmático, que vive num grande centro urbano, sujeito à poluição e ansiedade – dois agentes desencadeadores de crises – tem mais saúde se puder estar próximo da natureza, no campo, onde o ar é mais puro e a vida, mais tranquila”, explica ele.
Para o médico, o ser humano toma contato com o mundo exterior por meio de seus cinco sentidos (visão, paladar, olfato, tato e audição). “Somos seres necessariamente gregários e interagimos com os outros ao nosso redor por meio da fala, da comunicação, mas o mundo atual nos oprime emocionalmente”.
No livro sagrado do taoismo Tao Te Ching, se diz que “as cinco cores cegam a visão”. Segundo Aristein, na vida urbana moderna somos constantemente bombardeados por cores, formas e luzes, que se alternam alucinadamente.
“Muitos desses estímulos não tem um sentido próprio, diferente da realidade primitiva, quando havia um equilíbrio yin-yang entre a luminosidade do dia, relacionada à atividade; e a obscuridade noturna, relacionada ao repouso”, afirma ele.
Contra o estresse, a volta à natureza
Conectividade do homem com a naturez apor meio das águas do Parna de BSB 21A quantidade da comunicação se ampliou enormemente, mas a qualidade tornou-se preocupante. “Grande parte da nossa comunicação se dá onde passamos a maior parte do nosso período ativo do dia – no trabalho. E lá, o foco da comunicação tem sido a produtividade. Há cobranças, competitividade, permeando diversos momentos. O estresse gerado acaba por contaminar nosso diálogo com aqueles que nos são mais queridos”, frisa Aristein.
Daí que a volta à natureza, ainda que não seja possível de maneira integral, permite às pessoas “aterrar”, estabilizar nossa mente, contemplar a vastidão do universo e a excessiva importância que damos a coisas menores do dia-a-dia.
“Podemos ver o horizonte livre, nos tons harmoniosos da natureza. Podemos ouvir o silêncio em sua riqueza de ensinamentos. Aprendemos a ouvir o nosso corpo, a regular a nossa respiração, a ouvir a nossa voz interior. Esta, com certeza, é uma grande necessidade do homem moderno”, diz Aristein.
Para Jane Borralho Gama, psicóloga clínica da linha junguiana em Brasília, a psicologia considera o homem um componente da complexidade do que seja a natureza. “A nossa vida está sob uma crescente necessidade de ações, na qual temos, a todo instante, que tomarmos significativas decisões. Nós vivemos em cidades, onde estamos constantemente sob tensão do tempo, em um ir e vir sob fortes ruídos e imagens que fazem com que haja uma desconexão de nós mesmos”, afirma ela.
Segundo a especialista, quando a pessoa se encontra sob forte tensão emocional, comprometendo seu estado de equilíbrio psicológico, de modo a interferir no trabalho, nas relações afetivas, os psicoterapeutas podem recomendar um afastamento do paciente.
VistaPedraDaMacela ThiagoRabello“Esse afastamento tem por objetivo favorecer um estado de introspecção, de observação de si mesmo, de modo a promover uma organização das ideias, dos sentimentos. E, nesse sentido, o contato com a natureza é sempre recomendado, exatamente porque favorece esse estado de silêncio, de maior percepção e integração de si mesmo”, explica a terapeuta.
Como a natureza é viva, o contato diário oferece uma identidade na condição de humanidade. “Ela nos propicia um olhar permanente sob nós mesmos. Podemos pensar a vida, como faziam e ainda fazem os filósofos, e nos proporcionar um bem viver”, relembra Jane.
Ainda de acordo com ela, há casos comprovados de melhoria em quadros psíquicos de pacientes, a partir do contato com a natureza. “Em quadros de estresse, por exemplo, na psicologia clínica evidenciamos que o melhor a fazer é o paciente se dispor a essa integração com ambientes que propiciem tranquilidade e que possam diminuir o estado de ansiedade, de angústia, pois dessa maneira o paciente pode caminhar na direção de um estado de equilibro com a sua própria natureza humana”, reitera.
Pioneiro na medicina preventiva natural
No Japão, uma cultura conhecida mundialmente pela conexão de seu povo com a natureza, o pesquisador Yoshifumi Miyazaki, co-diretor do Centro para Meio Ambiente e Saúde da Universidade de Chiba, próximo a Tóquio, desenvolve estudos sobre os chamados fitocidas – os aromas dos óleos essenciais das plantas e das árvores das florestas.
Segundo ele, em entrevista à imprensa brasileira, parques, jardins, flores e fitocidas (substâncias produzidas por plantas contra micro-organismos) têm efeitos benéficos nos seres humanos. No Japão, os parques e reservas ganham selo de floresta certificada para tratamento, após análise de sua beleza cênica, biodiversidade e estrutura voltada para receber os visitantes.
Parna Serra dos órgãos Portais de hercules 4 Ernesto V CastroO Japão é o país onde mais se estuda a relação entre saúde e natureza e tem investido fortemente na medicina preventiva, melhorando ainda mais sua excelência em saúde pública. O princípio é básico: se a qualidade de vida da pessoa melhora, e passa pelo contato maior com a natureza, os episódios de adoecimentos tendem a cair. E o governo japonês percebeu que investir na medicina preventiva reduz gastos do sistema público de saúde.
A equipe envolvida na pesquisa de Yoshifumi Miyazaki já promoveu mais de 50 estudos sobre os fitocidas, envolvendo cerca de 600 voluntários. Os resultados saltam aos olhos. Pessoas com problemas de saúde, como pressão arterial alta, após terem contato com a floresta, registram uma redução de 16% do hormônio do estresse, de 2% na pressão arterial, de 4% na frequência cardíaca e um aumento de mais de 100% das atividades do sistema nervoso parassimpático – que mede o nível de relaxamento.
Segundo o professor Miyazaki, o ser humano passou 99,99% de seus cinco milhões de anos de evolução como primata em meio à natureza. “O corpo humano foi feito para se adaptar à natureza. Estamos em essência conectados a ela”, reforça o pesquisador.
Outros estudos desenvolvidos em países como Holanda, Reino Unido e Japão revelaram que, ao entrar em contato com o ambiente natural, o corpo logo responde, de forma sutil, com pressão mais baixa e maiores níveis de glóbulos brancos, responsáveis pelas defesas do organismo.
Ecologia Profunda
Para o filósofo e mentor da teoria da Ecologia Profunda, Arne Næss (1912-2009), em um nível superficial, o homem coloca-se como centro do mundo e quer preservar os rios, o oceano, as florestas e o solo porque são instrumentos do seu próprio bem-estar.
Mas, em um nível mais profundo, o homem pode buscar viver em uma nova civilização, culturalmente solidária, politicamente participativa e ecologicamente consciente. Para Naess, esta ecologia surge do reconhecimento interior da nossa unidade com a natureza.
Segundo sua teoria, a natureza possui valor em si mesma, independentemente da utilidade econômica que tenha para o ser humano. Para ele, o homem é parte inseparável – física, psicológica e espiritualmente – do ambiente em que vive. (Envolverde/UTOPIA SUSTENTÁVEL)

sábado, 2 de julho de 2016

Amazônia deve ter recorde de queimadas

Queimada na Amazônia. Foto: Greenpeace
Queimada na Amazônia. Foto: Greenpeace
Previsão divulgada pela Nasa e pela Universidade da Califórnia aponta que solo da floresta está mais seco em 2016 do que nos anos de seca extrema de 2005 e 2010; El Niño é principal culpado

A Amazônia deverá ter neste ano a pior temporada de queimadas de sua história desde o início dos registros, em 2001. A previsão foi divulgada nesta quarta-feira pela Nasa, a agência espacial americana, e pela Universidade da Califórnia em Irvine (EUA).
O risco de incêndios graves é maior do que 90% em todas as dez regiões analisadas, que incluem seis Estados da Amazônia brasileira, a Bolívia e o Peru. O risco mais alto é em Mato Grosso (97%) e no Pará (98%), justamente os Estados tradicionalmente campeões de desmatamento. No Amazonas, onde a floresta queima relativamente menos, o risco neste ano é de 96%.
Análises feitas com auxílio de satélites mostram que a quantidade de água no solo na floresta este ano é a mais baixa desde o início das medições, com 2016 superando 2005 e 2010, anos em que a Amazônia viveu duas de suas piores secas de todos os tempos.
A temporada de queimadas da Amazônia geralmente começa no inverno – o período seco, chamado de “verão” amazônico. O pico de focos de calor ocorre em setembro, com um declínio a partir de novembro, quando começa a estação de chuvas (o “inverno” amazônico).
Em 2016, porém, mesmo os meses de “inverno” já registraram queimadas acima da média. No Amazonas, foram 3.469 focos de calor registrados por satélites em fevereiro, um dos meses mais chuvosos do ano. O recorde para o mês na série histórica foi 250, em 2004. Mesmo em 2015, o ano mais quente da história até aqui, o número de queimadas no Amazonas em fevereiro foi apenas 130.
Em Mato Grosso, foram 2.576 focos em fevereiro de 2016, contra 2.286 do recorde anterior, do ano passado. No Pará, onde fevereiro de 2015 também havia batido recorde para o mês (1.425 focos), em 2016 registrou-se mais do que o dobro disso (3.601). Para as dez regiões avaliadas, a soma do número de focos de calor em fevereiro era mais do que o dobro do recorde anterior, de 2015 (12.974 contra 5.268). Veja todos os dados aqui.
Número de focos de calor entre 2003 e 2016 (linha vermelha)
Número de focos de calor entre 2003 e 2016 (linha vermelha)

“Nossa expectativa é de que este ano vá bater o recorde”, disse ao OC Douglas Morton, pesquisador do Centro Goddard de Voo Espacial, da Nasa, e um dos responsáveis pela previsão.
O culpado pelo risco neste ano é o El Niño, o aquecimento cíclico das águas do Oceano Pacífico que eleva as temperaturas no mundo inteiro e deixa a Amazônia e o Nordeste mais secos do que o normal. O fenômeno começou em 2015 e ajudou a secar o solo da floresta, enfraquecendo a temporada de chuvas. Seu impacto deverá ser plenamente sentido neste ano.
“Em Santarém, por exemplo, a temporada de queimadas termina em novembro. Mas a do ano passado continuou em 2016 por causa do El Niño”, afirmou o americano, que faz pesquisas no Brasil desde o início da década passada.
Segundo Morton, o padrão de seca observado em 2015-2016, a chamada “anomalia de precipitação”, é muito semelhante ao visto em 1998 (veja imagem abaixo). Naquele ano, um mega-El Niño causou incêndios catastróficos em Roraima e botou as relações entre clima, fogo e floresta no radar dos cientistas.
Comparação entre secura na Amazônia entre 1998 (esq.) e 2016; quanto mais vermelho, mais seco
Comparação entre secura na Amazônia entre 1998 (esq.) e 2016; quanto mais vermelho, mais seco

A suscetibilidade da região a incêndios varia em função da temperatura do oceano – e, neste ano, tanto o Pacífico quanto o Atlântico estão muito quentes. Um Atlântico mais quente desloca o cinturão de chuvas da região equatorial (a chamada Zona de Convergência Intertropical) para o norte, secando a Amazônia e turbinando os furacões na América do Norte.
Morton pondera que ainda existe a possibilidade de que uma mudança brusca na superfície do Atlântico ocorra no segundo semestre e produza chuvas, interrompendo a tendência. Isso aconteceu em 2013.
O modelo de previsão usado pela Nasa e pela Universidade da Califórnia em Irvine não é perfeito, seus criadores esclarecem. Afinal, ele só considera a base física das queimadas. A correspondência entre o modelo e as observações depende, claro, de outro fator: os produtores rurais e madeireiros da Amazônia e a tendência do desmatamento num dado ano.
“A exploração de madeira descontrolada deixa a floresta mais seca e com troncos e folhas mortas, que são altamente inflamáveis. O uso do fogo para limpar as áreas agrícolas e incêndios acidentais em pastos secos chegam às florestas degradadas e se espalham rapidamente. Nos anos mais secos, o fogo se espalha ainda mais, pois as políticas de combate ao desmatamento são insuficientes para lidar com os incêndios”, diz Paulo Barreto, pesquisador do Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia).
Hoje não é possível separar essas duas grandes variáveis e atribuir peso a cada uma. Não dá para saber ainda o quanto a agropecuária e a grilagem de terras vão influenciar na taxa final de queimadas. Mas a situação de Mato Grosso, por exemplo, acendeu uma luz amarela nos pesquisadores. “Em 2003, quando Mato Grosso teve sua maior taxa de desmatamento, as queimadas começaram mais cedo”, disse Morton.
“As metas frouxas do Brasil para combate ao desmatamento, o corte de recursos para a área ambiental e fiscalização, associado aos planos do PMDB e aliados para o país – retrocessos na legislação e ameaças de flexibilização ainda maior do Código Florestal – podem pôr ainda mais gasolina nessa fogueira”, disse Carlos Rittl, secretário-executivo do Observatório do Clima.(Observatório do Clima/ #Envolverde\Utopia Sustentável)

sexta-feira, 1 de julho de 2016

A vida é muito curta para morar no Rio


Antes de ser apedrejado por cariocas que como eu adoram a cidade, gostaria de dizer que tenho total convicção de que muitas coisas narradas ai embaixo acontecem igualzinho em várias cidades brasileiras.  O que me fez replicar o texto, e talvez  esse seja o ponto, é nossa inércia diante de tantos absurdos, a tolerância com o errado.  Nos conformamos com as desculpas eternas de balas perdidas, com UPAS que não funcionam, com UPP's que continuam matando nossos jovens, com nossa Câmara e Assembleia repleta de bandidos, com as promessas seculares de limpeza da Baía de Guanabara e Lagoa Rodrigo de Freitas, com as escolas que oferecem péssima qualidade de ensino a nossas crianças, com os roubos de medicamentos, com o tráfico, com o jeitinho, com os caveirões que entram a qualquer hora em nossas comunidades arrebentando tudo e todos.
Por mais que grande parte desses problemas sejam nacionais, esse nosso conformismo é irritante, dilacerante, e é isso que talvez esteja levando 56% de nós a buscar, se houver a chance, um outro lugar para morar.  Infelizmente.
Foi um desabafo da Mariliz, mas é um desabafo meu, que tenho sentido dia após dia, cada vez mais.   Um olhar crítico de quem está do lado de lá.
É isso aí, fala Mariliz.
Odilon de Barros


Eu era a paulista mais carioca que meus amigos conheciam. Tinha a tal alma, roupas coloridas, conta na barraca do Leandro, no Posto 12, mesa cativa no Jobi, chamava os garçons pelo nome, tomava cerveja na calçada, banho de mar à noite no verão. Estava com uma mala sempre pronta, e a poltrona 8F no avião religiosamente reservada para ver lá de cima a cidade chegando.
A vida é muito curta para não morar no Rio, diziam. Eu ria, mas voltava feliz para o meu caos organizado em São Paulo, às segundas pela manhã. Até que uma proposta de trabalho me trouxe de mala e mudança. Depois do primeiro mês, a lua de mel com a cidade acabou e eu me perguntava: como as pessoas moram aqui?
Demorou, mas não sou mais solitária nesse questionamento. Vejo amigos e conhecidos compartilhando em redes sociais uma pesquisa feita pela ONG Rio Como Vamos, que mostra que 56% da população tem vontade de ir embora da cidade. Em 2011 esse percentual era de 27%.
O que faz os moradores quererem fazer as malas é o aumento da violência. Roubos na rua assustam mais as classes mais altas, enquanto as balas perdidas são o terror na vida da população menos favorecida. Mas os problemas do Rio vão muito além disso, e é um espanto que apenas tiro, porrada e bomba tenham acendido o alerta de que a Cidade Maravilhosa é uma farsa. Uma paisagem espetacular, recheada de problemas escandalosos.
Essa visão de que o Rio é o melhor lugar do mundo para se viver é um tanto provinciana e romântica, além de cega, de uma maioria que mora e trabalha na zona sul –e parte da zona oeste– e só de vez em quando tem o doce cotidiano chacoalhado pela violência que atravessa o túnel Rebouças. Gente que vive numa bolha, que eventualmente estoura num assalto com morte.
Vida que segue. A gente se deslumbra com a belezura da geografia e aprende a conviver com malandragem generalizada, falta de pontualidade, incompetência disfarçada de informalidade, hostilidade travestida de espontaneidade, infâncias miseráveis, pobreza, falta de tudo.
O Rio é só uma cidade decadente que vive de um glamour passado, num presente melancólico. E parte da sua população sempre foi conivente com tudo que nos fez descambar para essa triste realidade. Como fechar os olhos para uma parte gigante da cidade que apenas sobrevive?
Praias, lagoas e baía não ficaram poluídas da noite para o dia. Ainda assim, as areias estão sempre cheias, mesmo nos dias em que o mar não está nem para peixe nem para gente. O negócio é mergulhar no cocô para se refrescar, tomar uma cervejinha e tirar foto do pôr do sol. Com sorte, daqui uns anos ainda reste o pôr do sol.
Chamar favela de comunidade não muda o fato de que centenas de milhares de pessoas continuam vivendo sem saneamento, sem saúde, sem educação, reféns ora do tráfico ora da milícia. Mas é bonito subir o morro, ir ao sambinha, postar foto na "comunidade" e fazer de conta que ela está integrada. Não está. Fica bonito na letra de música, na poesia, mas é apenas gente esquecida –e tolerada– em troca de status de cartão postal.
Mas tudo bem, a gente dá uma maquiada, ergue muros nas linhas Amarela e Vermelha para que os turistas não vejam o lado mais feio, miserável e perigoso da cidade –além de evitar que balas atravessem a pista e matem os desavisados. De quebra, nós mesmo esquecemos que existe o lado mais feio, miserável e perigoso por onde só passamos a caminho do aeroporto.
O coro de "nunca pensei que diria isso, mas penso em ir embora do Rio", tomou o lugar de posts babaovistas com legenda "Rio, eu amo eu cuido", "Eu moro onde as pessoas passam as férias". Férias é somente o que uma pessoa com juízo faria aqui. Vem, passa o dia na praia, torce para não ser vítima de um arrastão, passeia pelos pontos turísticos, toma um chopp aguado, come um bolinho no Braca, vai no ensaio da escola de samba, se o tráfico não estiver em pé de guerra, pega o avião a vai embora.
Para quem mora aqui, o jeito é torcer. O que nem sempre é suficiente. Para muita gente a vida tem sido muito curta para morar no Rio. Juan, um ano e dois meses. Giselle, 34. José Josenildo, 31. Foram mortos nas últimas semanas. Bala perdida. Tentativa de assalto. Emboscada. Não há paisagem que valha a pena morrer tão cedo.
Obviamente, criminalidade, pobreza, corrupção e falta de toda a sorte de serviços básicos são problemas em maior ou menor grau em todas as capitais brasileiras, mas nenhuma se vende como Cidade Maravilhosa. E antes que algum ofendido venha me mandar embora, só tenho uma coisa a dizer: é o que eu mais quero. Eu e os 56% dos moradores do Rio. 
Mariliz Pereira Jorge/Folha/Uol/Utopia Sustentável