Mostrando postagens com marcador poder. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador poder. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 1 de novembro de 2016

“Não é o voto que vai evitar uma catástrofe maior, a catástrofe já está posta”: a professora Camila Jourdan fala ao DCM.

Reproduzimos, abaixo, excelente entrevista da professora da UERJ e doutora em filosofia, Camila Jourdan ao DCM.





Camila Jourdan
Abstenções, votos brancos e nulos, somados, superaram o 1º colocado nas eleições para prefeitura em dez capitais. Em São Paulo, quase 40% das pessoas que poderiam votar não escolheram nenhum candidato. Ao todo, 3.096.304, enquanto João Dória foi eleito com 3.085.187 votos. Já no segundo turno no Rio de Janeiro, entre Marcelo Freixo (PSOL) e Marcelo Crivella (PRB), as últimas pesquisas apontam que mais de 20% pretendiam anular ou votar em branco.
Camila Jourdan, doutora em Filosofia e professora na UERJ, é uma delas, e explica nessa entrevista sua opção.
Camila estava entre os 23 ativistas presos às vésperas da final da Copa do Mundo de 2014, no curso das tentativas de criminalização das Jornadas de Junho. Acusada por possíveis futuros atentados que nunca aconteceram, com base em um inquérito que também incriminava o filósofo russo Mikhail Bakunin (1814-1876), Camila considera o processo literatura fantástica de má qualidade.
Abaixo a entrevista:
Há quantas eleições você não vota e por quê?
Como sou anarquista desde muito jovem, meu posicionamento sempre foi o voto nulo.
Admito que na primeira eleição que o Lula venceu, eu também votei nele, não que tivesse deixado de acreditar no mesmo que ainda acredito hoje, mas como não estava muito ativa politicamente naquele momento, achei na época que era o máximo que podia fazer. Eu não me decepcionei totalmente, pois já sabia das limitações da via institucional.
Mais importante do que o ‘não vote’ é, sem dúvida alguma, o lute, o organize-se. Os anarquistas defendem o ‘não voto’ ou o voto nulo como ação política refletida, é uma consideração sobre a impossibilidade da via institucional trazer as mudanças que buscamos e, ao mesmo tempo, sobre o equívoco envolvido no peso que se coloca nesta disputa. Porque a eleição canaliza as vias de ações políticas concretas e faz parecer que a participação política democrática se resume a votar. Esta canalização é extremamente nociva.
Se pensarmos o que houve nas últimas décadas no país, veremos que a chegada de um partido de esquerda ao poder não fortaleceu a esquerda, mas a fez recuar nos espaços de luta concreta e organização. Foi isso que ocorreu com o MST, por exemplo, que recuou a luta no campo com o PT ocupando a presidência. Foi isso que ocorreu também recentemente com as greves da educação em 2016, que foram entregues para que os partidos que aparelham os sindicatos pudessem se dedicar melhor à campanha eleitoral. E estou dizendo isso para citar dois exemplos apenas.
O que ocorre no geral com as eleições é uma inversão dos meios pelos fins, ganhar a disputa se torna um fim em si, e, com isso, se perde aquilo que é de fato importante, tentando alcançar o poder, quase sem se notar que este mesmo poder, nos moldes em que se encontra, é incapaz de gerar as mudanças estruturais que desejamos e que só poderá ser usado em favor das classes e elites dominantes. Então, para alcançar o poder, pela disputa, o partido, o candidato de esquerda se transforma naquilo mesmo que pretendia combater, não por um problema de princípios particularmente deste ou daquele, mas uma questão estrutural.
O que aconteceu com o PT não é próprio ao PT, é inevitável, é meio fatalista dizer isso, mas basta fazer as contas, o PSOL de hoje é o PT de amanhã. E esta história eleitoral se repetirá assim indefinidamente. Estes partidos canalizam um “nicho de mercado”, eleição é mercado, é sociedade de consumo dominando a atuação política e tornando-a controlável, vendível. Vence quem é vendível, e o que é vendível já está dentro da lógica dominante. É preciso notar ainda que o discurso eleitoral tem que ser um discurso de apaziguamento de classes porque se trata de ganhar a opinião pública tal como aí está, com todo o senso comum manipulado pela discurso dominante, e eleição não é formadora, não é educativa, não é “trabalho de base”, o político não educa o eleitorado, ele quer ganhá-lo com todos os seus preconceitos, quer convencê-lo, quer se vender como um produto no mercado. Para isso, ele vai necessariamente recuar. O medo de perder voto faz com que os candidatos sejam nivelados com poucas diferenças, o que difere é só uma imagem superficial, jamais a prática concreta que é determinada por outros fatores. O próprio discurso vai sendo esvaziado, até que os candidatos todos se parecem, porque eles querem agradar o mesmo público, devem, portanto, parecer inócuos e, acima de tudo, para governar, precisam fazer alianças e responder aos que realmente controlam as instituições, não ao povo.
Em algum momento pode ser necessário votar para tentar evitar o pior? Digamos Donald Trump, fanáticos religiosos…
Eu realmente entendo quem tem este medo, é um equívoco fácil de se cometer. Creio que esta ideia se deriva em máximo grau ainda do peso que as pessoas colocam no processo eleitoral e na via institucional. Mas existem lutas concretas acontecendo todos os dias, a troca de políticos ocupando cargos e o parlamento não é toda a vida política de uma sociedade, e não é o mais importante, fundamentalmente não é o que faz a diferença, não foi por meio disso que algum direito foi conquistado, nenhum salvador deu algum direito de presente ao povo, esta é uma ilusão muito nociva.
Ao lado disso, há o discurso do medo, temos que votar em tal candidato porque de outro modo algo terrível vai acontecer, este discurso é feito pelos dois lados, ‘tenham medo’, ‘votem em alguém para evitar uma catástrofe’. ‘Tenham medo, escolham um senhor para proteção’. Ora, as coisas já estão péssimas, muito terríveis mesmo. Não é o voto que vai evitar uma catástrofe maior, a catástrofe está posta, ela é a fase atual do capitalismo.
A descrença na democracia representativa por parte da esquerda não contribui para que a direita vença nas urnas com mais facilidade?
É a acusação que nós mais sofremos. “Se vocês votassem, nós ganharíamos as eleições.” Nós quem?! E aqui eu gostaria de dizer: “A César o que é de César! Quando vocês ganham as eleições, já não são mais de esquerda”. Sabe aquela famosa citação do Deleuze? “Não existe governo de esquerda porque a esquerda não tem nada a ver com ser governo”? Eles acham que se votássemos, a esquerda ganharia. Nós achamos que se a esquerda institucional deixasse de gastar tanto tempo, energia e dinheiro tentando ganhar e legitimar este processo, se não entregasse todas lutas de base, todas as greves e seus próprios princípios tentando ganhar isso (que já está perdido de saída), e se investisse este tempo, esta energia e este dinheiro na luta concreta e na organização popular, na criação de comunas autônomas, não haveria direita que conseguisse nos governar. Pois é claro que se pode ganhar e não levar, pois as lutas são diárias, são concretas, são nos espaços de base de construção da sociedade. E tanto mais fortes quanto menos institucionais.
Um governo mais à esquerda não pode ajudar a fortalecer a luta social?
Eu acho que pode inclusive enfraquecer, como já ocorreu com o chegada do PT ao poder em vários aspectos, porque a função do PT para as elites era justamente conter as lutas sociais por dentro, levando a luta para algo palatável, aceitável, negociável…
Entendemos o governo como um parasita, você não se mobiliza para ocupar o lugar de um parasita, você se mobiliza para acabar com ele. Isso não significa esperar que piore e achar que ‘quanto pior, melhor’ porque, supostamente, isso poderia levar as pessoas a se revoltarem mais. Isso é um discurso privilegiado, quanto pior, pior mesmo, nossa questão aqui é sobre o que realmente pode fazer melhorar.
Tivemos 14 anos de um governo dito de esquerda e isso não fortaleceu a luta social. O PT foi terrível para a luta no campo, não fez sequer a reforma agrária prometida, foi terrível também para os indígenas, para quilombolas, engessou os sindicatos nos quais tinha inserção, apoiou as UPPs nas favelas, paralisou o MST, criminalizou os movimentos sociais, inclusive assinando a lei anti-terrorismo… Serviu sim para calar os movimentos sociais e colocá-los a serviço de um projeto de manutenção do poder como um fim em si mesmo.
Seria impossível governar contra os interesses do chamado 1%, a favor de 99%?
Vamos pensar como seria isso. Primeiramente esta pessoa teria que se eleger e, portanto, sua campanha teria que ser financiada por quem tem dinheiro, no geral, grandes corporações que investem no processo eleitoral como modo de manterem-se exercendo o poder. Mas, digamos que houvesse um candidato que não fosse assim financiado não sendo engessado pelos mantenedores do sistema. Ainda assim, ele teria que agradar a opinião pública manipulada pelo monopólio dos meios de comunicação que servem à classe dominante. Candidatos de esquerda “paz e amor” jurando respeito à sacrossanta propriedade privada e dizendo que vão “governar para todos” não são acasos. Mas digamos que ele simplesmente não dissesse a verdade e pretendesse, mesmo após se eleger, realmente colocar pouco a pouco em curso uma política contrária aos interesses da classe dominante. Bom, ainda haveriam as alianças, os esquemas, toda a estrutura corrompida na qual ele estaria inserido e em relação a qual precisaria responder e ficaria amarrado. Por outro lado, digamos que ainda assim ele representasse em algum momento uma perda real para os banqueiros e aqueles que detém o grande capital. Houve um momento histórico no qual isso realmente ocorreu. Podemos lembrar aqui de Salvador Allende. Você acredita que eles diriam o quê? “Ah, ok, vamos aceitar nosso prejuízo porque afinal ele foi eleito por um sistema democrático”? Disseram isso para Allende? Óbvio que não, tal personagem imaginário seria deposto ou morto. Não existe real democracia, os donos reais do poder não têm qualquer problema em usar a força e suspender a aparência de Estado democrático sempre que é necessário, usando todos os meios necessários para isso, a exceção é regra na nossa sociedade, a aparência de democracia serve apenas para manter os 99% acreditando que têm real participação política. Votar é legitimar isso, é assinar embaixo desta farsa. A tragédia do PT encena, do particular para o geral, a tragédia da via institucional, ser vendido, corrompido, esvaziado e depois jogado fora por não servir mais aos interesses dominantes. Não precisamos encenar esta tragédia novamente.
Quais ações políticas considera mais importantes que o voto nesse momento?
As ações políticas concretas que considero importantes, mais importantes que o não-voto, são as ações de auto-organização coletivas nas células da sociedade e as ações de mobilização. Isso inclui as ocupações de escolas, as greves levadas pelas bases das categorias, as manifestações de rua, as assembleias de bairro, a criação de espaços autônomos e a criação de redes de apoio mútuo entre estes espaços. Tratam-se de ações que carregam os princípios da sociedade que defendemos, que não esperam que alguém faça por nós, pressionam o governo também, mas pressionam pela ação direta, pelo já fazer e mostrar que outro modo de vida é possível.
Não se trata de esperar a sociedade perfeita, mas pela auto-organização coletiva trazer melhoras para a vida das pessoas aqui e agora, ocupando um prédio e gerando moradia popular, por exemplo, impedindo um aumento das passagens através de manifestações de rua.
Quando eu digo que existe luta todo dia, não estou exagerando, todo dia estão removendo famílias, e existem resistências, todo dia a guarda está proibindo camelô de trabalhar e existem resistências, as favelas estão aí resistindo também, existe muita luta acontecendo na sociedade, no dia a dia, no micro, as pessoas podem atuar a partir dos espaços nos quais estão inseridas, podem ser agentes das resistências, podem ser fomentadores das resistências a partir de baixo, podem ajudar a construir um outro modo de vida sem precisar reproduzir de novo e de novo o espetáculo dos de cima.
E a longo prazo?
Acredito na educação libertária como arma na modificação da sociedade. Claro que não sem a construção de espaços verdadeiramente autônomos e a possibilidade de autogestão na produção e reprodução da vida.
Acredita que a maioria das pessoas não foi votar por estar engajada politicamente de outras maneiras, ou por comodismo e passividade?
Não estão engajadas politicamente, a maioria das pessoas não vota por uma descrença generalizada nos políticos. Esta descrença, embora não seja fundamentada, tem um significado político, vem aumentando e não é apenas um fenômeno brasileiro. Não se trata de uma maioria reacionária manipulada pela televisão. As pessoas em questão têm posições misturadas, não são completamente coerentes, não estão no geral acostumadas a atuar politicamente, mas isso não significa que a insatisfação que possuem seja menos legítima. Também não creio que seja comodidade, votar é mais cômodo do que ter que justificar ou pagar multa. Ocorre que há uma crescente descrença e insatisfação com o sistema representativo, decorrente da sua impossibilidade de promover mudanças reais, o que é facilmente constatado pelas pessoas, principalmente depois da chegada da social-democracia ao poder.
Há tentativas de mandatos representativos coletivos pelo país, como um coletivo anarquista eleito para uma vaga na câmara de vereadores. O que acha da ideia?
Eu não sei detalhes sobre isso, mas toda a ideia soa muito fake, me lembra aquelas mercadorias industriais com um selo de ‘feito à mão’. O que estou querendo dizer é oseguinte: me parece outra tentativa de tragar o que está fora do sistema para mais um objeto de consumo no processo eleitoral. O capitalismo é muito bom nisso, ele mata e depois vende. O que você quiser, o capitalismo pode te vender, menos o que não é vendível. Então, é como se ele procurasse o que pode negá-lo, construísse umfake palatável e vendesse no mercado. E isso é um modo de esvaziar o sentido do que realmente poderia negá-lo. E o mercado pode vender tudo, menos o que nega o mercado – menos a igualdade social, por exemplo. O processo eleitoral, como uma instância do mercado, também é assim. Portanto, tenta tragar de modo espetacular para dentro de si o que o nega e se coloca como fora dele. Mas só pode fazê-lo, claro, por meio de uma fake, por meio de uma imagem espetacular daquilo que o recusa. O que eu gostaria de dizer sobre isso é: nós anarquistas não somos mais uma opção vendível no sistema representativo, não existe gestão coletiva dentro da câmara, isso não é capaz de tornar este sistema menos ilegítimo, somos o totalmente outro deste sistema, não estamos aqui para disputá-lo, estamos aqui para tensionar as suas estruturas e fazê-las ruir.
DCM/Utopia Sustentável

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Poder no Brasil se conquista em zonas ricas e se afirma entre os pobres


AecioDilma Poder no Brasil se conquista em zonas ricas e se afirma entre os pobres
O candidato Aécio Neves, durante um debate com a presidente Dilma Rousseff, no dia 16 deste mês. Foto: Marcos Fernandes/Fotos Públicas

Eleger-se com os votos concentrados das áreas metropolitanas e industrializadas para depois garantir o poder com o apoio disperso do interior pobre é o itinerário das forças políticas no Brasil, em ciclos que poderão se renovar no segundo turno das eleições presidenciais, no dia 26.
O Partido dos Trabalhadores (PT), que apresenta a presidente Dilma Rousseff à reeleição, é o exemplo típico e recente desse deslocamento das bases eleitorais. De origem operária na rica região metropolitana de São Paulo, seu reduto forte atualmente é o Nordeste, a região mais pobre do país.
Os pequenos municípios das áreas menos desenvolvidas dependem totalmente do apoio financeiro do governo central e de seus programas sociais, por isso seus eleitores tendem a apoiar quem está no poder, explicou à IPS o professor Ricardo Ismael de Carvalho, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Essa dependência se agravou por causa da maior centralização dos recursos tributários desde os anos 1990.
Especialistas atribuem 77% dos votos nordestinos obtidos por Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2011), em sua reeleição presidencial de 2006, e os 70,58% alcançados por Dilma em sua vitória em 2011, à maciça distribuição de subsídios criados pelos governos do PT desde que chegou ao poder em 2003.
Em muitos municípios do Nordeste, mais da metade das famílias se beneficiam do Programa Bolsa Família, que varia segundo o número de filhos, e paga, em média, US$ 70 mensais. Em nível nacional, o programa chega a quase 14 milhões de famílias e estima-se que tirou 36 milhões de pessoas da extrema pobreza.
Além disso, a economia do Nordeste cresce a um ritmo muito superior ao resto do país desde a década passada. Grandes projetos industriais, portos, ferrovias e o avanço da agroindústria, especialmente da soja, geram milhares de empregos em uma região antes conhecida como exportadora de mão de obra não qualificada.
Esse processo também favorece o PT, porque começou no governo de Lula, um filho do Nordeste, que, para escapar da seca e do subdesenvolvimento local, migrou com a família na década de 1950, ainda criança, e se converteu em metalúrgico e líder sindical na região industrial do ABC, no Estado de São Paulo.
O PT, fundado em 1980 com um discurso de esquerda radical, começou conquistando prefeituras de capitais importantes, como São Paulo, Fortaleza e Porto Alegre, e depois se organizou nacionalmente, com seu principal apoio nas grandes cidades e entre eleitores de maior escolaridade.
Lula venceu as eleições de 2002 com votos bem distribuídos por todo o país, tanto que ganhou em 26 dos 27 Estados. Mas ainda não contava com a avalanche de votos provenientes de sua política social, e sua força ainda vinha dos grandes centros urbanos. Em sua reeleição de 2006, sua vantagem se concentrou em 20 Estados, com esmagadora maioria no Nordeste e no Norte do país, que soma 16 Estados e a maior quantidade de pobres beneficiados pelo Bolsa Família.
Essa concentração se intensificou com Dilma em 2010, que venceu com maioria em 16 Estados e nos municípios com menos de 50 mil habitantes, invertendo a geografia eleitoral do PT antes de chegar ao Palácio do Planalto. Agora, no primeiro turno das eleições deste ano, a candidata petista teve apenas 25,8% dos votos válidos no Estado de São Paulo, o mais rico e povoado do país, com 22,7% do eleitorado nacional e cinco conglomerados urbanos.
PalaciodoPlanalto Poder no Brasil se conquista em zonas ricas e se afirma entre os pobres
No dia 26 se definirá se continua ou acaba a era do Partido dos Trabalhadores no Palácio do Planalto. Foto: Presidência do Brasil

Nas regiões metropolitanas, menos dependentes do poder central, com um eleitorado melhor informado e de interesses mais variados, a votação “mais fragmentada” se divide entre os partidos, afirmou Carvalho, cientista político voltado ao estudo de temas do federalismo. O isolamento do PT nas grandes cidades se deve a uma “crise política”, ao se esgotar sua coalizão com o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), encabeçada por velhos dirigentes de imagem corrupta, e ao multiplicar ministérios, que já somam 39, sem contribuir para novos rumos para o país, acrescentou.
A erosão se refletiu também nos resultados legislativos. Nessas eleições, o PT elegeu apenas 70 deputados, 18 a menos do que em 2010, embora continue sendo a primeira força na Câmara, mais conservadora e fragmentada, com 28 partidos dividindo 513 cadeiras. Também existe uma crise econômica que alimenta o baixo crescimento, uma inflação acumulada de 6,75% ao ano e a “falta de credibilidade” dos investidores na gestão de Dilma na área, pontuou Carvalho.
São fatores que seu adversário Aécio Neves, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), aproveita em sua tentativa de ocupar o Palácio do Planalto a partir de 1º de janeiro, uma façanha rara em países com reeleição imediata de seus governantes. É muito indicativo que Aécio tenha chegado ao segundo turno graças ao Estado de São Paulo, onde obteve 44% dos votos válidos e onde se concentram os eleitores cujo interesse principal é acabar com a era petista.
O PSDB, nascido em 1988 como cisão progressista do PMDB, manteve suas raízes nas metrópoles, mas também se garantiu com votos de regiões pobres e de conservadores. Com essa estratégia, chegou à Presidência com o sociólogo Fernando Henrique Cardoso (1995-2003). Para isso, aliou-se ao Partido da Frente Liberal (PFL), forte no Nordeste e em pequenas cidades, desde que funcionava como braço parlamentar da ditadura militar que governou o Brasil de 1964 a 1985.
Essa ditadura manteve o Congresso Nacional para ratificar suas medidas, inclusive com o ritual das eleições. Mas, diante da crescente oposição das grandes cidades na década de 1970, ampliou a representação dos Estados menores e mais rurais, para manter a maioria parlamentar liberal.
O deslocamento das bases eleitorais do PT se distingue das anteriores porque fortalece um partido de esquerda, e não um conservador, em um processo de efetiva redução da pobreza e da desigualdade, comprovada por estudos nacionais e internacionais, incluídos diversos da Organização das Nações Unidas (ONU).
O Bolsa Família, que promove esse deslocamento, “empodera” os pobres ao ser concedida de “forma impessoal” e paga por meio de cartão a todos os que têm direito e se cadastraram, apontou à IPS Alessandra Aldé, professora de Comunicação e Política na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. O método difere do “clientelismo”, no qual políticos oferecem benefícios diretamente às pessoas ou a comunidades, quase como uma compra de votos, destacou Carvalho.
Mas os programas sociais, mesmo sem o controle direto de políticos locais, se revelaram um poderoso fator de força eleitoral para os governantes e seus partidos. “É uma tentação” para o governo nacional, que centraliza a maior parte dos recursos orçamentários, distribuí-los a populações dependentes do setor público, onde o mercado é débil ou praticamente inexistente, ressaltou Carvalho. Institucionalizá-lo como programas do Estado pode ser um avanço, acrescentou. Envolverde/IPS/Utopia Sustentável

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Revolução humana




shutterstock bemestar 300x200 Revolução humana
Foto: http://www.shutterstock.com/
Muito além da intensa revolução tecnológica que transforma o dia a dia, vivemos uma revolução humana, da alma, dos hábitos.
No mundo de tantas ofertas e supervalorização do dinheiro, as pessoas redirecionam suas bússolas para o natural e o essencial. Não estamos comendo pílulas em naves voadoras, como ficções nada científicas projetavam. A comida do futuro é orgânica. O carro do ano é a bicicleta.
As pessoas estão cada vez mais preocupadas em comer e em dormir livres de substâncias químicas. Diante de demandas incessantes da rotina hiperconectada, a solução é desconectar.
Estudos multidisciplinares realizados pelas melhores universidades do mundo apontam que a maneira mais eficiente de fazer as tarefas é gastar menos tempo fazendo tarefas.
Uma série de ações disruptivas – como atividade física e pequenas sonecas durante a jornada, sono mais prolongado à noite, paradas momentâneas no trabalho para renovações de ares e pensamentos – aumenta o desempenho profissional e a saúde. É o que alguns chamam de renovação estratégica, exemplificada pelos “nap pods” – casulos para sonecas instalados em empresas como o Google.
Nós não temos o poder de aumentar as horas do dia para atender às novas demandas do mundo, mas podemos aumentar a nossa energia. Tanto física quanto espiritual. Enquanto o nosso tempo é finito, nossa energia é renovável.
Estarei em Nova York no fim de abril para encontro que Arianna Huffington promove em torno das ideias expostas em seu mais recente livro, “Thrive: The Third Metric to Redefining Sucess and Creating a Life of Well-Being, Wisdom and Wonder” (“Prospere: a Terceira Medida para Redefinir Sucesso e Criar uma Vida de Bem-Estar, Sabedoria e Encantamento”, numa tradução livre).
Para Arianna, a noção de sucesso foi reduzida a poder e dinheiro. Pode funcionar no curto prazo, mas não é sustentável. Para vivermos a vida, é preciso encontrar essa terceira medida, a da felicidade, que, explica Arianna, sustenta-se em quatro pilares: bem-estar, sabedoria, encantamento e benemerência.
As pessoas estão entrando nessa página.
A Califórnia não é apenas o centro de tecnologia do mundo. Se você for a San Francisco, verá como a alimentação orgânica está tomando a cidade. Boulder, no Colorado, não é só a base de Jim Collins, o homem de gestão mais antenado do planeta, mas também a cidade sem glúten, sem lactose.
Existe uma revolução em curso. Ela transforma o ser humano com ritos de passagem que conheço em primeira mão. Já fui fumante e deixei de fumar, já fui gordo e desleixado, mas hoje cuido da alimentação e pratico atividade física – aliás, seguindo o exemplo e o conselho dos grandes líderes empresariais que conheço.
Sim, é possível mudar. Tudo está mudando.
Exemplo emblemático é a Whole Foods, varejista americana que vende comida orgânica e natural, uma espécie de Apple ou Samsung da comida. Assim como Steve Jobs mudou nossa forma de consumir tecnologia e entretenimento, John Mackey, um dos fundadores da Whole Foods, quer mudar a forma como consumimos comida, rompendo hábitos de alimentação que podem estimular doenças mortais como câncer e cardiopatias.
Entre os objetivos declarados da Whole Foods em suas mais de 300 lojas espalhadas por EUA, Canadá e Reino Unido, estão: vender produtos orgânicos e naturais da mais alta qualidade; satisfazer e encantar os clientes; apoiar a excelência e satisfação dos funcionários; cuidar das comunidades e do ambiente; criar parcerias ganha-ganha com todos os “stakeholderes”.
Seu lema é comida saudável, pessoas saudáveis, planeta saudável.
É nessa linha que o mundo caminha. Como diz o Buda, ninguém pode nos salvar a não ser nós mesmos.
Nizan Guanaes, publicitário baiano, é dono do maior grupo publicitário do país, o ABC.
* Publicado originalmente na terça-feira, 1º de abril, no jornal Folha de S.Paulo e retirado do site EcoD.