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sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Novos caminhos para as cidades



Com muitas cidades do País às voltas com inundações, com boa parte do Nordeste, do Centro-Oeste e até do Sudeste enfrentando secas inéditas, com a cidade e a região de Manaus mergulhadas na fumaça de queimadas, não têm faltado alertas: são muitos cientistas a nos advertir que nossas cidades têm crescido “de costas para as águas”. Porque, como diz o professor Antônio Eduardo Giansante, engenheiro hídrico da Universidade Presbiteriana Mackenzie (Rodrigo Freitas, 9/9), queríamos distância por causa de inundações e doenças; “impermeabilizamos o solo, diminuindo a infiltração da água e a perenização dos rios”. No fim das contas, na estiagem “menos água e mais poluída pela falta de coleta de esgotos” e da própria água para diluí-los. Por outro ângulo, a água chega rapidamente aos rios, não recarrega o lençol subterrâneo, aumenta as inundações. E falta no abastecimento. Se não bastasse, “falta preparo ao poder público no enfrentamento de emergências climáticas” – cada vez mais frequentes.
Não é só. A socióloga holandesa Saskia Sassen critica a verticalização dos espaços, a eliminação das praças e adverte para a “desertificação das cidades”, em consequência de grandes projetos que prejudicam o ambiente e a urbanização (Folha de S.Paulo, 17/8). Para ela, os governos não demonstram ter força diante de interesses privados. Por isso as cidades serão cada vez mais megaprojetos com grande densidade vertical, mas que “desurbanizam o espaço”, eliminam pequenas ruas e praças, “deixando também as cidades vazias”.
Em meio a tudo isso, há vozes esperançosas. O arquiteto Ronaldo Tonobohn, superintendente de Planejamento e Projetos da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), pensa que a Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) “vive uma grande oportunidade de desenvolver projetos integrados, devida à relação de interdependência dos aglomerados. Não adianta ser o maior centro financeiro do País, com parque industrial e uma enorme troca de bens e de moradores, devida aos deslocamentos, se não melhorar essa rede de comunicação e de transporte” (imprensametodista, 2/10). E ainda lembra que a RMSP tem 39 cidades, 21 milhões de pessoas e 43,7 milhões de viagens por dia. Se não se articularem políticas setoriais para transporte, habitação e drenagem, não haverá escapatórias. Mas “não precisa tornar o carro um vilão. É possível um convívio saudável entre todos os modais, mediante integração”. Até porque só 31% dos 3 milhões de moradores do ABC usam ônibus, 34% têm veículo individual motorizado e 31% se deslocam a pé.
A complexidade multidirecional leva um leitor deste jornal, José Antônio Rossi, a escrever (12/8) que tem duas sugestões “para reduzir os acidentes nas ruas de São Paulo: eliminar os veículos ou os pedestres. Haddad decide”. Talvez se tenha inspirado também no projeto que Haddad enviou à Câmara e tem suscitado críticas fortes (Estado, 30/8 e 2/9) por permitir a privatização de espaços públicos, que poderão tornar-se privados, com o fechamento de ruas.
A geógrafa Luci Hidalgo, que se dedica ao estudo de desastres naturais e seus impactos no meio urbano, principalmente na América do Sul, acentua (comunitexto, 28/9) o paradoxo de “pensarmos que, ao mesmo tempo que desenvolvemos ao máximo tecnologias que nos permitem conhecimento, capacidade de previsão e de atuação em casos extremos, também chegamos a nível sem precedentes de desastres”. Para ela, o processo de urbanização disperso, com periferias populosas e grandes fluxos de deslocamento e locomoção, aumentando os riscos, gera também outras questões. Temos menos árvores nas cidades, menos capacidade de infiltração da água no solo por causa do asfaltamento. “Isso tudo mostra que a intensidade das catástrofes se liga a esses fatores”.
A ONG britânica InfluenceMap (Eco-finanças, 21/9) analisou a atuação das cem maiores empresas do mundo e de 30 associações de classe sobre o clima. E afirma que 45% das empresas de grandes corporações de capital aberto “obstruem avanços, seja por meio de lobbies, seja por mensagens de publicidade e relações públicas no sentido contrário ao da promoção de medidas de mitigação”. E isso se dá “seja pelo uso de influenciadores para transmitir essas mensagens, seja pelo financiamento direto a políticos e grupos que negam as mudanças do clima”.
Nesta hora em que 1.400 municípios brasileiros já decretaram emergência ou calamidade pública por causa de eventos climáticos extremos neste ano, está em avaliação pública (Observatório do Clima, 13/10) um Plano Nacional de Adaptação à Mudança do Clima. O documento dá diretrizes gerais para que 11 setores se preparem para as mudanças: agricultura, cidades e desenvolvimento urbano, ecossistemas e biodiversidade, gestão de risco de desastres naturais, indústria e mineração, infraestrutura, povos e populações vulneráveis, recursos hídricos, saúde, segurança alimentar e zonas costeiras.
São questões vitais. No último dia 14, neste jornal, texto assinado por Fábio Grellet assinala que o II Relatório de Avaliação sobre Mudanças Climáticas nas Cidades, preparado pela Rede de Pesquisas sobre Mudanças Climáticas Urbanas, será apresentado na XXI Conferência das Partes (COP-21), a partir de 30 de novembro. E 150 cientistas preveem ali que a temperatura média na capital paulista aumentará de 0,80 a 1,1 grau Celsius durante a década de 2020, de 1,5 a 2,3 graus na década de 2050 e de 2 a 3,8 graus na de 2080. No Rio de Janeiro a temperatura (mais 0,8 a 3,4 graus até 2080) e o nível do mar (de 7 a 82 centímetros no mesmo período) também aumentarão.
A partir dessas informações se pretende orientar o público sobre mudanças em projetos públicos, que “poderão melhorar a vida das pessoas”, além da criação de telhados brancos e a arborização de prédios. Já há instituições criando pequenos bosques e trilhas em cemitérios paulistas. (O Estado de S. Paulo/ #Envolverde/Utopia Sustentável)

terça-feira, 28 de outubro de 2014

O futuro das grandes cidades, mantido o rumo atual, não tem nada de otimista




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Quando discutimos a cidade, “é da vida, do tempo perdido, mas também da morte, literalmente, que estamos tratando”, critica Ermínia Maricato, professora titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP). Foto: shutterstock

“É a questão urbana, estúpido!”, foi o título do artigo que Ermínia Maricato, professora titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), entregou para a compilação de artigos “Cidades Rebeldes”, publicada na ressaca de junho de 2013 pela Boitempo Editorial. A escolha do título, uma paródia da frase do publicitário político americano James Carville, revela o tom adotado por Maricato para se fazer escutar: crítica, certeira e bem-humorada.
Durante sua fala no Simpósio Urbanismo Ecológico, organizado pela Harvard School of Design, no Centro Cultural Vergueiro, no dia último dia 14, a urbanista criticou a gestão das cidades e seus recursos nos últimos anos e apontou cenários nada animadores.
Indignada com a falta de água em São Paulo e com a divisão entre a “a cidade que não importa” e a “cidade especulativa e rentista”, Maricato voltou a sua tese de que uma Reforma Política ampla é essencial para pensarmos um novo modelo de cidade. Afinal, entre os maiores financiadores de campanha estão as empreiteiras e construtoras, que depois “irão cobrar favores”.
A proeminência da questão urbana, jogada em segundo plano nas eleições é, para ela, algo lamentável. Quando discutimos a cidade, “é da vida, do tempo perdido, mas também da morte, literalmente, que estamos tratando”. Após sua palestra, o Portal Aprendiz conversou com a urbanista.
Portal Aprendiz: Você fez uma fala bem pessimista…
Ermínia Maricato: Sim, mas no final eu fui até otimista.
Portal Aprendiz: É verdade, mas qual é a sua visão a respeito do futuro das grandes cidades brasileiras?
Ermínia: O futuro das cidades brasileiras, especialmente das metrópoles, mantido o atual rumo não tem nada para alimentar o otimismo. O que nós tivemos foram mais de duas décadas sem investimentos – por conta da ideologia neoliberal e pela crise fiscal no Brasil. Quando o investimento vem, como na primeira década desse século, ele chegou na habitação, saneamento e transporte, mas tivemos um assalto dos capitais sobre a cidade.
Mas que assalto é esse? Em primeiro lugar, o setor imobiliário e de construção de infraestrutura, que estão muito ligados ao financiamento de campanhas eleitorais. E isso não só na esfera federal, mas também no plano municipal. Nós sabemos que a bancada do setor imobiliário é muito forte no Congresso Nacional, uma das maiores. Em segundo lugar, crescer as taxas de emprego infelizmente significa apoiar a indústria automobilística. No mundo inteiro, com exceção da Dinamarca, é assim. E no Brasil isso significou uma tragédia para as cidades.
Nós somamos e acumulamos obras inadequadas, rodoviaristas, desnecessárias e superfaturadas. O resultado? Hoje temos o dobro da quantidade de automóveis nas ruas que tínhamos há dez anos. E tudo isso sem a reforma fundiária que está prevista na legislação brasileira. O mais incrível é que o Estatuto da Cidade, a Constituição de 1988 e toda legislação federal que conquistamos recentemente são desconhecidas pelo judiciário.
Não fosse junho de 2013 eu estaria muito pessimista com o futuro das cidades. E é preciso lembrar para quem culpa a Dilma por tudo que a questão metropolitana é de responsabilidade estadual e a questão urbana – uso do solo, transporte, saneamento – é municipal. É uma questão federativa e estamos órfãos de pai e mãe.
Portal Aprendiz: E o Plano Diretor Estratégico (PDE) de São Paulo mencionado por você. Ele pode ser considerado um ponto de inflexão, uma garantia de regulação?
Ermínia: O PDE não garante nada, ele é uma ajuda, mas não é suficiente. Lei nesse país não significa conquista definitiva. O que precisamos é que ele seja implementado. Como esse foi conquistado com mobilização social – e eu falo tranquilamente que temos em São Paulo um governo honesto e bem intencionado -, temos alguma chance de fazer algo na cidade. Não é a única via, mas temos uma chance de melhorar a vida de uma cidade muito, muito, muito prejudicada.
Portal Aprendiz: E como São Paulo vai sobreviver à questão da falta d’água?
Maricato: A nossa mídia está agindo contra o interesse público – disso não resta a menor dúvida. Ela está desinformando a população e isso pode virar uma tragédia de proporções inimagináveis. O que me assusta é que a sociedade não está sendo informada sobre o que está acontecendo com os recursos hídricos e só sente quando a água falta na torneira, o que acontece sempre primeiro na periferia. Mas agora essa realidade está chegando no centro e nos bairros ricos. A população é tratada como idiota e é totalmente manipulada pela falta de informações. Ninguém sabe o que fazer. Publicado originalmente no site Portal Aprendiz.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

As empresas, a bicicleta e a cidade




bikecidade As empresas, a bicicleta e a cidade
Foto: www.facebook.com/ciclovidas
Empresas, pessoas e o meio ambiente são diretamente afetados pela forma como escolhemos nos mover pela cidade. O crescimento econômico e a qualidade de vida da cidade estão intimamente ligados a um sistema de transporte limpo e eficiente, que traz benefícios para todos.
As empresas podem contribuir muito para a qualidade de vida na cidade e a saúde das pessoas. Adotar uma política que contemple a utilização de meios de transporte limpos e sustentáveis nos deslocamentos diários é um grande desafio das metrópoles da atualidade.
É preciso que os setores empresariais comecem um processo de engajamento quanto aos benefícios do uso da bicicleta nas empresas. Melhorar o trânsito, reduzir a poluição e buscar qualidade de vida dependem de ações conjuntas de governo, empresas e cidadãos.
No mês passado, começamos a contribuir com esse processo de engajamento, reunido as principais entidades empresariais do estado para dialogar com os baianos sobre como as empresas podem estimular o uso da bicicleta no dia a dia da organização.
Estamos convencidos que inserir a bicicleta na política de transporte das empresas é o tipo de investimento certo, que motiva um ambiente de trabalho saudável e demonstra maior responsabilidade social, financeira e corporativa.
O prefeito ACM Neto estabeleceu uma meta ambiciosa de prover a cidade com 350 quilômetros de circuitos cicloviários até o final de 2016. Estamos avançando, criando novos espaços para os ciclistas e, ao mesmo tempo, iniciamos um processo consistente de estímulo ao uso da bicicleta em nossa cidade por meio do Movimento Salvador Vai de Bike, além de forte atuação em ações de educação e conscientização, usando todas as plataformas de comunicação (rádio, jornal, internet, redes sociais e digitais, mobiliário urbano, outdoors, materiais gráficos promocionais).
Esse é um processo importante, pois, mesmo com toda infraestrutura que está sendo criada, é necessário uma ampla conscientização de todos para compartilhamento das vias entre motoristas e ciclistas. A bicicleta é um veículo e, pelo Código de Trânsito Brasileiro (CTB), pode circular livremente pelas ruas e estradas, assim como carros e motos.
Muitos dirigentes empresariais já estão conscientes que investir no bem-estar dos funcionários traz benefícios diretos para as empresas e também ganhos reais para as organizações que adotam ou estimulam as bicicletas como parte da sua cadeia de transporte e logística.
As empresas podem apoiar o uso da bicicleta de diversas maneiras, como, por exemplo, instalando ou melhorando os estacionamentos e vestiários, adotando horários flexíveis, concedendo empréstimos para compra de bicicletas e disponibilizando uma frota de bikes.
Há, inclusive, pesquisas demonstrando que, em muitos casos, é mais rápido e eficiente usar a bicicleta para percorrer distâncias curtas, atender clientes, fazer entregas. O desafio de transformar a nossa cidade para melhor é de todos, e o uso da bicicleta tem um papel importante nessa jornada. Acreditamos que está na hora de as empresas também começarem a pedalar por esses caminhos.
* Isaac Edington é secretário de Projetos Especiais da Prefeitura de Salvador, coordenador do Movimento Salvador Vai de Bike, diretor presidente do Instituto EcoDesenvolvimento e publisher do portal EcoD. Artigo publicado originalmente no jornal A Tarde de 21 de outubro de 2014. site EcoD.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Cidades brasileiras chegam a perder 70% da água por falhas na distribuição





Em tempos escassez de água, o Instituto Trata Brasil divulgou um estudo mostrando que as cidades brasileiras chegam a desperdiçar mais de 70% do recurso por problemas na distribuição. A análise considerou a situação dos cem maiores municípios durante o período de 2010 a 2012.
A pesquisa, apresentada nesta quarta-feira (27), mostrou que os investimentos na melhoria dos sistemas, comparados aos dois anos anteriores foram inferiores a 20% ou nulos. A cidade com o pior índice foi a capital de Rondônia, Porto Velho, com perdas de 70,68% da água durante a fase de distribuição. Na sequência vem outra capital, Macapá, que perdeu 69,44%.
De acordo com o Instituto, o desperdício registrado ocorre em função de vazamentos, roubos, gatos, falta ou erros nas medições e outras irregularidades. A responsabilidade pelos investimentos e melhorias dos sistemas é das próprias companhias que gerem o saneamento nas cidades, mas a evolução tem sido muito lenta.
A média nacional de perdas de água foi de 36,9%. Nas dez cidades com os piores índices de saneamento apontadas pelo ranking, a média foi de 56,2%, enquanto as 20 melhores cidades ficaram em 27,9%. Apenas quatro municípios analisados conseguiram manter os índices abaixo dos 15%. A cidade com o melhor desempenho foi Florianópolis, que perdeu apenas 5,66% da água durante a fase de distribuição. São Paulo perdeu 36,30% e o Rio de Janeiro, 54,81%.
Além de prejudicar o meio ambiente, a falta de estrutura nas cidades brasileiras gera uma perda monetária muito grande. Em entrevista ao G1, a Companhia de Água e Esgoto do Amapá (Caesa) informou que a perda no faturamento é de R$ 2,5 milhões mensais, em consequência do desperdício e do roubo de água.Redação CicloVivo

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Novo urbanismo: cidades para pessoas em vez de carros




semaforos 300x199 Novo urbanismo: cidades para pessoas em vez de carros
Foto: http://www.fmerablog.com.br/exposicao-cidade-para-pessoas/
Dominada pelas imposições dos carros, a urbanização moderna levou à construção de cidades segregadas, insustentáveis. Esse modelo agora dá lugar ao chamado Novo Urbanismo
O futuro é urbano. Até aí nós sabemos. Mais da metade da humanidade hoje vive em cidades, e essa proporção está aumentando à medida que o campo se esvazia. Isso é uma boa notícia para o planeta?
As cidades são responsáveis por dois terços das emissões globais de gases de efeito estufa. Elas consomem enormes quantidades de energia e água, esgotam o solo, derrubam florestas e atuam como ímã, atraindo indústrias e automóveis que poluem.
Por outro lado, a concentração de grande número de pessoas em um espaço compacto significa que se pode fornecer eletricidade, água, alimento e transporte de maneira mais eficiente e com menos desperdício. Trabalho, moradia, escola e serviços estão mais próximos.
Nos Estados Unidos, a pegada de carbono dos nova-iorquinos é a metade da pegada dos moradores de Denver, e isso se deve, em parte, à maior densidade populacional de Nova Iorque. Os habitantes de Denver moram em grandes casas de subúrbio e precisam de carro para ir a toda parte, enquanto os moradores de Manhattan vivem em apartamentos e podem andar de metrô ou a pé.
Portanto, o impacto ambiental de uma cidade depende de seu tipo de urbanização.
A dimensão humana
Uma cidade é projetada para os carros ou para as pessoas? Ela cresce para cima, como Nova Iorque, ou se espalha horizontalmente, como Denver?
O Novo Urbanismo, um movimento informal de arquitetos, projetistas e planejadores que tem florescido desde os anos 1990, responde a essas perguntas fundamentais sobre a vida urbana por meio da promoção dos seguintes princípios:
- cidades compactas e de alta densidade;
- “caminhabilidade”;
- trânsito de massa;
- uso misto do solo.
À luz desses princípios, as cidades seriam redesenhadas em função das dimensões, dos movimentos e das necessidades do corpo humano, em vez de serem projetadas em função do automóvel, o qual requer muito mais espaço e combustível. Os carros também encorajam a expansão urbana, exigindo muitos quilômetros de tubulações, fiações e demais infraestruturas, além de moradias superdimensionadas.
Os centros das cidades se tornariam mais densamente ocupados, combinando áreas residenciais, comerciais e de escritórios, de modo que as pessoas pudessem se locomover facilmente entre elas a pé ou usando transporte público. Novas regras de zoneamento podem ser utilizadas para possibilitar que as pessoas vivam, trabalhem e se divirtam com maior proximidade entre si. Assim, o centro da cidade deixaria de ser um local-fantasma após o anoitecer.
Os edifícios seriam mais altos e as casas seriam substituídas por prédios de apartamentos que poderiam abrigar na cobertura jardins e restaurantes, escritórios e até mesmo estufas para agricultura verticalizada. Edifícios multiúso desse tipo já são a marca registrada de cidades asiáticas avançadas, como Tóquio ou Seul.
A malha viária e de estacionamentos poderia ser reduzida, dando espaço para parques e chácaras urbanas. O transporte público seria a melhor maneira para se deslocar, como ocorre em Manhattan ou Tóquio.
Muitas cidades europeias construídas na época medieval já têm esse princípio incorporado ao seu tecido urbano e procuraram preservar esse legado.
Outras, no entanto, adotaram a cultura automobilística, o que resultou nos engarrafamentos diários que os londrinos, por exemplo, têm de aguentar. Ao imitar os Estados Unidos, os britânicos se esqueceram de que vivem em uma ilha pequena e populosa, e não em uma vasta área continental.
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Foto: http://www.shutterstock.com/
Cidades mudam de marcha
Apesar de tudo, os erros do passado podem ser corrigidos. A tributação pode conter o uso dos carros e promover o transporte público, conforme o pedágio urbano em Londres comprovou.
A comunidade alemã de Vauban foi muito mais além e baniu os carros – as pessoas andam de bicicleta ou viajam de bonde até a cidade vizinha de Freiburg. Avenidas asfaltadas e os estacionamentos foram substituídos por gramados e canteiros de flores, e as crianças brincam nas ruas.
Jaime Lerner, ex-prefeito de Curitiba e ganhador do Prêmio Ambiental das Nações Unidas, afirma que leva apenas três anos para transformar uma cidade para melhor, se houver vontade política.
Lerner é famoso por reestruturar o sistema de transporte de Curitiba, introduzindo um sistema de ônibus de circulação rápida que começou em 1974 com 25 mil passageiros por dia e hoje transporta 2,2 milhões de passageiros diariamente. A população da cidade duplicou desde 1974, mas o tráfego de carros diminuiu 30%.
“A cidade não é um problema, e sim uma solução de mudança climática”‘, diz Lerner em uma apresentação durante uma conferência anual do TED (Tecnologia, Entretenimento e Design). “Porém, não basta construir prédios ecológicos, usar novos materiais e novas fontes de energia. É preciso também inovar o conceito de projeto da cidade.”
O arquiteto dinamarquês Jan Gehl, consultor de projeto urbanístico para as cidades de Londres e Sydney, amplia essa visão em uma entrevista concedida à BBC, em que ele começa apontando onde é que os planejadores erraram:
“Os planejadores olhavam de cima os modelos em escala das cidades. O que faltou foi uma visão do ambiente na altura dos olhos.” Na prática, isso resultou num projeto muito mais adequado a uma máquina urbana do que a um habitat humano.
“Eu gostaria que as pessoas fossem tão visíveis para os planejadores quanto foram os carros nos últimos 50 anos,” diz Gehl. “Todas as cidades têm um departamento de trânsito para contar carros, mas nenhuma cidade que eu conheça tem um departamento de pedestres.”
Gehl explicou como Copenhague deu o primeiro passo. Calçadões de pedestres ampliados cruzam as esquinas, diluindo os limites entre áreas de trânsito e áreas para pedestres. Estudos mostram que esse tipo de ‘espaço compartilhado’ faz os motoristas diminuírem a velocidade, e isso aumenta a segurança no trânsito. O resultado é descrito pelo próprio Gehl: “Minha neta de sete anos pode ir andando sozinha para a escola sem ter de cruzar nenhuma rua”.
Uma cidade mais “caminhável” também será uma cidade mais ecologicamente correta.
Existem mil coisas que as cidades podem fazer para reduzir o impacto climático: construções ecoamigáveis, reciclagem de água e lixo, sistemas de aquecimento distritais, iniciativas pró-energia renovável, redes inteligentes que permitem a geração e a distribuição local de energia – e todas essas coisas são muito importantes.
As chamadas ecocidades oferecem visões utópicas ao incorporarem muitas dessas inovações, porém as tão faladas cidades de Masdar, em Abu Dhabi, e Dongtan, na China, por enquanto só existem no papel.
O Novo Urbanismo nos desafia a repensar as cidades existentes e a redefinir para que serve, na verdade, uma cidade ou um carro. Jaime Lerner resumiu a questão de forma bem-humorada: “Carro é como sogra: você precisa manter um bom relacionamento com ela, mas ela não pode controlar a sua vida. Quando a única mulher na sua vida é a sogra, você está com problema”.
* Publicado originalmente no site Allianz e retirado do site Mobilize Brasil.