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terça-feira, 28 de junho de 2016

Por que tanto medo da sustentabilidade?


 No Brasil, muitas práticas importantes de manejo têm sido usadas. Na foto, feira de agricultura familiar em Brasília. Foto: Tony Winston/ Agência Brasília/Fotos Públicas

No Brasil, muitas práticas importantes de manejo têm sido usadas. Na foto, feira de agricultura familiar em Brasília. Foto: Tony Winston/ Agência Brasília/Fotos Públicas
É estranha a pouca ousadia dos agricultores brasileiros no uso de tecnologias poupadoras de solos, ambiente e bolsos

Muitas vezes volto de Andanças Capitais certo de que grande parte dos agricultores brasileiros pensa sustentabilidade como o desejo pessoal de sustentar-se.
Viagem anual a Miami, caminhonete nova, colheitadeira mais potente, toneladas de agroquímicos para aplicarem em suas lavouras. Luxo, comodismo e tradição, enfim.
Maltrato-os? Verão que não. Tanto os mais capitalizados como os que se valem de financiamento subsidiado pelo governo, safra após safra, repetem os mesmos manejos nutricionais e fitossanitários de altos custos, até cartelizados, sem que isso lhes garanta efetividade ou evite riscos.
É estranha sua pequena ousadia no uso de tecnologias poupadoras de solos, ambiente e bolsos.
Pode parecer fascínio pelo jogo. Driblar os humores de Chicago, Nova York e o apetite chinês, emociona. Roleta girando! Preto: “Ufa, mais um ano sustentável”. Vermelho: “Ferrou. Os EUA produziram muito, os subsídios europeus nos massacraram, os chineses pousaram pesado, o clima não colaborou, a infraestrutura e a Dilma também. Ficamos insustentáveis”.
Cada país cultiva e produz alimentos de acordo com suas aptidões regionais e hábitos alimentares. Este o motivo para a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) medir a produção mundial dos mais de 250 países, através dos 20 principais alimentos lá produzidos.
Em 2012 (o último divulgado), a produção global de alimentos alcançou 9,2 bilhões de toneladas, época em que a população mundial acabara de chegar aos sete bilhões.
Uma ração anual per capita de 1,3 tonelada, confortável para ninguém passar fome. Sobrariam ainda alpiste para pássaros, rãs para apreciadores e quinoa para veganos.
Nessa relativa fartura, contribuem: a União Europeia (22%); China (15%); Brasil (11%); EUA (8%); e África (7%). Mais de 60%.
Se, de um lado, tais expressões produtivas são repassadas às conquistas agroquímicas, de outro lado, elas começam a ser percebidas como limitantes da produtividade agrícola futura. Embora milhares de moléculas sejam patenteadas a cada ano, suas efetividades pouco acrescem aos níveis já alcançados nas principais regiões de agricultura.
Em artigo no China Daily, Asia Weekly, os pesquisadores em sustentabilidade agrícola e energética, Colin Osborne, Duncan Cameron e Mark Sinclair, da University of Sheffield, no Reino Unido, afirmam: “A união das práticas antigas à biotecnologia moderna é a chave para alimentar a crescente população global”.
Essa a crítica aos nossos agricultores, submissos à pressão dos grandes fabricantes de agroquímicos, equivocados por dois fatores. A primeira é a de que produtos orgânicos e naturais se aplicam apenas em cultivos de baixa escala. A segunda é a cegueira ambientalista de não os permitirem associados às tecnologias minerais e de baixo impacto ambiental em doses mais baixas.
São erros dos produtores rurais, principalmente os grandes, coonestados por órgãos oficiais regulatórios, educacionais e dos técnicos, consultores e agrônomos, indutores do discurso agroquímico de massa.
A China possui ao redor de 9% das terras agricultáveis do planeta. Ainda assim, é exportadora líquida de alimentos e supre um mercado interno que representa 21% da população global.
Tais resultados, até aqui, vieram da prática de agricultura intensiva.
Reformulam. Perceberam os altos custos dessa receita, os índices de erosão, poluição do solo, escassez de água e perda de biodiversidade, daí decorrentes.
Pesadas adubações químicas provocam alto uso de energia para obter suprimento de nitrogênio inorgânico (consumo de 5% da produção mundial de gás natural); esgotamento das minas de fósforo; lixiviação de nutrientes que poluem águas dos rios e costeiras; proliferação de algas que exaurem a oxigenação da água e letais para a fauna aquática.
Segundo os autores, o Ministério de Proteção Ambiental da China encontrou contaminantes em 20% das áreas agricultáveis, sem que houvesse aumento de produtividade no país, estagnada há 15 anos.
O fato tem repercutido junto à comunidade acadêmica chinesa e o governo lançou programas de manejo agrícola que conjugam métodos antigos (orgânicos) e novos (biotecnologia).
Redesenham, pois, seu modelo agrícola para diminuir a excessiva nutrição com fertilizantes artificiais e o controle tóxico de pragas e doenças. Valem-se da simbiose com micróbios, benéfica à extração de nutrientes e resistência das plantas.
Tornam assim o solo um sistema hidropônico, capaz de retenção de água, fornecimento de nutrientes pelas trocas catiônicas, minimizam a erosão.
Querem mais?
Ao argumento de que é impossível atender o consumo mundial de alimentos apenas com manejos estritamente orgânicos, a resposta está neles combinados. Em todos os sentidos.Aumentam a produtividade, diminuem a expansão * Rui Daher é colunista da Carta Capital. Criador e consultor da Biocampo Desenvolvimento Agrícola (ruidaher@yahoo.com.br).
** Publicado originalmente no site Carta Capital.

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terça-feira, 28 de julho de 2015

Esgoto tratado favorece agricultura e poupa água para consumo


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Água usada atualmente na irrigação das lavouras pode ser substituída com segurança pelo efluente, o que pouparia água potável importante no abastecimento das cidades Foto: Shutterstock
Água usada atualmente na irrigação das lavouras pode ser substituída com segurança pelo efluente, o que pouparia água potável importante no abastecimento das cidades
Foto: Shutterstock

O emprego da água de esgoto tratado (efluente) na agricultura aumenta a produtividade, segundo estudo do Núcleo de Pesquisa em Geoquímica e Geofísica da Litosfera da Universidade de São Paulo (USP). Pesquisadores testaram, durante 15 anos, as vantagens do uso dessa água, que contém minerais e nutrientes como nitrogênio e fósforo, importantes no desenvolvimento das plantas.
Para o professor de geoquímica e ambiente da USP, Adolpho Melfi, a água usada atualmente na irrigação das lavouras pode ser substituída com segurança pelo efluente, o que pouparia água potável importante no abastecimento das cidades. “A agricultura utiliza praticamente 70% da água que poderia ser para o consumo humano”, explica ele. Atualmente, o efluente só pode ser usado na lavagem de ruas e irrigação de jardins, por não haver legislação que autorize o seu uso no campo.
O experimento feito nas cidades de Lins e Piracicaba, interior de São Paulo, mostrou que a economia no uso de fertilizantes nitrogenados chegou a 80% no plantio de capim, utilizado na alimentação do gado, durante um ano de baixa ocorrência de chuvas.
Os cientistas compararam a produtividade do capim irrigado com água comum e do irrigado com esgoto tratado. Ambos receberam a mesma quantidade de fertilizante necessário para o crescimento das plantas. O resultado foi uma produtividade de 33 toneladas de capim por hectare ao ano no caso das plantas que receberam irrigação comum, e de 39 toneladas por hectare ao ano no capim irrigado com efluente.
O mesmo experimento feito com a cana-de-açúcar resultou na produtividade de 87 toneladas por hectare ao ano para a cana que recebeu irrigação comum, e de 143 toneladas por hectare ao ano na irrigada com água de esgoto tratado. Os testes foram feitos com cana soca, ou seja, quando a planta ainda não recebeu o primeiro corte.
Riscos do uso de efluentes
Para o emprego da técnica do esgoto tratado na agricultura, porém, é preciso atenção a alguns riscos, explica Melfi. “Como o efluente tem muito nitrogênio, uma parte não será aproveitada pela planta. Essa parte vai infiltrar no solo e contaminar o lençol freático na forma de nitrato. Há também os organismos patogênicos [presentes no efluente], que podem provocar problemas na saúde humana. A gente precisa ter um controle muito grande também dos metais pesados”, disse.
Para contornar esses problemas, os cientistas encontraram soluções simples. Para evitar os metais pesados, presentes nos dejetos de indústrias, os efluentes devem ser recolhidos preferencialmente de cidades pequenas, onde o controle é mais fácil e predomina o esgoto doméstico.
“Em Lins, o esgoto é exclusivamente doméstico. Em Franca, por exemplo, com a indústria de couro para a fabricação de sapatos, a curtição do couro usa uma substância formada por cromo, altamente tóxico. Mas o esgoto de lá pode ser usado, porque existem duas redes separadas, uma que é esgoto industrial e outra que é doméstico. No esgoto doméstico, não tem metal pesado”, explica o cientista.
Quanto aos organismos patogênicos, como o grupo de bactérias E.coli, existem tratamentos que são capazes de eliminá-los do efluente. Outra forma mais simples de evitar essa contaminação nas plantas é selecionar culturas que passam por tratamento industrializado antes do consumo, como é o caso do café, milho e cana-de-açúcar.
“O café pode ser irrigado com efluente, pois depois é torrado. A laranja também é irrigada nos Estados Unidos, na Flórida, por efluente. Basta fazer uma irrigação na superfície do solo, por gotejamento ou mesmo enterrada em até 20 centímetros, de forma que a fruta não entre em contato com os efluentes”, explica o professor.
O capim, cultura testada no estudo, é cortado e permanece na superfície do solo durante algumas semanas para que seja transformado em feno. Após isso, o produto estará seguro para alimentar o rebanho de gado, já que os organismos patogênicos morrem nesse processo de fenação.
É importante lembrar, ainda, que o simples despejo do efluente em rios também gera problemas, pois causa a eutrofização. “Aumentam muito os micro-organismos, algas que consumem o oxigênio, e essa água sofre eutrofização, são aquelas espumas. Ou a água fica esverdeada por causa de algas”, disse Melfi.

O estudo também ouviu a população para avaliar a aceitação da novidade. “O resultado foi positivo, as pessoas entrevistadas disseram que, desde que soubessem que estava havendo o controle adequado, consumiriam [alimentos produzidos com efluentes]”, contou o professor. (Agência Brasil/ #Envolverde/Utopia Sustentável)