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sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Mudanças climáticas afetarão a saúde de crianças


Família sofre com o rescaldo do furacão Patrícia, na praia de Colima, no México. Foto: Presidencia de La Republica / Fotos Publicas
Família sofre com o rescaldo do furacão Patrícia, na praia de Colima, no México. Foto: Presidencia de La Republica / Fotos Publicas

As mudanças climáticas e o aquecimento global atingirão em cheio a saúde das crianças. É o que diz um parecer da American Academy of Pediatrics, organização de pediatria norte-americana, dirigido para médicos da infância e gestores de políticas públicas.
Intitulado “Mudanças climáticas globais e a saúde das crianças”, o documento lista como ameaças à saúde infantil o aumento da ocorrência de desastres naturais, a elevação do calor, a piora da qualidade do ar e um possível cenário de desabastecimento de comida e água.
Malária, dengue, chikungunya, doença de lyme, diarreia a a meningoencefalite amebiana são algumas das doenças citadas como influenciadas pelo aquecimento.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), 88% das doenças atuais atribuídas às mudanças climáticas ocorrem em crianças com menos de 5 anos.
Efeitos da mudança climática
Os diversos efeitos do aquecimento global sobre a saúde foram divididos em três categorias: primários, secundários e terciários.
Eventos climáticos extremos, incluindo tempestades, enchentes e incêndios, por exemplo, são considerados efeitos primários, cuja frequência triplicou nos últimos 40 anos.
“Eventos climáticos extremos colocam a criança em risco de perder ou se separar de seus principais cuidadores, exposição à doenças infecciosas e um alto risco de desenvolver transtornos mentais como stress pós-traumático e depressão”, diz o documento da associação, que reúne 64 mil pediatras nos EUA.
As crianças também serão prejudicadas com o aumento da incidência de eventos climáticos extremos, uma vez que eles são capazes de devastar suas casas, escolas e comunidades.
O relatório também destaca o aumento da frequência e da intensidade das ondas de calor como um efeito negativo das mudanças climáticas na saúde das crianças e adolescentes.
“Crianças abaixo de 1 ano de idade e atletas no Ensino Médio parecem ser particularmente afetados pelo aumento do risco de doenças e mortes relacionadas com o calor intenso”, destaca o documento.
Há uma chance de 90% de que, ao final do século 21, as temperaturas no verão ultrapassem as maiores já registradas em várias regiões do globo, colocando em risco as crianças e suas famílias, explica o relatório, liderado pela médica Samantha Ahdoot.
Entre os chamados efeitos secundários, relacionados com as alterações ambientais nos ecossistemas, estão a qualidade do ar, capaz de exacerbar problemas respiratórios e asma em crianças.
A qualidade do ar pode piorar até o final do século por conta das elevações de temperatura relacionadas com a concentração de ozônio, além do aumento de incêndios e da temporada de alergias influenciadas pela quantidade de pólen presente no ar.
O documento aponta que determinar os efeitos do aquecimento global nas doenças infecciosas é complexo, por conta das contribuições do desenvolvimento econômico, do uso da terra, das mudanças nos ecossistemas, entre outros fatores.
Já é possível, porém, associar o clima mais quente com a expansão da doença de Lyme na América Latina. Outras projeções já dão conta do aumento da incidência de quadros como o da diarréia infantil na Ásia e na África Sub-saariana.
O relatório projeta, por exemplo, que o aquecimento global causará 48 mil mortes de crianças com menos de 15 anos por conta da diarréia até 2030 nessas regiões.
Por outro lado, transformações nas condições para o desenvolvimento agricultura – como a presença de temporadas de calor extremo, aumento da demanda por água e da incidência dos eventos climáticos extremos – afetarão a disponibilidade e o preço dos alimentos, especialmente em regiões mais vulneráveis, nas quais a desnutrição infantil já é uma ameaça.
Existem evidências de menor quantidades de proteína, ferro e zinco em plantações cultivadas em ambientes com mais CO², o que também impacta potencialmente a nutrição infantil.
O aumento no nível do mar, a redução da diversidade biológica na agricultura financeiramente viável, escassez de recursos hídricos, fome, imigrações em massa, redução da estabilidade global e potenciais aumentos de conflitos violentos estão entre os efeitos terciários das mudanças climáticas.
Tais alterações serão sentidas com mais força nas comunidades que já estão em desvantagens socioeconômicas, uma vez que o desenvolvimento biológico e cognitivo em crianças está ligado a um contexto de maior estabilidade nas famílias, na escola e nas comunidades.
Diante do quadro, alerta o relatório, falhar em agir rapidamente e de maneira efetiva será “uma injustiça com todas as crianças”.
(Carta Capital/ #Envolverde/Utopia Sustentável)

sexta-feira, 21 de março de 2014

Sobre crianças e mentes colonizadas





criancas Sobre crianças e mentes colonizadas


Ao formar consumidores precoces, publicidade infantil inibe outras maneiras de socialização e sugere: relações humanas precisam ser validadas por mercadorias…
No dia 15 de março comemorou-se o Dia Internacional dos Direitos do Consumidor. Nessa mesma data, em 1962, o então presidente dos EUA, John F. Kennedy, enviou uma mensagem ao congresso norte-americano chamando atenção da sociedade para garantias básicas, até então pouco conhecidas e negligenciadas como o direito de proteção contra propagandas e embalagens fraudulentas, o direito de escolha e informação frente aos produtos e o direito de ser ouvido.
Ao formar consumidores precoces, publicidade infantil inibe outras maneiras de socialização e sugere: relações humanas precisam ser validadas por mercadorias…
No dia 15 de março comemorou-se o Dia Internacional dos Direitos do Consumidor. Nessa mesma data, em 1962, o então presidente dos EUA, John F. Kennedy, enviou uma mensagem ao congresso norte-americano chamando atenção da sociedade para garantias básicas, até então pouco conhecidas e negligenciadas como o direito de proteção contra propagandas e embalagens fraudulentas, o direito de escolha e informação frente aos produtos e o direito de ser ouvido.
A mensagem deixava evidente a urgência da questão. Porém, a primeira comemoração da data se deu em 1983, e foi somente dois anos depois que a ONU reconheceu os direitos dos consumidores, legitimando internacionalmente a causa. Já no Brasil, o Código de Defesa do Consumidor, um dos mais completos e ousados do mundo, entrou em vigência em 1990, dois anos após a promulgação da atual Constituição Federal, e pode ser visto como resposta do poder público aos anseios da sociedade civil em relação aos avanços desgovernados da sociedade de consumo.
Curiosamente, é também dos anos 90 que muitos autores datam a crise conceitual da infância, pois foi quando as crianças, historicamente vistas e tratadas como um vir a ser que precisavam ser preparadas para o mundo adulto, foram elevadas pelo mercado ao status de consumidoras – antes mesmo de poderem exercer plenamente sua cidadania. Tidas até então como filhas de cliente, as crianças passaram a ser consideradas como consumidoras finais, tornando-se um alvo importante do mercado de consumo de produtos e serviços – um potencial nicho comercial.
Foi nesse contexto que a publicidade dirigida às crianças entrou em cena com grande força. Passou a endereçar ao público infantil mensagens de apelo ao consumo, que se aproveitam da vulnerabilidade infantil para vender. Tornou-se, segundo pesquisa da Intersciense, de 2003, a principal influência de compras dos produtos infantis com embalagens e personagens famosos. Hoje, contudo, a publicidade não endereça às crianças somente mensagens de produtos infantis, mas também de objetos adultos. Isso deve-se ao fato deste público estar sendo encarado pelo mercado como porta de entrada para a influência nos hábitos de consumo de toda a família.
Dados mundiais a esse respeito apontam que a influência das crianças nas compras realizadas pela família chega a 80% em relação a tudo o que é consumido, inclusive em relação a bens e serviços de interesse exclusivo dos adultos, como, por exemplo, marcas de automóvel, imóveis, produtos de limpeza etc. No Brasil, só a moda infanto-juvenil movimenta a soma anual de R$10 bilhões, o que corresponde a um terço de toda a roupa consumida no país.
A partir desses dados podemos dizer que o mercado enxergou nas crianças uma rentável fonte de lucros, já que quanto mais cedo você fideliza a criança a uma marca, mais chances tem dela ser fiel à mesma do berço ao túmulo, como dizem os publicitários. Assim, aproveitando-se da fragilidade e vulnerabilidade infantil, o mercado passou, então, não somente a atrair os olhares das crianças, como a dirigir-se diretamente a elas com peças publicitárias feitas “sob medida”.
Não foi à toa, portanto, que o Código de Defesa do Consumidor Brasileiro previu proteger as crianças de apelos de consumo, instituindo no Art. 37: “É proibida toda publicidade enganosa ou abusiva (…)”, e explicando no seu parágrafo§2º que “É abusiva, dentre outras, a publicidade discriminatória de qualquer natureza, a que incite à violência, explore o medo ou a superstição, se aproveite da deficiência de julgamento e experiência da criança, desrespeite valores ambientais, ou que seja capaz de induzir o consumidor a se comportar de forma prejudicial ou perigosa à sua saúde ou segurança. (…)”.
As crianças são convidadas pela publicidade – que lhes é ilegalmente dirigida – a ingressar cada vez mais cedo no complexo mundo adulto do consumo. A lógica do consumo domina as relações infantis e acaba restringindo a criatividade e as trocas afetivas das crianças, além de queimar etapas importantíssimas do seu desenvolvimento.
A criança será, em função do tempo em que vivemos, uma consumidora no futuro. Logo, além de protegê-la legalmente da comunicação mercadológica, como já fizeram 28 países do mundo, incluindo os dez com melhor qualidade de vida –,precisamos prepará-la para que seja uma cidadã e consumidora consciente e responsável. Isso é feito com Educação, principal ferramenta no processo de transformação social. Lembre-se: educar, assim como consumir, é um ato político.
Precisamos começar a educar nossas crianças para que tenham responsabilidade ao comprar. O direito à educação para um consumo consciente é não só um desafio, como também a solução para os problemas morais e ambientais de nossos tempos.
O principal direito das crianças é o direito à infância. Pensemos no direito de escolha e de proteção de nossas crianças frente ao bombardeio publicitário que as convida a tornar-se adultas antes do tempo. Elas são o prefácio para um mundo mais ético e sustentável, e têm nas mãos o poder de reinventar as relações de consumo. Tudo depende de vontade política e atuação conjunta em duas frentes: regulação e educação.
Lais Fontenelle Pereira, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-Rio e autora de livros infantis, é especialista no tema Criança, Consumo e Mídia. Ativista pelos direitos da criança frente às relações de consumo, é consultora do Instituto Alana, onde coordenou durante 6 anos as áreas de Educação e Pesquisa do Projeto Criança e Consumo.
** Publicado originalmente no site Outras Palavras.

domingo, 2 de março de 2014

ONU: Fora da escola não pode





unicef1 275x300 ONU: Fora da escola não pode!
Em 2010, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e o Instituto de Estatística da UNESCO (UIS) deram início à Iniciativa Global Out of School Children (OOSC).
No Brasil, o projeto é desenvolvido em parceria com a Campanha Nacional pelo Direito à Educação. Além do relatório Todas as Crianças na Escola em 2015, a iniciativa inclui a mobilização Fora da Escola Não Pode!
O desafio do País é grande. Uma análise feita pelo UNICEF e a Campanha Nacional pelo Direito à Educação mostrou que, segundo a Pesquisa por Amostragem de Domicílios (PNAD) de 2012, mais de 3,3 milhões de crianças e adolescentes entre 4 e 17 anos de idade estão fora da escola no Brasil. Desse total, 1,2 milhão têm 4 e 5 anos; 507 mil, de 6 a 14 anos; e mais de 1,6 milhão têm entre 15 e 17 anos.
Os indicadores mostram que as crianças e os adolescentes mais vulneráveis à exclusão escolar são os negros e os indígenas, os com deficiência, os que vivem na zona rural, no Semiárido, na Amazônia e na periferia dos grandes centros urbanos.
Para que o Brasil possa garantir a cada criança e adolescente o direito de aprender, é necessário voltar a nossa atenção para os meninos e as meninas que estão fora da escola. E também àqueles que, dentro da escola, têm os riscos de abandono e evasão aumentados devido a fatores e vulnerabilidades diversos, como a discriminação e o trabalho infantil.
A exclusão escolar é um fenômeno complexo e a sua superação requer mais do que boa vontade. É preciso que o Estado cumpra o seu dever constitucional e que haja a participação e o compromisso de toda a sociedade e de cada um de nós para garantir o acesso, a permanência, a aprendizagem e a conclusão da educação básica na idade certa.
unicef2 ONU: Fora da escola não pode!
Saiba mais sobre a campanha em http://bit.ly/ForadaEscolaNAO
* Publicado originalmente no site ONU Brasil.